Depois de limpar as coisas no norte da África e de fazer a já padronizada rodada de levantamento de fundos, César voltou a Roma. Foi um período de fortalecimento, reformas e celebrações.
César foi eleito ditador por dez anos e censor por três, tendo poder sobre todos os funcionários públicos, incluindo os senadores. Também recebeu muitas honrarias públicas.
Já em 49 a.C., César tinha começado uma onda de reformas no governo e na sociedade romana que, mais tarde, aprofundou. Governo, economia, cidadania, religião, prédios públicos, questões dos veteranos – tudo foi afetado. De longe, a reforma mais duradoura foi a do calendário romano. César deu a Roma o calendário solar de 365 dias, mais o ano bissexto que ainda é usado hoje na maior parte do mundo (com poucos ajustes em 1700). O novo calendário começou a ser usado em 1o de janeiro de 45 a.C.
E então veio a celebração. Um triunfo era uma espetacular marcha da vitória através da cidade de Roma por um general e seu exército, culminando em um sacrifício a Júpiter no monte Capitolino e um banquete público. O Senado deu a César permissão para celebrar quatro triunfos de uma vez – algo nunca visto antes. Ele não poderia celebrar a vitória na guerra civil, já que era impróprio comemorar a morte de cidadãos romanos. Então celebrou suas vitórias contra os gauleses – uma guerra que parecia muito distante – sobre os alexandrinos, sobre Fárnaces e contra o rei Juba da Numídia (passando por alto os aliados romanos de Juba, de Cipião a Catão). Durante quatro dias no verão de 46 a.C., desfiles vitoriosos encheram as ruas de Roma, seguidos por mais seis dias de jogos de gladiadores, banquetes e a dedicação de novos edifícios públicos. Os soldados de César receberam grandes bônus em dinheiro; cidadãos chefes de família também receberam pequenos pagamentos.
Mas a celebração foi prematura, pois havia problemas no Ocidente. Depois de conquistar a Espanha em 49 a.C., César cometeu o erro de indicar um governador que começou a apertar os habitantes locais, querendo dinheiro, até que os espanhóis responderam forçando-o a sair do cargo e, depois, recebendo o que sobrou do exército do Senado. O exército era liderado pelos filhos de Pompeu, Cneu e Sexto, e pelo antigo segundo em comando de César, Labieno. A Espanha era a última esperança dos
pompeianos.
César não podia deixar uma base tão rica e perigosa nas mãos do inimigo. Assim, no final de 46 a.C., ele montou mais uma expedição militar. Seus homens, exaustos, não estavam muito entusiasmados. Como sempre, César tinha pressa e deixou Roma em novembro, chegando à Espanha apenas um mês depois. A guerra aconteceu no sul da Espanha, na província romana de Bética (a Andaluzia moderna).
César tinha oito legiões, incluindo os veteranos das Legiões Quinta e Décima, e 8 mil cavaleiros. O inimigo tinha treze legiões, assim como um grande número de cavaleiros e auxiliares com armas leves. A maioria das forças pompeianas era de qualidade duvidosa, no entanto, assim seus comandantes não queriam arriscar uma batalha. Isso facilitou o trabalho de César – que era forçá-los a lutar.
César atacou todas as cidades do inimigo, uma após a outra. No começo, o problema comum de suprimentos o atrasou, mas, depois de poucas semanas, ele começou a avançar. César principiou a atrair apoiadores e soldados do inimigo como um ímã. Para manter seu exército inteiro, Cneu Pompeu não tinha escolha a não ser lutar.
A batalha decisiva aconteceu nos arredores da cidade de Munda (perto de Sevilha) em 17 de março de 45 a.C. Os pompeianos mantinham a cidade, enquanto César e seus homens estavam acampados na base da colina, ao lado de uma ampla planície. Quando seus batedores informaram que o inimigo estava finalmente se preparando para lutar, César levantou a bandeira da batalha. Ele organizou suas tropas com a Décima Legião à direita e a Terceira e a Quinta à esquerda, reforçadas pela cavalaria e os auxiliares.
Apesar de César esperar que o inimigo descesse do terreno alto para lutar na planície, os pompeianos se recusaram a abrir mão dessa vantagem. Mas então viram os homens de César hesitantes, por isso desceram da colina, e a luta começou.
A batalha de Munda não foi uma segunda Tapso, em que os inimigos de César se viraram e praticamente saíram correndo à primeira visão do sangue. Munda foi mais difícil do que Farsala, na qual os legionários de Pompeu tinham mantido suas posições o máximo que conseguiram. Na verdade, o inimigo em Munda foi o mais resistente que César já tinha enfrentado.
Os homens de Pompeu sabiam que era o fim da linha. Para muitos deles, entregar-se significaria escravidão ou execução. Haviam violado os termos do perdão de César na guerra de 49 a.C. e, depois, tinham piorado a
situação ao se revoltar contra o governador da Espanha escolhido por César. Por outro lado, os soldados de César estavam entusiasmados pela presença de seu comandante e reforçados pela experiência. Ademais, queriam terminar de uma vez por todas com a guerra civil.
Por um tempo, o resultado da batalha parecia duvidoso. Incapazes de deixar as coisas nas mãos dos outros, César e Cneu Pompeu entraram na luta.
A luta mais dura aconteceu nos dois flancos. A Décima Legião de César, sempre confiável, começou a empurrar a esquerda do inimigo. Para sustentar seus homens, Cneu Pompeu começou a mover uma legião da direita com o objetivo de apoiar a esquerda. A cavalaria de César respondeu atacando o enfraquecido flanco direito do inimigo.
Mesmo assim, os pompeianos aguentaram até que um movimento de Labieno provocou um pânico inesperado. Labieno ordenou que cinco tropas – uns 4 mil homens – mudassem de posição para proteger o acampamento deles de outra unidade da cavalaria de César. Para chegar lá, os homens de Labieno precisavam cruzar o campo de batalha. Soldados veteranos teriam entendido o movimento deles, mas, para os inexperientes de Pompeu, parecia o começo de um recuo. Uma parte de seu exército se virou e fugiu.
O resultado foi um caos. As forças de César começaram a massacrar o inimigo. Quando estava tudo terminado, eles tinham matado 33 mil pompeianos, incluindo 3 mil nobres romanos (homens muito ricos) – ou foi o que afirmaram. César admitiu mil mortos e quinhentos feridos, que eram números altos para ele, e um sinal de como a batalha tinha sido difícil. Labieno foi um dos mortos. César organizou um funeral apropriado para seu segundo em comando.
Várias histórias circularam depois sobre o ponto baixo de César durante a batalha. Uma fonte diz que ele correu para incentivar seus homens, que estavam sendo empurrados pelo inimigo. “Não têm vergonha de me entregar para estes meninos?”, supostamente disse César. Irônico e debochado, estava muito distante de Alexandre com seu capacete com plumas, mas incentivou as tropas do mesmo jeito. Dizem que César comentou com seus amigos, quando deixou o campo de batalha, que, em Munda, pela primeira vez, sua vida esteve em risco. (Não é verdade, pois sua vida já tinha estado em perigo antes, em Dirráquio e em Alexandria, por exemplo.) Finalmente, existe a informação de que César até considerou o suicídio em um momento durante a batalha, quando pensou que tudo estava perdido. Talvez.
Em Munda, os homens de César pareciam velhos e cansados, mas eram mais experientes do que o inimigo; e isso foi o que contou no final, assim como a superioridade de César na cavalaria. E, por fim, lá estava o próprio César, infatigável sob pressão. O perfeito político, ele pensava sem premeditação e dizia o que fosse preciso para mover seus homens.
As campanhas de César no norte da África e na Espanha foram muito mais descuidadas do que qualquer uma das realizadas por Alexandre ou Aníbal. Ao contrário deles, César não gostava de se fantasiar. A forma como organizou o ataque de cavalaria em Farsala foi inteligente, mas as táticas de batalha de César não oferecem nada de mais em comparação com a sinergia de armas combinadas de Alexandre ou a astúcia de Aníbal.
A logística de César era desordenada. É difícil imaginar Alexandre, o planejador meticuloso que cruzou o rio Hidaspes, tolerando os desembarques desorganizados de César na costa norte-africana. Nem Aníbal, o mestre manipulador de Canas, teria tolerado a insubordinação em Tapso. E, mesmo assim, César conseguiu o que queria, e nem Alexandre nem Aníbal teriam algo a ensinar-lhe sobre projetar uma imagem vitoriosa para seus homens.
A batalha terminou, a cidade de Munda se preparou para um sítio. Depois que os homens de César a cercaram com uma horrível “paliçada” de cadáveres e várias cabeças decepadas em cima de postes, Munda se rendeu. Cneu Pompeu fugiu, mas seus inimigos o alcançaram uns dias depois. Sua cabeça foi cortada e levada a César.
Depois de resolver alguns problemas e levantar dinheiro, César voltou para Roma, aonde chegou em junho de 45 a.C. Com o final da campanha espanhola, a guerra civil havia terminado. Então vinha a parte difícil: pacificar a classe política de Roma.
A ESSÊNCIA DA DECISÃO
Sucesso ao fechar o cerco exige quatro coisas: estratégia, agilidade, nova infraestrutura e gerenciamento moral.
O maior erro de um vencedor depois de ganhar uma grande batalha é esperar que o sucesso caia em seu colo. Ao contrário, como a necessidade é a mãe da invenção, o derrotado provavelmente será mais engenhoso do que nunca, e talvez ainda mais perigoso. O vitorioso precisa julgar muito bem seu próximo movimento. Ele deve escolher a estratégia correta. É o momento de negociar ou de deixar clara sua vantagem? Se ele atacar, qual é o alvo correto; a capital do inimigo, seu exército ou sua liderança?
Assumindo que ele escolha corretamente e ataque com sucesso, ele então precisa decidir como saberá quando a guerra estiver ganha. Ele exige rendição incondicional ou está disposto a permitir que o inimigo derrotado negocie os termos? E se seu ataque fracassar e o inimigo conseguir responder, ele deverá considerar diminuir suas perdas e se retirar?
Para realizar sua estratégia é preciso agilidade. Ganhar uma batalha campal não é o mesmo que realizar uma perseguição, tomar uma cidade sitiando, organizar ataques rápidos e emboscadas ou conquistar populações civis.
E não adianta nada planejar o próximo movimento corretamente se um comandante não tiver os recursos para realizá-lo. Nossos três comandantes precisavam de mais dinheiro e homens depois de grandes vitórias no campo de batalha.
Finalmente, eles tiveram de superar as frustrações de uma longa guerra e manter o apoio tanto de seus exércitos quanto de sua base política.
Nossos comandantes encararam esses desafios com sucesso diverso. Notamos, a princípio, que a qualidade dos inimigos que eles enfrentavam variava muito. Alexandre encarou um inimigo muito capaz em Espitamenes e outros que não ficavam atrás em Bessos e Poro, mas nenhum deles poderia rivalizar em termos de recursos. Poucas pessoas no império persa sentiram uma lealdade tão profunda com o governo, poucos homens estavam dispostos a morrer por Dario ou Bessos.
César enfrentou um grande tático em Labieno, mas felizmente ele nunca teve o comando supremo. Entretanto, César teve de enfrentar a determinação de um Catão, a disposição de um Juba e o espírito dos filhos de Pompeu. Seus inimigos também tinham muito dinheiro. Mas César estava lutando uma guerra civil. Não era um invasor estrangeiro e perdoava seus inimigos. A maioria das pessoas achou fácil mudar do lado de Pompeu para o dele quando o vento começou a soprar a seu favor.
Em Roma, Aníbal encarou a maior república no mundo antigo. Roma criou e implementou uma brilhante contraestratégia a Aníbal – a estratégia fabiana. Sim, havia choques na estrada para a implementação, mas, no final, Roma implementou a estratégia forçadamente. O apoio ao governo de Roma corria muito fundo entre seus cidadãos. Os aliados centro-italianos de Roma eram quase tão leais e patrióticos. Eles odiavam Aníbal e nunca se entregariam sem uma luta. Quanto mais longa fosse a guerra, maior seria a chance de que os generais de Roma aprendessem com o mestre e adotassem técnicas de campo de batalha bem-sucedidas. O tempo todo eles tinham muito dinheiro e homens. Realmente, Aníbal teve de vencer os