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Os co munis ta s vão à tribo: O PCB entre o s indí gen as d e Oli ven ça

O IV congresso da III Internacional Comunista.(novembro de 1922) Retirado em 14/10/2005, de:

3.6. Os co munis ta s vão à tribo: O PCB entre o s indí gen as d e Oli ven ça

Segui ndo a linh a q u e preco nizav a a Rev olu ção imediata e a cren ça no pot en cial rev olu cio n ári o d os camp on es es e es peci alm ent e dos can gaceiros, os com unist as de Ilh éu s pro cu raram o s ind ígenas e su a p rin ci pal li deran ça, o Cabo cl o M arcellin o, acredit an do no s eu p otenci al revol u cion ário. Para melho r com preens ão d ess a inici ativ a se faz neces sário ex plicar um pou co d a trajet ória d a lu ta ind ígena n a regi ão.

O p ro cesso d e ex prop ri ação d as t erras qu e m arco u a ex pans ão d a lav oura cacau ei ra, t amb ém o co rreu com rel ação ao s indí gen as d a regi ão d e Oliv en ça em Ilh éus . Os índ ios foram vítimas co nst ant es dos ch am ad o s “cax ix es ”, mét odo de ex p rop ri ação d o s o cup an tes d as t erras , d e fo rm a viol ent a, tendo p or bas e o fato dos p os sei ros , e ness e caso os índi os, n ão poss uírem do cum ent ação d a t erra. Daí os fazen deiros u sarem o argum ento do direito à pro priedad e “com b as e n a l ei ” para justi fi car o us o da viol ên ci a. Ess e p ro cess o s e acentuou n a úl tim a d écada do s écul o XIX e i níci o d o s éculo XX p rin cip alm ent e p el a co rrid a pel as t erras fértei s do sul d a Bahi a qu e vis av a ex pan di r as pl ant ações de cacau e t ambém po rqu e os fazend eiros ricos

pas saram a fazer press ões junto aos poderes pú bli cos no senti do d e trans fo rm ar o li to ral de Oli vença em área para v eranei o.

A prin cip al fi gu ra q ue aparece n o pro ces so de res ist ên ci a é a lideranç a indí gen a M arcelli no Alv es, con h eci do co mo “C abo cl o Marcel lino ”. Segun do o pró pri o Marcellin o, el e e s eus comp anh eiros d e Ol iv en ça eram des cend ent es da tri bo Tup à.376

Foi p reso em 192 1 po r ass assi nar J aci ntho Gom es a facão, s en do o motivo d e tal ass assi nato não es cl areci do. Em 19 29 ass ass ino u s ua com panh eira M ari a Concei ção, em Po rto da Lan ch a, lo calid ade d e Oliv en ça. Desta v ez o crim e cham ou m ais a atenção d evi do aos req uint es de cru el dade, pois m atou -a “ab ri ndo -lh e o v ent re a facão, ex train do uma cri an ça e esq uart ej and o-a d ep ois. ” Ness a ocas ião tamb ém feriu qu at ro cri an ças, fi lhos del a, qu e era s ua amant e. A j usti fi cat i va ap res ent ad a, qu e o teri a l ev ad o a mat ar s ua com p anh eira foi a d es cob ert a de adul tério . Marcel lino fora, ain da, acus ado de t er “d eflo rado v árias mo ças como é pu bli co e notó ri o em Oliv en ça”, segun do pal av ras do escriv ão d a sub -d el egaci a de polí ci a d e Oliv en ça n a ép oca, Olegári o d e An drad e e Si lv a.377

Muitos desses crim es at ribuí dos a M arcellino nu n ca fo ram in vest i gado s ou com prov ado s. Certament e al guns d es ses s equ er acon teceram, e lh e eram atribuí dos com a fi n alid ad e d e imp utar a su a p esso a um a i magem n egativ a. Mito ou realid ad e, o fato foi qu e a imp rens a regio nal o t rat av a com ex press ões q ue s erviam p ara aum entar o tem or em to rn o d a fi gu ra d e Marcelli no: “fam i gerado cri mino so ”, “Lampi ão Miri m”, ou ain da “o hom em que s e fez bu gre.” Aqui p erceb em os qu e a int en ção era em primeiro lu gar tratá-lo com o al guém que n ão era índi o e por is so o “s e fez”; sen do assim , ficava m ais fácil d es caracteriz á-l o en qu anto lid erança in dí gena, u ma v ez qu e predom in av a n a so cied ad e a i déi a d e uma cu ltu ra ind í gena est áti ca, qu e com preendi a q ue estes , p ara s erem con sid erados como tais d ev eriam com portar-s e com o no m omento d a ch egad a do s p ort u gu es es ao Brasil em 1500 . Era com b as e nes sas id éi as q ue s eus opo sito res argu ment av am ain da que ele teri a:

376 Auto de perguntas feitas a Marcellino Alves. Processo 356 do TSN. Posteriormente esse processo foi apenso

ao processo 171. AN.

377

Auto de perguntas feitas a José de Lemos Netto e auto de perguntas feitas a Olegário de Andrade e Silva. 1936. Processo 356 do TSN. AN.

( . . . ) n a s c i d o e m M e s s o l , mu n i c í p i o d e U n a d e o n d e t e r i a v i n d o p a r a a c i d a d e d e I l h é u s o n d e s e mp r e v i v e u c o mo j o r n a l e i r o ( . . . ) s a b e l e r e é e l e i t o r , ma s c o mo s e mp r e fo i ma l a n d r o ( . . . ) e n t e n d e u d e t o r n a r - s e b u g r e p a r a a s s i m me l h o r e x p l o r a r a i n g e n u i d a d e d o s p a c a t o s e g e n u í n o s d e s c e n d e n t e s d e c a b o c l o s q u e v i v e m n a z o n a d e O l i v e n ç a . N e s s a e x p l o r a ç ã o t e v e ( . . . ) o p o r t u n i d a d e d e a t e n t a r c o n t r a v i d a s e p r o p r i e d a d e s ( . . . ) .378

Obs erv emos q ue o s argum ent os utiliz ad os para fo rt al ecer a idéi a qu e Marcelli no era um “mal and ro ” e não um indí gena, b as eav am -s e n o fat o d el e sab er l er, s er elei to r, e já h av er trab al hado. Ess e ti po de opi nião ao m esm o temp o em qu e bus cava ti rar d e M arcelli n o a l egitim id ad e d e l ideran ça, tent av a faz er o mesmo co m a su a id entid ad e i ndí gen a.

Marcelli no foi l evado a jú ri em ou tu bro de 19 31. S eu jul gamento ch amo u a at enção d e tod a regi ão e, ao fin al, foi absol vid o, o que p rov ocou indi gnação de faz end eiros e d e s eto res da impren sa qu e as sim noti ciou o fato:

A t a r d e t e v e l u g a r o j u l g a me n t o ma i s s e n s a c i o n a l a t é a g o r a v e r i fi c a d o n e s t a s e s s ã o d o j ú r i , o d o r é u M a r c e l l i n o J o s é A l v e s , c o n h e c i d o p e l o n o me d e C a b o c l o M a r c e l l i n o . O s l e i t o r e s d e v e m e s t a r l e mb r a d o s d a s c o p i o s a s r e p o r t a g e n s fe i t a s p o r e s t e j o r n a l e m t o r n o d a s fa ç a n h a s d o ‘ h o me m q u e s e fe z b u g r e ’ l á n a s ma t a s d e O l i v e n ç a . P u b l i c a mo s e n t ã o i n f o r me s d e t a l h a d o s a c e r c a d o c r i me q u e a r r a s t o u à b a r r a d o T r i b u n a l d a C o ma r c a o fa mi g e r a d o c a b o c l o , c u j a fa ma e s p a l h a v a o t e r r o r p o r t o d a O l i v e n ç a e c e r c a n i a s . ( . . . ) L a me n t a mo s a g o r a s i n c e r a me n t e q u e a d e c i s ã o d o j ú r i fo s s e ma i s u ma v e z fa v o r á v e l a o ‘ C a b o c l o M a r c e l l i n o ’, q u e fo i a b s o l v i d o p e l o v o t o d e M i n e r v a , a p ó s a r e u n i ã o s e c r e t a d o C o n s e l h o d e S e n t e n ç a . R e s t i t u i n d o a s o c i e d a d e u m e l e me n t o q u e d e l a me r e c i a s e r s e g r e g a d o , a b e m d a t r a n q ü i l i d a d e p ú b l i c a e p a r a a s a t i s f a ç ã o c o mp l e t a d a l e i , o j ú r i r e v e l o u u ma b e n e v o l ê n c i a q u e s e c o a d u n a ma i s p a r a a s d o u t r i n a s d a mi s e r i c ó r d i a d o q u e c o m o s p o s t u l a d o s e t e r n o s d o d i r e i t o e d a j u s t i ç a .379

Acomp anh ando a matéria s ob re o ju l gam ent o do Cabo clo M arceli no o jorn al colo co u a fot o grafi a ab aix o e a l egend a: “Foto grafi a tirad a no di a de sua p ris ão . Ont em, na ses são do júri, o acus ad o co mp areceu à barra d o trib un al d a mesma man ei ra, d emon strando s er ai nd a o ho mem q ue s e fez bu gre.”380

F i g u r a V : M a r c e l i n o A l v e s ( C a b o c l o M a r c e l i n o )

378 Idem.

379

Diário da Tarde. Ilhéus. 22/08/1931.

F o n t e : D i á r i o d a T a r d e . I l h é u s . 2 2 - 0 8 - 1 9 3 1 .

Em 192 9, lid erados por M arcelli no, o s cabo clos reagiram cont ra a con strução da p ont e sob re o Ri o Cururup e, qu e d aria acesso a Oli vença, pois era s abid o qu e a co n stru ção d a pont e traria dificuld ad es ai nd a maiores p ara os indí gen as um a v ez que facilit ari a o acess o à su as terras . A repres são foi viol ent a e os í ndio s barb aram ent e d errot ados.

3.6. 1. O s Índi os n a Revolu ção B rasil ei ra

São raras as fo rmulaçõ es ou ain da relat os q ue d em onst rem o env olvim en to do s comuni stas do Bras il em ati vid ad es n o meio in dí gen a n a décad a d e 19 30. O Bu reau S ul Am eri cano d a IC apo ntou as d ebili d ad es do Part ido , em d ocumento j á d is cutid o ant eri ormente, o nd e ap ontou a falt a de at en ção d os com uni s tas bras ilei ro s com rel ação aos í ndi os e n egros .

N a s r e g i õ e s o n d e a ma i o r i a d a p o p u l a ç ã o é n e g r a , e s t e s n ã o p a r t i c i p a m q u a s e d a v i d a d o P a r t i d o . N ã o e x i s t e , p o r o u t r a p a r t e , n e n h u m í n d i o n o P a r t i d o . ( . . . )

N ã o s e e l a b o r a m mé t o d o s e s p e c i a i s d e t r a b a l h o e n t r e e s s a s c a ma d a s o p r i mi d a s , n e m t ã o p o u c o a s r e i v i n d i c a ç õ e s e s p e c í f i c a s d o s t r a b a l h a d o r e s n e g r o s e í n d i o s . ( . . . ) n ã o c o mp r e e n d e m n e m r e c o n h e c e m a e x i s t ê n c i a d o p r o b l e ma r a c i a l n o B r a s i l . A i g u a l d a d e fo r ma l d a s r a ç a s , e l e s i n t e r p r e t a m c o mo s e fo s s e e f e t i v a , r e a l . ( . . . ) O P a r t i d o n ã o c o mp r e e n d e q u e o p l a n e j a me n t o d e n o s s a s t a r e f a s e n t r e a s ma s s a s n e g r a s e í n d i a s , é d o s a s p e c t o s d o p r o b l e ma d a c o n q u i s t a d a ma i o r i a d a p o p u l a ç ã o t r a b a l h a d o r a d o B r a s i l . S e m a r r a s t a r a s ma s s a s n e g r a s e í n d i a s à l u t a , n e n h u ma r e v o l u ç ã o d e ma s s a s é p o s s í v e l n o B r a s i l , p o r i s s o o B S A p r o p õ e a fo r ma ç ã o d e c o mi s s õ e s e s p e c i a i s d e t r a b a l h o e n t r e o s n e g r o s e í n d i o s , q u e e l a b o r e m s u a s r e i v i n d i c a ç õ e s e s p e c i a i s e c o n ô mi c a s e p o l í t i c a s , q u e o s e mp u r r e m a p a r t i c i p a r e i n t e g r a r a s o r g a n i z a ç õ e s r e v o l u c i o n á r i a s d o p r o l e t a r i a d o ( . . . )381

Segui ndo ess as ori entaçõ es do BSA, um dos raros mom ent os em qu e o PCB s e m ani festou com rel ação a t ais qu estõ es foi du rante a realização d a su a 1ª Con ferên ci a Naci onal, em jun ho de 1 934, qu ando um dos tem as colo cado s em dis cus são foi o probl em a d os “ negros e índ ios escra viza dos!” Ness a ocasi ão o PC B co nvo cou a t odo s p ara a l ut a, fez referência à dupl a ex ploração, “como cl ass e e como n acion al idades es crav izad as ” e aind a qu e tal ex ploração se fund ament av a no co n cei to de “raças in ferio res ”:

T o d o s o s d i r e i t o s p o l í t i c o s , e c o n ô mi c o s , c u l t u r a i s e s o c i a i s n o s s ã o n e g a d o s e u s u r p a d o s . V o s s a s t e r r a s s ã o r o u b a d a s . V o s p a g a m me n o r e s s a l á r i o s . V o s i mp õ e t o d a s o r t e d e h u mi l h a ç õ e s . V o s n e g a m o d i r e i t o d e d i r i g i r v ó s me s mo s v o s s o s d e s t i n o s . A o s n o s s o s i r mã o s í n d i o s , o s f e u d a l -b u r g u e s e s e o s i mp e r i a l i s t a s n ã o d ã o n e m o d i r e i t o d a ma i o r i d a d e . S ã o e s c r a v i z a d o s p e l o s e r v i ç o d e ‘p r o t e ç ã o ’ a o s í n d i o s e p e l a s mi s s õ e s r e l i g i o s a s . S u a s c o mp a n h e i r a s e fi l h a s s ã o r o u b a d a s p a r a s e r e m p r o s t i t u í d a s , c o mo a c o n t e c e n a F o r d l â n d i a e o u t r o s l u g a r e s .382

A p arti r d a con st atação d a ex pl oração s ofrid a p elo s índi os e n egros , con vo cou -o s p ara a luta p el a i gual dad e de di reitos econ ômi cos , polít icos e soci ai s, p el a devolu ção d as terras indí g en as e, d e nov o, ass im com o no cas o do n ord es te, acredit ava s erem est es “n aci onalid ad es es cravizadas ” e, po r is so, dev eri am s e organi zar p ara l ut ar p ela co nstit ui ção d e go verno s p ró pri os, sep arados dos gov ernos federal e est adu ais: “caminh o p elo q ual vós pod ereis

381 “Tesis del Bureau Sudamericano sobre la situacion del Brasil y las tareas del Partido Comunista.” 1934.

CEDEM/UNESP, Fundo IC.

382

1ª Conferência Nacional do PCB (Seção da IC). Publicado na A Classe Operária, 01 /08 /1934. In: CARONE, Edgard. O PCB, 1922 a 1943. Op.cit. p. 167

des en vol ver como nacio nali d ad es com t erritó rio , go vern o, cos tumes, reli gi ão, lín gu a e cu ltu ra p róp rios .383

A resol u ção d a co nferên ci a n ão foi fato isol ado; na v erd ad e, dem onst ra as po sições defend id as n aqu el e mom ent o pel a maio ri a d a direção partid ári a, uma vez q ue no m ês seguint e à realização da C on ferên ci a, o Comitê C entral, em um no vo d ocum ento, volto u a t rat ar d o as sunt o, ond e n ov ament e d efend eu o “d ireit o d e s ep aração, constit uin do s eu s pró pri os gov ernos ” e acres centou a luta p el a “(... ) p u nição dos res pon sáveis p elo s m ass acres dos índi os. Fo rn ecim ento gratui to p elo gov erno de sementes, ro up as, instrum ento s de caça e d e t rab alho , maq uin as agrí col as et c”.384 Segu ind o a m esma lin ha, u m art i go pu bli cado no jo rn al A Cl ass e Oper ária em m aio d e 193 5, “A vid a martiriz ad a dos í ndi os no Brasil e o cami nho d e su a libert ação ,”385 comp arou a situ ação d as “n acio n alid ad es ín dias” do Brasil com o p robl ema das di vers as nacio nal id ad es da R ússi a czarist a d e ant es de 1 917 , p ois em am bas sit u ações eram consi derad as “raças in ferio res ” e s ali ento u qu e n o Bras il os ín dios n ão tinh am di reito a ci dad an ia e, p or isso , ass im como n a Rú ssia, s ó s eri am libert ad as at rav és da “R evo lu ção Agrári a e Anti Im peri alist a. ”

Na R ússi a est av a a ori gem dos argum en tos util izad os com rel ação ao s negro s e i ndí gen as b rasil eiros, e n ão p as s av am d e um a repeti ção d e t ais t es es, sem vi n cul ação al gu ma a realid ad e b rasi lei ra ou a al gum t rabal ho esp ecífi co de organização reali zado p elo P artid o ju nto a t ais s egm ent os.

É des se p eríod o (1 9 34-193 5) t amb ém as form ul ações do PC B so bre o can gaço e o d es en cad eamento d as gu errilh as no campo , e acredit am os qu e ten ha sido em fun ção d ess a com preens ão rel ativ a às gu erril has , e n ão al gum interess e es pecí fi co n a q uest ão i ndí gena, q ue os comu ni stas d e Ilh éus pro cu raram o Cabo clo Marcelli no, um a vez qu e est e era vis to pel os qu e lhe defendi am como u m sujei to qu e en frent ava o s fazend eiros frent e a ex pro pri ação das t erras indí genas, e pelos s eus adv ersários como u m “b and ido ”, “l am peão mirim . ”

383 Idem. Ibdem.

384 “A posição do PCB frente às eleições.” A Classe Operária, 23/08/1934. In: CARONE, Edgard. O PCB, 1922

a 1943. Op. cit. p. 156

3.6. 2. O PCB em bu sca do Cabo cl o Ma rcellino

O en carregad o da t arefa de co ntatar o C abo cl o foi Ho ráci o Pess oa d e Albu qu erqu e, qu e se en cont rou com Marcellino , co nv ersou b ast ant e co m el e e o co nv en ceu a lh e acomp an har p ara ser apres ent ad o ao p rofess or Nel son Sch aun . Nes sa ocas ião , conv ers aram bastan te sob re a situ ação q ue est av a pas sando o C abo cl o e o conju nto dos i ndí gen as de Oli vença p rin cip alm ente “no to cant e a t erem s ido esp oli ado s d e s u as t erras (... ) d izen d o Nels on S ch au n que enq uanto ele (.. .) e s eu s pat rí cios confi as sem na ju stiça de Ilh éu s nada obt eri am, po r i sso q ue l h e p rop unh a qu e ent rass em no parti d o (... ), poi s só assim (... ) teri am ad vo gado s e o utros aux ílios sem d esp es a al g uma(.. .). ”386

O Cab oclo afi rmo u que i ri a cons ultar s eus co mp anh ei ros , e assim fez, num a reu ni ão com outros i ndí genas o n de ex pôs a conv ers a com Nelso n Sch aun , “e com o era em b en efici o d e s uas t erras , to dos co mbin aram ent rar nes sa so ci ed ad e, is t o é, no parti do co munist a. ” A qu es tão cent ral p ara o s indí gen as era p ortant o, a n ecessi dade d e l utar para reav er s uas terras e como o PCB apont av a p ara ess a pers pecti va e p rom et eu aux iliar o s indí gen as n ess e sent ido , est es aceit aram muit o bem a pro pagand a co muni s ta. Al gun s dias dep ois, apareceu em Oliv en ça um emi ss ário envi ad o p elo p arti do, o in divíd uo que s e i denti ficou como s endo In o cênci o. Na v erd ad e ess e era o ps eu dônim o usado po r J os é M arti ns d a Si lv a, um d os diri gentes d o PC B na regi ão .387

Com a ch egad a de Ino cên cio ent re o s indí genas, a mov iment ação gan hou n ov a di n âmi ca. R ealizou ju nto com M arcelli no três grand es reu niõ es com o s ind í gen as em Oliv en ça. Uma des sas reu niõ es o co rreu em 1 8 d e set emb ro n a cas a d o sen ho r Mano el Castro Gasp ar, de 6 2 ano s de id ade e morado r na Boí ra, em Oliv en ça. Not e-se q u e M ano el Gas par s abi a l er e es crev er e era um a l ideran ça no m eio i n dí gen a. Nes sa reun ião co mp areceram mais d e vint e p ess o as. Falaram sob re comuni smo e p regaram a insu rrei ção arm ada ent re os cab ocl os.388 Ino cên cio defend ia o comun ismo afi rm an do “s er

386 Auto de perguntas feitas a Marcellino Alves. Processo 356 do TSN. AN. 387

Idem

ess e o ú nico meio d os cab ocl os reav erem suas terras .”389 O di scu rs o en tre os indí gen as ch amav a a aten ção p ara a n ecessi dade d e o rganiz ação para com a insu rrei ção, di vidi r as prop ri ed ad es e “b otar pra fo ra de Oli ven ça os gran des de lá q ue lh es ti nh a tomado as s uas terras e hav eres (.. .) o s qu aes, s em ser po r interm édi o d e en genheiro , i am p or co nta próp ria inv ad in do as t erras dos cabo clo s, tom and o-as e bot and o-os p ara fo ra, pers eguind o-os e es cu rraçando - os”. Após a ins urreição “(.. .) di vidi ri a co m os co mp anh ei ros , volt and o to dos a ocu parem as s uas terras e h av eres (.. .).”390 Tamb ém o co rreram mais du as reuniõ es d o m esm o teo r, um a em 27 d e outub ro em M an gui n hos na casa do pró pri o M arcell ino e out ra em Co qu ei ros na cas a d e M arcio nil io Brás .

Uma n ov a reu nião d ev eria s er realizad a no iní cio d e no vemb ro qu an do seriam defini dos o s últimos d et alh es d o plano, po is a d at a fi x ada p ara o iní cio das açõ es foi n ov e de nov emb ro . P ara s ab er com q uanto s h omens con tavam foi “o rganiz ad a um a rel ação, ond e assi navam os qu e s ab iam l er e el es p unh am os no mes do s analfabet os. Ess a rel ação chegou a t er m ais d e cem hom ens.”391 Marcelli no, ao referir-s e a ess a list a, afi rm ou q ue foi a sua úni ca ação rel acio nad a ao PC B: “en tão passo u a trabal har, n o qu e limit ou-se ap en as em tomar num as fol has de p ap el o s n omes das p ess oas q ue es tav am solid ári as com o m ovim ent o, cons egui ndo um as du zent as ass in atu ras. ”392

Ness e p eríod o, o C abo cl o M arcelli no foi al gu mas v ezes a cas a de Nel son Sch aun em Il héus, ou vi-lo s obre as art iculaçõ es comu nist as e, seguind o um po uco do ent usi asmo e cren ça n a revo lu ção imedi at a qu e predom in av a n o PC B, dis se-lh e Nelso n qu e:

p r e c i s a v a a r r e g i me n t a r o p e s s o a l e a n i ma v a -o b a s t a n t e , a c r e s c e n t a n d o q u e e m b r e v e r o mp e r i a u m mo v i me n t o n o R i o , n o N o r t e e n a E u r o p a , e q u a n d o t o d o s b r i g a s s e m o r e s p o n d e n t e e s e u s c o mp a n h e i r o s v o l t a r i a m a o c u p a r s e u s t e r r e n o s ( . . . ) q u e r e u n i s s e o ma i o r n ú me r o d e h o me n s a r ma d o s p o s s í v e l , q u e s e r i a p a r a q u a n d o a r r e b e n t a s s e a r e v o l u ç ã o e m t o d o o p a í s ” , M a r c e l l i n o e n t ã o “p o n d e r o u q u e o s e u p e s s o a l s ó d i s p u n h a d e e s p i n g a r d a s d e c a ç a p e l o q u a l p r e c i s a v a d e a r ma me n t o e mu n i ç ã o , t e n d o N e l s o n r e p l i c a d o q u e c o m q u a l q u e r a r ma s e b r i g a v a .393 389

Auto de perguntas feitas a Mauricio Penedo. Processo 356 do TSN. AN

390 Auto de perguntas feitas a Manoel Castro Gaspar e auto de perguntas feitas a Marcellino Alves. Processo 356

do TSN. AN.

391 Auto de perguntas feitas a Mauricio Penedo. Processo 356 do TSN. AN. 392

Auto de perguntas feitas a Marcellino Alves. Processo 223 do TSN. AN.

Ness a m esm a co nv ersa, J osé M art ins dis s e-l h e q ue ant es do m ovim ento “iria p ara o Ri o faz er aqui si ção d e arm ament os e m uni ção. ”

A reun ião ond e s e d efi ni riam os últ imos det alh es e s e div ul garia a d at a da ação acont eceu no di a sete d e n ov emb ro d e 19 35, t ambém n a casa d e Gasp ar o nd e fo i av isad o qu e no di a s egu int e seri a o ass alto a Oli vença. J ustam ent e ness a últ ima reu nião an tes do “ass alto ,” con vid ado po r Fran cis co Antô nio do s Sant os, com pareceu M an oel Victorio d a Silva q u e ap ós a reuni ão pro cu ro u o comerci ant e Ho rt ên cio de Cast ro e o avis ou p ara se reti rar d e Oliv en ça po rqu e en tre os consi derado s “grand es d e Oli vença” qu e seri am ass ass in ado s no ass alto ,394 estava o s eu n ome e o d o s eu i rm ão Ri cardo d e Cast ro Filh o qu e fo i imedi at am ent e av is ado . Ho rt ên cio t amb ém p rovi denciou com uni car tai s plano s a P ed ro C el esti no Bezerra, o utro “gran de” qu e env iou um emp regado , Man oel d a Ho ra, com um a carta comu ni cando ao sub del egado de p olí cia, o s enh or Au gu sto Alv es Ramos qu e p rovi denci ou envi ar a Oliv en ça fo rt e co nt in gent e poli ci al p ara rep rimi r a rev olt a dos C abo clo s. Além dos h om ens d a polícia, p art e d a po pul ação foi armada p el a delegaci a d e polí cia d e Ilh éu s.395

Foi ent ão q ue Dioní sio Go nçalv es d e Olivei ra, qu e h avi a p art ici pado das reu niõ es em casa de Gas p ar, foi com Fran cis co M en des n a cas a d o