2.2. O modelo de análise de textos do ISD
2.2.3. Nível Enunciativo
O nível enunciativo é constituído pelos mecanismos de responsabilização enunciativa, os quais, segundo Bronckart (2008) contribuem para dar ao texto sua coerência pragmática (ou interativa). Entre eles, destacam-se: as marcas de pessoa,
os índices de inserção de vozes, as modalizações e outras marcas de subjetividade como os adjetivos, os substantivos e as formas verbais.
Com a alternância dos pronomes pessoais, podemos visualizar o estatuto individual ou coletivo posto em cena e atribuído a um determinado agir. Assim, as
marcas de pessoa permitem mostrar como o texto representa o enunciador no agir
representado.
Sobre as vozes que se manifestam no texto, Bronckart (1999[2009]), afirma que o agente-produtor de um texto mobiliza um ou vários mundos discursivos, os quais são constituídos de coordenadas e de regras de funcionamento diferentes das do mundo empírico em que ele está inserido. Por meio das instâncias que regem esses mundos virtuais (o enunciador ou textualizador, segundo Bronckart), distribuem-se e são conduzidas as vozes que se exprimem no texto, isto é, as entidades que assumem a responsabilidade pelo que é expresso no texto.
Nessa perspectiva, as vozes são reunidas em três subconjuntos: a voz do
subconjunto a que pertençam essas vozes, elas podem ser implícitas, sugeridas pela leitura do texto, ou podem aparecer de forma explícita, por meio de formas pronominais, de sintagmas pronominais, assim como de frases e segmentos de frases, explica Bronckart (Ibidem).
A análise dos índices de inserção de vozes (estejam elas presentes, ausentes, de forma explícita ou pressuposta) possibilita identificar a quem é imputada a responsabilidade de um determinado agir linguageiro. Machado e Bronckart (2009) complementam que é importante, ao identificar as vozes explícitas, verificar a ocorrência de discurso direto, discurso indireto e marcadores de discurso segundo (segundo X, para X etc.). Além disso, também acentuam a relevância de registrar a presença de outros índices como aspas, diferentes formatações, jargões etc., uma vez que a análise qualitativa de todos esses elementos é capaz de revelar os graus de distanciamento ou de aproximação com que o enunciador se relaciona com diversas vozes presentes no texto.
No que diz respeito às representações do agir, o foco recai sobre o que é dito pelas vozes. Conforme Machado e Bronckart (2009), as pesquisas do grupo ALTER têm apontado que, em um mesmo texto, pode haver diferentes representações de um mesmo agir, em acordo ou desacordo, implicando, portanto, um debate social.
Bronckart (2008) explica que a partir das vozes que se exprimem no texto, manifestam-se avaliações (julgamentos, opiniões, sentimentos) relativas a determinados aspectos do conteúdo temático, o que ele caracteriza como modalizações.
As modalizações, de acordo com Bronckart (1999[2009]), são distribuídas em:
lógicas, deônticas, apreciativas e pragmáticas. Tais avaliações pertencem à
dimensão configuracional do texto e deste são independentes quanto à linearidade e à progressão. Isso explica que possam ser locais e discretas. Sua utilidade consiste em orientar o destinatário na interpretação do conteúdo temático. No que tange à identificação, as modalizações são detectadas por meio de formas verbais, advérbios, locuções adverbiais, frases impessoais e outros tipos de frase.
As modalizações lógicas (ou epistêmicas) constituem-se de julgamentos que se apoiam em conhecimentos advindos das coordenadas formais do mundo objetivo relativos à verdade ou às condições de possibilidade do que se enuncia. Por
exemplo: “ISSO eu devo ao curso de magisTÉrio... sem dúvida nenhuma... porque o curso de letras NÃO aprofundou muito...” (Texto 1, p.5, l.2014-215).
As modalizações deônticas caracterizam-se por julgamentos que mobilizam valores sociais, apoiados nas regras que constituem o mundo social (direito, obrigação social, normas em uso). Por exemplo: “os pais deveriam te ver assim como... pah.. eu vou ouvir o que essa pessoa tem pra dizer.. se ela está me dizendo isso..” (Texto 4, p.46, l.506-508).
As modalizações apreciativas apresentam julgamentos subjetivos (da voz que é fonte desse julgamento), avaliando alguns aspectos do conteúdo temático como benéfico, infeliz, estranho etc. Por exemplo: “o resultado foi riDÍculo (frase exclamativa)... eu não vou nem avaliar aquilo lá... porque não deu... foi assim... eu digo GENTE:: mas o que que é I:SSO?.” (Texto 3, p. 28, l.283-285).
As modalizações pragmáticas explicitam a responsabilidade (capacidades, intenções, motivos ou razões) de uma instância agentiva (personagem, grupo instituição) mobilizada pelo texto, considerando os processos que lhe são imputados. Por exemplo: “eu... ía tentar o inglês porque... a experiência que eu tinha de inglês na outra escola era de alunos... apaixonados pela língua estrangeira...” (Texto 2, p.13, l.65-67).
Machado e Bronckart (2009) complementam que, além desses quatro tipos de modalizações, existe a possibilidade de um “grau zero” da modalização do enunciado. Os autores explicam que pode ocorrer o emprego de simples asserções, positivas ou negativas, as quais se mostram como uma constatação pura (sem avaliação). Por meio dessa constatação, a instância enunciativa explicita a proposição como sendo uma verdade incontestável. Por exemplo: “sabe.. a .. a máxima aí que alguém disse que tu já sai da graduação desatualizada?” (Texto 4, p. 47, l.561-562).
Por último, o nível enunciativo inclui, ainda, outras marcas de subjetividade como os adjetivos, os substantivos e as formas verbais, que são mecanismos importantes para a identificação das representações sobre o agir do professor. Esses elementos constituem como marcas de subjetividade do enunciador ou dos próprios actantes, exprimidas pelo enunciador. Tais marcas revelam as diferentes reações das instâncias enunciativas a respeito de um determinado objeto temático.