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Material e métodos

4. Material e Métodos

5.3. Nº percursos realizados no teste do “shuttle run”

Quadro 9 -Número de percursos efectuados durante o teste do shuttle run

Sujeito Aptidão Física

(nº percursos realizados)

1ªavaliação 2ªavaliação Resultado

1 42 30 Diminuiu 2 10 15 Aumentou 3 9 14 Aumentou 4 12 26 Aumentou 5 11 20 Aumentou 6 11 24 Aumentou 7 9 30 Aumentou 8 28 30 Aumentou Média 16,50 23,63 Aumentou DP 12,06 6,63

Perante o quadro 8, é possível verificar que, relativamente à aptidão física, apenas um indivíduo da amostra (n=8) não realizou um maior número de voltas no teste do “shuttle run”. Contudo, verifica-se que este sujeito apenas representa 13% da amostra, não alterando o panorama geral de uma melhoria entre as duas avaliações efectuadas.

Na primeira avaliação, constata-se que o desvio padrão é relativamente elevado tendo em conta a diferença existente entre o valor mínimo e máximo obtido. Aquando da segunda avaliação, é possível observar uma menor discrepância entre os valores obtidos, sendo a média ligeiramente superior (mais 7 percursos efectuados).

Quadro 10 - Diferença entre a média de percursos realizados nos dois momentos de avaliação Aptidão Física (nº percursos realizados) Média ± DP p 1ª avaliação 16,50 ± 12,06 2ª avaliação 23,63 ± 6,63 0,080

Em termos de aptidão física, verifica-se que o nível de significância é superior a 0,05, levando a que as diferenças encontradas não sejam estatisticamente significativas.

6. Discussão

O presente estudo pretende comparar os níveis de actividade física moderada, vigorosa e muito vigorosa (MVMV) em crianças com excesso de peso ou obesidade, avaliadas ao longo de 7 dias consecutivos em dois momentos distintos de avaliação, no inicio das aulas do projecto ACORDA, em Outubro e depois, em Março. Outro objectivo estipulado prende-se com a análise e comparação dos níveis de aptidão física obtidos nos dois momentos já referidos.

Este estudo demonstrou que as crianças com excesso de peso ou obesidade da amostra seleccionada, apresentaram melhorias durante as 21 semanas em que participaram no programa de actividade física orientada (ACORDA) no que diz respeito ao total de minutos acumulados em actividades moderadas, vigorosas e muito vigorosas (MVMV) e ao nível de aptidão física.

Relativamente às actividades física MVMV, é possível verificar que todos os sujeitos da amostra estiveram mais activos durante a segunda avaliação, comparativamente com a primeira, no início do programa de actividade física. Apenas um sujeito apresentou um decréscimo entre as duas avaliações, resultado de possíveis índices motivacionais algo reduzidos ou realização de actividades com intensidade mais baixa. No entanto, as diferenças encontradas não foram estatisticamente significativas.

Como as crianças tendem a envolverem-se em actividades físicas de forma esporádica com intensidades mais baixas (Simons et al., 1987), talvez o esforço realizado durante as aulas do programa de actividade física orientada bem como fora destas não seja suficientemente elevado para promover diferenças significativas, embora a melhoria observada entre as duas avaliações seja evidente. Riddoch et al. (2004) concluíram que as crianças tendem a acumular mais actividades de intensidade moderada, confirmando que os rapazes são mais activos que as raparigas e que há uma redução da actividade durante a adolescência. Também Treuth et al. (2004) referem que, os níveis de actividade física das crianças bem como as actividades de carácter espontâneo, diminuem durante os anos de idade escolar. No entanto, importa referir que, devido ao facto da amostra ser bastante reduzida, as diferenças entre géneros não foram consideradas.

Pensa-se que, as melhorias obtidas pela maioria dos sujeitos observados resulta do facto das aulas do projecto serem bastante divertidas, contemplando jogos de grupo, situações competitivas mas essencialmente lúdicas, onde o reforço positivo e o encorajamento estão presentes. No entanto, durante o circuito realizado, talvez os índices motivacionais são sejam tão elevados o que poderá ser uma das causas para os resultados não terem sido mais proeminentes.

O circuito é uma actividade que se realiza na parte fundamental da aula, que contempla vários tipos de exercícios, como saltar, manipular bolas (basquetebol, futebol, por exemplo), correr, saltitar, enfim, é uma actividade que envolve muito material e vários tipos de movimentos. Esta pode ser realizada de forma contínua perfazendo um total de 20 minutos ou então, ser dividida em duas partes de 10 minutos, intercalando com um jogo pré- desportivo, por exemplo. Assim, torna-se necessário inovar, modificar constantemente os exercícios que compõem o circuito, incluindo tarefas que, à partida, os alunos gostem para que, a motivação seja uma constante.

Os resultados obtidos no nosso estudo vão de encontro com o estudo desenvolvido por Aires (2004), no qual os resultados sugerem que os programas de actividade física orientada podem ajudar a aumentar os níveis de actividade física, com especial relevo para as actividades moderada, vigorosa e muito vigorosa. Gutin et al. (2002) acrescentam que as intervenções realizadas em crianças obesas pré – pubertárias demonstraram que o treino físico durante um período de tempo curto (alguns meses) tem um impacto favorável na composição corporal e alguns factores associados à saúde.

No presente estudo, a maioria dos sujeitos obtiveram valores positivos na actividade física, na medida em que, apenas um sujeito na primeira avaliação, não cumpriu a recomendação diária de 60 minutos, realizando apenas 35 minutos diários de actividade MVMV. Em contrapartida, aquando da segunda avaliação, verifica-se uma melhoria de todos os sujeitos, excepto o nº8 que, talvez devido à sua idade, 15 anos, apresenta uma diminuição dos níveis de actividade física, indo de encontro à literatura consultada que, indica um decréscimo da actividade física na fase da adolescência. Tal como no nosso estudo, Riddoch et al. (2004) concluíram que quase todas as crianças de 9 anos cumprem as recomendações de actividade física, enquanto que apenas

50-75% das crianças de 15 anos, principalmente raparigas, são suficientemente activas em termos de benefícios relacionados com a saúde.

Simons- Morton et al. (1990), num estudo realizado com crianças entre os 8 e os 10 anos concluíram que existe uma proporção substancial de crianças que obtiveram quantidades inadequadas de actividade durante o período do estudo, 3 dias. Por seu lado, Sleap e Tolfrey (2001), concluíram que os níveis de actividade física das crianças dependem da intensidade desta e do facto da actividade ser contínua ou cumulativa. No estudo elaborado por estes autores, as crianças excederam a recomendação diária de 1 hora, apresentando uma média de 117 minutos de actividade física acumulada, moderada a vigorosa por dia, sendo duas vezes superior ao recomendado. No nosso estudo, o valor da média da segunda avaliação ainda consegue ser superior a este, 128 minutos. Contudo, Sleap e Tolfrey salientam o facto da maioria das crianças não se envolver em períodos contínuos de actividade MVMV mas, ir acumulando os períodos de actividade física perfazendo ou excedendo os 60 minutos.

Os dados encontrados no presente estudo são relativamente superiores aos documentados por Mota et al. (2002) que, referem que as crianças obesas do seu estudo não cumprem os 60 minutos de actividade física de MVMV, apenas realizando 50,7 minutos por dia.

No que diz respeito à aptidão física, avaliada através do número de percursos do teste do shutlle run, os resultados evidenciaram uma melhoria entre as duas avaliações efectuadas. Considera-se que, a razão pela qual um sujeito não apresentou uma melhoria poderá estar relacionado com a reduzida experiência com o tipo de teste realizado, a motivação, entre outros aspectos relacionados com questões externas ao sujeito. Talvez estas sejam também as causas das diferenças encontradas não serem estatisticamente significativas.

Num recente estudo, Ara et al. (2004) concluíram que a participação regular em pelo menos 3 horas por semana em actividades desportivas ou competições está associada ao aumento da aptidão física. Estes resultados vão de encontro aos encontrados no estudo de Gutin et al. (1990), no qual o aumento da actividade física durante um longo período de tempo resultou num aumento da aptidão física das crianças em idades pré – pubertárias (Gutin et al., 1990). Os estudos enunciados confirmam que a actividade física pode

influenciar a aptidão física, que por seu lado pode modificar o nível de actividade física (Bouchard e Shephard,1994).

Num outro estudo realizado por Treuth et al. (2004), a actividade e aptidão físicas mantiveram-se relativamente constantes nas raparigas entre os 8 e os 10 anos de idade. No entanto, as raparigas com um ou dois pais obesos tendem a ter níveis baixos de aptidão, comparativamente com as raparigas com pais magros.

Gutin et al. (2002), chegaram à conclusão que, apenas o grupo que esteve sujeito a actividades de alta intensidade evidenciaram aumento da aptidão física, contrapondo ao grupo que apenas realizou actividades de intensidade moderada. Como no nosso estudo, as actividades moderadas e vigorosas foram englobadas numa só categoria (MVMV), não é possível chegar a uma conclusão relativamente ao nível de intensidade adequado para promover melhorias na aptidão física.

A composição corporal, apesar de não ser alvo de estudo, carece de alguma referência. Gutin et al. (2002) concluíram que a alta intensidade do exercício tem um efeito favorável na aptidão física, embora a associação com a adiposidade não seja tão clara. Ou seja, não foram encontradas evidências de que o exercício intenso (alta intensidade) seja mais efectivo do que o realizado a intensidades moderadas na composição corporal.

Desta forma, relativamente ao nosso estudo, talvez devido ao aumento do peso e altura e consequente aumento do índice de massa corporal, resultado da fase de crescimento em que as crianças se encontram bem como factores maturacionais, os resultados em termos de actividade e aptidão físicas não tenham sido superiores.

A maioria dos estudos, referem que o treino aeróbio promove uma melhoria na aptidão física, enquanto que, o treino de resistência não induz melhorias na aptidão física (Watts et al., 2005). Os mesmos autores acrescentam que, a combinação dos dois tipos de treino representam uma efectiva estratégia na melhora da aptidão física.

Bouchard e Shephard (1994) salientam a existência de uma relação entre a “dose” de actividade física – modo, frequência, intensidade e duração – e a resposta biológica em termos de melhoria da aptidão física e saúde. Simons –Morton et al. (1990) referem que, as crianças com elevados níveis de

aptidão física podem resultar de elevados níveis de actividade física. No entanto, o nosso estudo demonstrou resultados bem distintos. Assim, os sujeitos que obtiveram resultados superiores de actividades MVMV, realizaram menos percursos no teste shutlle run. Talvez devido ao facto da amostra ser bastante reduzida ou a reduzida motivação dos sujeitos para a realização deste tipo de teste, não tenha possibilitado que os resultados estivessem em consonância com a literatura, não se verificando uma relação entre estes dois conceitos, actividade e aptidão físicas.

De uma forma geral, podemos considerar que, o programa de actividade física orientada conseguiu de certa forma incutir hábitos de vida saudável, na medida em que, os sujeitos, após as 21 semanas de intervenção, apresentam resultados mais elevados de actividade física MVMV. As recomendações diárias de actividade física estão a ser cumpridas, levando-nos a supor que, a actividade física se pode tornar um hábito vitalício, prevenindo-as de factores de risco, não sendo apenas realizada durante as aulas do projecto ACORDA como também fora destas.

Este tipo de programas de actividade física orientada devem ser incentivados já que, durante estas 21 semanas os resultados foram positivos, realçando que, as melhorias poderiam ser significativas se a duração do presente estudo fosse alargada ou a amostra fosse maior.

Apesar das aulas do projecto ACORDA não terem como objectivo principal a perda de peso, mas a criação de hábitos saudáveis relativamente à actividade física, os profissionais envolvidos neste trabalho têm procurado aliar a componente lúdica à ocupação do maior tempo possível em actividades moderadas, vigorosas e muito vigorosas.

O aumento da prevalência da obesidade tem sido documentado em vários países e por diversos autores, tratando-se de um problema de saúde pública (WHO, 2000) que assume cada vez mais proporções alarmantes. Desta forma, é necessário que se criem condições para que a intervenção possa de facto ser aplicada, a nível local, nacional e internacional com vista a adopção de um estilo de vida activo por parte de pais e filhos, enfim, toda a população.

7. Conclusões

Podemos admitir que a participação no programa de actividade ACORDA influenciou, de forma positiva, os valores totais de actividade física MVMV e o nível de aptidão física das crianças envolvidas na presente amostra, uma vez que, após algum tempo de intervenção, 21 semanas, os resultados sofreram uma melhoria, embora as diferenças encontradas entre as duas avaliações não sejam estatisticamente significativas.

De uma forma geral, todos os sujeitos da amostra cumprem as recomendações diárias de actividade física, levando-nos a supor que, este tipo de programas orientados de actividade física são um meio importante para incutir hábitos de vida saudável.

É fulcral que os governos se consciencializem da importância deste tipo de projectos de actividade física orientada, que podem contribuir para que as crianças e adolescentes sejam menos sedentários e, talvez desta forma, colaborar para a diminuição dos índices de obesidade nacional e internacional.

Contudo, outros estudos com uma duração superior e uma amostra mais alargada são necessários, de forma a fundamentar a importância da actividade física na adopção de estilos de vida mais activos.

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