Tantas vezes pensamos ter chegado. Tantas vezes é preciso ir além.
(Fernando Pessoa)
Ao fim de um percurso de pesquisa, pude construir um conhecimento que se foi constituindo na curiosidade cotidiana, nas perguntas nem sempre respondidas, nas conversas espontâneas com velhos e novos amigos, no diálogo silencioso com nossos parceiros de luta e vida, na leitura de livros, artigos de jornais e revistas, na contemplação do anoitecer numa bela praia, na gargalhada gostosa da terceira idade e de quem ainda dá os primeiros passos em busca de um abraço seguro. Em todos os momentos e lugares percebi que valeu a pena percorrer essa jornada, que me levou a aprender saberes e sabores novos, e a dar novos sabores a saberes antigos.
Aprendi a aprender e aprendi com os anos, as experiências e leituras, e tudo isto me fez ver e rever conceitos, definições, concepções. Na leitura dialogada com diversos autores sociais, nas áreas de saúde, educação e educação em saúde, lapidei o meu conhecimento, aparei as arestas. Fui, aos poucos, construindo e reconstruindo as minhas certezas, as minhas verdades momentâneas e a minhas posições teóricas. Penso não ter encontrado a verdade que conduziu minhas certezas, mas com certeza encontrei respaldo para as perguntas que me fazia.
Durante essa jornada, encontrei alguns autores que me ajudaram a ler, a interpretar e a aperfeiçoar os objetivos e a temática dessa pesquisa. Suas discussões teóricas fizeram-me avançar cada vez mais em minhas reflexões, que me levaram a novas indagações e inquietações. Por acreditar na dinâmica dos fatos e defender uma perspectiva histórica da construção do conhecimento, considero que o resultado dessa pesquisa é uma gota no oceano (que em sua particularidade contempla a generalidade, mas que não contém toda a grandeza de sua imensidão).
O contato com as pessoas do Médio Aririú, participantes dessa pesquisa, possibilitou-me compartilhar alguns aspectos íntimos de sua história pessoal e familiar: os cuidados pessoais e com os seus; as definições de saúde; a procura de atendimento médico; as "romarias" por diversos profissionais e serviços de saúde, a fim de identificar e curar suas enfermidades corporais e mentais, as queixas, as soluções, os sonhos, as lutas, as
feridas, as mágoas, as alegrias, as surpresas, as conquistas, as inquietações; suas escolhas de vida.
Ao longo de uma semana, entrei em várias intimidades, ouvi segredos, confidências, recebi orações, canções. Mas carreguei por diversas vezes o fardo de escutar e de me sentir impotente frente ao sofrimento vivido ou da dor atual dessas pessoas. Minhas perguntas suscitavam respostas nem sempre agradáveis de ouvir. Ou porque vinham num tom queixoso, lamurioso ou porque desvelavam falhas e punham a nu um sistema de saúde ainda pouco eficiente. Algumas pessoas me surpreenderam pela complexidade do pensamento, ou pelo contrário, pela singeleza e ingenuidade contidas de suas idéias. Outras me entristeceram pelo descaso com que foram tratadas, pela pouca informação a respeito de seus direitos e pela aparente submissão ao que estava posto.
Algumas constatações se evidenciaram já nas primeiras entrevistas. Como o desconhecimento da população sobre o Programa de Saúde da Família, o trabalho das equipes e a importância da participação comunitária. Vários depoimentos se ratificaram mutuamente e construíram uma imagem pouco favorável ao desenvolvimento dessa nova estratégia em saúde.
Outro ponto evidente quanto à atuação dos profissionais diz respeito a uma repetição do modelo de atendimento médico individualista, com ênfase no tratamento e na prevenção à doença. As falas das pessoas denotaram que os profissionais ainda não estavam construindo a educação e a promoção em saúde da forma como concebida nas diretrizes do PSF.
A atuação desses profissionais ainda guardava coerência com a formação acadêmica pela que passaram, a qual, em geral, dá ênfase apenas no indivíduo e a sua enfermidade, e desconsidera o contexto familiar e social mais amplo. Por isso considero de suma importância o fortalecimento e a ampliação dos Pólos de Educação Permanente, para que o treinamento de profissionais voltados para o estabelecimento de uma relação de respeito mútuo e de co-responsabilidade para com as famílias e comunidades atendidas.
Avalio que as famílias e a comunidade ainda não estão sendo consideradas como participantes ativos dentro dessa nova estratégia em saúde. Nesse sentido, os autores/pesquisadores em educação popular têm muito a contribuir através do relato de experiências que vêm acompanhando a longos anos.
Para haver uma efetiva mudança do atendimento em saúde no Brasil, acredito ser necessária a integração dos seguintes componentes: a articulação e participação política, o comprometimento e a co-responsabilização entre os gestores públicos, dos profissionais envolvidos e da população.
Penso que as discussões perpassam por uma nova forma de formar e/ou capacitar os profissionais em saúde, através de uma educação problematizadora, na qual o educador não seja apenas aquele que educa e sim o que incentiva o questionar crítico, que liberta os preconceitos e torna o educando livre para transformar-se e construir-se a si mesmo.
Freire (1995:25) apontou algumas saídas, já que para ele, educar (...) não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou construção. Ainda segundo esse autor, o diálogo é condição indispensável para uma prática libertadora em educação. Desse modo, (...) o papel do educador não é impor a sua visão de mundo ou falar sobre ela, mas dialogar sobre as diferentes visões de mundo, incluindo a do educando. (1987: 87)
Partindo da leitura de autores como Chauí, Fantin, Freire, Da Ros, Mendes, Mynaio, Valla, Vasconcellos, entre outros fui a campo com a proposta de dar voz aos que foram geralmente silenciados pelo sistema e desrespeitados em seu saber, suas experiências, sua cidadania e sua dignidade. Acredito ter alcançado em parte meu objetivo maior, tendo em vista que só pude realizar um encontro com cada família, e não cheguei a ter contato com todos os membros da mesma.
Essa pesquisa me levou ao encontro de pessoas de um mundo até então desconhecido para mim, as quais foram co-autoras desse trabalho e me permitiram ver um outro lado de uma estratégia de saúde que eu conhecia somente dos livros.
Transpor para o papel uma construção reflexiva com base nos depoimentos foi uma tarefa árdua, porém gratificante, como montar um quebra-cabeça, onde cada peça ou cada palavra ia tomando forma ao juntar com outras peças de encaixe perfeito, e formando pedaços cada vez maiores, os quais delineavam a imagem final.
Nesse momento, gostaria de resgatar uma frase de autoria de Heloísa Machado de Souza (1999: 09) que sintetiza um pouco a minha compreensão sobre esse período pelo qual passa a construção de uma nova forma de se pensar e atuar em saúde, denominada Saúde da Família: Começar o novo é sempre o caminho mais difícil, mas é a única
garantia que, percorrida estrada, o olhar para trás não busca explicar o que não se fez ou que poderia ter sido e sim aprender com a ação, para fazer do futuro uma construção diária.
Transportando essa percepção para essa pesquisa de educação em saúde, percebo, ao olhar para trás, que eu me fui construindo e reconstruindo como pesquisadora na medida em que encontrava e dialogava com os(as) autores(as), com as famílias e seus(suas) mediadores(as), com colegas, professores(as), alunos(as), amigos(as) e comigo mesma.
Nesse percurso, fui gestando, construindo, descontruindo e reconstruindo algumas hipóteses, que me possibilitaram encontrar algumas respostas para as perguntas que me acompanharam ao longo desse processo. E, ao mesmo tempo, me fizeram pensar em novos caminhos de atuação nessa área de conhecimento. Esses caminhos haverão de levar-me a uma prática mais consciente e a novas perguntas e respostas, e a uma nova prática, num círculo infindável de um processo que não se acaba, mas se transforma e se reativa a cada dia.
Por isso, escolho terminar esse texto, com as palavras vivas de Henfil: Não é o desafio com que nos deparamos que determina quem somos e o que estamos nos tornando, mas a maneira com que respondemos ao desafio. Somos combatentes, idealistas, mas plenamente conscientes, porque o ter consciência não nos obriga a ter teoria sobre as coisas: só nos obriga a sermos conscientes. Problemas para vencer, liberdade para provar. E, enquanto acreditamos em nosso sonho, nada é por acaso.