CAPÍTULO II- VIAGEM AO INTERIOR DO HCJB: uma ‘analítica’ do espaço
2.5 Não se pode servir a Deus e a Asclepius: Mas e servir-se deles?
O gabinete do doutor é um espaço privado, de intimidade entre o médico e o paciente. Tudo o que for dito ali não será revelado para mais ninguém... Funciona co mo um confessionário, onde a verdade se mostra por inteira, em seu ontos; regime de exame e investigação do saber-poder médico.
Contudo, como nos quadros da parede do consultório- Secretaria-Parlatório, o profano teve de conviver com o sagrado, o temporal com o espiritual. Em pleno hospital festejado como símbolo do moderno, dominado pela medicina positivista e tendo um médico como diretor, o doente que transpusesse o umbral do HCJB não encontraria um busto de Hipócrates, como na Antiguidade, mas uma singela capela,
212 Em a Ordem do discurso, aula inaugural proferida no Collége de France, em 2 de dezembro de 1970,
Foucault chamou de “rarefação” a um procedimento de controle do discurso, que impõe aos indivíduos que os pronunciam certas regras de acesso, vedando a outros a possibilidade de dizê-lo. Segundo Foucault, haveria três grupos de procedimentos de controle e delimitação dos discursos: os que buscam limitar seus poderes; os que dominam suas aparições aleatórias e os que selecionam os sujeitos que falam. A rarefação constituía, portanto, instrumento pertencente ao último grupo, pois dizia respeito às possibilidades do sujeito falar: “ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfizer a certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê -lo. Mais precisamente: nem todas as regiões do discurso são igualmente abertas e penetráveis; algumas são altamente proibidas (diferenciadas e diferenciantes), enquanto outras parecem quase abertas a todos os ventos e postas, sem restrição prévia, á disposição de cada sujeito que fala” (FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 21. ed.São Paulo: Loyola, 2011.p.36-37).
espaço que lembra as próprias origens do hospital, quando sua criação e administração estavam a cargo de instituições religiosas, e sua função era abrigar os pobres de rua, alimentar os doentes e salvar as suas almas.
Embora invertendo a orientação espacial, o nosso jornalista-observador d’A República, não se esqueceu de “visitar” o espaço do “Médico das almas”: “Visitamos, depois, a capela, preparada com gôsto, e provida de alfaias e ornamentos, os mais necessários”. A descrição é rápida, e supomos que a vistoria também o foi. Os objetos descritos no enunciado de Emerenciano remetem ao domínio da Estética: “com gôsto”, “ alfaias” e “ ornamentos”. Aqui o que contava era a Beleza, mas somente “os mais necessários”, ordem visual do espaço, ordem do olhar que repudia o acúmulo, o excesso, o transbordamento, signo do irregular. A capela como espaço de espiritualidade não mereceu comentário do articulista do jornal, é de uma outra ordem.
A capela situava-se logo na entrada do hospital, à esquerda do visitante, quase ao lado da recepção. Localização estratégica, tática, que procurava ligar diretamente o espaço do hospital à noção primitiva de lugar para “salvação da alma”: primeiro cuidamos da anima, depois do corpus... Presença da Ordem das Filhas de Santana, que provavelmente impuseram esta geografia durante a construção do HCJB,
Fig. 15 - Capela do HCJB.
iniciada em 1905. Relações de poder, de forças, que atravessam a espacialidade hospitalar, mas que tecem liames com a dimensão econômica.
Em 1921, o governador Antônio José de Mello e Souza lamentava a falta de uma Santa Casa no Estado- reclamação antiga, que remonta ao Império-, pois com ela as despesas com o estabelecimento hospitalar poderiam ser divididas, diminuindo os gastos do Estado:
Sendo o nosso Estado um dos mais pobres, mantem exclusivamente á sua custa serviços de assistência publica, que o não envergonhariam si comparados com os de outros mais favorecidos pela fortuna.
Essa feição tão sympathica, embora custosa, de Estado providencia, é comprehensivel e justificável nos paizes novos, onde a iniciativa e a riqueza particulares ainda não podem, ou não ousam, chamar a si os deveres de solidariedade humana, mas onde o desejo de progredir e o emprego reflectido dos meios de satisfazel-o faz parte das obrigações dos dirigentes.
Não pudemos conseguir até hoje a formação entre nós de uma dessas instituições conhecidas pelo nome de “Santa Casa”, ou outras de natureza similhante, por meio das quaes a acção individual, embora auxiliada pelo poder publico, desempenha essa categoria de deveres.213
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RIO GRA NDE DO NORTE. Mensagem lida perante o Congresso Legislativo na abertura da primeira sessão da undecima leg islatura em 1º de Novembro de 1921 pelo governador Antonio J. d e Mello e Souza. Natal: Typ. Co mmercial J. Pinto, 1921. p.17-18.
Fig. 16 - Freiras da Ordem Filhas de Sant’Ana que trabalhavam no HCJB.
O contrato com as irmãs de Santana previa salário apenas para a irmã Regente, numa quantia mensal de 350$000 réis. Conforme a lei n.14 de 1892, ainda no antigo HC, o Inspetor de Higiene receberia o “ordenado” de 2400$000 réis!214
O desejo de compartilhar as despesas do Hospital era séria preocupação das autoridades políticas e dos próprios médicos que trabalhavam no nosocômio, de tal sorte que, em 1927, a administração do HCJB é transferida para uma sociedade médica particular, a Sociedade de Assistência Hospitalar (SAH), coordenada pelo médico Januário Cicco, mediante contrato com o Estado.
Ainda com o objetivo de desonerar o tesouro do Estado, a própria criação do hospital, em 1909, incluía uma seção para pensionistas, ou seja, aqueles que podiam pagar pelo atendimento, o que gerava significativa receita, como nos mostra a tabela das receitas do HCJB entre julho de 1927 e julho de 1928:
Tabela 4- Receitas do HCJB em 1928 ATIVIDADES RECEITAS Pensionistas 41:172$000 Laboratório de Análises 2:169$000 Diversos 20:181$290 Subvenções do Estado 100:000$000 Juros e Descontos 263$340 Contribuições e Donativos 2:422$000 Subvenção Municipal 4:800$000 TOTAL 171:008$430 Fonte: Mensagem de 1928.
Os números são claros: a receita relativa aos pensionistas (41:172$000) era a segunda maior do HCJB, quase 50% da principal arrecadação do hospital, que eram as subvenções do Estado (100:000$000).
A capela como estratégia de poder não se circunscreveu somente ao hospital Sua presença acompanhou a própria expansão da “rede nosoespacial”215 que se configurava na década de 1920, com a difusão de outros espaços de assistência médica, como asilos e leprosários. Em alguns casos, o Estado mesmo, agora em teoria laico, se
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RIO GRA NDE DO NORTE. Lei n.14 de 11 de junho de 1892. Crea no estado uma repartição sanitária. Leis do Congresso. Natal: Typ. d’A República,1896.p.25-28.
215 Utilizamos aqui a noção de ‘rede nosoespacial’ de uma forma um tanto imprecisa. Em nosso texto,
serve para agrupar todas as expressões espaciais de atendimento médico -assistencial postas em funcionamento pelo Estado, desde as de caráter emergencial até as de cunho permanente. A perspectiv a da ‘rede’ aponta-nos uma articulação sistemática das espacialidades médicas dentro de um âmbito estratégico estatal.
incumbia de velar pelo “conforto espiritual” dos enfermos:
O Governo do Estado tem envidado todos os meios capazes de proporcionar aos enfermos o preciso conforto material e espiritual, chagando mesmo a dar-lhes não só o necessário como o dispensável, o que muitas vezes acontece [...].216
Comentando a construção de casas para abrigar os “morféticos” do Leprosário São Francisco de Assis, iniciadas em 14 de janeiro, o governador menciona a edificação de uma capela:
Dois desses grupos [de casas] foram inaugurados no dia 26 de maio e, nesse mesmo dia, lançada a pedra fundamental de uma capella.217
É importante notar em alguns discursos o espaço da capela muitas vezes aparece como um item indispensável de uma lista, composta por objetos de mesmo valor, quantificáveis, enumeráveis, ordenáveis, instalados no campo da medida. É desta forma que o encontramos na Mensagem de Juvenal Lamartine ao Congresso Legislativo, em 1930:
Hoje a Villa S. Francisco de Assis, apezar de modestamente installada, possue abastecimento d’agua, exgotto, luz Electra, cinema, telephone, apparelho de radio, salão e musica, victrollas e Capella.218
Assim, “Capella” para o Estado era apenas mais um equipamento “urbano” da vida considerada civilizada, ligado ao “conforto”, um objeto da civilização material, como bem diria Fernand Braudel.
A reprodução do espaço da capela era a repetição e, ao mesmo tempo, intensificação de determinadas relações de força, de um poder que buscava espacializar- se, territorializar-se, tornar-se cada vez mais íntimo, familiar: dispositivo que deslocava metaforicamente os sentidos do espaço-capela, de modo que ele pudesse abrigar distintas práticas, instituições e discursos. Geometria ou diagrama de forças que replicava não apenas os interesses conflitantes entre as freiras da Ordem de Santana e os representantes da medicina no hospital, mas também jogava para adiante, no espaço, a
216 RIO GRANDE DO NORTE. Mensagem apresentada pelo exmo. Dr. Juvenal Lamartine de Faria,
Presidente do Estado do Rio Grande do Norte á Assembléa Legislativa por occasião da abertura da 3º Sessão da 13º Leg islatura em 1º out. 1929. p.67.
217 Ibid., p.67. 218
RIO GRANDE DO NORTE. Mensagem apresentada pelo presidente Juvenal Lamartine de Faria a Assembléa Legislativa, por occasião da abertura da 1º Sessão da 14ª Legislatura. Natal: Imp rensa Official, 1930. p .68.
“fronteira” que separava o doente do são, o normal do patológico. Sempre avançando na direção da zona-limite, a “capela” também medicalizava.
2.6 Diagrama da ordem nosoespacial: pavilhão, enfermarias e leitos na disciplina do