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4 DEIXA EU VER SUA ALMA

4.2 Nada de comida!

A tortura corporal como exercício de um poder de extrema intensidade sobre o sujeito é um tema constante nos escritos de Luiz Alberto Mendes. O esforço empreendido de narrar/reconstituirr sua trajetória de vida, como suporte para o exercício de um domínio sobre a mesma, está atravessado por uma tentativa de entendimento do suplício corporal como procedimento constitutivo desse “quem sou eu” que move as articulações narrativas. Esta busca retorna no tempo até a infância:

63 Do conto de José Luandino Vieira, “O fato completo de Lucas Matesso”: “Já sentia o chicote a berrar

em cima da pele do homem, os gritos, as desculpas que ele punha sempre, aquele prazer que lhe entrava no corpo quando acendia o cigarro e se encostava na cadeira para começar ditar no ajudante – ...declarou que... [...] E afastou-se com o passinho miúdo e aos saltinhos como rato, os olhos outra vez encolhidos de alegria, as mãos fazendo festa no queixo, sonhando com esse dia de amanhã em que ele ia mas é fazer um fato completo a chicote a esse sacana do Lucas João Matesso, na cela 16 [...] Na porta teve ainda uma idéia que lhe alegrou mesmo na cabeça. Voltou para trás e gritou para o guarda prisional feito estátua a tomar conta das flores do jardim: – Ó Artur! Esse gajo da 16, hoje e amanhã, nada de comida! E saiu a assobiar” (VIEIRA, 1985, p. 60).

Por qualquer motivo, mandava que eu fosse buscar o cinturão de couro no armário e dizia, sadicamente, que iríamos ter uma conversa. Era uma tortura, era mesmo! Pegava pelo braço e batia, batia, batia... até ficar sem fôlego. Eu sentia que era com raiva, prazer até. Qual quisesse apagar todos os males de sua vida miserável. Eu gritava até não ter mais voz, pulava, esperneava e tentava me defender dando a parte menos dolorida do corpo às cintadas. Se é que havia alguma parte menos dolorida. Então me largava num canto, escondido do mundo, inteiramente só, chorando...Todo cortado por vergões roxos, querendo morrer para que ele sentisse culpa da minha morte (MENDES, 2001, p. 14).

Na economia da narrativa do exercício de um poder mais forte sobre o seu corpo muito mais frágil e quase impotente, Mendes inclui uma estratégia de auto-defesa – dar a parte menos dolorida do corpo – como índice de uma consciência, que se dobra entre o tempo do narrado e da narrativa, sobre o mecanismo de funcionamento da tortura que, mais adiante, vai-se tornando cada vez mais explícito: “Havia um prazer mórbido em me irritar, em me enervar; esticar ao máximo meus nervos era uma de suas brincadeiras favoritas. Eu só podia ficar vermelho e chorar de raiva, frustrado” (MENDES, 2001, p. 19).

Nos intervalos dessa voz como domínio de saber sobre uma técnica (ou o domínio deste saber como intervalo), aparece-nos o resultado do corpo massacrado em forma de um certo tipo de aprendizagem: “Fiquei ali no quarto, jogado, só sentindo dor e pensando como a vida era dura para mim. Estava consciente de meu erro [...] eu era errado mesmo. Havia algo errado em mim [...]” (MENDES, 2001, p. 44). Põe-se em cena, nesse ponto, uma eficiência de natureza pedagógica da tortura.

Imagens definidas como “estarrecedoras” e “dantescas” (MENDES, 2001, p. 301) são constantemente reativadas no percurso da narrativa que, ao partir do exercício de força do pai sobre o Luiz criança, passa pelos maus-tratos das crianças maiores e seus abusos sexuais aos menores, pela prática de estupro entre os detentos (os que têm mais poder sobre os que têm menos ou nenhum poder no interior da “cultura prisional”) chegando ao ponto em que há

um flagrante de presos se auto-infligindo flagelos corporais dentro de uma mesma cela para escapar da tortura policial que lhes aguardava, condicionada, nos “anos de chumbo” à autorização de um médico que daria um asséptico parecer sobre a capacidade do preso de suportar ou não as técnicas de tortura: “O sujeito chorava de dor, mas, por incrível que pareça, seu rosto estava descontraído, havia alguma paz. Escapara da tortura. Não sei se valia o preço, pois a fratura era exposta” (MENDES, 2001, p. 301).

As narrativas das torturas corporais institucionalizadas, no mais das vezes muitíssimo detalhadas, funcionam como uma espécie de esmiuçamento dos procedimentos de exercício do poder policial-carcerário.

Tinham uma crueldade requintada, só batiam nas juntas e na espinha, evitando a cabeça: não era para matar nem aleijar, só para encher de medo, o que para eles significava disciplina. Não usavam a mão no corpo. Cada vez que pegavam alguém para bater, era para bater firme, uma, duas horas de surra contínua. Não havia ódio, raiva, parecia algo científico, sem emoção. O ódio, a emoção, nessa espécie de tortura, embora fossem mais violentos em sua manifestação, logo deixariam a vítima inerte e se consumiriam na explosão da ira.

Um bom torturador nunca é emotivo. Tortura desapaixonadamente. Os soldados ultrapassavam a violência normal, eram metódicos. Havia um pico, um ponto de dor e sofrimento a ser infligido à vítima, o qual devia, ao mesmo tempo, dobrar o sujeito e transmitir exemplo saneador aos demais. Depois, o elemento era jogado em uma tina contendo água quente e sal grosso. Dessa forma queimavam-se bem todas as feridas e cortes para não infeccionar. Diziam os que passaram por essa experiência que essa era a pior parte. Que o corpo parecia pegar fogo, transformava-se em uma ferida só.

Após todo esse ritual de tortura, o sujeito era jogado na cafua. Meio morto, é claro. Por cinco ou seis dias, era alimentado na boca (às vezes só de canudinho e pelo canto da boca, tal era o seu estado) por outro menor, que trabalhava na faxina. Depois, quando já pudesse andar, era jogado na cela- forte por três, quatro meses (MENDES, 2001, p. 161).

A essa descrição minuciosa das etapas e técnicas de tortura (que, segundo Mendes, os soldados treinavam nos “menores infratores” para executar nos presos políticos do regime ditatorial) corresponde um aprendizado da voz narrativa sobre o funcionamento de situações de exercício extremo poder, que Ivete Keil define nos termos da idéia de “corpo torturado”: “Um corpo torturado

é um objeto de tortura nas mãos malignas do torturador” (KEIL, TIBURI, 2004, p. 11); “A tortura é sempre clandestina, ilegítima, e seu objetivo é aniquilar, destruir, degradar e demolir o Outro. A tortura é uma pedagogia do medo e da demolição (Ibid, p. 20); ou ainda: “A realidade do corpo torturado é, ao meu ver, movimento e relações de forças. Não existe aqui condição de repouso” (Ibid, p. 22).

A escrita de Luiz Alberto Mendes como um sujeito cujo corpo foi reiteradamente marcado por todo tipo de tortura possui, de dentro da memória da dor e para além dela, uma dimensão de gesto de aprendizado dessa experiência como uma aplicação técnica sobre o seu corpo, elaborada em termos procedimentais para a geração de efeitos diversos. Uma das “verdades” que Mendes parece aprender sobre a tortura, e que nos ensina, no percurso da narrativa de si, ao encená-la, tem a ver com este último extrato citado da correspondência de Ivete Keil a Márcia Tiburi: o corpo torturado é um processo, uma relação de forças.

O cheiro de merda e mijo era forte. A maioria caga e mija na tortura. Parece que a dor intensa descontrola intestinos e bexiga. Só então pude entender a jogada dos tiras. Queriam me apavorar. Entrei no jogo deles, demonstrei o maior medo possível. Quando falavam em tirar um daqueles pendurados para me colocar no lugar, só faltava eu ajoelhar e implorar para que não o fizessem. Fazia parte do jogo da sobrevivência. Eles pressionavam, e eu envergava qual palmeira ao vento.

Já havia aprendido que a tática mais segura de manter a boca fechada diante a tortura começava já antes da tortura. Ninguém agüenta a tortura frontal, a não ser elementos excepcionais, insensíveis à dor brutal. Mas havia a artimanha, a experiência, o protagonizar um papel, vencer a violência total pela inteligência e perspicácia. Era o único modo, aliás, sempre foi, desde tempos remotos (MENDES, 2001, p. 303).

Ao lado deste personagem cujo domínio de si opera por um estratégico saber sobre a “verdade do poder”, os escritos de Mendes também nos permitem observar outra “verdade”: a espécie de sujeição provocada pela tecnologia da tortura. No trecho abaixo, o personagem, violentamente, muda de figura:

A dor era de enlouquecer, estupidificar. Gritei no começo, e eles diziam que queriam me ver ganindo como um cão, até que a voz foi sumindo aos poucos. Então me chutaram e bateram tanto que não sentia mais a boca. Enlouquecido de dor, entreguei-me à morte várias vezes, eles me ressuscitavam em baldes de água fria, que fazia a potência do choque dobrar [...] Senti que iriam nos matar mesmo, quando perceberam que já não éramos capazes de reagir à tortura (MENDES, 2001, p. 376).

Mas eu nada sentia. Parecia estar pairando sobre meu corpo, assistindo à tortura e sofrendo-a, mas só de ver o que faziam com meu corpo, ficava com dó de mim.

A impressão de estar fora do corpo era tão forte que mexi o corpo para ver se ele mexia, e ele não mexeu. Achei que havia morrido. Era demasiadamente estranho, como morrer e estar ali vendo! Era incompreensível (Ibid, 377).

Os limites de sensação do corpo em articulação semântica com a idéia de si como sujeito ativo parece, a partir desta narrativa, ser a “junta” sobre a qual a violência da tortura investe mais fortemente. O efeito discursivo reativado pela memória do corpo torturado é o da “animalização” do sujeito, ou de uma subjugação total do sujeito a um corpo objetificado e extraviado de si. Esse “si” que resta é aquele que se vê aniquilado em sua vontade de vida diante de uma força super-potente.

Para expressar a imagem deste embate absolutamente assimétrico de forças, o pensamento de Giorgio Agamben – “o poder soberano” diante da “vida nua” (AGAMBEN, 2002) – nos serve tanto quanto o trecho do conto Cela

forte de Mendes: “Há um ano eu vinha sendo espancado e jogado em celas-fortes

a troco de qualquer coisa. Era um abismo, por dentro. Transbordava de meu corpo, rompendo todos os limites” (MENDES, 2005 b, p. 110).

O esvaziamento de uma interioridade como significante do “eu” em articulação com o seqüestro do seu próprio corpo é assim teorizado por Maria Rita Khel:

É que a tortura refaz o dualismo corpo/mente, ou corpo/espírito, porque a condição do corpo entregue ao arbítrio e à crueldade do outro separa o corpo e o sujeito – no sentido do sujeito da ação, da vontade, da determinação. Sob tortura, o corpo fica tão assujeitado que é como se a “alma” – isso que no corpo pensa, simboliza, ultrapassa os limites da carne pela via

das representações – ficasse separada dele. A fala que representa o sujeito deixa de lhe pertencer, uma vez que o torturador pretende arrancar de sua vítima a palavra que ele

quer ouvir, e não a que o outro teria a dizer. Resta ao sujeito

que se identifica com o corpo que sofre nas mãos do outro o silêncio, como última forma de domínio de si (KHEL, 2004, p. 11).

O “silêncio” como esvaziamento da “interioridade” do sujeito, o “abismo” como resto de uma última unidade simbolicamente reconhecível ao lado de um corpo imóvel nos lembra o desdobramento deleuziano da noção de um “Corpo sem Órgãos”: “O CsO é o que resta quando tudo foi retirado”, inclusive as “significâncias” e “subjetivações” (DELEUZE, GUATARRI, 2004, p. 12). São “corpos esvaziados” de substância e “plenos” de “alegria, êxtase e dança” (Ibid, p. 11).

Quanto à produtividade da tecnologia da tortura sobre o corpo daquele que se escreve também para aprender algo sobre si, podemos ler a oscilação, em diversos matizes, entre uma narrativa marcada pela aprendizagem do peso de um corpo marcado pelo vazio-abismo (aquele que guarda a memória de uma falta de “si”) e esse corpo “pleno” de que nos fala a idéia de “CsO”. Se tomarmos a relação narrativa que Luiz Alberto Mendes engendra, via escrita de si, com seu corpo sexuado, por exemplo, temos alguns flagrantes:

Levei-a até o chuveiro, cheio de compaixão. Agora totalmente arrependido. Eu a usara de maneira vil. Abusara de sua fragilidade, e aquilo me doía. Nauseabundo, me enojava de mim mesmo (MENDES, 2005 a, p. 145).

Uma cena típica de “confissão”, no sentido de “colocação do sexo em discurso” de uma tradição ascético-monástica (FOUCAULT, 2001 a, p. 24). Aí a escrita de si funciona como remarca de uma técnica de produção para si de um corpo esvaziado, mas que pesa nos termos do arrependimento e culpa, na medida em que esse vazio é um “abismo”, ou seja, um espaço deixado onde antes havia uma interioridade, um “mim mesmo”.

Em contrapartida, há outros lances de encenação do corpo sexuado mediados por certa “leveza” que merecem citação:

Acabávamos por fazer assim mesmo, escondidos pelas cortinas. Era magnífico. Estávamos nos descobrindo, um ao outro e a nós mesmos, enquanto seres sexuais. Eu, que imaginava conhecer tudo, agora percebia que não sabia nada (MENDES, 2005 a, p. 254).

A narrativa de si como processo de subjetivação em movimento, de operação da “verdade” de um eu sempre precário, que não se encontra sistematizado em nenhum ponto dos escritos de Luiz Alberto Mendes, é, ao mesmo tempo, marcada por uma memória de corpo torturado e atravessada por um aprendizado de outras formais mais alegres de relação com o “si” de um corpo mais leve.