6. O Meio Ambiente Urbano no Brasil
6.1. Na Constituição – Competências da União, dos Estados e dos Municípios
Para se compreender o Brasil em matéria de competência ambiental, necessário se passar pelo enfoque que a Constituição Federal de 1988 proporciona ao tema. A República Federativa do Brasil sendo formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, conforme seu artigo 1º, compreende a autonomia de cada um de seus componentes, União, Estados e Municípios, sendo imprescindível como fundamento de uma ordem Federal, uma razão de ser, no caso uma dupla obrigação, de um lado, que as partes integrantes possuam seus próprios interesses e de outro que haja um conjunto comum de objetivos, a servir à própria legitimidade à mesma ordem federal307.
O que dá base ao federalismo é a soma de diferentes partes, pela divisão de autoridade entre ordens de governo distintas. Por isso, é complexo o sistema político derivado do federalismo, pois está diante de constantes tendências de tensão, ou separatistas e descentralizadoras ou centralizadoras e unitaristas. Esta tensão, por sua
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MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 21. Ed, rev., ampl. e atual. São Paulo: Malheiros Editores, 2013. pp. 439-440.
vez, dá-se muitas vezes por disputas de espaços políticos e institucionais, notadamente por conta da alocação de recursos públicos308.
Em suma, pode-se dizer que a União reúne competências legislativas privativas para legislar sobre a proteção ambiental e até mesmo de ordenação do território. Já no artigo 21º, enumera-se a competência para elaborar planos nacionais e regionais de ordenamento do território, também no mesmo artigo já se menciona a competência sobre o planejamento e defesa permanente contra calamidades, a instituição de sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos, bem como instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação e saneamento básico; também competindo à União legislar sobre águas, energia, jazidas, minas, população indígena, etc.309. Todas estas competências de natureza privativa, ou seja, somente cabendo à União praticá-las.
Ainda no campo legislativo, agora de modo concorrente com outros entes, cabe à União legislar sobre Direito Urbanístico, florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo, controle da poluição310.
Já no que tange a competências administrativas, há uma série de atribuições comuns entre os três entes, nos termos do artigo 225 da CF/88, tais como: preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas; preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético; definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção; exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade; controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente; promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio
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ANTUNES, Paulo de Bessa. Federalismo e Competências Ambientais No Brasil. 2ª Ed. São Paulo: Editora Atlas, 2015. p. 3.
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MUKAI, Toshio. Direito Ambiental Sistematizado. 10ª Ed., Rev., e Atual. Rio de Janeiro: Forense, 2016. p. 46.
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ambiente; proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade311.
No que se refere às competências dos Estados, tem-se que há competências legislativas privativas, quais sejam todas aquelas que não estejam enumeradas como sendo da União e nem dos Municípios; bem como há a competência administrativa concorrente com os demais entes, que correspondem àquelas já aludidas em relação à União.
Por sua vez, quanto à competência dos municípios, tem-se aquelas privativas para legislar sobre atribuições que se enquadrem entre os interesses tidos como locais, desde que não estejam afetas às competências gerais da União ou das suplementares dos Estados. Há ainda a competência municipal de natureza supletiva, quais sejam aquelas que se enquadrem entre interesses locais, mas não existam normas gerais da União sobre o tema nem mesmo que haja competências suplementares dos Estados sobre o mesmo. Ainda possuem o município competência administrativa comum, sendo as mesmas já indicadas acima para a União312.
Neste diapasão, no que toca aos municípios – tão cruciais para o presente trabalho – encontra-se na própria Constituição Brasileira entre os deveres da União o de preservar a autonomia municipal, conforme artigo 34º, VII, “c”. Federalismo significando aliança, compromisso dentro da comunidade em um sistema coerente, não só fragmentado como partição de poderes, mas que uma associação de competências313.
Quer-se enfatizar que o interesse local que enseja a competência municipal não precisa englobar o território por inteiro, mas bastando uma localidade; nem mesmo o interesse local deve ser caracterizado pela exclusividade no interesse, mas em sua predominância, findo pois a União não poderá prejudicar concretamente um interesse municipal frente à necessidade de garantir aos munícipes a sadia qualidade de vida e o meio ambiente ecologicamente equilibrado, sob pena de incorrer em inconstitucionalidade314.
311
MUKAI, Toshio. Direito Ambiental Sistematizado... ob. cit., p. 47.
312
MUKAI, Toshio. Direito Ambiental Sistematizado... ob. cit., p. 48.
313
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro... ob. cit., p. 440.
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Conforme se vê, a tutela de questões ambientais, no Brasil, funciona com certas peculiaridades do federalismo nacional, justamente por envolver o manuseio de competências administrativas comuns e ao mesmo tempo competências legislativas concorrentes, singularismos os quais muitas vezes desembocam no Poder Judiciário para dirimir os conflitos que ocorrem315.
Superar as dificuldades ou disputas por poder, e sobretudo fazer confluir as forças nos casos de competências comuns administrativas seria o grande enfoque de uma avaliação ambiental estratégica fosse por qual dos entes desenvolvida, em uma confluência e harmonia na vontade de empreender esforços pelos objetivos comuns na ordem urbanística ambiental. Este será o principal desiderato dos capítulos finais deste trabalho, consistente em fazer unir as várias entidades estatais e os atores-chave não governamentais em torno das competências e obrigações constitucionais atinentes ao tema urbanístico-ambiental em exercício de cooperação entre os atores conforme proclama a Declaração de Quito ou o Programa ONU HABITAT III.