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1.6 Reformas e Propostas

1.6.2 Na Segurança Social

Partindo das evidências verificadas na secção “discussão dos resultados”, é por demais visível que são necessárias alterações profundas no modelo de financiamento da Segurança Social. As transformações necessárias não se coadunam com simples modificações nas formas de cálculo ou nos prazos de garantia. Tais medidas têm sido aplicadas no decorrer das últimas décadas e, o que se verifica, é que a sua implantação apenas adia o surgimento dos constrangimentos financeiros, não contribuindo verdadeiramente para a sua resolução (84).

Como tal, propõe-se um modelo inovador de reforma estrutural do sistema já praticado e aperfeiçoado por alguns países europeus, nomeadamente a Suécia, desde a década de 90, que tem evidenciado bons resultados. As bases deste novo modelo são as seguintes: (84)

 O 1º pilar, público, obrigatório e universal, assegura uma pensão de reforma. A garantia de um rendimento de substituição por velhice integra duas componentes:

 1ª Componente – Regime de Capitalização Virtual em Contas Individuais Financiado em regime de repartição, de contribuição definida (ao invés do actual modelo de benefício definido), baseado em contas individuais que registam a acumulação das contribuições ao longo da vida activa, revalorizadas por uma taxa de juro virtual que depende de factores como a economia, sendo o capital acumulado convertido posteriormente, à data da reforma, numa pensão;

 2ª Componente – Pensões de solidariedade

Financiadas pelos impostos, garante a atribuição de um rendimento mínimo de substituição do rendimento do trabalho. É calculada pela diferença entre o rendimento mínimo e a pensão de reforma obtida na componente contributiva, em situações de insuficiência de carreira.

 O 2º pilar, privado, de iniciativa colectiva/empresarial voluntária, de contribuição definida, gerido em capitalização pura, sendo a conversão em pensão um complemento à pensão pública;

 O 3º pilar, privado, de iniciativa individual voluntária, em capitalização pura, convertido através do capital acumulado que complementa a pensão pública;

 O novo sistema mantém um cariz universal e público que reforça a importância da poupança privada para a reforma;

 Adequa o papel do Estado à demografia, à economia, à herança dos sistemas de pensões e incentiva os trabalhadores e as empresas a uma maior participação;

 Passa-se de um plano de benefícios definidos para um plano de contribuição definida, cujas pensões de reforma dependem da acumulação das contribuições e da evolução das variáveis-chave da economia e da demografia. Eliminam parte da dívida implícita do sistema;

 Como o país não tem possibilidades de recorrer à emissão de dívida pública e de aumentar contribuições sociais ou impostos (como verificado anteriormente), as contribuições actuais continuam a financiar as pensões em pagamento, mantendo-se o mecanismo de repartição clássico dos sistemas de redistribuição;

 Seria interessante a introdução de um tecto às contribuições, por forma a promover uma componente obrigatória de capitalização pura, mas devido à actual realidade económica e orçamental esta possibilidade revela-se de difícil implementação;

 O novo sistema de pensões introduz uma alteração de paradigma importante, que traz mais justiça: a formação da pensão não depende de uma fórmula pré-definida de cálculo, como actualmente se verifica, em que o factor decisivo corresponde ao número de anos de carreira contributiva, mas sim da dependência das contribuições acumuladas ao longo da vida activa complementada pela valorização em função da economia;

 O sistema de repartição não envolve a perda de contribuições para financiar as pensões do sistema fechado (o actual) e do novo sistema de pensões a criar;

 Este novo sistema traz um novo paradigma vantajoso (84):

 Combina a poupança pública e a poupança privada, com partilha de riscos e responsabilidades;

 Reforça o princípio da contributividade;

 Estimula as pessoas a pouparem para a reforma;

 Aumenta os níveis de transparência na relação que se estabelece entre os contribuintes e o sistema, através da criação de contas individuais que são um importante instrumento de gestão contributiva e da gestão da pensão futura;

 Incentiva à participação mais activa no mercado de trabalho e à declaração de rendimentos para efeitos contributivos;

 Melhora a relação entre o financiamento, as condições de reforma e o desempenho da economia;

 Combate a evasão contributiva e previne os custos futuros com prestações sociais financiados pelos impostos provenientes do Orçamento geral do Estado;

 Inviabiliza o surgimento de défices financeiros de longo prazo;

 Garante a equidade entre gerações e favorece a coesão social. Impede a necessidade de um esforço contributivo maior das gerações futuras para a obtenção dos mesmos benefícios das gerações actuais;

 Reduz o risco político na fixação de regras para a obtenção de benefícios;  Obriga os governos a fazerem gestão actuarial e gestão financeira do

sistema;

 Contém mecanismos sistémicos de ajustamento dos riscos demográficos e económicos.

 O novo modelo deverá separar claramente as contingências de longo prazo (pensões de reforma) das contingências imediatas (pensões de invalidez, de sobrevivência, subsídios de desemprego, de doença e de trabalho), tendo em vista a segregação dos riscos (84);

 Define-se um modelo de contribuição definida para as contingências de longo prazo; Introduz-se a mutualização para as contingências imediatas; e submete-se à fiscalidade as contingências de solidariedade (pensões de solidariedade e outras prestações relativas à família, à natalidade e à dependência) (84);

 A separação e autonomização destas contingências oferece as seguintes vantagens: 1. Introduz gestão actuarial e gestão financeira própria; 2. Promove a eficiência e a transparência das contas; 3. Impede a subsidiação cruzada dos riscos (como acontece actualmente); 4. Melhora a percepção e controlo dos défices e dívidas; 5. Contribui

para melhorar o conhecimento da Segurança Social que, por conseguinte, contribui para a qualidade das políticas públicas (84);

 Criação da “caderneta de aforro para a reforma” (84) – na Suécia, os trabalhadores recebem, desde que começam a contribuir para a Segurança Social, uma informação anual com estimativas da sua pensão pública e privada. É importante, para a compreensão e confiança do novo sistema de pensões, que os beneficiários acedam com regularidade e em linguagem acessível às suas contas individuais, dispondo num só suporte as parcelas das pensões dos três pilares. A “caderneta de aforro” deverá incluir informações sobre contribuições realizadas e respectivas valorizações, bem como informação sobre a pensão estimada;

 Esta reforma deve ainda desenvolver 2 outros planos: 1. Uma transformação do modelo institucional da governança pública das pensões; 2. A concepção de um modelo de comunicação das pensões (84);

As ideias gerais apresentadas deverão criar a base de uma discussão alargada acerca da inevitabilidade da construção de um novo modelo de pensões assente numa reforma profunda e estrutural. Esta ideia estrutural acima descrita dá resposta às contingências demográficas, económicas e financeiras que se têm degradado nas últimas décadas e que põem em causa o modelo actual do sistema de pensões.

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