2.2 O OBJETO DIGITAL E O DOCUMENTO DIGITAL
2.2.1 Na perspectiva da Biblioteconomia
Se pudermos resumir em uma frase nossa percepção inicial sobre o conceito de documento digital, ao menos no âmbito da Biblioteconomia, faríamos uso da seguinte afirmação de Alberto Salarelli (2008, p. 3):
Documento não é mais somente aquilo que é legível na forma da palavra escrita: o documento é fruto da capacidade do pesquisador para interrogar um material, operação que, por causa mesmo da necessidade de empregar uma linguagem de interrogação, em nenhum caso é atribuível a uma descoberta casual: “o historiador é como Parsifal: o Graal está ali, sob seus olhos, mas somente será seu se pensar em fazer a pergunta”8, a que for certa, é óbvio! Assim, potencialmente, todo material poderá vir a fazer parte do universo documentário se puder ser lido e interpretado, porém para ser definido como digital, é necessário lhe adicionar uma característica fundamental, a numerabilidade, pois ao nascer digital ou ao ser digitalizado, esse material se constitui ou foi reduzido a números. É uma questão secundária onde esses números serão registrados e processados, considerando-se, inclusive, que o processo de digitalização diz respeito à natureza da relação entre texto e suporte do material. A digitalização de um documento em suporte papel resultará em uma representação imaterial e simbólica, portanto, numérica, que poderá fazer parte de um sistema numérico que possibilita sua interação com outros documentos numéricos e até mesmo estar relacionado a outros sistemas que fornecem informação apenas referencial.
Cabe ressaltarmos que um sistema digital opera com entidades discretas, o que significa que “indica um elemento que pode ser claramente distinto de um outro”. Por isso dizemos comumente que tudo se transforma em zeros e uns, dois valores lógicos. Podemos então também afirmar que sendo o bit um estado que se configura em ligado ou desligado, verdadeiro ou falso, etc., no sistema binário se constitui a unidade de medida que pode representar o mundo físico, mas dependente do computador para atribuir os bits “para a definição digital de qualquer elemento de um sistema concreto” e com dependência também da qualidade dos componentes dos equipamentos e dos programas. Portanto, um sistema digital tem como características básicas a “representação numérica (abstrata, virtual) e a serialidade ou sequencialidade da trilha codificada” o que é o oposto de um sistema analógico, já que este opera “com entidades contínuas, cuja mensuração é possível não por meio de uma redução a um denominador numérico, mas por uma comparação (analogia) discricionária com outros elementos do sistema.
8 Nota de rodapé do texto original: “Paul Veyne, Come si scrive la storia, Roma-Bari, Laterza, 1973, p. 385. [Ed. brasileira: Como se escreve a história. Brasília: Ed. UnB, 1998].
No entanto, “o objetivo que se encontra na base do emprego de um sistema analógico ou digital continua sendo a medida do mundo”, pois temos necessidade de ordenar a realidade em compartimentos que nos permitam buscar a informação, de modo similar de como ideias e conceitos são organizados pelas palavras (SALARELLI, 2008, p. 7-9). Considerando-se assim a complexidade dessa diferença, trazemos um exemplo nas palavras do próprio estudioso:
Atenção para não se deixar enganar pela interface! Ninguém definiria como digital o relógio do século XIX que se encontra na boca de cena do Teatro Regio de Parma e marca as horas mostrando, por meio de um sistema de janelinhas e cilindros numerados, o passar do tempo. Por outro lado, ninguém pode definir como analógico o aplicativo ‘xclock’ que desenha um relógio de ponteiros na tela de um computador Unix. E então? A diferença real entre os dois sistemas de medição do tempo reside sob a aparência, no tipo de instrumento de cálculo empregado: de um lado, um mecanismo de engrenagens que numera as oscilações de um balancim mecânico (de 2,5 a 5 ciclos por segundo), e do outro lado, um microprocessador que converte em bits as oscilações de uma onda elétrica (3 bilhões de ciclos por segundo nas unidades centrais de processamento (CPUs) mais recentes) dentro de um circuito integrado. (SALARELLI, 2008, p. 10).
Desse modo, ainda abordado nas palavras do estudioso, “a tecnologia do século XX tornou possível, inicialmente por meio de dispositivos elétricos e, posteriormente, eletrônicos, foi a criação de:”
a) conversores analógicos/digitais e digitais/analógicos capazes de criar uma nova e perturbadora categoria de suportes da informação: as memórias eletrônicas;
b) processadores capazes de funcionar com essas memórias por meio de programas inseridos pelo usuário, computadores programáveis, capazes de executar sequências de operações para resolver problemas originalmente não-previstos pelo fabricante.
Portanto, digitalizar documentos tem como vantagem a universalidade da representação digital, pois a codificação se dá em formato único que pode ser convertido em uma sequência de bits, o que permite que os diferentes tipos de informação sejam tratados do mesmo modo e pelo mesmo tipo de equipamento (SALARELLI, 2008, p. 11), de maneira que o documento digital apresenta as características a seguir sucintamente explanadas.
A primeira é a flexibilidade, pois em sua condição de representação numérica, o documento digital é imaterial e, portanto, nossa relação com ele ocorre por meio de interface. É possível assim facilmente combinar documentos digitais deslocando blocos inteiros de dados em um mesmo documento ou de documentos diferentes, além de poder se reunir textos em um único documento.
A simulação pode ser entendida ao pensarmos que não seria concebível recortar um documento original em suporte papel, muito menos um documento que se constitua raro,
diferentemente do caso do documento digital que sugere ser perfeitamente plausível considerando-se até mesmo os recursos disponíveis nas ferramentas dos sistemas informáticos. De acordo com Salarelli (2008, p. 13-20), esse é “um dos pontos fortes do documento digital, quando comparado com o documento tradicional, é assim a possibilidade de ser formalmente manipulado, de ser desmontado e remontado”, sendo sempre possível manter intato o original. Ponderamos então que mesmo no caso de documentos que não são natos digitais, o processo de digitalização permite propor e “supor diferentes configurações do próprio documento” constituindo uma “capacidade de simular possíveis cenários”, inclusive por ser a simulação sempre reversível. Tal capacidade não poderia ser garantida nos métodos reprográficos tradicionais que se baseavam em tecnologias analógicas, pois não se asseguraria a exata correspondência entre o original e sua cópia. Por outro lado, cabe ressaltar que “no mundo digital o original perde seu valor filológico de validador da tradição textual porque nele inexiste qualquer discriminante entre antígrafo [transcrição de original] e apógrafo [cópia de um escrito original]”.
Quanto à reprodutibilidade e a conservação, termos intimamente ligados, dizem respeito à capacidade de sobrevivência do documento, já que sua fácil reprodutibilidade se contrapõe à instabilidade dos suportes. Tais circunstâncias são opostas à vantagem de flexibilidade do documento digital, pois há alto risco de seu apagamento. Além disso, temos o grau de decaimento do suporte, já que diferentemente daqueles tradicionais que contam com pesquisas e expertise há muito tempo, os novos suportes digitais mal nasceram e não há certeza de garantia, mas sim apenas respostas parciais ou incompletas.
Entretanto, há ainda um fator, mais complexo e talvez mais perigoso, que é a obsolescência dos instrumentos de decodificação dos dados e que somente pode ser resolvido pela periódica transferência das memórias digitais de antigos para novos suportes (refreshing), bem como dos antigos para novos formatos de digitalização (migration). Por fim, temos a característica de transmissibilidade, que se refere ao documento digital ser “sempre constituído por números representáveis de maneira unívoca por uma grandeza física”, “quando se encontre registrado em uma memória de massa” ou “quando realmente transite num cabo telefônico de cobre ou de fibra ótica.
Diante dessas características do documento digital percebemos a modificação nos acervos bibliográficos face ao advento da digitalização de documentos, considerando-se aqueles que sofreram o processo de captura digital ou mesmo os que nascem nesse formato. As dificuldades de acesso e de obtenção de informação incentivam a ultrapassar barreiras da tipologia documental, em prol do atendimento às necessidades de usuários dos sistemas de
recuperação da informação. Outros aspectos do documento bibliográfico digital precisam se considerados, já que o pesquisador se encontra em um estado transitório caracterizado por alto grau de indefinição em relação ao assunto de seu interesse. Estando ainda nebulosas suas próprias interrogações, ele procura referências que permitam reconstruir seu conhecimento e orientar seu trabalho (SAYÃO, 1996).
Portanto, esse documento, em meio digital, que se insere na tipologia documental da biblioteca, seja livro, folheto, periódico, etc., pode apresentar outros aspectos que não sejam apenas de natureza bibliográfica, mas também de natureza arquivística e museológica como já ocorria com documentos tradicionais, em suporte papel, o que demandava elaboração de informações sobre relacionamentos. Isto é, criavam pontos de acesso, tendo em vista estar claro, para os usuários, as ligações que um documento bibliográfico pudesse apresentar com acervos de outras naturezas. Nesse sentido podemos citar um livro que, sendo um documento bibliográfico, poderia ser observado também por suas características arquivísticas e museológicas, tais como as marginálias, ou por estar inserido em um ambiente de museu. Logo, muito mais agora em meio digital, poderá ultrapassar barreiras, tornando-se acessível e proporcionando ao pesquisador toda a sorte de informações, sejam elas de cunho bibliográfico, arquivístico ou museológico, portanto, com muito mais contextualização.
Cabe lembrar que ao Briet (1951) elaborar sua obra sobre o que seria a Documentação, se viu obrigada a discutir o que seria um documento, pois naquela época as definições não contemplavam as várias formas de informação gravada. Isso significa que a documentalista já se preocupava com os avanços tecnológicos, se bem que ela afirma que nem mesmo “a exigência de algum tipo de dispositivo de mediação para acessar o documento desqualifica que ele seja um documento” (TOURNEY, 2003, p. 298).