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Narizes abundam nos textos machadianos. Há nariz espirrador, entupido, empinado, metafísico... O tipo metafísico poderia ter aparecido na narrativa do defunto autor, mas o fez noutro texto — o conto intitulado “O segredo do Bonzo”, publicado na coletânea Papéis avulsos, de 1882.15 A história

ocorre no século xvi, no distante reino de Bungo, onde um sábio chamado Pomada defendia doutrina segundo a qual “se uma cousa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente”. Discípulos do sábio percorriam o reino a pregar a nova doutrina. Patimau, por exemplo, juntara pequena multidão em torno de si para explicar a origem dos grilos, “os quais procediam do ar e das folhas de coqueiro, na conjunção da lua nova”. “Patimau, Patimau, viva Patimau, que descobriu a origem dos grilos”, respondia a multidão. O

teórico dos grilos agradecia e reafirmava a crença em seu trabalho, “tão certo era que a ciência valia mais do que a vida e seus deleites”. Outro discípulo argumentava que o segredo da vida futura estava em certa gota de sangue de vaca, sabe-se lá como, e o narrador não o explica.

Num certo momento, o médico português Diogo Meireles, “ouro da verdade e sol do pensamento”, no galanteio de outro bonzo sapientíssimo, resolveu fazer o seu próprio experimento para testar a validade da doutrina. Grassava então na cidade dos bonzos epidemia de uma doença singular, cujo principal sintoma era a deformidade dos narizes, que cresciam tanto e tanto a ponto de tomar metade

da cara aos doentes, que tampouco suportavam carregar semelhante peso. Diogo Meireles estudou a moléstia e concluiu pelo alvitre de desnarigar os doentes, “pois tanto valia um nariz disforme e pesado como nenhum”. Os pacientes, todavia, não se submetiam à cirurgia indicada pelo esculápio. Achavam que cara sem nariz era cousa ainda pior do que cara com o dito grande e deformado. Na impossibilidade de convencer os infelizes, Meireles resolveu colocar em prática aquilo que ouvira de mestre Pomada, o mais sabido dos bonzos. Reuniu muitos físicos, filósofos, autoridades e povo para comunicar-lhes que descobrira uma maneira de eliminar o órgão afetado sem mutilar o paciente; bastava “substituir o nariz achacado por um nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto é,

inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão verdadeiro ou ainda mais que o cortado; cura esta praticada por ele em várias partes, e muito aceita aos físicos de Malabar”. Após alguma

controvérsia, os presentes convenceram-se de que valia a tentativa, especialmente porque a epidemia se agravava, levando pessoas ao desespero e até ao suicídio. Além disso, o médico defendera o seu método com tanta energia e firmeza... Ato contínuo, Meireles passou a desnarigar doentes com

muitíssima arte, recolhendo em seguida um exemplar de nariz metafísico na caixa que ficava ao lado para aplicar ao rosto do paciente. A maior prova do sucesso da nova técnica estava no fato de que, assim curados, os desnarigados logo voltavam a fazer uso regular de lenços de assoar.

John Gledson argumentou que as histórias reunidas por Machado de Assis em Papéis avulsos têm em comum o tema da identidade nacional.16 De fato, considerando o papel proeminente da face, e

logo do nariz que está em seu centro, na decifração do caráter dos povos em muito da história da cultura ocidental, parece apropriado contar uma anedota sobre identidade nacional por meio da aparência de narizes.17 Assim, o conto torna-se outra alegoria duma nação à procura de sua alma, tão

desprovida de identidade verdadeira que pode ser levada a negar o seu jeito de ser; ou seja, pega a mania de imaginar-se diferente, deseja passar por outra que não ela mesma. A nação parece

degenerada, triste, quiçá fadada a patinhar sem progredir. Esses temas nos fazem lembrar que, à época, muitos intelectuais e políticos achavam que “o brasileiro” era tipo melancólico;18 não é por

acaso, então, que ao morrer Brás Cubas estivesse empenhado em experimentos para inventar “um medicamento sublime, um emplastro anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade” (MPBC, cap. ii). Ao que parece, o problema estava nas características raciais da

população, comprometida pela mestiçagem; ademais, o legado da escravidão era um povo indolente, sem disciplina e ética de trabalho apropriadas. Em suma, nação doente mesmo, degenerada.19 Na

história de Machado, a cura imaginária resulta da colaboração entre um médico estrangeiro e um guru local — isto é, ciência importada e conhecimento nativo unem-se para iludir os habitantes do reino.

O fato de esse conto sobre narizes estar situado no século xvi pode ajudar a revelar o seu assunto principal, que é, acho eu, a ciência racial do século xix — por “ciência racial” entende-se a tentativa de relacionar as características físicas dos povos a seus supostos estádios ou graus de civilização, de modo a fazer com que as tais características sejam determinantes para atribuir maior ou menor

civilização a essa ou aquela nação.20 O século seguinte às viagens de Colombo assistiu à expansão

Narizes deformados ficaram logo associados à doença. A sífilis provocava a infecção do osso e posterior colapso da cartilagem do nariz, tornando o órgão “ausente” no centro do rosto a sua manifestação mais saliente e temida.22 É curioso que Pangloss, a personagem de Voltaire que

inspirou Brás na alegoria do nariz paternalista, tivesse perdido o próprio nariz devido à sífilis. Cândido encontrou o filósofo como um “mendigo coberto de pústulas, olhos mortos, ponta do nariz carcomida, boca repuxada, dentes enegrecidos e de voz cavernosa, atormentado por tosse violenta, e a cuspir, em cada esforço, um dente”.23 Pangloss relatou a transmissão sucessiva do flagelo desde o

seu ponto de origem, num “dos companheiros de Cristóvão Colombo”, até ele. Contraíra a doença ao ter relações sexuais com a linda criada duma augusta baronesa; os amantes haviam perpetrado o ato atrás de “silvados”.24

Retornamos assim aos temas do comportamento sexual supostamente desregrado e da degeneração, a d. Eusébia e ao glosador, e a Eugênia, “a flor da moita”, coxa e bela. No início dos anos 1880, quando Machado concebeu a sua história sobre narizes, a sífilis e as doenças sexualmente

transmissíveis em geral causavam grande apreensão porque a ciência evolucionista havia despido a humanidade de suas origens religiosas, atribuindo-lhe lugar específico no reino da natureza — apenas outra espécie, não importa quão “superior”, a lutar pela sobrevivência. Por conseguinte, a reprodução biológica “higiênica” tornava-se crucial para o futuro da espécie humana.25 Além disso,

outros significados haviam aderido aos narizes. Narizes carcomidos de sifilíticos apareciam ao lado de “narizes raciais”, por assim dizer. Difundia-se a idéia de que a aparência e o tamanho dos narizes marcavam superioridade ou inferioridade racial — logo, europeus de fungador grande e comprido decidiram que narizes de negros, por exemplo, eram chatos e feios. Na verdade, o anatomista holandês Petrus Camper havia “descoberto” o “índice nasal” e o “ângulo facial” desde o final do século xviii. Segundo Sander Gilman, “o índice nasal era a linha que ligava a testa ao lábio superior por meio do nariz; [...] o ângulo facial era determinado pela ligação dessa linha com uma horizontal originada na mandíbula”. De início, o ângulo facial interligava todas as “raças” da humanidade, pois servia para distingui-las de outros antropóides superiores; depois tornou-se modo de estabelecer hierarquia entre raças humanas. Aos africanos coube a pecha de inferiores e feios porque seus

narizes, considerados curtos demais, aparentemente aproximavam a sua fisionomia à dos primatas.26

Em suma, cientistas europeus do século xix, tão meditabundos quanto Brás Cubas a respeito da utilidade do nariz, chegaram à conclusão de que, apesar de todas as aparências em contrário, tal órgão servia para pensar. Podemos imaginar que Machado de Assis inventou o nariz metafísico para participar de passatempo tão conspícuo. Naquele início da década de 1880, de fato, Machado

parecia perplexo com o esforço de políticos e intelectuais brasileiros para enraizar em solo pátrio tais derivações racistas do darwinismo social — Brás nascera “dessa terra e desse estrume”

(MPBC, cap. xi). É intrigante que a personagem do romance concebida para metaforizar as

representações difundidas pela ciência racial tenha sido denominada Eugênia — a “bem-nascida”. Eugênia concentra tal metáfora porque nela, como vimos, Brás busca relacionar características físicas — o fato de que era coxa — e moralidade — a “flor da moita”, que não podia “mentir ao teu

sangue, à tua origem” — para concluir que a garota era intelectualmente inferior (“supersticiosa”, aos olhos do narrador),27 degenerada e imprópria para a reprodução “higiênica” da espécie. A idéia

de “eugenia” parece ter surgido em 1883, portanto poucos anos após a publicação das Memórias

póstumas, difundida por Francis Galton, cientista britânico, primo e seguidor de Darwin. De acordo

com Hawkins, Galton propunha “a ‘ciência’ da eugenia na crença de que era objetivamente possível identificar os elementos indesejáveis em certa população e reduzir o seu número por meio de certos controles sociais — eugenia negativa —; ao mesmo tempo, dever-se-ia encorajar a reprodução dos melhores elementos — eugenia positiva”.28 A sugestão de Galton não foi influente de imediato, mas

faria carreira portentosa nas primeiras décadas do século xx.29 Brás Cubas, ainda a observar os

acontecimentos deste mundo, e não emancipado de todo de sua mentalidade paternalista, poderia deveras alegar que fora ele o Criador de semelhante cousa.

4. Escravidão e cidadania: