4. ENOTURISMO NA REGIÃO DEMARCADA DO DOURO
4.4 As quintas de enoturismo na Região Demarcada do Douro
4.5.2 Museus e acervos da Região Demarcada do Douro
Os museus desempenham um papel muito importante nas relações entre a cultura e o enoturismo, pois contribuem para que os turistas vivenciem a experiência enoturística, de modo a conhecer e respeitar a história dos locais visitados. Os museus fazem parte do patrimônio de uma região, e podem ser vistos como um símbolo identitário de uma sociedade (site do IVV). Entre os principais museus ligados à temática da vinha e do vinho na Região Demarcada do Douro, destacamos o Museu do Douro que constitui um apoio importante para a preservação da cultura duriense, e portanto, para o desenvolvimento de um enoturismo em sintonia com o patrimônio local, pois a preservação patrimonial e a atitude musealizadora constituem uma vertente incontornável na valorização das vivências à escala local (Soeiro, 2002). O Museu do Douro foi concebido como um museu de território e de comunidade, polivalente e polinuclear, vocacionado para reunir, conservar, identificar e divulgar o patrimônio da Região Demarcada do Douro, cujo desenvolvimento deve envolver a colaboração ativa com as instituições locais, regionais e internacionais (Museu do Douro). Assim, relata-se no site do Museu que
a gestão do Museu do Douro é da responsabilidade da Fundação Museu do Douro, criada pelo Decreto Lei 70/2006, instituindo-a como pessoa coletiva de direito privado e utilidade pública.
As atribuições do Museu do Douro abarcam não só as competências tradicionalmente consagradas para as instituições museológicas, acrescidas de funções de arquivo histórico da vitivinicultura duriense, mas também um importante papel na divulgação da região e na ação cultural, a desenvolver no território e fora dele, o que posiciona o Museu como instrumento privilegiado para a preservação, valorização e divulgação do patrimônio material e imaterial do Douro Vinhateiro (Site do Museu do Douro, sem página).
O Museu do Douro tem como objetivo principal o desenvolvimento da região duriense, daí ser considerado um museu de território. É um museu, cuja responsabilidade deve ser coletiva, pois, como instrumento de desenvolvimento, tem a localidade como atriz e o patrimônio global como acervo (Cascarejo, 2007; Varine, 2007). A sede do Museu fica na cidade de Peso da Régua, instalada no edifício da Casa da Companhia, que data de 1756, e é portadora de características arquitetônicas pombalinas. No entanto, este possui pólos disseminados pelo território duriense. ―Ao contrário dos outros museus, este não é um museu para estar num sítio, não é um museu só com um tema, não é um museu com um objetivo fechado. É um museu aberto, diria mesmo que consegue concretizar no Douro o paradigma atual da globalização‖ (Cascarejo, 2007, 2). A concepção do Museu partiu de um conceito aberto de patrimônio cultural, entendido, não apenas como valor de memória, mas também como valor de recurso, integrando a própria relação com o território e a participação ativa das populações (Soeiro, 2002).
Pereira refere que, no âmbito das suas competências, o Museu do Douro, pode desempenhar um papel importante ―na valorização do patrimônio arquivístico da região, sendo, porém, necessário dotar-se de espaços e recursos técnicos e humanos adequados‖ (2002, 141). Para o autor, a região ―merece a atenção dos organismos responsáveis relativamente ao seu patrimônio documental, em particular o que se relaciona mais diretamente com a produção vitivinícola‖ (2002, 140). O autor, se preocupa com a dispersão das informações, que acabam dificultando ou mesmo impedindo o acesso dos investigadores. Pereira, ainda ressalta que, parte importante dos acervos documentais produzidos nas quintas históricas do Douro, foi deslocada do seu lugar original de produção, quer por razões de mudança da propriedade das quintas, quer por razões institucionais, o que também constitui um obstáculo ao seu acesso por parte dos pesquisadores (2002, 140). O autor, entretanto, considera que, sempre que possível, esses acervos ―devem mantidos nas casas ou quintas que os produziram, já que a sua descontextualização poderá representar perdas de significado e de função‖ (2002, 140). Neste contexto, o Museu do Douro, dentre suas atribuições pode atuar no sentido de viabilizar a organização desses acervos, de forma a facilitar o acesso dos investigadores, assim como, dotar as quintas dos
instrumentos necessários para que esses acervos documentais permaneçam nos locais onde foram produzidos,e possam ser acessados pelos pesquisadores.
Entre os núcleos museológicos do Museu do Douro, temos o Museu Favaios, Pão e Vinho, em Alijó, que tem desenvolvido ações no sentido de preservar e divulgar os saberes e artefatos associados ao pão e ao vinho Moscatel de Favaios, em parceria com a Quinta da Avessada, e ainda, o Museu de Curiosidades do Romeu, um museu particular localizado na aldeia do Romeu (Quinta Jerusalém do Romeu), que mostra as transformações da localidade, através do cultivo da vinha e do comércio do vinho, sendo um testemunho da vida rural da localidade e da região (site da Quinta do Romeu).
No entanto, Soeiro (2002) ressalta que, mesmo com a existência de vários museus e acervos, a região do Douro não dispõe de infraestruturas culturais que preservem e divulguem a memória dessa atividade vitivinícola secular como patrimônio ligado à identidade e à cultura das populações durienses, que, podem ser consideradas vitais como instrumento de valorização das atividades associadas ao turismo cultural e ao enoturismo:
é verdade que pode referenciar-se na região do Douro uma multiplicidade de projetos e manifestações culturais, incluindo diversos museus ou núcleos museológicos, geralmente de iniciativa autárquica ou particular. No entanto, raramente ultrapassam a escala local e muitos deles não dispõem de estruturas físicas e técnicas qualificadas para uma programação regular, nem para o desenvolvimento de projetos consistentes de recolha, valorização e divulgação do patrimônio (Soeiro, 2002).
Portanto, para que os Museus e acervos da Região do Douro, em especial o Museu do Douro, cumpram suas missões, ou seja, contribuam para a preservação do patrimônio cultural e natural da região, precisam atuar no sentido de promover e apoiar as medidas necessárias à preservação e valorização desse patrimônio histórico. A simples existência de diversos museus e acervos não garante a proteção da história local, e nem mesmo, assegura o acesso dos investigadores aos documentos que constituem uma valiosa fonte de informação. Soeiro (2002) alerta para o fato de que se evitem a multiplicação de museus apenas com o objetivo generalista, onde pontuem a acumulação de peças. Os museus precisam promover a memória da vitivinicultura secular duriense, para que a preservação do patrimônio ligado à vinha e ao vinho contribua no reforço da auto-estima e da identidade das comunidades locais.O surgimento de museus de iniciativa familar ou empresarial, pode e deve multiplicar-se, mas, a Região do Douro precisa de museus com capacidade de assumir o dinamismo em uma região com grande importância mundial como região vitivinícola e de forma a constituir um espaço privilegiado de enoturismo (Pereira, 2002). Um museu regional deve hoje ser visto como um vetor de identidade, dando sentido ao patrimônio
cultural, como forma de integrar a própria relação com o território e a participação ativa da população residente (Pereira, 2002).