6.3 – O Contexto Internacional
6.3.2 Na Comunidade dos Estados Europeus (CEE).
A base legal para a regulamentação da explotação e comercialização de água mineral envasada nos países membros da União Européia são as Diretivas: 80/777/CEE, do Conselho de 15 de julho de 1980, alterada pela 96/70/CE, do Parlamento de 28 de outubro de 1996 e a 2003/40/CE, da Comissão de 16 de maio de 2003.
A Comunidade dos Estados Europeus vem, desde o início de sua formação, baixando Diretivas20 que tratam da padronização qualitativa dos alimentos, com a finalidade de possibilitar o amplo comércio dos produtos alimentícios fabricados nos países-membros.
Assim, a Diretiva 80/777CE define a água mineral natural e determina seu padrão de qualidade, sua classificação e os métodos de tratamento que pode sofrer.
O anexo I dessa Diretiva define água mineral natural, como uma água bacteriologicamente pura, que tenha sua origem no lençol freático ou jazimento subterrâneo e que brote em um ou mais pontos de um manancial, através de nascentes ou perfurações.
As águas minerais naturais podem distinguir-se da água potável por:
a) sua natureza, caracterizada por seu conteúdo mineral, de oligoelementos ou outros componentes, e, em situações, por determinados efeitos;
b) por sua pureza original, caracterizada pela origem subterrânea da água que lhe protege de contaminação.
Ainda no anexo I, fica caracterizado que são as condições descritas nas alíneas “a” e “b” que conferem à água mineral natural, propriedades terapêuticas, porém, devem ser observadas também as seguintes condições: geológica, hidrológica, físico, físico-químico e químico, microbiológico, farmacológico, fisiológico e clínico, estabelecidas, por métodos científicos reconhecidos pelas autoridades competentes.
20 Diretiva: instrução ou indicação fornecida por uma autoridade sobre a maneira de proceder em determinada situação ou
São diversos os condicionantes impostos pela Diretiva, para que uma água seja considerada “água mineral natural”. No entanto, todos os condicionantes estão voltados para o controle da qualidade da água mineral natural que será comercializada. As regras impostas pela Diretivas são amplas e genéricas, contudo, impõem, sem especificações diretas, a utilização de metodologia moderna, com material e equipamentos apropriados, tanto na captação, quanto na proteção do aqüífero, adução e no complexo industrial.
A classificação das águas minerais e de fonte, definida pela Diretiva 80/777/CE, é descrita na tabela 6.2.
Tabela 6.2 – Classificação das águas minerais na Comunidade Européia
Classificação Critérios De mineralização muito baixa As que apresentam menos de 50 mg/l de resíduo seco
Oligometálicas ou de mineralização baixa As que apresentam menos de 500 mg/l de resíduo seco
De mineralização média As que apresentam entre 500 e 1.500 mg/l de resíduo seco
De mineralização elevada As que apresentam mais de 1.500 mg/l de resíduo seco
Bicarbonatada As que contêm mais de 600 mg/l de bicarbonato
Sulfurosa As que contêm mais de 200 mg/l de sulfatos
Cloretada As que contêm mais de 200 mg/l de cloreto
Cálcica As que contêm mais de 150 mg/l de cálcio
Magnesiana As que contêm mais de 50 mg/l de magnésio
Fluoretada As que contêm mais de 1 mg/l de fluoreto
Ferruginosa ou que contém ferro As que contêm mais de 1 mg/l de ferro ferroso
Acidulada As que contêm mais de 250 mg/l de CO2 livre
Sódica As que contêm mais de 200 mg/l de sódio
Indicadas para dietas pobres em sódio As que contêm menos de 20 mg/l de sódio
A Diretiva 80/777/CEE, no item 1, do artigo 2, fazia referência a três tipos de tratamentos permitidos nas águas minerais naturais:
1) a separação de elementos instáveis, como o ferro e o enxofre, através de filtração, decantação eventualmente, precedida de uma oxigenação;
2) a retirada total ou parcial do gás carbônico;
3) a incorporação de gás carbônico da própria fonte ou não à água mineral.
Esses tratamentos, no entanto, não podem ser utilizados para melhoria das condições microbiológicas da água (item 2, do artigo 4).
Em 1996, a Diretiva 96/70/CEE, que alterou a Diretiva 80/777/CEE, na alínea “b” do item 1 do artigo 4, já ampliava a relação dos elementos instáveis que poderiam ser retirados da água mineral natural (e da água de nascente) para o manganês e o arsênio (além do ferro e do enxofre).
A mesma alínea faz referência direta à utilização do ozônio, permitindo a separação dos compostos de ferro, de manganês, de enxofre e de arsênio, através de tratamento com ar enriquecido com ozônio.
Assim, pode-se concluir que, só após outubro de 1996, a Comunidade Européia permitiu a utilização de ozônio, unicamente com a intenção de separação de compostos instáveis.
Essa utilização, no entanto, só poderia ser incorporada ao sistema, após consulta do Comitê Científico da Alimentação Humana (alínea “c” do item 1 do artigo 4).
O Comitê Científico da Alimentação Humana, após estudos comparativos com os limites máximos estipulados pelo Codex Alimentarius, e pelas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), indicou valores máximos diferenciados dessas duas organizações para o arsênio, o bário, o flúor, o boro e o manganês. Todos os demais, com exceção do nitrato, cujo limite máximo permitido segue a orientação do Codex, seguem os limites recomendados pela OMS.
Observa-se que a Diretiva 2003/40/CE de 16 de maio de 2003, que foi a responsável pela oficialização das decisões do Comitê da Alimentação Humana, demonstra uma grande preocupação com os investimentos que deverão ser realizados para o cumprimento do estabelecido nessa nova Diretiva. Por este motivo, permite que, mesmo com excesso de fluoreto, cujo limite ainda permitido na Comunidade Européia é de 5 mg/l, e o níquel, cujo limite é de 0,020 mg/l, se comercializem suas águas minerais naturais, até 01 de janeiro de 2008 (item 1 do artigo 2°).
No item 1 do artigo 4°, no entanto, a água que tiver uma concentração de fluoreto superior a 1,5 mg/l deverá ostentar no rótulo, a expressão: “contém mais de 1,5 mg/l de flúor: não é adequado o seu consumo regular por lactentes, nem por crianças com menos de 7anos”.
Todos os demais valores máximos, impostos por esta Diretiva deverão ser obedecidos até 01 de janeiro de 2006 (item 1 do artigo 2°). O limite de boro, que não foi definido na Diretiva, será estabelecido até 01 de janeiro de 2006 (anexo 1).
Essa Diretiva definiu também, no anexo III, os limites máximos para os resíduos de tratamento das águas minerais naturais e para as águas de nascente, com ar enriquecido em ozônio.
É interessante ressaltar que, na Comunidade Européia, diferentemente do Brasil, o ultimo enxágüe de lavagem dos vasilhames não é feito com a água mineral. A intenção dessa determinação é a economia da água mineral natural.
Abaixo é apresentada a tabela 6.3, com os limites máximos permitidos de constituintes numa água mineral natural ou água de nascente.
Tabela 6.3. – Limites máximos de constituintes naturalmente presentes na águas minerais naturais
Contaminantes Limites Máximos (mg/l)
Antimônio 0,0050
Arsênio 0,010 (total)
Bário 1,0
Boro Sem limite até 01 de janeiro de 2006
Cádmio 0,003 Cromo 0,050 Cobre 1,0 Cianeto 0,070 Fluoreto 5,0 Chumbo 0,010 Manganês 0,50 Mercúrio 0,0010 Níquel 0,020 Nitratos 50 Nitritos 0,1 Selênio 0,010
Já na tabela 6.4 são apresentados os limites máximos de resíduos permitidos.
Tabela 6.4 Limites máximos permitidos para resíduos de tratamento
Resíduos de tratamento Limites máximos (µg/l)
Ozônio Dissolvido 50
Bromatos 3
Bromorfómios 1
A forma, nos dias atuais, como vem sendo tratada a água mineral natural na Comunidade Européia, a distancia, cada vez mais, do conceito tão vigorosamente defendido pelos próprios europeus – “natural”. Uma vez que elementos como ferro, enxofre, manganês e arsênio devem ser separados da água antes de se proceder ao engarrafamento, como é permitido, por menor que seja, haverá a presença de resíduos. Neste caso, a água mineral européia, portanto, deixará de ser considerada, na prática, uma água natural. Assim, constata-se que há uma tendência internacional em legislar em favor de uma “água mineral” competitiva no mercado de bebidas envasadas.
Por outro lado, é notório, que, em diversos aspectos, a legislação brasileira que disciplina o envase de água mineral é mais rigorosa do que a européia e a americana.