O município de Tabatinga localiza-se na microrregião do Alto Solimões, na Tríplice Fronteira do Brasil, Peru e Colômbia. Os limites territoriais fronteiriços são: barreira imaginária da Avenida da Amizade (Tabatinga-Brasil) e a Avenida Internacional (Letícia-Colômbia) e barreira física do Rio Solimões (Tabatinga-Brasil e Santa Rosa-Peru) (Figura 3).
Na composição da microrregião, destaca-se o município de Tabatinga. De acordo com a Secretária de Estado de Planejamento e Desenvolvimento Econômico (SEPLAN), o seguinte contexto histórico é apresentado:
8 Etnia deriva do grego ethnos, que significa povo ou nação e refere-se a um grupo com algum grau de coerência
e solidariedade, composto por indivíduos com uma consciência, pelo menos latente, de terem uma origem e interesses comuns. Logo, um grupo étnico não é um mero agregado de pessoas ou um setor de uma população, mas um conjunto de indivíduos com autoconsciência de si próprios e unidos ou intimamente relacionados por experiências comuns (PIGNATELLI, 2010, p. 67).
Em meados do século XVII registra-se a existência, junto à foz do rio Solimões, de uma aldeia fundada pelos jesuítas. Em 1755 a sede da capitania é instalada nessa aldeia denominada de Aldeia do Javari. A cidade de Tabatinga deriva do povoado de São Francisco Xavier de Tabatinga, fundada em 1766 por Fernando da Costa Ataíde, que para ali transferiu um destacamento militar do Javari (mais ao sul, na fronteira Brasil-Peru), estabelecendo um posto de guarda de fronteiras entre domínios do Reino de Portugal e da Espanha, tendo em vista tratar-se de região fronteiriça à Colômbia e ao Peru (CARLOS NETO; PIMENTEL, 2009;2012).
E,
Em 28.6.1866, o marco dos limites entre Brasil e Peru é fixado perto da povoação. A região estava então integrada ao município de São Paulo de Olivença. Em 1898, com desmembramento do território que passa a constituir o município de Benjamim Constant, a área de Tabatinga se inclui neste último como um dos sub-distritos do distrito sede. Em 4.6.1968, pela Lei Federal nº 5.449, todo o município de Benjamim Constant é enquadrado como Área de Segurança Nacional (CARLOS NETO; PIMENTEL, 2009-2012).
De acordo com Euzébio:
O Município de Tabatinga foi desmembrado de Benjamin Constant em dezembro de 1981, em obediência ao art. n° 177, da Constituição Estatual, introduzida pela Emenda Constitucional n° 12, de 10 de dezembro de 1981. Mesmo tendo sido o ato declarado nulo em 13 de Maio de 1985, por inconstitucionalidade, a sede de Tabatinga foi instalada em 1° de fevereiro de 1983. Por fim, através da Lei n° 1.707, de 23 de outubro de 1985, Tabatinga foi reconhecida definitivamente pelo governo federal como Município autônomo (EUZÉBIO, 2011, p. 70).
De acordo com Carlos Neto e Pimentel (2009 – 2012), Tabatinga é uma palavra de origem indígena que no Tupi significa “barro branco” de muita viscosidade, encontrado no fundo dos rios, e no Tupi Guarani quer dizer “casa pequena”. No contexto geográfico, o município de Tabatinga está localizado na margem esquerda do rio Solimões, apresentando uma área territorial de 3.225 km², representando 0,2053% do estado, 0,0837% da região Norte e 0.038% de todo o território brasileiro, distando 1.105 Km da capital em linha reta e, 1.607 milhas por via fluvial, sendo o 7º município mais distante da capital.
Figura 1: Estado do Amazonas, Alto Solimões, Umariaçu e Tabatinga
Figura 2: Delimitação da Terra Indígena de Umariaçu
Figura 3: Tríplice Fronteira Brasil, Colômbia e Peru
Fonte: Coutinho, 2018.
3 REVISÃO DE LITERATURA
Ao escrever sobre mitos, história e tempo presente da etnia Tikuna, reporta-se ao que Almeida (2010, p. 9) descreveu sobre “os Índios na história do Brasil”, como um aporte teórico para apresentar “as metamorfoses indígenas” (ALMEIDA, 2013) da etnia Tikuna perante o recorte temporal desse estudo.
Na condição de aliados ou inimigos, eles desempenharam importantes e variados papéis na construção das sociedades coloniais e pós-coloniais. Foram diferentes grupos nativos do continente americano de etnias, línguas e culturas diversas que receberam os europeus das formas mais variadas e foram todos, por eles, chamados índios (ALMEIDA, 2010, p. 9).
Com diálogos voltados aos índios coloniais e pós-coloniais, a autora apresenta um discurso atualizado sobre a história do tempo presente, perante as condições vividas no passado e refletidas nas etnias, ressignificadas pelas metamorfoses ocorridas no decorrer das histórias de contatos, lutas e pacificações com os inúmeros atores sociais, que compuseram e compõem as vicissitudes dos povos indígenas brasileiro.
Nos estudos conduzidos por Almeida (2010, p. 24), pontos conceituais são discutidos, dos quais se destaca a “identidade étnica”, que é entendida como construção histórica de caráter plural, dinâmico e flexível, e a “identidade”, como construções fluidas e cambiáveis que se formam por meio de complexos processos de apropriações e ressignificações culturais nas experiências entre grupos e indivíduos que interagem.
Godelier (2012), analisando a sociedade Baruia, apontou como as sociedades transformam as suas maneiras de viver, modificando os modos de pensar e de agir, logo a sua cultura. Assim como os Baruia, os Tikuna da região do Alto Solimões e inúmeros povos indígenas passam por tais processos de apropriações e ressignificações, tornando-se agentes transformadores das suas condições políticas e sociais perante o avanço do discurso de crescimento econômico a partir da exploração dos recursos naturais existentes em muitos territórios indígenas, focando-se na defesa das suas terras.
A exemplo, cita-se o trabalho de Apolinário (2013) sobre os povos Timbira, pautado “nas assertivas de Fredrik Barth, que defende que a etnicidade ocorre não no isolamento de determinado grupo étnico, mas no contexto da relação com outro grupo diferenciado” (p. 247). Nessa relação, Howard (2002) discute as relações sociais dos Waiwai estabelecidas a partir do intercâmbio de bens com vários setores da sociedade nacional e descreve como a etnia ressituou-se aos bens de consumo apresentados pela sociedade envolvente, a partir das suas próprias estratégias e resistências.
Para os Tikuna do Alto Solimões, as relações estabelecidas configuraram caminhos já trilhados por várias etnias nacionais, contatos, alianças e disputas impuseram transformações que na grande maioria reafirmaram as organizações sociais e políticas da maior etnia brasileira, descrita a seguir.
3.1 Etnia Tikuna: condição pluricultural e os diversos olhares sobre os Tikuna na região