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COM QUEM MORA? PERCENTUAL

4.3. NA “VOZ” DAS CRIANÇAS: O QUE PRECISA MUDAR NA ESCOLA

Uma das crianças respondeu à pergunta “O que mudaria na escola?” com um profundo suspiro, seguido do seguinte desejo:

- Ah... eu queria que [a Escola] fosse igual a das “Mulheres Apaixonadas” [telenovela], com piscina, chuveiro pra tomar banho...

Percebemos o quanto a mídia exerce influência no imaginário infantil e o quanto tal tema ainda precisa ser analisado no interior das escolas.

O conjunto das crianças demonstrou boa percepção das condições vivenciadas na Escola. Algumas sugestões de mudança giraram em torno das melhorias na estrutura física da Escola, como a colocação de ventiladores nas salas; armários por turma, para melhor organização dos materiais; um campo gramado para atividades com bola e a construção de brinquedos: balanços, escorregadores, gangorra, etc.

SE FOSSE MUDAR COISAS NA ESCOLA, O QUE MUDARIA?

criança- ah... eu queria que fizesse um parquinho aqui; porque só tem que ir lá3 e lá também tem coisas estragadas e não dá de

brincar muito...

(criança de 9 anos) criança- ter um parque com escorregador, gangorra e ter mais espaço pra brincar; um pátio maior com grama, que tivesse parquinho, porque o nosso parquinho... a gente não tem parquinho, é só lá do Conselho, e só tem uma gangorra e o resto ta tudo podre, enferrujado...

(criança de 10 anos)

As mudanças relativas ao trabalho pedagógico desenvolvido na escola referiram-se à reivindicação de uma sala de computação, a inclusão de aulas de inglês e a ampliação da área da Escola para comportar o expressivo número de crianças. Uma criança sugeriu, ao contrário, que se diminuísse o número de crianças na Escola, pois identifica aí um grande problema gerador de conflitos.

O QUE PODE SER DIFERENTE NA ESCOLA?

criança- acharia que devia ter mais espaço pras crianças brincar, porque tem muita criança na escola aqui. E aqui, eles ocuparam este espaço pra botar amarelinha, só que as crianças da 1ª e da 2ª séries é que brincam ali, e os maiores querem brincar, porque são grandões e acabam machucando os menores...

(criança de 9 anos)

No campo das relações com os adultos também foram sugeridas mudanças. Algumas crianças solicitaram a saída da atual direção da Escola, sob a alegação de apresentar comportamento austero e elevado tom de voz quando se dirige às crianças. Outra sugeriu que na Escola existissem apenas professores de Educação Física e nenhum outro adulto seria necessário.

O QUE DAVA PRA SER DIFERENTE NESTA ESCOLA? criança- a diretora; porque ela grita muito...

COMO DEVIA SER O COMPORTAMENTO DELA?

3 Aqui a criança está se referindo a uma área cercada, com brinquedos típicos de parque infantil

(gangorras, balanços, escorregadores), que pertence ao Conselho Comunitário da comunidade e fica situado ao lado da Escola. Este espaço é usado regularmente para aulas de Educação Física.

criança- devia ser boazinha um pouco com a gente, e quando a gente ser ruim, ela ser um pouquinho ruim. Ensinar a gente a ser bonzinho também, e não ensinar a gente a ser mais ruim ainda; isso que é difícil pra gente, pior ainda...

(criança de 8 anos)

Duas sugestões de mudanças merecem destaque: uma pela recorrência na fala das crianças; outra pelo grau de compreensão demonstrada pela criança proponente.

A primeira refere-se à solicitação feita pelas crianças de que haja separação de turnos entre estudantes de 1ª a 4ª séries e estudantes de 5ª a 8ª séries, principalmente devido ao fato dos constantes conflitos do horário do recreio.

SE AS CRIANÇAS FOSSEM OUVIDAS PARA MUDAR A ESCOLA, O QUE DIRIAM?

criança- separar o recreio dos pequenos dos grandes e fazer uma quadra, se o Governo desse dinheiro, pros pequenos. Nós não fazemos Educação Física na quadra, tem que ir lá no Conselho “Militar” [Comunitário]. E colocar ventilador nas salas, e fazer um banheiro só pros menores – porque os maiores vêm no nosso... criança- eu ai fazer uma escola melhor, ter um espaço maior pra gente brincar, ter uma diversão melhor, né...

(crianças de 13 e 10 anos, respectivamente)

A segunda demonstrou a capacidade de percepção da criança e do quanto ela pode de fato auxiliar no processo de melhoria da escola, tecendo um “olhar de dentro” das relações escolares, que pode já ter sido “naturalizado” pelo adulto. Trata- se da sugestão de que tenha sempre disponível na Escola um professor volante, que possa substituir em caso de ausência do professor efetivo, para que as crianças não tenham que ir embora – como acontece atualmente na falta de professores.

TEM ALGUMA COISA SOBRE A ESCOLA QUE DEVIA MUDAR?

criança- tem. O parquinho e às vezes..., quando tá chovendo, sempre falta 2 ou 3 professores, daí ela [referindo-se à irmã] só fica com uma ou duas aulas, daí eu acharia que devia ter sempre

aula; quando falta, sempre vai falando com alguém pra ficar junto...

(criança de 9 anos)

A referência às mudanças na estrutura do prédio escolar e seus equipamentos também fez parte das solicitações das crianças. Numa atividade desenvolvida pelo Estágio-Docência do curso de Pedagogia/UFSC, com as crianças da 4ª série, em que deviam escrever sobre “A semana dos seus sonhos”, uma criança assim se expressou:

Nas entrevistas gravadas, também houve referência aos “ventiladores na sala”, demonstrando que, de fato, a sua ausência gera forte desconforto entre as crianças.

O QUE ACHA QUE PODERIA MUDAR NA ESCOLA?

criança- eu gostaria que tivesse ventilador na sala, porque é muito calor no verão, mesmo abrindo a janela... abre a cortina e vem o sol...

Destacamos essa informação como um pequeno exemplo da falta de comunicação no interior da Escola. No caso específico, não parece haver nenhuma causa relevante para que não haja ditos ventiladores, uma vez que eles se encontram na Escola, encaixotados e armazenados na Biblioteca...

“Ouvir” a criança é uma das possíveis portas para investigar a condição da infância no interior da escola e especialmente rever esta na perspectiva “progressista”. Como afirma Snyders (1993, p.12), “a escola já contém elementos válidos de alegria. [...] É a partir da própria escola, dos fragmentos felizes que ela deixa transparecer, que se pode começar a pensar em como superar a escola atual”.

As crianças demonstraram, por seus depoimentos, que percebem as relações sociais de que tomam parte, e estão dispostas a participar do processo de mudança da Escola. Esta mudança é uma necessidade latente, sentida por todos, principalmente pelas próprias crianças.

Suas sugestões para ampliar a participação infantil refletem as limitadas oportunidades que hoje possuem de participar. Sem um repertório qualificado que ofereça referências de ação às crianças, elas permanecerão com as parcas possibilidades que as condições das relações do cotidiano imediato lhes oferecem.

A possibilidade de que a construção de espaços e mecanismos efetivos de participação, num caráter formativo, pedagógico, em que o ato de participar seja a base da aprendizagem da participação, nos estimula a continuar na defesa desta bandeira na escola. Entretanto, o caminho é longo!

Ainda nos parece necessário aprofundar os estudos e debates sobre o significado da participação da criança na escola, pois, dependendo da concepção do adulto responsável pelo trabalho escolar junto à criança, essa participação vai tomar perfis diferentes, resultando em objetivos sociais distintos.