Elizangela Felipi
Larissa D’Maiella Akkari Klimeck Kammer Márcia Luíza Pit Dal Magro
Murilo Cavagnoli
Introdução
O campo da saúde mental no Brasil incorporou princípios da Reforma Psiquiátrica e Reforma Sanitária, as quais propõem “[...]
mudança dos modelos de atenção e gestão nas práticas de saúde, de-fesa da saúde coletiva, [...] protagonismo dos trabalhadores e usuários dos serviços de saúde nos processos de gestão e produção de tecno-logias de cuidado.” (Brasil, 2005, p. 6). Essas propostas são reafirma-das pela Política Nacional de Humanização (PNH) (Brasil, 2004a), na qual o Ministério da Saúde oferece um marco teórico-político que aposta em disparar debates e experimentações direcionadas a fazer diferir modelos de organização da gestão e ênfases da formação dos profissionais atuantes no Sistema Único de Saúde. Seu projeto políti-co espera multiplicar e políti-consolidar estratégias de políti-corresponsabilização na relação entre distintos atores, visando transformações qualitativas nos processos de produção de saúde e “na cultura de atenção aos usu-ários” (Brasil, 2004a, p. 5).
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A PNH é ofertada não como programa ou orientação técnica a ser aplicada, mas como perspectiva que fomenta uma práxis coletiva destinada a operar, de forma transversal a toda a rede SUS, ressignifi-cações das dimensões “ética, estética e política” (Barbosa; Meneguini, 2013) da experiência compartilhada por usuários e equipes de saúde, investindo na capacidade criadora dos grupos e comunidades impli-cados na compreensão e em ações dialógicas da saúde coletiva, em suas expressões locais e institucionais. “Humanizar é, então, ofertar atendimento de qualidade articulando os avanços tecnológicos com acolhimento, com melhoria dos ambientes de cuidado e das condi-ções de trabalho dos profissionais.” (Brasil, 2004a, p. 7). A construção de “inovações nos modos de fazer saúde” (Brasil, 2013a) é proposta enquanto desafio compartilhado, que convoca a capacidade criadora de trabalhadores, gestores e comunidades à criação de dispositivos capazes de operar transformações nas relações de cuidado e no deli-neamento de tecnologias de atenção à saúde.
Mas qualificar o cuidado em saúde mental não é tarefa sim-ples, pois passa pela mobilização de interseções entre distintos atos de saúde como o acolhimento, a escuta, a corresponsabilização e a consolidação de estratégias voltadas à gênese de autonomia. Estes são processos tratados pela PNH como vetores de transformação das for-mas de cuidar, situados na política em questão como emaranhados a relações cotidianas mobilizadas por encontros entre usuários e tra-balhadores. A ressignificação da práxis conectada a este conjunto de vetores que, em tese, impulsionam o cuidado integral, é desafiadora, pois seus termos são, a priori, significados de formas muito distintas (e até mesmo divergentes) na formação em saúde, ainda situada na tensão entre lógicas disciplinares e interdisciplinares (Pereira, 2018).
O princípio da transversalidade, definido como “ampliação do grau de contato e da comunicação entre as pessoas e grupos” (Brasil, 2004a, p. 6), associado à “indissociabilidade entre atenção e gestão” e ao “protagonismo”, se apresenta como estratégia de horizontalização das experiências e de abertura à composição criativa com a alterida-de. A proposta da transversalização da humanização situa o cuidado como ação contínua, qualificada por uma constante aprendizagem na saúde. Contudo, sendo princípios, não determinam ações, apenas oferecem enunciados políticos, possibilidades para que distintas co-letividades implicadas na transformação do cuidado em saúde cons-truam suas próprias experimentações. A experimentação, situada na micropolítica do trabalho na saúde, demanda a configuração de espa-ços intercessores (Merhy et al., 2004), contextos relacionais capazes de tensionar os olhares individuais e fomentar a construção de uma caixa de ferramentas integrada a dispositivos de produção de cuidado em saúde mental.
Logo após a publicação da PNH, o Ministério da Saúde institui a “Política Nacional de Educação Permanente em Saúde” (PNEPS) (Brasil, 2004b), sendo importante considerar que a formação de re-cursos humanos é um dos principais desafios para a consolidação da Reforma Psiquiátrica no país (Brasil, 2005). Na PNEPS, fica evidente a intenção de fomentar
[...] iniciativas relacionadas à reorientação da formação profis-sional, com ênfase na abordagem integral do processo saúde--doença, na valorização da Atenção Básica e na integração en-tre as Instituições de Ensino Superior (IES), serviços de saúde e comunidade, com a finalidade de propiciar o fortalecimento do SUS. (Brasil, 2018, p. 7).
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A transformação mais evidente na concepção de formação pro-posta pela PNEPS é a ênfase em uma “educação na saúde”, e não “para a saúde” ou “em saúde”. Isto significa, na prática, o privilégio de expe-riências que tomem a conexão entre IES, serviços, gestão e controle social enquanto “quadrilátero de formação” (Brasil, 2018, p. 10), que fortalece o pensar e fazer coletivo e oferece caminhos à consolidação das diretrizes da PNH. Em 2018 a PNEPS é renovada, objetivando re-vigorar “[...] o estímulo a maior utilização das novas tecnologias para o ensino na saúde e o estabelecimento do compromisso com as novas demandas de saúde pública.” (Brasil, 2018, p. 9).
Compreendemos os Grupos de Desenvolvimento Humano como uma experimentação singular que dialoga com a PNH e a PNEP. Este fazer coletivo de profissionais oriundos de diferentes ser-viços públicos se propõe a criar novos modos de promover a atenção à saúde mental no município de Chapecó (SC). Tendo em vista esta intenção, o objetivo da pesquisa aqui apresentada foi analisar como os Grupos de Desenvolvimento Humano contribuem para o cuidado em saúde mental na perspectiva dos profissionais de saúde que parti-cipam dos GDH.
Método
O presente estudo, de abordagem qualitativa, traz os resulta-dos parciais de pesquisa mais ampla que tem como título “Grupos de Desenvolvimento Humano como tecnologia social para atenção à saúde mental do SUS e proteção social especial do SUAS”, financiada pela FAPESC/CNPq. Esta foi realizada no município de Chapecó com o objetivo de “Fortalecer o GDH como tecnologia social inovadora
no campo da saúde mental e proteção social especial para consolidar princípios e diretrizes propostos pelo SUS e SUAS.”
Os participantes da pesquisa foram profissionais dos serviços que compõem a rede de Saúde e Assistência Social do município. Par-ticiparam ao todo 52 profissionais, sendo 14 da Política de Assistência Social e 38 da Política de Saúde. Esta pesquisa envolveu três grupos de profissionais que participam do GDH, de acordo com o nível de formação (iniciantes, intermediários e avançados), como descrito no segundo capítulo deste livro.
As técnicas e instrumentos utilizados para a realização do es-tudo foram o grupo focal, entrevista semiestruturada e a observação participante. Foram realizados quatro grupos focais, sendo eles: dois grupos com os profissionais do nível avançado, em que participaram do primeiro momento 16 profissionais e do segundo momento 17 profissionais, sendo que sete profissionais participaram em ambos os grupos. Um grupo focal com os profissionais do nível intermediário, com 12 profissionais, e um grupo focal com o grupo de iniciantes, com 13 participantes. As áreas de conhecimento destes profissionais, considerando todos os grupos são: Serviço Social (seis); Enferma-gem (sete); Educação Física (três); Farmácia (um); Nutrição (três);
Fonoaudiologia (um); Medicina (cinco); Pedagogia (um); Psicologia (vinte); Estagiários graduandos em Psicologia (dois).
Também foram realizadas duas entrevistas semiestruturadas com médico psiquiatra do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), o qual foi o idealizador e coordena essa ação no município. Quanto à observação participante, esta ocorreu durante dois anos e meio, por meio da participação no processo de formação do GDH, o que possi-bilitou sistematizar sua proposta.
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Foi realizada análise temática de conteúdo na perspectiva des-crita por Cavalcante, Calixto e Pinheiro (2014), a qual suscitou duas categorias de análise que compõem o presente artigo: Qualificação do cuidado em saúde mental, e Potencialidades do processo grupal. A presente pesquisa seguiu as diretrizes do Conselho Nacional de Saú-de, tendo sido aprovada no Comitê de Ética e Pesquisa por meio do parecer n. 2.841.053.