3.3 A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA FÓRMULA EXTRA ECCLESIAM
3.4.1 Mysterium Ecclesiae
É um dos poucos documentos que trata explicitamente da hermenêutica doutrinal, que se encontra contextualizado nos debates que passaram a se formar em torno de um livro de Hans Küng, o qual contesta a infalibidade da Igreja. Desta forma, o documento tem como intenção primeira reafirmar a infabilidade. O movimento doutrinal que influenciou esse documento é o mesmo na base da LG.
O carisma da infabilidade foi confiado ao Magistério da Igreja, pois “Este magistério não beneficia novas revelações, mas com a assistência do Espírito Santo, é capaz de propor um ensinamento necessariamente imune de erro”230. O Magistério é composto pelo Papa e
Bipos que estão dispersos pelo mundo inteiro, em comunhão com o Papa.
Essa infalibilidade fica ainda mais evidente quando o Papa ensina de forma solene ou se pronuncia de forma ex cathedra. Segundo o documento magisterial, a infalibilidade da Igreja não diz respeito somente ao depósito da fé, mas também a tudo que diz respeito à sua integridade e a tudo o que possa se fazer necessário para a sua plena custódia e para que o mesmo seja plenamente exposto.
A propósito de tal condicionamento histórico, deve-se observar, antes de mais nada, que o sentido das declarações da fé depende em parte da peculiar força expressiva da língua usada, em determinado tempo e em determinadas circunstâncias. Algumas vezes pode suceder também que uma certa verdade dogmática, num primeiro momento, seja expressa de modo incompleto, se bem que nunca falso; e depois, num segundo momento, considerada num contexto de fé e de conhecimentos humanos mais amplo, venha a ser mais plena e perfeitamente compreendida. Além disto, há que ter presente: quando a Igreja faz novas declarações procura confirmar ou esclarecer, aquilo que de algum modo já se acha contido na Sagrada Escritura ou em antecedentes expressões na Tradição; mas, habitualmente, não perde também de vista o desejo de dirimir controvérsias ou de extirpar erros; e assim, tudo isto há de ser tido em conta, a fim de tais proclamações serem retamente interpretadas. (ME,5).
Ao verificar o ambiente histórico e a linguem utilizada, é possível perceber elementos hermenêuticos que são oportunos para a compreensão justa e correta do axioma. É preciso
230 SESBOÜÉ, B. Fuori dela chiesa nessuna salvezza. Storia de uma formula e problemi di interpretazione,
compreender que não há nada de absurdo ao perceber que, em um dado momento e lugar, uma verdade de fé pode ter sido expressa ainda de forma incompleta.
Um novo período diante de novos conhecimentos de uma época futura, expressa de uma forma nova e evidente a verdade já indicada anteriormente. Isto é o aprofundamento da compreensão teológica do dogma:
Deve acrescentar-se, por fim, que as verdades que a Igreja pretende realmente ensinar com as suas fórmulas dogmáticas, embora se distingam das concepções mutáveis próprias de uma época particular e embora possam ser expressas prescindindo delas, pode acontecer, todavia, que essas mesmas verdades sejam de fato enunciadas numa terminologia que se ressente do influxo de tais concepções. Feitas estas considerações preliminares, deve-se dizer: que as fórmulas dogmáticas do Magistério da Igreja foram sempre, desde os inícios, aptas para comunicar a verdade revelada, e que continuam a ser para sempre aptas para a comunicar, para todos aqueles que retamente as compreenderem. O que não quer dizer, obviamente, que cada uma delas tenha sido sempre e venha a permanecer assim apta, na mesma medida. Por este motivo, esforçam-se os teólogos por determinar exatamente qual é a intenção de ensinar que está subjacente e é própria de cada uma dessas diversas fórmulas; e com este seu trabalho prestam uma relevante ajuda ao Magistério vivo da Igreja, ao qual permanecem subordinados. Pelo mesmo motivo, ainda, pode acontecer que antigas fórmulas dogmáticas e outras com elas conexas permaneçam vivas e fecundas, no uso habitual da Igreja, muito embora com oportunos acréscimos, expositivos ou explicativos, que conservam ou esclarecem o seu sentido congênito. Por outro lado, tem acontecido também que, no mesmo uso habitual da Igreja, algumas dessas fórmulas antigas foram substituídas por expressões novas, as quais, propostas ou aprovadas pelo sagrado Magistério, significam a mesma coisa, mas de maneira mais clara e completa. (ME, 5).
Tendo em mente que a Mysterium Ecclesiae, apresenta a evolução do enunciado da fé, ele responde as controvérsias trazidas por aqueles que negam a possibilidade da infabilidade da Igreja.
Assim, B. Sesboüé afirma que as fórmulas dogmáticas usadas pela Igreja desde o início sempre expressaram e sempre expressarão verdades reveladas. Porém, elas não expressam na mesma medida, uma vez que podem variar entre uma época e outra, expondo de forma mais evidente e clara uma mesma verdade.
Ao comentar a respeito dos trechos da Declaração Misterium Ecclesiae citados acima, B. Sesboüé destaca alguns elementos significativos. Ele explica o axioma a partir da Declaração, e diz que o axioma segue a mesma mentalidade da sua época, a concepção histórica do tempo que foi elaborada e transmitida, e sem a amplitude geográfica que se tem hoje. E isso é relevante para a compreensão justa e atualizada do extra ecclesiam... Ao desconsiderar hoje esses elementos que constituem o axioma, estaríamos cometendo anacronismo pois o pensaríamos o axioma meramente com a mentalidade e recursos de hoje.
Assim, ela é de difícil compreensão ao ser humano moderno, já que a capacidade de interpretação é uma condição para a compreensão do conteúdo da fé, e não é possível somente reter um conteúdo sem interpretá-lo. Existe, nesta forma, ainda segundo ele, o envelhecimento de algumas fórmulas que perderam a sua capacidade plena de transparência da verdade. Não se tornaram falsas, mas se tornaram opacas, difíceis de serem compreendidas, porém, não é o caso do nosso axioma, que continua atual e instigante para a teologia.