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5. Nachträglichkeit e "O Homem dos Lobos"
"História de uma neurose infantil ('O homem dos lobos')" (1918 [1914]/2010) é um relato de aspectos da neurose de infância do paciente Serguei Pankejeff, cujos sintomas estavam ligados a dois eventos principais: à suposta observação do coito parental quando era um bebê de um ano e meio, e à sedução45 que teria sofrido aos três anos e três meses, cuja autoria seria de sua irmã um ou dois anos mais velha do que ele. É também o texto em que a Nachträglichkeit ressurge após um longo período ausente dos textos de Freud, agora relacionada com a cena originária, com os vários tempos do trauma, e novamente com uma sedução infantil.
Após os textos do final do século XIX que examinamos46, e antes de "O homem dos lobos", a Nachträglichkeit fez uma rápida aparição em "A interpretação dos sonhos" (1900). Nessa obra o conceito está desvestido do caráter traumático que geralmente o acompanhava47. Antes de citá-lo, recordemos que o trauma era composto de dois momentos: o momento original, do acontecimento perturbador, e um momento posterior, após a puberdade, em que um evento aparentemente simples ativaria lembranças inconscientes devido a traços associativos presentes em ambas as cenas, e a cena presente ressignificaria a cena passada como sexual, conferindo a ela uma eficácia psíquica possível apenas com a maturação sexual do sujeito. Trata-se, na "Interpretação dos sonhos", de uma anedota contada durante o relato do sonho do
Knödel48, das três mulheres e três parcas. Freud entra na cozinha em que uma das mulheres, a dona do estabelecimento, amassa Knödel. Ao relacionar a dona do estabelecimento à mãe que dá a vida e também o primeiro alimento, recorda-se da anedota sobre um homem jovem que se tornou grande admirador da beleza feminina e que, durante uma conversa que se voltou para a linda ama de leite que o amamentara quando bebê, lamenta-se por não ter aproveitado melhor aquela ocasião. Diz Freud: "costumo usar a anedota para explicar o fator 'a posteriori' [Nachträglichkeit] no mecanismo das psiconeuroses" (FREUD, 1900/2019, p.242). O trauma
45 Sedução ou, antes, lúdicos jogos sexuais da infância? Delziovo et al. explicam que "jogos sexuais diferenciam-se do abuso diferenciam-sexual quando não diferenciam-se determina um dediferenciam-senvolvimento assimétrico entre os participantes (entende-diferenciam-se por assimetria uma diferença de até 5 anos [sic] entre os envolvidos) e pela avaliação da natureza do comportamento coercitivo. Assim, quando uma criança no mesmo estágio de desenvolvimento está olhando e tocando (acariciando) a genitália da outra, por interesse mútuo, sem coerção ou intrusão de corpos, é considerado um comportamento normal, não abusivo" (DELZIOVO et al., 2018, p.20). No caso do paciente de Freud, a experiência resultou perturbadora.
46 Deixamos de examinar uma carta a Fliess de 9 de junho de 1898, na qual Freud conta estar lendo um romance, "Gustav Adolfs Page" ["O pajem de Gustavo Adolfo"], de C.F. Meyer, e ter ali encontrado por duas vezes o pensamento da Nachträglichkeit.
47 Talvez se trate de uma Nachträglichkeit não-neurótica, mencionada por Freud na carta 75.
52 não está presente, mas permanecem os dois momentos de uma série temporal não linear, novas compreensões e ressignificações sexuais. Laplanche explora lindamente os elementos dessa anedota e nos mostra como a ideia da Nachträglichkeit opera com as duas direções temporais. Freud não escolhe a idade do personagem, que é, ao mesmo tempo, lactante e jovem adulto. Assim, deixa indeterminada a direção da flecha do tempo e como que permite enunciar duas proposições simétricas:
"Vejam de que modo essa época precoce, o prazer sexual vivido ao mamar, determina a sexualidade do personagem adulto"; ou "Vejam de que modo este jovem adulto se volta a situar retrospectivamente em uma circunstância infantil, por si só inteiramente inocente, e na qual reinjeta sexualidade" (LAPLANCHE, 2012, p.106).
Mas Laplanche não estava satisfeito, pois constatou uma ausência que de certo modo tornaria artificial a simetria das direções temporais. Freud teria situado todo o processo no personagem do sujeito bebê-adulto e deixado a ama de leite de fora. A experiência infantil evocada seria apenas um gozo sem conteúdo representativo, ou seja, sem mensagem, pois a ama está ausente da ação, interação e interlocução com o bebê. É como se pudesse ser substituída por qualquer fonte emissora de leite, voluptuosa e que não fala. Para Laplanche, "todo o processo tem origem neste outro-adulto, uma vez que seu gesto é indissociável de uma mensagem sexual/não-sexual, mensagem que dormitará por vários anos para ser despertada depois e exigir 'compreensão après-coup', isto é, tradução" (ibid., p.107). Freud teria se esquecido totalmente desse terceiro, que seria o verdadeiro motor do processo, e ficado preso a um determinismo que surge da sexualidade infantil pretensamente biológica e a uma espécie de interpretação "retroativa", de onde derivariam as doações de sentido ou ressignificações.
Voltemos a "O homem dos lobos", na qual a Nachträglichkeit se faz presente o tempo todo, com suas características sexuais e traumáticas, e é explorada em especial em uma vertente retrospectiva tal que seremos levados a eventos ocorridos na pré-história da humanidade.
Toda a história do "Homem dos Lobos" está inserida, sem dúvida, no après-coup, igual a qualquer história de um ser humano, mas o relato mesmo de Freud está em
après-coup, (...) na medida em que a partir da análise de uma afecção adulta, Freud
pretende reconstruir, não recordações de infância, mas uma neurose infantil como realidade clínica. O que se reconstrói a partir da análise adulta é a "neurose infantil", e não só recordações de infância. (LAPLANCHE, 2012, p.110).
O Homem dos Lobos é o terceiro grande caso clínico publicado, dentre os conduzidos por Freud, depois do caso Dora e do Homem dos Ratos. Sua análise foi a mais longa das três e compreendeu o período entre 1910 e 1914. Após a publicação do caso, Freud e Serguei retomaram a análise para liquidar um resto de transferência, nos termos de Freud, entre 1919 e
53 1920, mas o paciente reapresentava sintomas anteriores, agravados pela sua ruína financeira após a Revolução Bolchevique. Em 1926, o paciente procurou Freud novamente, que acabou por encaminhá-lo à sua discípula Ruth Mack Brunswick. Depois foi analisado por Kurt Eissler, tratado por Wilhelm Solms-Rödelheim e recebeu ajuda de Muriel Gardiner, que o auxiliou a escrever suas memórias49. Após 1945, passou a ser sustentado pelo movimento psicanalítico. "Tornou-se um personagem mítico: mais o Homem dos Analistas do que o Homem dos Lobos, símbolo, afinal, do caráter 'interminável' da análise freudiana" (ROUDINESCO & PLON, 1998, p.564).
Serguei Constantinovitch Pankejeff (1887-1979) nasceu na Rússia e foi criado em Odessa em uma rica família da aristocracia rural. Sua relação com Freud começou em 1910, por conta de um adoecimento mental que o levou a um estado de dependência dos outros. Os dez anos anteriores da juventude tinham sido relativamente normais, tendo terminado os estudos secundários sem problemas. Sua infância esteve marcada por um grave distúrbio neurótico, que surgiu primeiro como histeria de angústia ligada à fobia de animais e se transformou em uma neurose obsessiva que se prolongou até seus dez anos de idade. O recorte que Freud faz em sua comunicação se concentra sobretudo na neurose infantil do paciente, mas aborda aspectos de condições patológicas da vida adulta que teriam prosseguido da neurose infantil até a posterior, como os oscilantes distúrbios intestinais, que o levaram a ficar meses sem evacuar espontaneamente e a depender de lavagens realizadas por outras pessoas. Na vida adulta, o paciente passou longo tempo em sanatórios alemães e teve seu caso diagnosticado por autoridades na época como "loucura maníaco-depressiva", diagnóstico que, para Freud, se aplicava mais ao pai do paciente, que era acometido por ataques de severa depressão, que vinham perturbar suas atividades e interesses. No seu paciente, Freud não notou oscilação intensa de ânimo durante os anos de tratamento e apontou que o caso "deve ser tomado como sequela de uma neurose obsessiva que transcorreu de modo espontâneo e se curou imperfeitamente" (FREUD, 1918[1914]/2010, p.15).
O fragmento de caso descrito por Freud é o de uma neurose infantil analisada cerca de quinze anos após o seu fim, no paciente já adulto. Acompanharemos as reconstruções de cenas infantis importantes para o desenvolvimento de patologias, a partir de relatos de lembranças. O estudo das neuroses infantis tem elevado interesse teórico para o entendimento das neuroses dos adultos, comparável à contribuição dos sonhos infantis no entendimento dos sonhos dos adultos. Existiriam, para Freud, algumas vantagens em se trabalhar uma neurose infantil a partir
54 dos relatos de um adulto, pois, embora a análise com a própria criança neurótica possa se mostrar mais confiável, não seria mais rica em conteúdo, já que seria preciso lhe emprestar palavras e pensamentos. Além disso, na criança, haveria uma impenetrabilidade maior da consciência nas camadas mais profundas, e uma dificuldade maior da parte do médico de estabelecer empatia com sua vida psíquica. "Na pessoa adulta e intelectualmente madura, a análise da doença infantil por meio da recordação está livre dessas restrições; mas deve-se considerar a distorção e retificação a que o próprio passado de alguém está sujeito, ao ser olhado retrospectivamente50" (FREUD, ibid., p.16).
Os pais do paciente casaram-se jovens e eram inicialmente felizes, até que aos poucos os adoecimentos foram se aproximando, como as dores abdominais de sua mãe e os episódios de depressão de seu pai, que o levavam a se ausentar da casa. Devido às dores, a mãe pouco se ocupou de seus dois filhos. O paciente tinha uma irmã, Anna, cerca de dois anos mais velha que ele, descrita como vivaz, travessa e dotada. Recebeu cuidados da querida babá Nânia e da governanta inglesa, com quem o paciente antipatizou. Trabalhavam para a família, também, um jardineiro, um diarista surdo-mudo que transportava água para casa e a empregada-babá Grucha. A família vivia em uma propriedade rural e passava o verão em outra. Em algum momento da infância, a família se mudou para a cidade.
Segundo relatavam ao paciente, ele teria sido de início uma criança afável, dócil e tranquila, mas se tornou irritadiço e violento após a chegada da governanta inglesa, que cuidou da casa por um período. A governanta era uma pessoa intratável e teria se indisposto com a babá, de quem o menino teria tomado partido. Com o retorno dos pais à casa, a governanta foi afastada, mas a criança continuou insuportável. A mudança de caráter, inicialmente atribuída à presença da governanta, estaria mais ligada, no entanto, a "manifestações peculiares e doentias" (ibid., p.24), que, em suas lembranças, ele não conseguia ordenar cronologicamente. A recordação do tempo ruim, ele associa ao período em que viviam na primeira propriedade, até cerca de seus cinco anos. Nessa época, sua irmã costumava explorar seus medos para atormentá-lo, como o medo que ele sentia a ponto de gritar sempre que via a ilustração de um lobo em pé, andando, que fazia parte de um livro de imagens. O garoto temia que o lobo o comesse vivo, e a irmã sempre arranjava o livro de modo que ele encontrasse a imagem e se deleitava com seu pavor. Ele tinha fobia de animais, grandes e pequenos, como borboletas, besouros e lagartas. Mas também os perseguia, como a uma borboleta de listras amarelas, que
50 Assinalemos, de passagem, que nesta afirmação o raciocínio nos termos da Nachträglichkeit se faz presente, ainda que sem o uso da expressão.
55 perseguiu logo antes de ser tomado de um medo repentino por ela, e aos besouros e lagartas, que atormentava e até seccionava. Dos animais grandes, os cavalos o inquietavam. Quando batiam em um cavalo, ele gritava; em outros momentos ele mesmo batia em cavalos. Não fica claro se os comportamentos opostos em relação aos animais eram simultâneos ou se sucederam-se em fasucederam-ses distintas. Ainda assim, fica bem reconhecível o adoecimento de neurosucederam-se obsucederam-sessiva em um período da infância. Outra característica ligada à sua neurose obsessiva foi a devoção religiosa, que apresentou durante um tempo. Seguia alguns cerimoniais como rezar longamente antes de dormir, fazer o sinal da cruz em série interminável e beijar cada imagem de santo das paredes do quarto. Ao mesmo tempo, parece, vinham-lhe à mente pensamentos sacrílegos que atribuía à inspiração do Diabo e pensava: Deus-porco, ou Deus-fezes.
Era insatisfatória a relação que o paciente, em anos mais maduros, tinha com o pai, cujos repetidos ataques de depressão não puderam mais ocultar os lados doentios de seu caráter. Na primeira infância, no entanto, a relação era terna, seu pai gostava dele e de brincar com ele. Era uma época em que o paciente tinha orgulho do pai e gostaria de ser um homem como ele. Certa vez ouviu da Nânia que sua irmã pertencia à mãe e ele pertencia ao pai, o que lhe agradara muito de início, mas, ao notar que não era bem assim, que seu pai preferia a irmã, ficou ofendido. Depois, o medo passou a ser o sentimento dominante pelo pai.
Aos oito anos, suas manifestações de mau comportamento foram desaparecendo, em grande parte por influência dos professores e educadores que estavam tomando o lugar das mulheres em sua educação. "De onde procede a repentina mudança de caráter do menino, o que significavam as fobias e suas perversidades, como adquiriu sua obsessiva piedade e como se relacionam todos esses fenômenos?" (ibid., p.27). Esses enigmas, diz Freud, seria tarefa da análise solucionar.
As suspeitas iniciais quanto à brusca mudança de comportamento, vimos que recaíram sobre a governanta inglesa, devido ao período em que ela trabalhou na casa. Quando o paciente contou duas lembranças encobridoras referentes à governanta, Freud supôs que haveria algo ali que apontava para o complexo ligado à castração. Em uma das lembranças, a governanta, que andava à frente dos demais, teria dito "olhem só o meu rabinho!". Na outra lembrança, seu chapéu foi levado pelo vento, o que teria alegrado os irmãos. Relacionados a esses conteúdos, surgiram sonhos que diziam respeito a ações agressivas do garoto contra a irmã ou contra a governanta, e repreensões e castigos devido às agressões. Teria o garoto tentado desnudar a irmã no banho, como o conteúdo parcamente surgido poderia dar a entender? Freud não
56 acreditava nisso; eram só fantasias criadas na puberdade pelo sonhador acerca da infância e que agora reemergiam de forma pouco reconhecível. A compreensão veio de uma só vez, com a lembrança de que sua irmã o induzira a práticas sexuais. No banheiro da casa ela teria proposto que mostrassem o bumbum um ao outro e passado das palavras ao ato. Em outra ocasião, na primavera, quando brincavam em um aposento, a irmã teria segurado o seu membro e brincado com ele, dizendo que Nânia fazia o mesmo com todo o mundo, com o jardineiro. As fantasias pouco antes conjecturadas visavam reconstruir seu amor próprio masculino, apagando a lembrança da verdade histórica e substituindo-a por uma construção com conteúdo oposto. "Conforme essas fantasias, ele não tinha desempenhado o papel passivo diante da irmã, mas pelo contrário, fora agressivo, quisera ver a irmã despida, fora rechaçado e castigado, e por isso tivera o acesso de fúria de que a tradição doméstica tanto falava" (ibid., p.29).
A sedução pela irmã certamente não teria sido uma fantasia, acredita Freud. O relato do paciente aumentou em credibilidade quando Freud soube da história de um primo dez anos mais velho que teria contado ao paciente sobre sua irmã, "que se lembrava muito da criaturinha petulante e sensual que ela havia sido. Quando era uma menina de quatro ou cinco anos de idade, ela se sentou uma vez em seu colo e lhe abriu a calça, para pegar em seu membro" (ibid., p.30). Durante a infância, sua irmã sempre fora uma incômoda rival pelo afeto dos pais, dada sua superioridade e impetuosidade. Era indomável, destacava-se por sua inteligência aguda, e frequentemente gracejava de seus pretendentes, que eram menos brilhantes que ela. Mas aos vinte e poucos anos seu humor estava deprimido, queixava-se por não ser tão bela e foi se afastando de todo o convívio. Durante uma viagem, envenenou-se e morreu.
A relação com a irmã tinha começado a melhorar quando o paciente contava com quatorze anos, quando a oposição de ambos aos pais os aproximou e possibilitou que se tornassem amigos. Em um momento de excitação sexual tentou buscar intimidade junto a ela, que o rejeitou decididamente. Ao ser rejeitado, buscou uma menina camponesa que prestava serviços na casa e tinha o mesmo nome da irmã. Assim teria se dado sua escolha heterossexual de objeto. O paciente passaria a só se apaixonar por garotas que trabalhavam como criadas, de educação e inteligência mais modestas que as suas, como uma tendência ao rebaixamento da irmã e à anulação de sua superioridade intelectual.
Voltemos ao nexo entre o despertar da atividade sexual e a mudança de comportamento do paciente. Aos três anos e três meses, quando o garoto reagiu com recusa às tentações da irmã, ele estava recusando a pessoa, mas não a coisa. A irmã não era um objeto sexual agradável, dada a hostilidade presente na relação dos dois. Buscou então a Nânia, a quem tentou
57 seduzir brincando com seus órgãos sexuais diante dela, mas ela o rejeitou e avisou que crianças que agiam assim ficavam com uma ferida no lugar. Após a recusa e a ameaça da babá, o paciente deixou de se masturbar e, com a supressão do onanismo, sua vida sexual assumiu caráter sádico-anal. Teria sido nesse processo em conexão com a sedução da irmã e com a ameaça de castração da Nânia que ele se tornou irritadiço e passou a atormentar animais, os quais tratava com crueldade, e pessoas, principalmente a Nânia, de quem se vingava pela rejeição sofrida. A rejeição por Nânia teve como efeito no paciente o desprendimento da expectativa libidinosa até então nela investida e a escolha do pai como objeto sexual. O pai, que antes era seu objeto de identificação na corrente ativa, passou a ser seu objeto sexual na corrente passiva sádico-anal.
A impressão é de que a sedução pela irmã o teria empurrado para o papel passivo e lhe dado uma meta sexual passiva. Sob a influência contínua dessa experiência, ele descreveu o caminho desde a irmã, através da Nânia, até o pai, da postura passiva diante da mulher à mesma perante o homem, e nisso estabeleceu contato com sua fase primeira e espontânea do desenvolvimento (ibid., p.39).
Quando o pai voltou no final do verão ou do outono, encontrou o filho em meio a acessos de fúria e raiva que tinham dupla função, finalidade sádico-ativa junto à Nânia e finalidade masoquista junto ao pai, de quem esperaria castigos e pancadas. Numa das tentativas de ser castigado devido a cenas malcriadas e gritos dirigidos ao pai, este não o surrou, apenas tentou acalmá-lo e brincar com ele.
Segundo Freud, os sintomas de angústia se juntaram aos sinais de mudança de caráter apenas a partir de um certo evento que teria ocorrido pouco antes do paciente completar quatro anos. O momento traumático foi um sonho.
O paciente conta que no sonho é noite de inverno e está deitado em sua cama diante da janela. A janela se abre e ele vê uma grande nogueira em que estão sentados seis ou sete lobos brancos, com caudas grandes como raposas e orelhas em pé como as dos cães pastores quando estão atentos a algo. Com medo de ser comido, gritou e acordou. Foi acudido pela babá e demorou a acreditar que havia mesmo sido apenas um sonho. O desenho da cena entregue a Freud pelo paciente continha uma árvore com cinco lobos sentados sobre os ramos.
A análise do sonho trouxe muito material à luz, mas nos restringiremos a expor apenas uma parte dele. O paciente se lembrou de uma história contada pelo seu avô, provavelmente antes do sonho, em que um alfaiate vê entrar um lobo pela janela da sala. O alfaiate agarra e arranca o rabo do lobo, que foge apavorado. Tempos depois, o alfaiate é abordado por um bando de lobos na floresta e se refugia em uma árvore. O velho e robusto lobo que havia sido mutilado
58 por ele estava ali para buscar vingança, e se coloca na base de uma pirâmide em que os outros