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3. TEORIA E PRÁTICA: ESCOLHAS COMENTADAS

3.2 MYSTIFICATION

Se normalmente os contos consagrados de E.A.P. possuem um elemento "universalizante", termo que o próprio autor utiliza quando se defende de algumas observações objetivas a respeito de seu aparente "germanismo", podemos encontrar em "Mystification" uma fina e irônica crítica a certos costumes e comportamentos da sociedade norte- americana da primeira metade do século XIX. Neste conto, também se encontram outros elementos característicos da literatura de Poe, como a questão da criptografia, mesmo que de forma embrionária, e que não chega a se desenvolver detalhadamente como ocorre em "The Golden Bug". Além de um costumeiro narrador homodiegético, que participa ativamente dos acontecimentos e deixa suas impressões pessoais, há também uma linguagem mistificadora. O que foge do padrão consagrado e talvez esperado de suas histórias é, novamente, a questão do humor e da ironia, que transformam, assim como ocorreu na análise de "Loss of Breath", o terrível e o sinistro em pitoresco.

Na análise que será empreendida sobre "Mystification" e também posteriormente em "Mellonta Tauta", poderemos vislumbrar propósitos bem divergentes no que se refere ao efeito ou intenções do autor. O fato de Poe ter ido bastante além em seus experimentos literários, onde, pode-se pensar hoje, buscava encontrar o tom adequado para suas criações literárias, não o torna completamente alheio às coisas de seu tempo, cultura e sociedade norte-americana.

Entre suas histórias macabras e universais, do "terror que vem da alma", e de seu pioneirismo através de suas histórias detetivescas e de ficção científica, há também espaço para distinguir a relação com sua própria contemporaneidade e as coisas triviais de seu tempo. Poe escrevia também sátiras e paródias de obras de autores contemporâneos, como ocorre, por exemplo, nos contos "The Duc the L'omelete", "A Tale of Jerusalem" e "Why the Little Frenchman Wears his Hand in a Sling", de Nathaniel Parker Willis, Horace Smith e Lady Morgan, respectivamente. Algumas obras de cunho mais geral e datado fazem analogias e sátiras ao universo literário de sua época, conforme encontramos na leituras de "The Literary Life of Thingum Bob, Esq" e "X-ing a Paragrab", que também se encontram hoje entre os contos menos conhecidos e traduzidos de Poe.

No presente conto, "Mystificaiton", Poe ironiza o escritor Theodore Sedgwick Fay, em razão de sua obra Norman Leslie: A Tale of the Present Times e de determinadas desavenças críticas entre ambos. Como poucas obras de seus contemporâneos são lidas e estudadas

atualmente, o próprio conto tem a perder nas entrelinhas, insinuações, muitas das quais se percebe através de termos em itálico.

Mas o fato é que a presença do elemento humorístico, não raro em tom de sarcasmo ou nonsense, sobre determinados comportamentos e personalidades que marcaram época, demonstra que o autor não estava tão distante da realidade americana do início do século XIX. Talvez, obras como o conto "Mystiticaiton", devidamente consideradas e contextualizadas, possam contribuir para a imagem que o leitor tem de Poe e dos seus próprios contos consagrados, que, não raro, estão repletos de ironia sutil e empulhações.

De acordo com o mencionado no capítulo introdutório, este conto sofreu uma série de mudanças e alterações pelas mãos do próprio autor, a começar pelo título. Em 1837, é publicado como "Von Jung, The Mysic" na revista literária American Monthly Magazine. E, entre outras versões, em 1845 aparece como "Mystification" no Broadway Journal, versão essa que utilizo nesta tradução e que é usada nas edições mais recentes de antologias e obras completas de Poe, como The Complete Tales and Poems of Edgar Allan Poe, compilado por Barnes & Noble e com prefácio de Dawn B. Sova. Além disso, claro, igualmente presente na compilação de Allen utilizada e já comentada aqui.

Até que chegasse em seu formato final, Poe alterou, suprimiu e adicionou elementos em seu texto, por isso sabemos que, para ele, cada palavra e frase possui uma função estudada bem definida no texto. Com tanto desvelo, é muito improvável a existência de frases ou palavras deixadas ao acaso pelo texto, sem um propósito bem definido que deverá ser levado em consideração na tradução. É bem possível, contudo, que muitas das referências pessoais e datadas fiquem incompreensíveis para o público leitor da atualidade, e aqui vale lembrar que esta circunstância ocorre muito também entre os leitores do seu próprio tempo. Este texto não figura entre os "Contos Humorísticos" na antologia da Editora Globo, diferente de "Loss of Breath", mas em outras antologias em língua inglesa o conto aparece sob este gênero, como em "Edgar Allan Poe A to Z" de Dawn B. Sova.

Em "Mystification", há uma sátira explícita ao antigo e cultural costume de duelar, o que nada mais é do que uma disputa física arranjada e mais ou menos institucionalizada, com o objetivo de ferir ou mesmo matar um adversário a fim preservar a honra ou vingar uma ofensa. O aspecto humorístico decorre precisamente do comportamento zombeteiro do protagonista através de suas palavras afetadas e da forma irônica como o comportamento dos estudantes é retratado na voz do narrador, Mr. P. no original.

De acordo com o professor Donald Barlow Stauffer (1982), existe uma forte tendência em não considerar Poe como um escritor de humor. Ele cita a antologia do pesquisador Walter Blair, Native American Humor, de 1960, onde vários dos contemporâneos de Poe são lembrados e discutidos enquanto ele próprio, um dos mais expressivos autores de seu tempo, não é nem mesmo citado. Muitos de seus colegas e editores haviam aconselhado Poe a escrever suas sátiras de forma mais trivial e comum, como por exemplo, sobre as fraquezas e a frivolidade de seus conterrâneos, ou sobre determinados hábitos e peculiaridades de sua época, em vez de empregar um tom erudito e místico sobre aspectos mais complexos. O grande público da época seria incapaz de apreciar e aproveitar seus escritos, diziam alguns dos editores:

The publishers themselves were less enthusiastic about the inherently humorous quality of these tales. They wrote Poe to tell him that “the papers were too learned and mystical. They would be understood and relished only by a very few — not by the multitude. The numbers of readers in this country capable of appreciating and enjoying such writings as those you submitted to us is very small indeed28." (STAUFFER, 1982)29

Partindo desta exposição, até hoje podemos pensar sobre o público de Poe. Os editores não costumam considerar os tais contos humorísticos de Poe na maior parte das antologias que eventualmente são encontradas no mercado. Pode-se cogitar alguns indícios que levam à razão de que os contos que apresento aqui não terem tido duas ou mais traduções, principalmente quando comparamos com o destino que vem ocorrendo para uma boa parte de sua obra. Em "Mystification" a despeito de tratar sobre um tema obsoleto, como hoje é o costume de duelar, podemos facilmente verificar muitas outras críticas e pareceres

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Os próprios editores eram pouco entusiasmados com a qualidade humorística inerente destes contos. Eles escreveram a Poe para dizer que "os textos eram muito eruditos e místicos. Eles só seriam compreendidos e apreciados por poucos - não por todo o público. O número de leitores neste país apto a apreciar e desfrutar de tais escritos como estes que você nos submeteu é de fato muito pequeno. (tradução minha)

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“The Merry Mood: Poe’s Uses of Humor,” Baltimore: The Edgar Allan Poe

Society of Baltimore, 1982. Disponível em:

bastante atuais, como a indolência de uma burguesia estudantil, o pedantismo nas relações sociais, a questão da universidade como ambiente favorável a determinados tipos de comportamentos repreensíveis, entre outras coisas que uma leitura contemporânea poderá proporcionar.

Diferente do que se poderia esperar de um "mistificador", principalmente tratando de uma história de Poe, este termo não encontra uma correspondência com o charlatanismo, o sobrenatural, o fantástico ou mesmo o terrível. O protagonista, o Barão Ritzner von Jung, não pretende ser um vigarista que abusa de suas habilidades intelectivas e mistificadoras para fazer o mal pelo mal ou causar dor. Pelo contrário, ele utiliza seu poder de observação e sua influência de maneira racional, premeditada e zombeteira, com o intuito de escarnecer de um comportamento social que julga obsoleto e anacrônico, a saber, o duelo e toda a presunção moral que nisto se encerra. O enredo é construído a fim de culminar em uma única circunstância peculiar e improvável. Um estratagema do Barão, cuidadosamente planejado, encontra o estopim que necessita em uma circunstância tal com o único intuito de ridicularizar seu colega e a afetação geral no que se refere ao costume de duelar.

A história narra alguns eventos a fim de idealizar as principais características do protagonista bem como faz a descrição de jovens de boa estirpe, todos orgulhosos de seus nomes e famílias, que se ocupam em fazer farra, beber vinho e contar suas proezas. As próprias descrições que o narrador oferece, sempre breves, aliadas a vocábulos específicos que fazem alusão à bravata e a fanfarronada, são elementos que vão pavimentando o caminho para que o desfecho aconteça com o efeito pretendido. A abundância de termos que insinuam a jocosidade da história se inicia com a referência ao "grotesco" identificado no caráter do Barão, logo na primeira frase da história. A isto, segue-se com a informação do narrador rememorando a "sequência de façanhas engraçadas que não devem se tornar públicas" em que conheceu o Barão e seu espírito zombeteiro, que ficaria sempre oculto das demais pessoas que não o conheciam tão bem e o julgavam incapaz de realizar um gracejo. Mas sua principal característica, item fundamental para a percepção e efeito do conto, era sua "arte mistificadora", que consistia em ridicularizar e abusar a credulidade de outrem, através de uma influência dominadora. Não executava tais atos para obter alguma vantagem pessoal, mas puramente para sua diversão repreensível e para criticar a afetação e o orgulho de determinadas práticas sociais.

O espaço físico e temporal onde a trama ocorre é em uma Universidade da primeira metade do século XIX, não ficando exatamente claro se é americana ou alemã, e nos aposentos estudantis dos personagens, onde se dá o incidente do espelho e da enigmática ofensa. O conto inteiro é econômico em suas descrições, e por esta razão, tende a ser preciso. O narrador trabalha com as palavras de forma direta, com a eloquência de quem sabe bem do que está falando, pois além de participantes dos acontecimentos, já possuiria intimidade com o personagem principal, conforme deixa claro logo no início. Assim ele vai assinalando as principais características do protagonista, seu conhecido íntimo, o Barão von Jung, e brevemente a dos outros personagens, especificamente, de Hermann, o duelista, que faz parte do grupo de estudantes trivialmente representados na história.

No âmbito psicológico da trama, deparamo-nos com descrições básicas das características dos personagens que conduzem até a disputa moral e intelectual que está em jogo, embora isso não fique imediatamente explícito ao leitor. O protagonista, Barão Ritzner von Jung, deseja combater seu colega-adversário no plano racional, atitude que o narrador entende como "ciência da mistificação", em lugar de utilizar os métodos físicos empregados no costume do duelo. O narrador, participante e testemunha da única ação da história, vem construindo a personalidade dos envolvidos com suas observações acuradas e adjetivas, de cunho opinativo.

O Barão é retratado desde o início como um nobre, já que o título nobiliárquico o acompanha durante todo o desenvolvimento da história, e é notável que seu sobrenome, von Jung, já deixe transparecer a sua pouca idade e sua prerrogativa. Suas características físicas são um tanto evasivas, pois ele não aparenta ser nem bonito, nem velho, nem novo, e seus olhos são "transparentes e sem expressividade". Essa exterioridade enigmática alia-se a alguns componentes comportamentais descritos que fazem desta figura um verdadeiro e imponente mistificador, no sentido peculiar da obra. Algumas qualidades incomuns lhe são atribuídas, como "extraordinário", "grotesco", "solene", "grave", de tal modo que, embora sempre envolvido nos trotes e zombarias que ocorrem na instituição universitária, convencia a todos de sua integridade e inocência com seu pedantismo e rigidez aparentes.

Hermann, que aos poucos se revela a verdadeira presa do Barão, é retratado juntamente com os demais estudantes, como jovem "de fortuna, de muitos contatos, orgulhosos de sua família, que viviam com um exagerado senso de honra". A partir daí, a questão do duelo se faz presente na história como assunto principal, e Hermann é reconhecido

por Mr. P., o narrador, como um "cavalheiro original" e principalmente "um grandessíssimo tolo". Original por ser um corajoso duelista, ironicamente possuidor de um suposto profundo pensamento metafísico, e tolo, na visão compartilhada pelo narrador e pelo Barão, por fazer de seu hobby como duelista uma questão fundamental de honra.

Esta seriedade com que Hermann encarava este tópico é a motivação que faz o protagonista pregar-lhe uma peça e submetê-lo à ofensa "peculiar e refinada" de partir seu reflexo no espelho, atitude emblemática recorrente em contos fantásticos. No lugar de empregar violência concreta contra a pessoa física de Hermann, este método místico empregado pelo Barão se revela apenas uma zombaria no fim da história. Novamente, a questão da mistificação ou do misticismo é atacada e combatida com certo escárnio e racionalidade.

A fim de atingir a unidade de efeito teorizada por Poe, busquei compreender a construção da trama que se dá por meio do empenho que o Barão prepara seu colega com determinadas leituras e admoestações verbais, por conhecer seu caráter e sua fraqueza. Nestas leituras sobre código de honra, etiqueta e duelo, um dos livros mencionados nas cartas de retratação traz uma sequência criptográfica que Hermann é incapaz de compreender. Devido à influência exercida pela figura do Barão, descrita com minudência pelo narrador como sendo um personagem influente e dominador, e ao seu orgulho como um grande entendedor de código de honra, Hermann não reconhece sua incapacidade de compreender algo relacionado à etiqueta do duelo, preferindo aceitar e acreditar na réplica do Barão do que admitir a própria ignorância.

A fim de absolvição de sua ofensa, o Barão sugere que Hermann leia o trecho de um livro que traz a história ilógica de um combate entre babuínos. Sem compreender que o trecho requer uma leitura especial para a criptografia que ali se encerra, Hermann aceita um pedido inexistente de perdão por uma ofensa também inexistente que acredita ter sofrido. Neste trecho final, o intuito do Barão é revelado, e é possível então perceber a construção da história e dos acontecimentos por meio desta perspectiva.