L EITURA DO S ENTIDO
IV.I. O E SPÍRITO DO L UGAR
IV.I.III. N O T ERMO DO P ROMONTÓRIO
É aqui, no limite do Cabo entre o solo e o abismo, numa fronteira de dimensão mínima, que mais se sente o contacto dos elementos naturais entre si, e connosco. E são várias as forças que aqui se fazem mostrar: a escarpa, tão vertical quanto possível e com as linhas de sedimentação perfeitamente definidas, quase artificiais; o vento, já referido, sempre muito forte nas zonas de cabo; o mar que pela costa recortada entra dentro de terra, ou é invadido por esta; e o sol, na maior parte dos dias forte e alto, e movendo-se para Oeste, como que imitando ou guiando o nosso caminho. Estamos perante um ambiente que se experimenta sobretudo neste ponto do Cabo e que se aproxima muito do sentido nas montanhas. Assim, o Cabo Espichel aproxima-se desta, acarretando grande parte do seu simbolismo. Estes lugares, que Christian Norberg-Schulz define como espaços de onde se pode passar de uma zona cósmica para a outra, foram desde sempre considerados axis mundi, locais propícios ao contacto com os deuses e que, por isso, ao serem vistos pelas populações como excepções no caos reinante, se tornaram centro orientador para a habitação do território envolvente.
“(…) creation is understood as a ‘marriage’ of heaven and earth. (…) The sky
primarily has ‘cosmic’ implications, whereas the earth may satisfy man’s need for protection and intimacy. (…) The marriage between heaven and earth forms the point of departure for the further differentiation of ‘things’. The mountains, thus, belongs to the earth, but it rises towards the sky. It is ‘high’, it is close to heaven, it is a meeting place where the two basic elements come together. Mountains were therefore considered ‘centres’ through which the axis mundi goes,… a spot where one can pass from one cosmic zone to another. In other words, mountains are places within the comprehensive landscape, places which make the structure of Being manifest. (…) In general, however, mountains remains ‘distant’ and somewhat frightening, and do not constitute ‘insides’ where man can dwell.”105
105 NORBERG-SCHULZ, Christian – Genius Loci: Towards a Phenomenology or Architecture. New York: Rizzoli, 1980, pp. 149 e 157.
Apesar de Norberg-Schulz relacionar esta significância apenas com a montanha, e de o movimento no Cabo Espichel se dar sempre na horizontal e não na vertical, não podemos deixar de confirmar a presença fortíssima da Natureza, esta ligação entre terra que protege e céu criador, que inculcará no homem o sentimento de estar perante algo maior que si mesmo. Como o autor refere, estes não constituem um lugar habitável, devido à presença opressora dos elementos naturais. Mas é este movimento unicamente horizontal e linear que, raramente relacionado com a paisagem da montanha, confere ao Cabo Espichel um significado particular, onde o homem não sente uma mudança de nível, apesar da presença supra-humana no lugar. Nesta diferença entre a paisagem da montanha e a paisagem do cabo reside a distinção essencial do significado de ambas: enquanto na montanha temos como objectivo o céu e o mistério que tudo abrange, nos cabos essa procura dá-se no plano de existência humano. Apesar de as condições que culminam na experiência metafísica serem externas ao homem, esse conteúdo imaterial existe intimamente. É o mistério interior, a pergunta última dentro de cada um, enfim o destino do ser humano que se manifesta e encontra resposta nestes lugares. Não se trata de um contacto com o Ser divino, mas com o imaterial dentro de cada um de nós. Neste sentido, sobretudo devido ao modo como estabelece o forte ímpeto para poente, o Cabo Espichel é único na maneira como cria as condições para que se dê o confronto entre cada um e as suas necessidades metafísicas, mesmo para o homem ateu. Não se trata, portanto, de uma subida aos céus, e sim de um trazer ao solo desses significados: esta é a primeira e mais importante premissa para a realizável habitabilidade deste lugar, um sinal de que este lugar é cosmificável, humanizável. Ainda assim, e como referimos, o confronto desigual com os elementos torna essa ocupação (no sentido da habitação plena de um lugar), no seu estado intocado, impossível.
“(…) no seu livro O Sagrado, Rudolf Otto dedica-se a expor as características
dessa experiência [religiosa] aterrorizante e irracional. Identifica o sentimento de pavor
diante do sagrado, diante desse mysterium tremendum, diante dessa majestas que
mysterium fascinans, onde desabrocha a perfeita plenitude do ser. Otto designa todas
essas experiências como numinosas, porque são provocadas pela revelação de um
aspecto do poder divino: o numinoso singulariza-se como qualquer coisa de «diferente» (ganz andere): radical e totalmente diferente: não se parece com nada de humano ou cósmico; por seu turno, o homem tem o sentimento da sua profunda nulidade, a noção de não ser mais do que «uma criatura», isto é, segundo as palavras de Abraão dirigindo-se ao Senhor, de não ser mais do que «cinza e pó». Das penetrantes análises de Rudolf Otto reteremos esta observação: o sagrado manifesta-se sempre como um poder de uma ordem totalmente diversa das forças naturais.”106
Não podemos, portanto, separar a experiência do lugar do Cabo Espichel do seu conteúdo religioso, onde a experiência do numinoso está sempre presente. Mais: trata-se, como referimos, de uma manifestação religiosa particular, onde não há uma alteração de nível, não há um esforço extraordinário por parte do homem para a alcançar, e sim uma coincidência espacial entre homem, natureza e mistério. No entanto, e pelas conclusões retiradas por Eliade, estas duas, a presença dos elementos e a experiência religiosa, são independentes e separáveis: estabelece-se a diferença entre a acção dos elementos naturais e a fixação do eu no infinito.