Assim, pelo talento, dedicação ao estudo e galhardia de atitudes, Júlio Frank conquistou a Universidade. Os professores não lhe regateavam elogios e os colegas disputavam-lhe a amizade, embora nem sempre fossem acolhidos de boa sombra. Tudo lhe era desculpado de envolta com um sorriso de simpatia. Quando no fim de 1827 chegou a Goettingue o jovem duque de Coburgo para matricular-se na classe de Filosofia, o dr. S., a quem sua alteza vinha recomendado, chamou a Frank, seu aluno de um curso gratuito de aperfeiçoamento, e convidou-o para repetidor das lições ao fidalgo, declarando-o naturalmente indicado para desempenhar tão insigne tarefa que lhe abriria as portas da popularidade. Por acréscimo, pingues proventos lhe adviriam do trabalho.
O estudante aceitou, agradeceu, mostrou-se sensibilizado pela lembrança do professor. Mas o forte de Júlio Frank não era, precisamente, um espírito prático. Sentiu-se ao primeiro sorriso da fortuna no dever de preparar-se para uma vida esplêndida. Faria isto e mais aquilo. Teria carro e criados de libré. Uma linda biblioteca e uma primorosa adega. E, descendo as escadas do dr. S., depois da aula em que foi feita a animadora oferta, ele esboçava projetos, urdia planos, falava sozinho...
Com o trabalho de quase três anos, havia amealhado pecúlio suficiente para levar a cabo o curso. Economizara cerca de 1.500 thalers, soma fabulosa para qualquer estudante,
notadamente para ele, familiar das noites ao relento e das gélidas horas de jejum. Mas com o rumo que ora tomava a vida — novo mas não inesperado, que ele tinha cega confiança no destino — bem poderia dispor do pecúlio, melhorando a apagada apresentação social que, amanhã, já não condiria com a sua situação de quase preceptor de príncipes. Além disso, dispunha de crédito, amigos ricos e poderosos...
Caminhava satisfeito, sorria para todas as coisas, devia estar resplandecente. Ao quebrar a primeira esquina, um mendigo caiu-lhe nos braços. Nada mais nada menos que o Andorinha. Esteve a pique de não reconhecê-lo. Se o diacho do rapaz não tivesse lembrado a serenata aos mortos e o rapto da cabrinha, talvez nunca o identificasse naquele vadio.
— Como! Você por aqui?
— Em carne e osso. Há cerca de um ano deixei Gotha. — Para a Escola Naval, na conquista das estrelinhas de almirante?
— Não. Fugido da polícia. Numa noite de chuva dei várias tesouradas na barriga de um indivíduo.
— Ah!
— Vim a pé. Não sei há quanto tempo não durmo nem sento à mesa para comer.
— Dou-lhe emprego; você vai ser meu mordomo, até poder continuar os estudos navais...
Nesse mesmo dia comprou libré para o Andorinha, alugou um apartamento mobiliado, encheu o guarda-roupa de bem talhadas casacas. Daí por diante, pela mãos dos admiradores, que tinham crescido muito em número, penetrou nos salões literários em voga e onde o brilho de sua inteligência alcançou êxito.
À noite, paravam ricas carruagens à sua porta; eram gentis-homens que iam buscá-lo para concertos, bailes, passeios. Chegou a receber em casa já não a sociedade, que essa
era por demais exigente, mas um número escolhido de estudantes, artistas, moças cultas e lindas. Passou a ser disputado e, mais do que nunca, a fazer leilão de amizades. Foi em tal meio que um desmedido orgulho desabrochou em sua alma, tornando-o irreconhecível.
Por esse tempo, supondo-o rico, os pais, que pouco se haviam interessado por ele, começaram a escrever-lhe comovidas cartas. Júlio nem as lia; atirava-as com tédio para o fogão.
O mordomo andava numa dobadoura.
O dinheiro em sua mão escoava-se, como água em cesto. Esvaziava-se assustadoramente o cofre.
Por outro lado, o dr. S. demorava-se em apresentar-lhe o jovem duque; nos últimos tempos, sem ao menos uma desculpa, havia suspendido o curso gratuito que lhe ministrava em sua residência. Limitava-se a mandar dizer pelos criados que não estava em casa.
Sobrevieram as dívidas.
Era, pois, necessário acabar com aquilo; chamou o Andorinha e, com a largueza que era muito sua, com o desamor pelo ouro que levava os colegas a chamá-lo de Anárgiro, à semelhança de conceituado santo, passou-lhe para as mãos furadas o que restava da abundância dizendo:
— Salde todas as dívidas; dentro de pouco seremos ricos e célebres.
O Andorinha, nessa mesma noite, fugiu com o dinheiro. Soube depois que, antes de partir, fora à polícia denunciá-lo como autor de não se sabe quantos crimes; queria, certamente, vê-lo preso para fugir mais à vontade.
Frank só acreditou na infâmia do amigo depois de inutilmente esperá-lo durante três dias. E desde esse momento, a miséria de casaca entrou-lhe pela vida, de onde haviam fugido o tempo e o gosto pelo estudo.
Naquele cenário quase de luxo, passava dias sem almoço. Fazia, às vezes, complicada ginástica a fim de obter a moeda indispensável para tomar o fiacre e apresentar-se no salão onde era esperado. Não raro, era o criado do vizinho quem lhe emprestava vinténs, sob régias promessas.
Pela última vez quis falar ao dr. S. e saber, afinal, quando o pequeno duque iniciaria as lições. Estava cansado de respostas vagas que valiam por evasivas. Chegando à sua casa teve de entender-se com os criados, no patamar da escada. Quando a porta se abriu, lobrigou no cabide chapéus e capas do professor e do duque; naturalmente estavam lá dentro a assentar o horário e a retribuição do seu trabalho. Pensava nisso quando o criado voltou e disse:
— O professor saiu.
— Mas o chapéu e a capa estão lá dentro... — Não é verdade, digo-lhe eu.
— Está bem...
Retirou-se com um nó na garganta, ao mesmo tempo com vontade de esbofeteá-lo. Na mesma noite veio a saber que o professor S., talvez esclarecido sobre a importância de alcançar a intimidade do duque pelo aparato com que Frank se havia preparado para isso, achou que devia guardar para si honras e proventos. A cólera do estudante subiu então ao auge e, munido de um compasso, ficou horas inteiras rondando a residência do mestre, disposto a vingar-se.
Os amigos começavam a afastar-se de Frank, a princípio discretamente, em seguida sem a menor reserva; seu lugar foi sendo tomado por interesseiros e bajuladores. Despeitado pela ausência de uns e exacerbado pela insistência de outros, descarregou sobre os últimos o mau humor, submetendo-os a descabeladas fantasias. O pior é que eles tudo aceitavam de boa sombra. Era de exasperar. Ao fim de cada ceia, após copiosas libações, tinham de sair para a rua com a roupa pelo avesso, ou com os sapatos trocados, pisando ovos. Prestavam-se de boa
mente, achando graça no que lhes era imposto. E o estudante, no paroxismo do desgosto, mordia os pulsos para não gritar.
Os credores entravam de fazer cauda diante da porta. Começaram os pedidos de espera por mais alguns dias, os protestos dos recalcitrantes, as desculpas esfarrapadas, as fugas pela porta de serviço, todo o drama do homem endividado. Adeus estudos, amizades, relações sociais; já não tinha tempo para nada.
No meio da aflição, escreveu uma carta a Weishaupt, lembrando o passado e pedindo-lhe dinheiro. A resposta não se fez esperar; mandou 20 thalers, quantia insignificante para as suas aperturas. Necessitava de muito mais! A seguir, expediu-lhe outra carta, enérgica, desesperada, a que o velho achou prudente não responder. Logo depois, uma terceira, em que lhe atirava em rosto supostos compromissos, supostos crimes. Mas Weishaupt se manteve ainda dessa vez e para sempre numa imperturbável mudez.
Certa manhã, recebeu do porteiro uma carta de Gotha, com as armas do castelo. Abriu-a sofregamente, na esperança de que o conselheiro tivesse resolvido atendê-lo. Mas a carta era de Carlos Frederico, tomado de súbito entusiasmo, congratulando-se com o êxito do filho em Goettingue e pedindo-lhe que, na abastança em que se encontrava, não esquecesse os velhos pais. O estudante primeiro empalideceu, depois escangalhou-se de rir.
Ele, que era o dono da casa, entrava e saía pela escada de serviço e ao longo do caminho topava com os serviçais do prédio que lhe mostravam os dentes com escárnio, como satisfeitos com o desastre. Na Universidade, o seu prestígio havia baixado muito. O professor S. urdia contra ele um enredo de descrédito, sem lhe dar quartel. Amigos e inimigos pareciam eclipsar-se à sua presença. Um ambiente de chumbo esmagava-lhe o derradeiro entusiasmo.
Murmuravam-se intrigas pelos corredores. Adiantava-se que o Conselho Universitário ia reunir-se para expulsá-lo. Que
rebentaria um pavoroso escândalo. E o autor de toda a trama de calúnias era o professor do duque. Voltou desesperado para casa, a fim de munir-se de uma arma e ir procurá-lo. Mas quando transpôs o portão, viu as poucas coisas que lhe restavam empilhadas no centro do pátio do prédio; tinha sido despejado. Alguns ociosos, parados diante dos objetos, faziam comentários jocosos.
Desde aquela hora, como desapareceu a noção de si mesmo; tornou-se uma coisa perdida, rolando sem destino pela sarjeta...
Certa noite, ao ser posto fora de uma cervejaria, encontrou o estudante desconhecido, aquele a quem se dirigira pouco depois da chegada a Goettingue. Reconheceu-o logo. Ele tomou-o pelo braço, levou-o para outro lugar e disse-lhe:
— Estou encarregado de comunicar-lhe que você vai ser expulso da Universidade. Seus inimigos trabalham para isso. Acho melhor, portanto, retirar-se de Goettingue por algum tempo, pelo menos até saldar as dívidas, e depois voltar para concluir o curso. Compreende?
Júlio repuxou a boca, num rictus de vencido. O outro, continuou:
— Hoje você dorme no meu quarto, pois eu já tenho quarto; amanhã cedo, embarcará para Berlim e levará com que viver nos primeiros dias... Depois, com vagar, tudo se arranjará...
— E quem faz essas coisas por mim?
— Não sei. Quem me incumbiu da tarefa foi o conselheiro da Universidade.
No dia seguinte, pela manhã, Júlio Frank tomava a diligência e seguia para Berlim. Na praça ainda deserta àquela hora, só ficou uma pessoa a agitar o lenço num adeus — o estudante desconhecido.