Não raro, o pensamento político de Nietzsche foi - e infelizmente ainda é - apropriado indevidamente. O caráter assistemático na apresentação e aberto na conceituação faz com que seus textos e ideias se prestem a citações intencionalmente descontextualizadas, no intuito de que forneçam alguma autoridade ou fundamento a ideologias que não são verdadeiramente nietzscheanas, mas daqueles que recorrem a tais artifícios. Assim, já se tentou utilizar Nietzsche como fundamento para o liberalismo, o anarquismo e o conservadorismo, além das diversas formas de totalitarismo, como o nacional socialismo e o fascismo. Obviamente, como será demonstrado no momento oportuno, nada disso é sustentável quando os textos do filósofo são tomados e compreendidos em sua real contextualização e originalidade.
Uma das confusões que se formam em torno do pensamento político de Nietzsche é saber se ele é um anarquista, para quem o Estado deve ser abolido como um mal, ou um totalitarista, para
222 NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Tradução de: Paulo César de Souza. Segunda dissertação. § 17. p. 74. eKGWB:
<http://www.nietzschesource.org/#eKGWB/GM-II-17>.
quem o Estado e seus líderes devem ser enaltecidos e fortalecidos ao máximo, como bens indispensáveis.
A dúvida não é de todo desarrazoada, uma vez que, por um lado, encontramos em textos do jovem Nietzsche que, “Sem o Estado, no natural bellum omnium contra omnes223, a sociedade não pode lançar raízes em escala maior e além do âmbito familiar” (CV/CP, O Estado grego)224, o que sugere uma visão de essencialidade do Estado e apologia à sua existência, principalmente para o leitor que não considere esse texto em relação ao conjunto da obra; por outro flanco, sugerindo o oposto em sua filosofia madura, Nietzsche afirma que “[...] o Estado mente em todas as línguas do bem e do mal, e o que quer que diga, mente – e o que quer que tenha, roubou” (Za/ZA I, Do novo ídolo)225, ou então, em outra passagem, pede “O mínimo de Estado possível!”, sob a escusa de que
“Nenhuma situação política e econômica merece que justamente os mais talentosos espíritos se ocupem dela: um tal emprego do espírito é, no fundo, pior do que um estado de indigência” (M/A 179)226 – aqui se referindo ao emprego de homens nobres no serviço estatal.
Que Nietzsche devemos adotar em relação ao Estado: o jovem filósofo que vê sua essencialidade para a existência e manutenção da sociedade ou o filósofo maduro que parece considerá-lo algo nocivo? Na verdade, a filosofia de Nietzsche comporta ambas as posições, a depender de que Estado está em questão.
223 Guerra de todos contra todos.
224 NIETZSCHE, Friedrich. Cinco prefácios para cinco livros não escritos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013. Tradução de: Pedro Süssekind. p. 45. eKGWB : <http://www.nietzschesource.org/#eKGWB/CV-CV3>.
225 NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: livro para todos e para ninguém. 1ª ed. São Paulo: Companhia de Bolso, 2018. Tradução de: Paulo Cesar de Souza. p. 47. eKGWB: < http://www.nietzschesource.org/#eKGWB/Za-I-Goetzen>.
226 NIETZSCHE, Friedrich. Aurora: reflexões sobre os preconceitos morais. São Paulo: Companhia de Bolso, 2016.
Tradução de: Paulo César de Souza. § 179. p. 121. eKGWB: < http://www.nietzschesource.org/#eKGWB/M-179>.
Quando faz apologia ao Estado, Nietzsche se refere àquele que promove “a inserção de uma população sem normas e sem freio em uma forma estável227” (GM/GM II, 17)228, ou, para dizer com outras palavras, àquele que “é o meio pelo qual se realiza o processo social de impor disciplina política ao indivíduo” (ANSELL-PEARSON, 1997, p. 87)229, sempre lembrando que o fim dessa “forma estável” ou “disciplina política” é a unidade estética de um povo fisiologicamente orientada para o que Nietzsche entende como cultura superior, a que busca afirmação da vida e elevação ao além-do-homem por intermédio do máximo desenvolvimento da natureza humana em todos os seus aspectos.
Por outro flanco, quando se apresenta como detrator do Estado é por entender que a “forma estável” ou “disciplina política” não estão ocorrendo a contento, o que dá azo a uma sociedade disforme, sem unidade estética, sem orientação fisiológica, incapaz de chegar à cultura afirmadora da vida. Uma passagem de Assim falou Zaratustra, conhecida como Do país da cultura, ilustra essa preocupação de modo poético, descrevendo “a terra de todos os potes de tinta”, numa alusão metafórica à mistura de todos os estilos estéticos:
[...]
Eu ria e ria, enquanto o pé ainda tremia, e também o coração: “Aqui deve ser a terra de todos os potes de tintas!” — disse eu. Com cinquenta borrões de cores no rosto e nos membros: assim vos encontráveis ali, para meu espanto, ó homens do presente! E com cinquenta espelhos ao vosso redor, que lisonjeavam e repetiam vosso jogo de cores! Em verdade, não poderíeis usar máscaras melhores do que vossos próprios rostos, ó homens do presente! Quem poderia — reconhecer-vos? Inteiramente inscritos com signos do passado, e com novos signos pincelados sobre esses signos:
assim vos escondestes bem de todos os intérpretes de signos! E, mesmo quando se é um escrutador de rins: quem ainda crê que tendes rins? Pareceis
227 Não confundir “forma estável” com forma estática. Segundo nos parece, ao utilizar a expressão “forma estável”
Nietzsche quer se referir a uma sociedade em que as hierarquias e papéis sociais já estão definidos e não se busca, a todo momento, alterá-los por intermédio de revoluções desestruturantes e dissipadoras das energias que devem ser acumuladas. Isso nada tem a ver com uma forma estática, que remete a uma sociedade privada do movimento perene do seu devir por conta dos valores absolutos nos quais se baseia, e que, por isso, permanece congelada, ou, para usar o léxico nietzscheano, “doente”.
228 NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Tradução de: Paulo César de Souza. Segunda dissertação. § 17. p. 74. eKGWB:
<http://www.nietzschesource.org/#eKGWB/GM-II-17>.
229 ANSELL-PEARSON, Keith. Nietzsche como pensador político: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. Tradução de: Mário Gama e Cláudia Martinelli Gama.
formados de cores e pedaços de papel com cola. Todos os tempos e povos transparecem coloridos atrás de vossos véus; todos os costumes e crenças falam coloridos através de vossos gestos. Quem entre vós retirasse os véus, capas, cores e gestos, manteria apenas o suficiente para espantar os pássaros. (Za/ZA II, Do país da cultura)230
O que se vê, então, é que as críticas nietzscheanas ao Estado não são ontológicas. O Estado em si não foi detratado, tal como faria um anarquista. Ao atacar o Estado, Nietzsche tem em mira especificamente suas circunstâncias modernas, referentes aos “homens do presente”, quais sejam: a impregnação social de valores cristãos que, no campo político e jurídico, descambam em igualitarismo democrático e, a partir daí, eliminam o pathos da distância necessário à ordenação hierarquizada da sociedade, promovendo desordenada mistura de todos os estilos e criando uma terra de “todos os potes de tinta”, que na política se manifesta por intermédio das muitas correntes ideológicas abrigadas pelos “melhoradores da vida”, que por serem considerados “iguais”, estão igualmente legitimados a se lançarem na disputa pelo poder do Estado, pois esperam fazê-lo agir conforme a sua particular doutrina de melhoramento da vida, que jamais deixa de disputar espaço com todas as demais, dispersando assim as energias nesse turbilhão sem fim, e jamais permitindo que se aja por muito tempo em qualquer sentido, haja vista o incessante revezamento de doutrinas melhoradoras da vida que se apossam do Estado.
Seria um equívoco perguntar se justamente Nietzsche, o filósofo que se pretende além de bem e mal, vê no Estado um bem ou um mal em si mesmo, pois o Estado, tal como assentado em sua filosofia, pode ser um bem ou um mal, e isso dependerá de sua aptidão para servir à sociedade, dando a ela organização e formatação compatíveis com a perene elevação da cultura de afirmação da vida. Copleston, abordando a relação de Nietzsche com o Estado, nos afirma que
O Estado é benéfico, tanto quanto ele opera a perfeita formação da sociedade, que é necessária para o aparecimento da verdadeira cultura; mas é perigoso, tanto quanto ele se converte num ídolo, subordina todos os elementos aos seus próprios interesses práticos e entrava o aparecimento de espíritos livres e criadores. (COPLESTON, 1972, p. 249-250)231
230 NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: livro para todos e para ninguém. 1ª ed. São Paulo: Companhia de Bolso, 2018. Tradução de: Paulo Cesar de Souza. p. 114-115. eKGWB:
<http://www.nietzschesource.org/#eKGWB/Za-II-Bildung>.
231 COPLESTON, S. J. Frederick. Nietzsche: filósofo da cultura. Porto: Livraria Tavares Pinto, 1972. 296 p. Tradução de: Eduardo Pinheiro.