1.4 Da necessidade de um professor, ainda que ignorante: Sócrates versus Jacotot
2.1.1 Não ser x ser – Ou como entender o discurso como brincadeira
É no mínimo provocador o que pretende Górgias com o seu Tratado do Não-ser:
colocar de ponta-cabeça o discurso fundador da ontologia: o Poema, de Parmênides. E faz isso não mediante recursos externos, como uma crítica externa, mas com uma fidelidade impressionante ao texto. “Reflete” tese por tese as palavras do pré-socrático, tentando
“mostrar que, se o texto da ontologia é rigoroso, quer dizer, se não constitui um objeto de
exceção em relação à legislação que instaura, então é ele que se contradiz” (CASSIN, B., 1990, p. 11).
Górgias inicia o seu texto40, então, enunciando as três teses contrárias ao texto do Poema: “uma e a primeira, que nada existe; a segunda, que se algo existe não é apreensível ao homem; a terceira, que se é apreensível é, sem dúvida, intransmissível e inexplicável a outrem” (DK 82 B 3 65 In: SOFISTAS, 2005, p. 113). Aqui param normalmente, na sua maioria, os leitores. Para que continuar a ler um texto que inicia com tamanhos “absurdos”:
como assim, nada existe? Só pode ser uma brincadeira e, como tal, não merece crédito por parte de leitores sérios. É, sim, uma brincadeira, se levarmos em conta que todo texto de Górgias o é, como mostra o final do Elogio de Helena41, mas não uma brincadeira indigna de avaliação por parte de leitores sérios. Se assim o fosse, não se entenderia por que Platão e Aristóteles dedicam tanto tempo de sua filosofia a um confronto com o Tratado. Talvez, justamente, só leitores sérios tenham continuado a leitura após a enunciação das três teses, pois sabiam do risco que corria a seriedade diante de tamanha brincadeira, de tamanha ousadia. E que riscos eram esses que fizeram os filósofos dirigirem críticas ferozes a essa brincadeira? O risco do efeito sofístico, como enuncia Bárbara Cassin: “se a filosofia quer reduzir a sofística ao silêncio, é sem dúvida porque, inversamente, a sofística produz a filosofia como um fato de linguagem.” (CASSIN, B., 1990, p. 10). Ora, é preciso entender ou ao menos olhar para o que faz Górgias sustentar três teses aparentemente absurdas. Por que nos chocamos com a enunciação “nada existe”? Ou, “nada conhecemos”? Ou, ainda, “nada transmitimos”, que aqui poderíamos pensar em duas frentes: “nada dizemos” ou “nada ensinamos”? É no mínimo sintomático que essas teses nos causem repulsa ao serem enunciadas, que nos causem desconforto. De onde parte esse desconforto? O que nos mantém tão firme ao conforto que a simples enunciação de uma tese contrária nos paralisa de ir adiante com ela, de sequer ouvir os seus argumentos? Por que, enfim, essa vontade irresistível de calar essa tese desconfortável, de “reduzir a sofística ao silêncio”? Certamente é a força persuasiva da tese ontológica de Parmênides, reconstruída com Platão e, sobretudo, com Aristóteles, que nos faz ver num discurso contrário à ontologia a “brincadeira” e, na
“brincadeira”, o lugar de silenciar o outro. Curioso ver o Tratado do Não-ser ser tomado como “brincadeira” nesse segundo sentido. Se é verdade que os discursos podem ser tomados como brincadeiras, qualquer discurso, inclusive os contrários a alguma tese, como defende
40 Segundo o relato que nos dá Sexto Empírico em Contra os Matemáticos, 7, 65 e segs, (DK 82 B 3) e segundo o tratado pseudoaristotélico Acerca de Melisso, Xenófanes e Górgias, 5-6, 979a – 980b21 (DK 82 B 3 bis) In: SOFISTAS, 2005.
41 Cf. DK 82 B 11, 21 e segs. In: SOFISTAS, 2005, p. 133.
explicitamente Górgias, certamente a associação de brincadeira e silêncio é obra da filosofia, ao menos da sua história. Temos assim aqui um primeiro indício da proximidade entre “Não-ser” e “Infância”. Defender o não ser é infantil, tanto porque quem o defende brinca, como porque quem o acusa o toma como brincadeira. Dois sentidos para uma mesma estratégia de exclusão, de silêncio. O “Não-ser” precisa ser tutelado como o é a “Infância”? E, em sentido ôntico, o da efetividade dos seres, o “Não-ser” que existe não como conceito, mas como ente (lembremos que Górgias diz me óntos – não ente e, não, me ón – não ser, como preferiu a maioria dos comentadores), existe da mesma maneira como “existem” as crianças? Ou seja, o modo de existir do Não ser é semelhante ao modo de existir das crianças? Poderíamos dizer, parafraseando Heráclito que “O não-ser é uma criança que brinca”? É assim o Não
ser o reflexo na rua lógico-ontológica do que a Infância representa na rua pedagógico-política? Só nos voltando à letra de Górgias e à crítica de Aristóteles para sabermos.
O curioso é que após a enunciação de certo modo irônica das três teses, algo que o título do tratado, dado muito depois da morte de Górgias pelos céticos [Peri toũ me óntos He Peri physeos - Do não ente ou Da natureza], que reforçou ainda mais o caráter de
“brincadeira” do texto, numa clara alusão aos “Sobre a physis”, título da maioria dos tratados pré-socráticos que chegaram até nós, Górgias passa a uma análise “lógica” das teses, a uma avaliação rigorosa, metódica, do que apresentara há instantes. Inclusive, o que é curioso, fazendo uso do princípio de não contradição, que sequer fora formulado e que será usado contra ele e contra a sofística de uma maneira geral. Conta-nos Sexto Empírico que a conclusão de Górgias de que “nada existe” se dá porque “se, na verdade, algo existe, certamente ou existe o ente ou o não ente ou tanto existe o ente como o não ente” (DK 82 B 3, 66 In: SOFISTAS., 2005, p. 113). E para refutar que o não ente não existe entra em jogo o esboço do princípio de não contradição:
“na verdade, o não ente não existe; se, com efeito, o não ente existe, existirá e, ao mesmo tempo, não existirá.
Enquanto é concebido como não ente, não existirá, mas enquanto existe como não ente, existirá. Mas é absurdo, em absoluto, algo existir e não existir ao mesmo tempo. Portanto, o não ente não existe” (DK 82 B 3, 67 In:
SOFISTAS, 2005 p. 113).
Para refutar a existência do ente, no entanto, Górgias mantém-se fiel às características que Parmênides dera a ele: uno, eterno, imóvel, contido em si mesmo, completo42. O ente não
42 Cf. PARMÊNIDES. fr. 8, 26-33, In: CASSIN, B., 2005, p. 25:
“Por outro lado, imóvel nos limites de grandes liames, ele é sem começo, sem fim, porque nascimento e perda
existe porque “se o ente existe, decerto é eterno ou gerado ou, simultaneamente, eterno e gerado.” (DK 82 B 3, 68 In: SOFISTAS, 2005, p. 114) Se é eterno, então não tem começo e não tendo começo é ilimitado. Mas “se é ilimitado, não está em nenhum lugar. Com efeito, se estiver nalgum lugar, é diferente de si mesmo naquele lugar em que está; e, assim, já não será ilimitado o ente que está contido num outro” (DK 82 B 3, 69 In: SOFISTAS, 2005, p. 114).
Fidelidade absoluta às características de Parmênides, se é eterno não está contido num outro.
Mas estará contido em si? “Também não existe nada contido em si mesmo. Com efeito o continente e o conteúdo serão a mesma coisa e o ente desdobrar-se-á em dois, lugar e corpo (o continente é o lugar, o conteúdo, o corpo). Mas isto é absurdo. Assim, o ente não está contido em si mesmo” (DK 82 B 3, 70 In: SOFISTAS, 2005, p. 114). Pronto, a catástrofe está feita, as características do ser de Parmênides já brigam entre si, se o ente é eterno, ilimitado, então não está contido em si mesmo porque se não já não é uno, mas duplo. E tudo isso por meio mais uma vez de uma ardilosa brincadeira: o princípio de não contradição. Algo não pode estar e não estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. Como ilimitado ele não pode conter a si, pois essa contenção daria um limite (em si) nem estar contido em outro, pois estaria circunscrito por algo maior. Logo, ele não pode conter nem estar contido, e, assim, ele não tem contornos espaciais, “não está em lugar nenhum” (DK 82 B 3, 70 In: SOFISTAS, 2005, p. 114). E, portanto, “se não está em nenhum lugar, não existe” (DK 82 B 3, 70 In: SOFISTAS, 2005, p.
114). Ora, se o ente não é eterno, pois dessa forma não existe, resta ainda saber se o ente não é gerado ou, ainda, se é eterno e gerado. Para refutar a geração do ente, Górgias mostra que “se foi gerado, certamente foi gerado ou a partir do ente ou do não ente” (DK 82 B 3, 71 In:
SOFISTAS, 2005, p. 114). Mas, fiel à própria definição de ente, ou seja, como aquilo que existe, resta que “se é ente, não foi gerado, mas já existe” (DK 82 B 3, 71 In: SOFISTAS, 2005, p. 114), isto é, se o ente for gerado do próprio ente, então não há geração, pois o ente já terá existido antes de gerar, o que lhe dá a forma de eternidade. Tampouco o ente pode, segundo Górgias, ser gerado do não ente “pois o não ente não pode gerar coisa alguma, porque aquele que gera algo deverá necessariamente partilhar da existência” (DK 82 B 3, 71 In: SOFISTAS, 2005, p. 114). Ou, em outras palavras, como é possível que algo gere sem existir? É como se os filhos nascessem de pais inexistentes. Assim, como algo que não existe
foram para longe lançados totalmente, a crença verdadeira os repeliu.
O mesmo e permanecendo no mesmo, ele se mantém em si mesmo, e é assim que firmemente ele permanece aí, pois Necessidade poderosa o mantém nos liames do limite que o encerra à sua volta;
é por isso que não se permite que o ente seja privado de completude pois ele não está em falta,
senão em sendo, tudo lhe faltaria”.
pode dar algo que não tem, a existência, a outrem? Portanto, o ente não pode ter sido gerado.
Se o ente não é eterno, porque então não existe nem gerado porque não é concebível nenhum tipo de geração, resta a última esperança para o ente existir: ser eterno e gerado simultaneamente. Mas logicamente essa última opção também não é possível, por contradição interna dos termos, algo não pode ser eterno e gerado ao mesmo tempo pois são atributos contraditórios. Novamente é a lógica aristotélica, ainda inexistente, fazendo efeito:
catastrofizando. O ente, como dirá Górgias, “de forma análoga, não pode ser ambas as coisas:
eterno e, simultaneamente, gerado. Estas excluem-se entre si, se o ente é eterno, não é gerado, e, se é gerado, não é eterno.” (DK 82 B 3, 72 In: SOFISTAS, 2005, p. 114). E, assim, Górgias pode então concluir em parte a sua primeira tese: assim como o não ente não existe, como vimos mais acima, o ente também não existe, pois “se o ente não é eterno, nem gerado nem uma coisa nem outra, o ente não pode existir” (DK 82 B 3, 72 In: SOFISTAS, 2005, p. 114).
Ora, uma vez assentidos que nem o ente nem o não ente existem, resta à conclusão da primeira tese mostrar porque “nada existe”. Como se passa da não existência do ente e do não ente à existência do nada? Aqui me parece que Górgias já prefigura uma distinção muito atual à ontologia entre ser e ente43, ou, se preferirmos aqui, entre não ser e não ente, entre nada e não ente. Só assim podemos tentar entender por que o nada existe. Para essa passagem, no entanto, é bom ter em conta a existência como atributo, ou seja, o que acontece com a existência quando a atribuímos ora ao ente ora ao não ente. Górgias dá um passo atrás, alude à hipótese do que aconteceria se a existência fosse predicada de “ente” e de “não ente”. Se ambos não existem como demonstrou, o que aconteceria se ambos existissem. Mas faz isso mantendo a identidade entre ente e não ente, já que foi “demonstrado que o ente é o mesmo que o não ente” (DK 82 B 3, 75 In: SOFISTAS, 2005, p. 115). Ou seja, ente e não ente são idênticos quanto à não existência. O problema é que, mantendo essa identidade, a predicação de existência não se faz mais possível, pois “se um e outro existem não são idênticos e, se são idênticos, não existem um e outro” (DK 82 B 3, 76 In: SOFISTAS, 2005, p. 115), pois são idênticos quanto à não existência. Mas como assim? Se “não ente existe” e “ente existe”
existirem, não são idênticos, são duas frases diferentes. E, se “não ente” pode ser trocado por
“ente” na frase “não ente não existe”, então não existe uma coisa que seja ente e outra que seja não ente. Poderia, no entanto, existir uma outra coisa que não tem nem o nome de “ente”
nem o nome de “não ente” que ainda assim poderia existir, pois o que está em jogo é que
43 Cf. a distinção que faz Heidegger em Ser e Tempo: “Ente é tudo de que falamos, tudo que entendemos, com que nos comportamos dessa ou daquela maneira, ente é também o que e como nós mesmos somos. Ser está naquilo que é e como é, na realidade, no ser simplesmente dado (Vorhandenheit), no teor e recurso, no valor e validade, na presença, no 'há”
(HEIDEGGER, M., 2004, p. 32).
“ente” e “não ente” não podem receber os atributos de existência, mas não que não seja possível atribuir existência a uma outra coisa. Daí se concluir que “nada existe” (DK 82 B 3, 76 In: SOFISTAS, 2005, p. 115). “Nada”, a palavra, ainda pode ser predicada de existência. E por que o “nada”? Por que é o “nada” que sempre volta à pergunta pela ontologia?
Lembremos a pergunta de Heidegger, no início da sua Introdução à metafísica, retomando a dúvida de Leibniz: “Por que há o ser e não antes o nada?” E Górgias volta-se ao nada, contra a prerrogativa do ser, por uma fidelidade irremediável ao texto fundador da ontologia, o Poema, de Parmênides. É porque só há duas vias possíveis ao pensar, a do ente e a do não ente, que se ambos os caminhos estão bloqueados, nada existe, pois “se, de facto, nem o ente existe nem o não ente nem ambos e para lá destes nada existe susceptível de ser pensado, nada existe” (DK 82 B 3, 76 In: SOFISTAS, 2005, p. 115).
Górgias volta-se, assim, aos caminhos do Poema para bloquear não só a via do não ser, como pretendeu toda ontologia parmênido-platônica-aristotélica, mas também para bloquear a via do ser e, com isso, interditar a ontologia desde o início. Por isso, Bárbara Cassin falava que com a sofística, em especial com Górgias, “somos confrontados com uma tomada de posição tão forte acerca da ontologia e da metafísica em geral, que ela bem poderia revelar-se filosoficamente não superável” (CASSIN, B., 2005, p. 16), já que a sofística se revelaria um lugar para o pensamento de “esquiva do metafísico e alternativa, desde os pré-socráticos, à linhagem clássica, parmênido-hegeliana, da filosofia.” (CASSIN, B., 1990, p. 17). Essa posição sofística é tão forte “ontologicamente” que exclui a possibilidade de tornar qualquer coisa sujeito de existência ou não existência, pois “se 'ser' e 'não-ser' não têm existência, então eles nunca poderão servir de verbo em nenhuma frase, caso em que não se poderia dizer, de nenhum sujeito, que ele é ou que não é.” (CASSIN, B., 2005, p. 21-22). Nada é sujeito de existência, nada existe. Mas antes de avaliar se essa tese sofística é mesmo não superável e que consequências traria ao pensamento, em especial em educação, cabe ainda concluir a análise das duas outras teses de Górgias: se algo existe, não é apreensível ao homem e, se é apreensível, é intransmissível e inexplicável a outrem.