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5 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA CABANAGEM

5.4 NA ILHA DE COLARES

Para RSAO-CL1, a Cabanagem “Foi um movimento, né? Uma revolução que houve no Pará, onde Colares é um ponto (...) de vigilância dos Cabanos, eles vinham (...) se colocavam aqui (...) de guarda costa, né? Para evitar que os invasores viessem pelo mar”.

TACM-CL7 que afirma “... foi um período em todo o Brasil, (...) desde o Brasil Colônia nós sofremos várias consequências e várias revoluções, e a Cabanagem foi uma que abrangeu nosso Pará, e tivemos vários fatos, como Angelim, Felix Clemente e os demais que eram da revolução da Cabanagem. E entre outros propósitos, foi Belém do Pará na época (...) ficaram rebeldes, não com o cumprimento da lei do governo das Províncias, eles se espalharam para os interiores e Colares”.

No período da Cabanagem no Pará, outras revoltas estouraram na primeira metade do século XIX no Brasil, tais como a Balaiada, a Farroupilha, a Cabanada. A Cabanada nada teve a ver com a Cabanagem, ela se deu no nordeste e seu objetivo principal era o retorno de D. Pedro I. Quanto ao não cumprimento de determinações dos

governos da Província, realmente isso aconteceu, pois se tratava de governos portugueses e, mesmo os paraenses reivindicando que o Império nomeasse um paraense para administrar o Pará, isso não ocorria. Fato que perdurou por muito tempo. Aliás, antes da chegada da família real ao Brasil, em 1808, fugindo das forças napoleônicas, o Pará e o Maranhão eram considerados Províncias Ultramarinhas de Portugal e diretamente ligados ao rei lusitano, enquanto o resto do Brasil estava diretamente ligado ao vice-rei. Fato bastante interessante e que, por algum motivo, mesmo depois da Independência do Brasil, a Regência brasileira manteve os portugueses na administração do Pará.

Outro fato interessante é que Belém aparece nas RSs como o centro da Cabanagem. Fato é que a ilha de Colares depende de Belém por possuir serviços de saúde precários, e, nos casos médios e graves, os doentes são levados para Belém; adolescentes têm que fazer cursinho pré-vestibular na capital ou cidades vizinhas; o comércio realiza compra e venda em Belém ou Vigia, dentre outros. Justifica-se que, Belém e Vigia sempre aparecem como referências nas representações, Belém por ser a capital do Estado e Vigia pela sua proximidade a Colares, tanto por terra, quanto por rios, surgindo, como se verá adiante, até mesmo lendas análogas.

Os entrevistados sempre afirmam a importância da Ilha de Colares para os cabanos, por exemplo: RSAO-CL1 afirma que: “Aqui foi um ponto realmente de concentração dos cabanos, pelo local estratégico que é a ilha, um local estratégico de observação do mar (...) e evitava o acesso dos adversários”. RSS-CL3 diz que: “Aqui era um ponto principal dos cabanos, Colares aqui era onde os cabanos moravam. Aqui tinha uma praia aqui por nome Chácara que lá era onde era a representação deles, tem uma (...) montanha aqui que ainda tem até canhão velho por lá (...). Aqui foi o ponto turístico dos cabanos (...) antigamente era só vila”. Para TACM-CL7: “O ponto mais

estratégico deles foi Colares e Vigia (...) daqui da ilha dá acesso pro continente e, de Vigia eles já vinham pra cá (...). Um dos pontos estratégicos era deles a ponta do Cajuerinho e a ponta de Santa Maria, lá eles tinham contatos com os outros também refugiados (...). Ficaram aqui pra esperar o comando de Belém da participação daquela tragédia, não só no cumprimento da lei, mas sim, da [revolução] da classe dominante, e hoje ainda temos conta de muitos cabanos”.

Por Colares ser um ponto estratégico entre Belém e Vigia, os cabanos não deixariam de explorar isso, pois facilitaria a observação de quaisquer movimentos dos legalistas em direção à microrregião do salgado, que, na época, encontrava-se sobre o domínio dos cabanos. A tomada de Vigia pelos cabanos foi por terra, mas a ilha de Colares serviria como apoio para a manutenção daquele importante fronte de guerra. O orgulho da população de ter a ilha como parte importante da história do Pará, faz com que suas representações, tanto coletivas quanto sociais, afirmem que Colares era: “um

ponto principal dos cabanos”, “aqui era onde os cabanos moravam”, “Aqui foi um ponto realmente de concentração dos cabanos”. Surgindo, até mesmo, representações mentais interessantes como: “Aqui foi o ponto turístico dos cabanos”. Fato é que, em todas as representações, os entrevistados enaltecem a ilha como uma forma de resgatar o orgulho e dar a importância que não foi dada pelos governos do Estado do Pará até hoje. Fato interessante é que, até o momento, apesar da separação entre a ilha e o continente não ser de nem de 250 metros, o percurso ainda é feito de canoa ou balsa, sendo que uma pequena ponte resolveria o problema da população. É fundamental que nessas representações se enalteça a ilha, pois, realmente, ela foi importante para os cabanos, e é para os moradores, para manterem autoestima e, continuarem a reivindicar a infraestrutura necessária a Colares.

A entrevistada TAMC-CL7 dá um relato da questão indígena na Cabanagem dizendo: “Aqui eles encontravam um pacto muito grande cor causa dos índios

tupinambás, (...) talvez fosse umas 200 famílias indígenas também, e eles sofreram também, mas mãos deles”. Já NGCS-CL6 diz: “... ela se deu dos índios, veio através deles”. Os códices relatam participação atuante dos índios e tapuios na Cabanagem, seus interesses eram de serem respeitados como primeiros donos da terra; Os tapuios, além do citado, queriam o direito à cidadania. Aliás, a Cabanagem foi composta por grupos com interesses antagônicos, unindo-se apenas no objetivo de ter um governador na Província que fosse paraense, ou, pelo menos, um brasileiro, o que somente ocorreu na década de quarenta daquele século quando, finalmente, saiu o brigadeiro Francisco José Soares de Andréia da Presidência da Província e a Corte nomeou o paraense Bernardo de Souza Franco, um bacharel em ciências jurídicas. O que, se fosse feito antes, teria evitado tantas lutas, destruições e sangue derramado.

Para RSAO-CL1, a denominação daqueles guerreiros como cabano foi “... porque eles moravam em cabanas (...) não tinham locais fixos, era só em cabanas”. Quanto quem eram os cabanos, surgem diversas representações que, de certa forma, assemelham-se. Diz ICRR-CL5 que, eles eram “Pessoas, né? Que vinham se refugiar das guerras (...) das revoluções, então puseram os cabanos aqui e mais precisamente na orla marítima (...) por toda essa orla até chegar em Vigia”. Afirma ICRR-CL5 que: “Eles vieram pra cá e não fixaram residência ficaram amotinado só nos matos, nos

manguezais e depois saíram”. Para TACM-CL-7: “Eles ficaram refugiados, no não cumprimento da lei que vinha trazer a eles um crime violento (...). E eram maltratados e por isso eles viviam foragidos sem direito a sua liberdade por causa dessa revolução, com [isso] eles invadiram a ilha, na época uma ilha muito bonita e com bastante acesso da natureza (...) e por aqui apareceu vários vultos da cabanagem”. Realmente os

cabanos tanto se refugiavam na ilha de Colares, quanto a utilizavam como ponto estratégico. Um fato que chamou atenção é que um dos entrevistados disse que os cabanos não fixavam residência ali, ou seja, que não havia nativo que fosse cabano, o que não é verídico, pois até os índios da ilha se juntaram aos cabanos. Pode ser que o não fixar residência seja uma forma de desabafo, em virtude de não está havendo imigração à ilha, e, sim, emigração de famílias que buscam melhores condições de vida em cidades próximas, diminuindo a população, o que faz muita falta aos que ficam e passam a ver a ilha com uma forma nostálgica, com lembranças de quando fulano pescava, quando beltrano fazia farinha de mandioca e quando cicrano conversava, ou seja, a saudade de uma época melhor, quando havia mais amizades, mais fartura. Há necessidade, portanto, de políticas públicas que possam evitar a emigração, proporcionando infraestrutura como ponte entre o continente e a ilha, escolas mais aparelhadas, programas de extensão das universidades ligadas aos problemas da ilha, hospital equipado e com médicos e enfermeiros, programas de incentivos à produção, e outros facilitadores que fixem os colarienses à ilha.

Surgem representações sobre o tipo de roupa dos cabanos, por exemplo: TACM- CL7 diz que eles andavam “Com roupas muito vermelhas, (...) que era na tinta do

muruci e, na tinta do mangue (...) e andavam com seus chapéus (...) usavam foice, e usavam também [aquela] espingarda com as armas de fogo”. Isso é um fato verídico, e que, de alguma forma, perpetuou-se nas representações da Cabanagem em Colares. Os cabanos tingiam suas roupas de vermelho como se fossem fardas, ou seja, consideravam-se militares cabanos, com postos, fardas, armas, na defesa do Pará.

A questão do antilusitanismo está presente quando RSS-CL3 diz que Colares “... era uma colônia portuguesa aqui, os portugueses foram, até embora daqui por causa dos cabanos, pra não morrerem tudo na mão dos cabanos aqui”. O comércio do Pará,

durante muito tempo, era feito por portugueses, até o final do século XX muitos comércios eram de portugueses e, em Colares, não seria diferente. Se há um saudosismo porque Colares tinha comércio mais ou menos diferente do de hoje, este se manifesta culpando os cabanos pela retirada dos portugueses da ilha, fato é que os revoltosos realmente perseguiam os portugueses na Província, assim como estes quando estavam no governo, os perseguiam também. No entanto, após a Cabanagem, o comércio se regularizou, e se os portugueses se retiraram de Colares, foi em busca de outros investimentos econômicos mais rentáveis. O que falta por parte do governo é estímulo financeiro em termos de empréstimos, financiamentos, incentivo ao associativismo e cooperativas, para que a ilha de Colares tenha uma economia mais competitiva.

Para RSAO-CL1 “... eles tinham um objetivo: tiravam das pessoas que tinham mais para dar para os pobres”. Ou seja, surge a esperança de um Robin Hood que tira dos ricos para dar aos pobres, heróis que salvariam os pobres das condições sociais impostas pelos ricos.

Já LPF-CL4 relata que: “... eles chegavam aqui na sua casa levavam o que você tinha dentro da sua casa, pegavam algumas pessoas levavam também...”. Conforme RSS-CL3: “A Cabanagem era uma gente ruim (...) pessoa chegava perto do outro matava (...) pra tomar o que tu tinha pra levar (...) a vida deles era matar (...). Eles eram tão ruim, os cabanos, tem um lugarzinho por nome Bacuiriara (...) um lugarejo ai, então eles iam lá pra praia, [e] as pessoas que vinham de noite de lá pra cá, ou daqui pra lá, eles matavam, corriam atrás dos pessoal e matavam o pessoal sem que nem pra que. Os cabanos só serviam pra isso, tomar as coisas dos outros, matar os outros, essa que era a maior proporção dos cabanos aqui no Pará”. Surgem, no entanto, depoimentos que defendem esse comportamento dos cabanos em Colares como o da entrevistada TACM-CL7 que diz: “Quando pegavam alguém eles também

castigavam porque era o castigo que eles recebiam, eles repassavam também”. Em um depoimento anterior, ela ainda diz “Eram maltratados e por isso viviam foragidos”.

Essas representações nas quais os cabanos aparecem como maus, ladrões, assassinos, etc., são reflexos da imposição dos dominantes do cenário político paraense, que até a primeira metade do século XX, ainda idolatrava Andréia, Cochrane, e a escola como uma divulgadora das ideologias dos dominantes para os dominados, foi um dos grandes instrumentos de propagação das discriminações contra aqueles que se revoltavam contra as elites. Essas idéias, durante muitas décadas, mantiveram-se em livros, discursos de professores, escolas, conversas em calçadas com familiares. Só, recentemente, é que houve o resgate do lado cabano na história do Pará, não na sua totalidade, mas como um embrião. O reflexo destas mudanças ainda não chegou às conversas de calçada com a família, o que, em Colares, apresenta-se como a principal forma de propagação das RCs e RSs. Há casos, porém, em que as pessoas acreditam que os cabanos cometeram muita violência e justificam as atitudes destes dizendo que eles eram perseguidos e tinham que agir assim.

O final da Cabanagem na ilha de Colares ocorreu, segundo TACM-CL7, da seguinte forma: “E depois com o passar dos tempos, por ai, morreu os foragidos por

insolação, a varíola e outras doenças que contagiavam...”. Ou seja, os cabanos em Colares não foram derrotados, morreram muito tempo depois de morte natural, ou seja, pelas doenças da época. Relatos de varíola e outras doenças que surgiram de forma epidêmica na Província do Pará nos meados do século XIX, estão em documentos da época e livros sobre a Cabanagem. Não há relatos de invasões legalistas na ilha, nem mesmo, combates em suas terras.

Colares, pela aproximação que tem com Vigia e, também, por esta ter pertencido àquela cidade, sempre figura em algumas representações dos entrevistados. ICRR-CL5

diz que “Em Vigia sim que eles ficaram lá, né? Tanto que lá aquela igreja de pedra (...)

diz a história que os cabanos foram jogados mortos naquelas pedras e sentaram cimento...”. Quanto ao mito dos cabanos acimentados nas construções, foram visitadas por este pesquisador diversas construções antigas e somente foi identificado que, no processo de edificação, usavam conchas e outros mariscos, e que a elite dominante se utilizou dessa falácia para criar pânico nos cabanos e na população de Vigia e cidades vizinhas, sendo assim não seria difícil essas histórias terem chegado a Colares pela aproximação das duas cidades. Segundo as pesquisas, esse fato não ocorreu.

Mitos e lendas sempre se frutificaram na representação coletiva e social do povo, não só quanto à acimentação de cabanos em construções antigas, mas quanto a “fantasmas” e tesouros. Nessas RMs e RSs dos entrevistados, surge o imaginário

envolvendo possibilidades de encontrar tesouros, riquezas, fortunas e heranças, que teriam sido enterrados por cabanos. RSAO-CL1 diz que: “Até hoje ainda há na lembrança, né? Ou até em sonho que determinados cabanos vêm dar o dinheiro, herança que tem enterrado (...), agora as pessoas dizem que não vão tirar porque tem medo, porque tem [que] se fazer isso, ou uma outra coisa muito mais (...), e as pessoas têm medo (...) de encarar essa situação”. O mesmo entrevistado conta outra história onde diz que: “Uns dez anos atrás aconteceu um fato muito curioso aqui em Colares, eu

pude conviver: Se instalou na Ponta do Humaitá, é um lugar estratégico do município de Colares (...) um pescador se instalou lá, ele tinha curral de pesca, né? Fez um curral, ai algum tempo depois ele sumiu imediatamente esse homem daí, e o pessoal curioso começou observar na casa dele, e viram, né? Uma cova bem grande que ele tinha feito, e o pessoal acharam que foi um taxo, né? Cheio de dinheiro, (...) que ele tirou e sumiu, nunca mais apareceu”. LPF-CL4 afirma que: “... eles traziam muito ouro, muito ouro mesmo, aonde então eles não podiam vender e nem usar aquele ouro

(...). O que eles faziam, eles cavavam um poço (...) jogava aquele ouro e, quebrava o vidro, quer dizer que as pessoas não podiam tirar, como Colares tem e, na frente de Colares, ai da igreja, tem um poço que agora já entupiram naturalmente, e que tinha esse ouro. Também no Humaitá nós temos uma pedra de mármore que é (...) a coroa, não é da Espanha, não é da França, porque tinha [assim] eu me lembro tão bem que tinha um SRACOI, inglês né? É França, não podia ser Espanha, então eles andavam, eles andavam muito, muito mesmo, pra ver ouro, pra ver as pessoas. Então, as pessoas tinham muito medo, as velha, naquele tempo, se cobriam, se escondiam que há chegou as cabanagem, chegou os cabanos, eles andavam de vermelho, um chapelão mesmo, aquele cangaço mesmo nas costas aí. (...) Colares era muito rico, é muito ouro, machadinho, machadinho, (...) alias a ilha de Colares todinho. Nós temos ai um lugar por nome , esqueci o nome agora, que tem uma praia linda, linda ai, esqueci o nome, que não fica frente a Vigia, que fica desse lado (...) ai é uma praia rica onde os cabanos também ficaram lá muito tempo”. Este imaginário surge pelas dificuldades financeiras que grande parte da população da ilha de Colares passa, daí muitos acabarem acreditando que uma mudança de vida só poderá ocorrer se acharem um “tesouro”. Esse

é o reflexo do desemprego no Pará e no Brasil, o que dificulta ascensão social, restando, ao pobre, a esperança de que só pode mudar de vida ganhando na “loteria” ou achando

tesouros escondidos.

Outro fato observado nas RMs e RSs é que os entrevistados sempre afirmam, no caso dos “tesouros”, que viram, ou que alguém de sua confiança, ou de muita

respeitabilidade em sua comunidade, achou tal riqueza como uma forma de dar “veracidade” aos seus relatos.

Esses relatos de tesouros enterrados lembram as histórias de piratas. Vale lembrar que houve piratas na microrregião do salgado. É o caso de John Priest que não

ficou claro nos códices estudados se era americano ou inglês. Fato é que John Priest roubou a carga do navio inglês Clio, em Salinas, matou parte de sua tripulação com ajuda de índios e vendeu as armas e munições aos cabanos da cidade de Vigia. De certa forma, esta história se perpetuou nas representações do povo daquela ilha, sofrendo ancoragem com estórias de piratas que enterravam tesouros e, não usufruíam deles. Houve (re)construções em que o cabano foi substituído pelo pirata e o misticismo do sonho da revelação como uma das formas de encontrar esses tesouros. Deve-se lembrar que os cabanos roubavam algumas coisas para comprar armas e munições, porém o que eles mais roubavam eram alimentos e munições, ouro, sim, mas pouco, todavia, não perderiam tempo enterrando ouro, pois queriam resultados imediatos.

Quanto a “fantasmas”, assombrações, dentre outros, RSAO-CL1 diz que: “Mamãe também conta casos, né? Que ela pode confirmar, quando ela [era] garota

com minha avó (...) numa dessas caminhadas, né? (...) hora de meio dia (...) encontrou um homem desse, um cabano. Ela diz que era um cabano porque ela tinha lembrança de um cabano pelo fato de como os pais dela contavam como eram os cabanos, ai pegou viu um homem, né? Caracterizado com uma roupa tipo tinta de sangue (...) de mangue (...) cor de sangue com uma machada na mão, chapéu bem grande e tal, aquele homem rústico barbado e tal...”. Para TACM-CL7: “Parece que faziam uma lenda, uma história pela beira da praia (...) com a roupa toda vermelha, um capuz vermelho, aquelas armas, e só apareciam assim em noites escuras”.

É possível que medo dos fantasmas dos cabanos tenha passado a existir nas representações como fruto da ideologia legalista que pregava que os cabanos eram malfeitores, assassinos, assaltantes, entre outros termos que denegria a imagem daqueles guerreiros. Daí, ser possível que nas (re)construções do que era falado nas escolas, conversas com amigos e parentes, surgissem os cabanos como “fantasmas”,

“assombrações”, para manter a população com temor de uma nova idéia de Cabanagem.

Nesse caso, as pessoas mais idosas teriam sido vetores para propagar essas lendas e mitos.

Quando se pedia para os entrevistados compararem a pobreza da época dos cabanos com a de hoje, obtêm-se as seguintes representações: Diz RSAO-CL1 “Eu atribuo do passado, do tempo dos cabanos com agora, claro que houve uma evolução devido as cabeças que mudaram, né? As pessoas, naquele tempo, tinham uma cultura (...) não elevada como as pessoas têm agora, pessoas menos esclarecidas. No meu ponto de vista, naquele tempo talvez era por falta realmente de desenvolvimento e, hoje já têm pessoas que já podem se desenvolver melhor, né? Vamos dizer exploração, né? De espaço, de terra, já pode cultivar tudo, e naquele tempo, vamos dizer, não tinha pessoas para esclarecer o que deviam fazer para sobreviverem, né? E o pessoal era pobre, tales por falta de esclarecimento, mas com certeza há diferenças (...). Agora eu acho que ta muito melhor...”. LPF-CL4 compartilha de pensamento semelhante, dizendo que, naquela época, “Era pior, porque os cabanos, eles também matavam, (...)

além deles roubarem pra comer, essas coisas, os ouro e tudo, eles matavam, então é muito melhor agora, nessa época é melhor do que no tempo dos cabanos...”. Segundo TACM-CL7 “Na época dos cabanos era como se fosse a época de hoje, mas só que eles