3 OS COMPONENTES DA LEITURA ESTRATÉGICA
3.2 O processamento cognitivo da leitura
3.2.3 Níveis de compreensão
Compreender um texto é estabelecer relações entre as diferentes ideias nele veiculadas e na ligação do texto com os conhecimentos prévios (GOMES; BORUCHOVITCH, 2009, p. 35). A partir das experiências acumuladas em outras situações de leitura e que são ativadas durante a decodificação de palavras, de frases e de ideias do autor, pode-se formar a compreensão em leitura. O leitor, desse modo, organiza e estrutura essas novas informações em sua mente. Nessa perspectiva, é mister afirmar que “a compreensão de textos envolve processos cognitivos múltiplos, justificando o nome de ’faculdade’, que era dado ao conjunto de processos, atividades, recursos e estratégias mentais próprios do ato de compreender” (KLEIMAN, 2000, p. 9).
No modelo de leitura proposto por Orlandi (2005) compreendem-se três níveis de leitura: a) o nível da inteligibilidade; b) o nível da interpretação e c) o nível da compreensão. No nível da inteligibilidade, há um reconhecimento do material a ser lido, no qual os sentidos já estão presentes, e não são ainda vistos como determinados pelo contexto. Para exemplificar, podemos dizer que um falante de português como primeira língua compreende um enunciado em língua portuguesa, porque ele reconhece a língua em que o enunciado foi escrito. Já a leitura de
interpretação diz respeito ao contexto lingüístico que mobiliza os sentidos, já que as palavras tomam significado a partir do contexto. O leitor, nesse nível, está prestes a chegar à compreensão dos pontos principais do texto. Por fim, tem-se o nível de compreensão, em que são considerados os contextos ideológicos e históricos que mobilizam a interpretação crítica do material lido; ou seja, há no nível de compreensão uma busca pela explicitação dos processos de significação presentes no texto e como este produz sentidos.
É importante lembrar que sem o nível da inteligibilidade, torna-se impossível para o leitor atingir os outros níveis, pois diz respeito à capacidade do leitor de decodificar o código escrito.
Por outro lado, o modelo de Van Dijk e Kintsch (1983) distingue três níveis de compreensão: o nível de “macroestrutura” que se relaciona à estrutura do texto, o nível de “argumentação” que se dirige à explicação do autor para o tema do texto e, os “detalhes” que constituem o acréscimo de idéias não significativas à compreensão do texto. Além disso, há o nível de “inferência”, em que o leitor se utiliza de conhecimentos extra-textuais ou conhecimentos prévios para o processamento da informação.
Fundamentados em Pearson e Johnson (1978, p. 24), Silveira (2005, p. 93) traça quatro princípios que, segundo ela, “parecem coerentes com a visão construtivista da aprendizagem, da compreensão em geral e especificamente da compreensão de textos escritos”. São eles: a) compreender é construir pontes entre o novo e o já conhecido; b) a compreensão é ativa e não passiva; c) a compreensão envolve uma grande quantidade de inferências; d) a compreensão é o diálogo entre o leitor e o escritor.
Menegassi (1995) acredita em três níveis distintos quando se trata de compreensão: o literal, o inferencial e o interpretativo. O nível literal diz respeito à leitura realizada ao “pé da letra”, ou seja, apenas se identificam as ideias do material lingüístico tais como elas aparecem no texto, sem atribuir-lhe nenhuma relação. Nesse caso, não ocorrem associações mentais que permitam relações com informações armazenadas na memória do leitor. Por essa razão, o leitor, nesse nível de leitura, não consegue extrapolar seus esquemas cognitivos, ocasionando uma compreensão superficial e limitada do conteúdo do texto.
Conforme o mesmo autor, o nível inferencial, como denota o próprio nome, acontece quando o leitor realiza inferências no processamento do texto, no sentido
de haver interação entre o texto e o leitor. Já o nível interpretativo, o leitor relaciona os conteúdos do texto com seu conhecimento prévio, uma vez que o leitor passa a julgar a nova informação, posicionando-se frente o texto.
Há ainda, segundo Menegassi (1995) o nível de retenção, ou seja, o leitor retém as informações mais importantes do texto na memória de longo prazo, ocorrendo a partir do nível de compreensão (quando o leitor apreende a temática e os tópicos mais importantes) ou de interpretação (quando o leitor realiza uma retenção mais profunda do conhecimento).
Oliveira, Cantalice e Freitas (2009) também subdividem a compreensão em três níveis: o literal, o inferencial e o elaborativo. O primeiro refere-se à capacidade do leitor de apreender detalhes específicos do texto. O nível inferencial trata da habilidade de organizar o material lido a partir da associação com outras informações; por fim, o elaborativo, que se refere à capacidade do leitor de fazer juízo de valor das informações do texto, fazendo associações mais complexas.
Tumolo (2008) comenta que, em geral, são três os níveis para os quais a compreensão é utilizada: compreensão literal, compreensão nas entrelinhas e compreensão para além das linhas. Essas taxonomias são discutidas por Pearson e Johnson para a elaboração de testes de compreensão.
Alderson e Urquhart (1984) defendem que esses níveis de leitura não têm relação com o processo de compreensão, mas sim com o produto, ou seja, o que o leitor apreendeu do texto. Segundo eles, descrever o que o estudante compreendeu de um texto é completamente diferente de descrever como ele chegou a tal compreensão.Ainda, os autores afirmam que é possível que os leitores usem processos similares para chegar a diferentes produtos (ALDERSON; URQUHART, 1984, p. xvii-xviii).
Em se tratando dos âmbitos escolares e acadêmicos, é necessário que o professor de língua estrangeira, particularmente o professor de Inglês Instrumental voltado para a leitura, trabalhe com uma perspectiva que seja favorável ao desenvolvimento em leitura dos estudantes, principalmente auxiliando-os a atingir o nível inferencial e interpretativo dos textos, em detrimento de uma leitura centrada na mera decodificação e compreensão literal. Contudo, o conhecimento prévio do leitor, bem como seus objetivos de leitura são os aspectos que determinarão o nível de leitura que se deseja alcançara partir da leitura de determinado texto.
A seguir, serão delineados os instrumentos que têm sido utilizados no ensino de língua estrangeira para avaliar o processo de compreensão de textos, bem como discutiremos sobre a importância desses instrumentos para a avaliação, dada a complexidade inerente ao processo de leitura.
4 A AVALIAÇÃO DA COMPREENSÃO DE TEXTOS ESCRITOS E SEUS