Além das narrativas e experiências das mulheres estrangeiras, turistas ou moradoras de Trancoso, que apresentei até aqui, na interação e entrevistas com homens locais que se relacionavam ou haviam tido relacionamentos com mulheres estrangeiras pude colher dados etnográficos que enriquecem os movimentos traçados até aqui. No que concerne a um aspecto metodológico da etnografia, além dos percursos e relacionamentos
em campo viabilizados por técnicas sociais de snowball (alguém lhe apresenta a alguém, que lhe apresenta a um/a interlocutor/a, e sucessivamente), uma forma de identificar e abordar as minhas interlocutoras esteve informada pelos estereótipos do que seria uma turista estrangeira, ou como referido localmente, uma “gringa”, isto é: cor das peles (mais claras, às vezes avermelhadas), cabelos (mais lisos, às vezes cortes mais curtos), forma de andar (mexendo menos os quadris), roupas (menos decotadas e justas), etc. No entanto, com os homens locais, salvas algumas exceções, não havia um padrão que eu pudesse aplicar para diferenciá-los pelas ruas e festas, a não ser se estivessem acompanhados de uma turista no momento do encontro. Isto tornava, assim, incontornável a necessidade de estabelecer laços mínimos antes de conseguir marcar uma entrevista; entrevistei seis homens ao total em Trancoso e todos eram pessoas com quem eu já vinha convivendo já há algum tempo, ou com quem compartilhava amigos em comum. Deixei para realizar estas entrevistas já no terceiro mês das atividades etnográficas, pois, conforme havia experenciado na pesquisa de campo que realizei na graduação em Bonito-MS, entrevistar homens a respeito de seus relacionamentos afetivo-sexuais poderia ser especialmente dificultoso, devido a limites impostos por padrões de gênero e sexualidade onde não há muito espaço para que um homem fale abertamente de mulheres e de sexo com uma mulher, no caso eu, a pesquisadora, com quem não possui muita intimidade.
Não me surpreendera que inicialmente as minhas tentativas de aproximação dos dois homens taxados localmente como “caça-gringas” foram lidas pelos próprios como uma oportunidade de paquera. Um deles, de estatura média, tinha braços fortes e músculos torneados, pele negra e brilhante, como efeito do óleo de coco que espalhara pelo corpo. De bermuda de tactel colorida estilo surfista, seus cabelos eram transados em dread locks, amarrados no topo da cabeça com uma tira de tecido com as cores da bandeira da Jamaica. Chamando a atenção para o seu peitoral musculoso, ele levava pendurado no pescoço um dos colares de sementes e contas que ele fazia e vendia; um par de óculos de sol prateado com lentes polarizadas completava um visual de Adônis negro pós-moderno das areias. Logo nos meus primeiros dias em campo, estava na praia sozinha quando ele se aproximou da minha barraca; tirando os óculos, se ajoelhou ao lado da minha espreguiçadeira, me mostrando seu portfólio de desenhos para tatuar em henna e seu artesanato no estilo do
colar que usava, expostos em um bastidor. Quando declinei, agradecendo, ele educadamente manteve o sorriso branco que contrastava com sua pele escura e se retirou. Novamente de óculos, ele foi para debaixo do guarda-sol vazio imediatamente ao lado da minha barraca e ali ficou por um bom tempo, com os quadris apoiados na mesa, olhando o mar e gingando sutilmente, como quem dançasse um reggae imaginário.
Um pouco como nesse gingado, precisei de bastante jogo de cintura para me esquivar de cantadas sem, no entanto, fechar as portas para conversas e interações, tomando cuidado para as sutis medidas da intimidade física numa sociedade onde os contatos interpessoais são, em geral, bastante próximos e calorosos. Falo de abraços afetuosos, brincadeiras envolvendo carinhos, beijos no rosto, caronas na garupa da moto ou da bicicleta e toda a relação corporal que o ato de ir à praia ou à piscina envolvem: os diminutos trajes de banho, ajudar a passar protetor solar, dar um mergulho no mar ou tomar sol dividindo a canga estirada na areia. Uma das coisas que me ajudaram a pensar sobre estas intimidades é a noção de que, dado o tamanho reduzido de Trancoso, os jovens dali cresceram juntos, sendo assim muito próximos o que, inclusive, fora comentado por um informante meu, resultava no fato de não haver muito interesse afetivo-sexual mútuo entre moços e moças locais, pois “todo mundo é meio irmão”.
No entanto, me chamou a atenção que eventuais perambulações minhas na companhia de um dos homens taxados como “caça-gringas” provocariam um incômodo no meu círculo social, desde jovens da minha faixa etária do grupo ao qual me referi mais cedo, quanto de outros moradores locais, como camareiras de pousadas, por exemplo, ou até mesmo por Ema, a turista croata, e seu “ficante” nativo. Fui alertada mais de uma vez sobre como eu deveria “ficar esperta” com aqueles tipos, que poderiam estar querendo “se dar bem”. Me perguntei, porém, se estes alertas pretendiam, para alem de cuidar de mim, também controlar que eu não representasse um risco à imagem do grupo como um todo. Quando na festa em que Ema e seu ficante vieram me alertar para não “dar papo” para o “caça-gringa” lhes indaguei o motivo, ao que recebi do ficante de Ema uma resposta vaga e concisa: “Porque não pega bem”.
Alem do jovem visto como “caça-gringa” do ocorrido acima, havia outro nativo que era reconhecido localmente como tal. Para ambos, para cativar turistas estrangeiros, homens e mulheres, é importante ser alegre, saber brincar e se comunicar bem com as pessoas. Um desses jovens tem trinta anos e trabalha como instrutor de Zouk Lambada, uma dança que mistura a Lambada com o Zouk, estilo “importado” do Caribe. Para ele, ser uma mulher sozinha viajando em Trancoso não apresenta perigos, contanto que se estabeleça contatos com a população local, pois assim sempre haverá alguém que não deixará que nada de mal aconteça a esta turista, já que todos saberão que ela conhece um morador, confirmando a reflexão que trouxe mais cedo a respeito dos desdobramentos dos discursos sobre “perigo” e necessidade de “proteção” que algumas turistas estrangeiras revelaram.
Ser um homem negro, da Bahia e donos de talentos culturais, como a dança e a capoeira é, para eles e outros moradores locais com quem conversei, um orgulho. Complementam este orgulho ser, também, nativo de Trancoso, categoria esta, no entanto, bastante polissêmica. A cor da pele também aparece em destaque em suas percepções sobre como e porque as turistas estrangeiras se interessam por eles, conforme as falas a seguir:
Foi engraçado, uma vez eu estava surfando e saindo da praia aí uma moça olhou para a minha cara assim, ela não falava nada em português: “nossa, ele parece chocolate! E era engraçado, porque os estrangeiros, tem alguns que são preconceituosos, tem alguns que não gostam de negros, mas geralmente as mulheres, elas gostam da cor. Porque é diferente. Geralmente quando eu me envolvia com as gringas assim, elas falavam, ‘é diferente, a cor de vocês é muito atraente’.
(Caio, bartender, casado, 25 anos)
Realmente elas vêem atrás de querer namorar negão e elas batem o olho na gente e falam ‘nooosssa’. Então você vê que elas tão “maldosa”. Elas ficam te
falar do seu corpo, já começam a falar: você é bonito, você é lindo. Elas vêm de ferias e acabam curtindo. Pela Bahia ser tão famosa e pelos negros, pela cultura. Uma turista vem aqui e vê um negão desse: cabelo assim, colarzão. Ela vai falar ‘Onde você vai encontrar homem assim?’ Porque elas tão acostumadas a ver homem de olhos verdes e cabelos lisos, mas ela não viu lá um negro fazendo capoeira. Porque os brasileiros lá fora faz sucesso, por causa do nosso molejo, a nossa sorte foi isso aí.
(Jimmy, 30 anos, solteiro, professor de dança)
Como na fala acima, imbricados à percepção da valorização da cor da pele, estão os talentos culturais e corporais, tais como a dança, a capoeira, ou o molejo em sim. Foi comum ouvir dos homens nativos que conheci narrativas nas quais o momento da conquista, ou da paquera, se deu no contexto onde eles praticavam ou demonstravam estes talentos. Se lembrarmos das falas de algumas turistas suecas que apresentei há algumas páginas, há claramente por elas uma supervalorização de “talentos” culturais expressos através do corpo na dança, arte, música e capoeira, que operam como uma demonstração de sensualidade. Jimmy me explica também como para alem da sensualidade do corpo na dança, “que já é uma cantada”, ele acha importante dizer para as meninas que convida para dançar que é professor, pois isso traz para este contato um profissionalismo que faz com que as meninas se sintam mais seguras. Segundo ele, se a menina se interessa por algo mais, ela é quem toma a iniciativa de iniciar os atos de sedução, através de conversas ao pé do ouvido, risadas e da dança em si; desta forma, ele não aborda nenhuma garota através de cantadas e, assim, não coloca em risco sua reputação profissional.
Em relação à performance sexual, se por um lado as “gringas” são vistas como parceiras sexuais mais fáceis, disponíveis, divertidas e que “nunca dizem não” – sob a ideia de que elas estão viajando para curtir e conhecer pessoas locais – por outro, são vistas como menos quentes na cama e menos afeitas ou resistentes a atos sexuais longos. No entanto, como exemplificado neste trecho de entrevista abaixo, o sexo entre homens locais e turistas estrangeiros é percebido como uma prática capaz de satisfazer a mulher de uma
forma superior e que ela desconhecia, e, semelhante à fala de uma turista estrangeira que ressaltava como o sexo com os brasileiros a tornava “mais mulher”, nesta fala abaixo este homem nativo se orgulha de poder fazer uma mulher, na cama, “virar mulher”:
Eu quero uma mulher que se entrega mesmo e que deixa acontecer até o outro dia. As gringas na hora de transar é uma, duas e depois nada mais, vão dormir porque tão acostumada com esse ritmo. As mulheres brasileiras já me explicaram que os homens gringos são bons pra elas, que são quente. Mas as gringas pra nóis não são tão quente não. Só que quando acaba pegando o ritmo que o cara coloca, aí ela endoida! Porque nunca pegou um cara que vai fazer tudo de bom com ela. E eu já peguei mulher pra virar a mulher! Eu quero dar massagem, quero que ela se sinta à vontade. E toda hora eu quero, não quero nem sair de cima.
(Jimmy, 30 anos, solteiro, professor de dança)
Em relação aos estilos corporais das turistas estrangeiras, novamente surge a comparação com as brasileiras e sua “beleza natural”. Contrabalanceando a menor valorização dos estilos corporais das estrangeiras, são destacados outros atributos como o idioma, a educação e o carisma:
Pra falar bem a verdade, as mulheres brasileiras são as mais bonitas que existem no mundo. São as mais bonitas com certeza. Porque é uma mulher que além de ser bonita, tem um corpo bonito, é difícil você ver uma estrangeira que tem o rosto bonito, cabelo, olhos, e o corpo: peito, bunda, coxa. É difícil. As brasileiras não, é uma beleza natural.
O que mais atrai pra mim é a educação delas. Elas te dá abertura, quer te conhecer, elas estão a fim de trocar uma ideia com você. Porque o corpo também não é muito lá essas coca-cola não, né, é um corpinho razoável. Porque elas são estrangeiras, vêem do frio, muito branquinha, não tem aquele temperamento do povo brasileiro. É diferente. Eu já falei para você que eu namoro todas, mas eu prefiro as brasileira.
(Jimmy, 30 anos, solteiro, professor de dança)
Em outro contexto, ouvi de homens locais um outro aspecto das relações com estrangeira, que é a recorrência desse sentimento de se iludir, ou se decepcionar, embora não em relação a possíveis projetos migratórios, mas em envolvimentos afetivos com mulheres turistas, brasileiras ou estrangeiras. Se durante a adolescência fazer amigos ou ter namoradas turistas podiam lhes causar sofrimento, uma vez que ao final da temporada aquela pessoa iria embora tocar sua vida cotidiana, com o tempo eles foram aprendendo a se “endurecer” para se proteger dessas separações ou perdas. Como posto por Andrés:
Você começa a ficar calejado. Porque você conhece a pessoa, começa a gostar e aí a mulher parte. Aí você fala, porra, não vou gostar mais de ninguém, cara! Você chega a essa conclusão: vou ficar, e quando partiu, partiu, e bola pra frente.
Mas aos dezoito anos teve uma relação casual com uma italiana de trinta e oito anos, quem depois de três meses engravidou. Apesar dela ter dito que não iria ter o filho, e que queria fazer um aborto, na realidade ela não o fez, o que na opinião de Andrés foi um “golpe”, para que ela conseguisse ficar no Brasil. Reforçava a sua teoria o conhecimento de que, na época, ficou sabendo que a mesma mulher iria pagar a um homem R$5 mil para que ele casasse com ela, para que ela conseguisse uma cidadania brasileira.
Hoje, após a experiência de ter sido casado com uma estrangeira, tendo viajado por toda a Europa, e já se separado desta italiana, Andrés se considera uma pessoa “anti- gringa”, o que ele justifica pelas diferenças culturais: o fato deles, os gringos, serem muito frios, formais e “sem graça”, em comparação ao povo brasileiro, ressaltando também os contrastes entre contatos mais iniciais e uma convivência mais íntima:
No começo até que você se envolve, mas depois pra conviver junto, eu acho que não dá certo. Elas são bonitas, tem um rosto bonito. Mas é melhor não ter nenhum dente na boca mas ser brasileira.
A predileção por brasileiras também apareceu nas falas de Jimmy, mas como algo relacionado à sua própria busca por satisfação sexual, pelas brasileiras serem “mais quentes”, terem o temperamento e o idioma em comum com os deles, o que facilita na comunicação e em “saber com que está lidando”. Segundo ele, para alem destas motivações, outros homens locais que antes ficavam frequentemente com estrangeiras estão agora passando a dar preferência às mulheres brasileiras, pois estão em busca de relacionamentos sérios que, conforme ele vê, é algo que as estrangeiras e o fato de serem viajantes não podem oferecem. Na continuidade desta explicação, ele menciona que estes homens estão mudando suas escolhas para escapar de frustrações e desilusões amorosas, pois acabam se envolvendo afetivamente pelas estrangeiras, apaixonando-se por elas e, em função disto, querem ir embora para o exterior, sob a falsa ideia de que lá “vão se dar bem”. Nesta percepção parece haver um encadeamento nada linear entre projetos de amor romântico, migração e ascensão material/social, como se a expectativa de “se dar bem” estivesse numa relação de co-dependência com a construção afetiva em si, o “apaixonar-se”. Quando um dos termos desta relação cai, na visão dele a impossibilidade da migração por falta de capital financeiro ou estrutura que possa ser garantida pela mulher estrangeira, brota a frustração, a desilusão.
Um nativo de Trancoso vivendo na Europa, casado com uma dinamarquesa, que entrevistei, ilustra um cenário análogo, quando uma aluna sua de capoeira de Copenhagen foi para Trancoso e se envolveu afetivo-sexualmente com um homem local:
A minha aluna ela ficou lá com um nativo. Ela é dinamarquesa, conheceu um nativo e ficou com ele os três meses lá. Só que depois no final não rolou mais. Aí depois ela não queria mais. Porque às vezes a pessoa se apaixona demais, principalmente a galera lá, que é nativo. Pega uma menina, legal, aí se apaixona muito rápido. E às vezes ela não ta a fim disso tudo, às vezes ela ta a fim de curtição, de curtir aquele momento se for rolar. Às vezes, a gente fala, o caboclo vai muito com sede muito rápido, e a menina fica até meia... ele quer casar lá, já fala em casar.
F: Por que se apaixonou?
Talvez porque se apaixonou mesmo, talvez pensando também na oportunidade. Acho que tudo influencia. Pode ser uma oportunidade de querer sair.
Jimmy, quando conta do seu próprio romance, durante aquele verão, com uma estilista holandesa de cinqüenta anos, discorre sobre as reconhecidas qualidades de seu caráter, valorizadas por esta sua namorada, que o diferenciam de “caras querendo se aproveitar”.
Eu nunca aceitei pagamento, acho que é por isso que elas gostam também. Porque ta cheio de cara querendo se aproveitar e aí elas vê que você é correto. Se ela me convidar para jantar eu já pergunto, nós vamos rachar a conta? Porque antes dela me convidar quem convida sou eu. Ela pode ser quem for. No verão agora eu to ficando com a estilista, uma loira, bonitona, grandona, holandesa, do cabelo baixinho. Ela é uma mulher experiente, cabeça, acho que ela tem uns 50 anos, mas enxuta, linda! É isso que eu to te falando. Às vezes
não adianta você pegar menina novinha que não vai dar conta do recado. Uma mulher dessa aí ela veio e se apaixonou. Então não paga nada, quem pagou fui eu. E eu sei o que ela tem grana e eu não tenho. Mas um bom cavalheiro tem mais facilidade de conquistar muitas coisa alem de ficar cobrando mixaria pra ficar com a mulher. Então rolou um sentimento, tanto que ela deixou uma aliança no meu dedo, olha aqui, aliançona [de prata, grossa]. E eu dei uma pulserinha com a banderinha do Brasil pra ela. Eu acabei conquistando ela, ela falou que eu era uma pessoa de caráter, me deu valor. Aí ela vai voltar em agosto, nós nos falamo por email.
Da forma como ele percebe, o relacionamento narrado acima é visto como desprovido de interesses econômicos, mas alimentado e compatível à sua performance sexual, na qual ele tem extrema confiança. Ser um “bom cavalheiro”, na sua visão, é o comportamento que lhe dá acesso a mais “coisas” do que se aceitasse pequenos pagamentos pela relação sexual, como, por exemplo, afeto, o qual, por sua vez, se desdobra em presentes. Neste jogo de vantagens e desvantagens, o fato dela ser mais velha do que ele é visto como um atributo que contribui à uma melhor performance sexual, se comparado a meninas mais novas e inexperientes.
Diferente de seus amigos, Jimmy diz não ter grandes pretensões de sair do Brasil, apesar de ter dividido com orgulho o fato de ter sido convidado para ir para a França, para ensinar dança e fazer apresentações, por um casal de turistas que queriam “ajudar”. Mas quando posta de uma forma racionalizada, sua percepção sobre projetos migratórios atrelados às suas namoradas é de que atualmente, com a situação de crise econômica global, uma mulher precisa ter um padrão de vida extremamente elevado para “bancar” isto, uma vez que, em sua visão, “ela é que vai segurar você”. As experiências de seus amigos lhe dizem que a falta de consciência sobre isto cria um sonho, por ambos os lado, e “elas acabam iludindo muito eles, e eles se iludindo”. Já sobre si próprio e uma possível saída do Brasil, Jimmy diz:
Eu sou um cara que eu não preciso ir pra lugar nenhum. E eu sou muito realista, correto. Nenhuma mulher vai me levar enganada. Eu falo: gata, não tenho nada. Só eu e os meus talento. Lá fora eu não sei, é diferente da minha cidade, aqui eu sei me virar. E lá, você vai tomar conta de mim?
Na afirmação de Jimmy é possível ler uma certa ambigüidade em relação ao desejo de sair do Brasil para viver no exterior: se por um lado ele diz independente e não precisar ir para lugar nenhum, o questionamento retórico à mulher que o levar para o exterior expressa uma expectativa, ainda que em sua negatividade, sobre se ela assumiria responsabilidades sobre esta migração, sob a noção de “cuidado”. Mas, alem dos casos relatados até aqui, em Trancoso também se ouvia falar de mulheres ou homens que viviam no exterior, casados com estrangeiros e estrangeiras. Me interessou tentar entrar em contato com alguns destes homens, a fim de investigar as como estes viam as mulheres estrangeiras, o projeto migratório, e mesmo a si próprios nestes relacionamentos, identificando os possíveis contrastes com as narrativas e escolhas dos homens que entrevistei em Trancoso.