QUADRO 01 ORAÇÕES ACADÊMICAS
8. Um discurso convincente
8.2. Narração: Parte fixa e obrigatória do discurso
Após introduzir o tema de seu discurso e cativar seu ouvinte/ leitor, o orador precisa narrar o episódio, ele irá argumentar. Nela, o orador expõe uma seqüência de episódios responsáveis pelo desencadeamento do conflito. A preocupação, neste momento, é contextualizar o leitor/ ouvinte, dando-lhe conhecimento da matéria a ser tratada. Inicia-se, assim, a narração:
É pois o caso que sendo ano do Senhor 1558, habitava na jurisdição, e vasto território desta Baía, um principal Índio por extremo arrogante; assim pela multidão de seus arcos, como pela situação aspérrima em que vivia o soberbo Cururupeba; epíteto, ou nomenclatura, que desempenhava assazmente jactancioso, pois se Cururupeba no idioma vernáculo vale o mesmo que capo bufador; petulante o tal Índio proferia tão ignominiosas injúrias contra as nossas armas, que publicamente chegou a dizer, que os portugueses eram covardes, que não se atreviam a provar suas forças, que desprezava nossas Leis, que havia de conservar seus ritos, matar e comer a seus contrários, e que o próprio faria aos Portugueses também quando lhe quisessem impedir tão generosas ações.
Voaram com as penas de Ícaro estas loucuras a notícia de Mem de Sá, e suposto que por loucuras mais mereciam lástima, do que vindicta; entendendo contudo o nosso Governador que as arrogâncias deste bárbaro poderiam servir de mau exemplo para os mais determinou impor-lhe tal castigo, que só no de Cururupeba os mais todos aprendessem. Accipe nunc
in medio turbatus inermis; e servisse de abater os fumos a uma faísca, que
desprezada, poderia excitar para o futuro algum incêndio maior pelo que acautelando-se de presente resolveu como útil ao seu governo meter em
espanto com a pena daquele Índio, a ousadia dos mais, que quisessem imitá- lo num exemplo tão mau, como pernicioso.
Elegeu Mem de Sá resolutos soldados, deu-lhes instruções secretas; e quando menos o esperava o arrogante Cururupeba, respeitou eminente, com formidável âmago, a truculenta espada dos Portugueses, que estava para descarregar o penetrante golpe sobre aquela orgulhosa cervis, que parecia recusar o majestoso jugo, que lhe impusera valorosamente o suave império do braço Lusitano; pois dando furiosos a um só tempo, sobre as aldeias, aqueles filhos de Marte encheram os ares de estrondo, os campos de balas, os Índios de medo, as casas de fogo, de tal sorte meteram a tudo, e a todos em tal confusão, que os descuidados que a sono solto dormiam, quando quiseram convalescer do letargo, e pôr-se em defesa; já lamentavam rendidos seus arcos, abrasados os tugúrios, presos, feridos, e mortos todos aqueles, que podiam fazer resistência à nossa satisfação: os mais fugindo pelo escuro da noite, à primeira luz do dia se acharam entre a espessura das brenhas, ficando desamparado, e só o pobre Cururupeba; já não capo bufador, mas sim humilde, e manietado, preso, donde veio trazido a esta cidade sem mais se inchar com a louca flatulência a que o tinha elevado a ridícula jactância do seu esvaecimento.
Foi apresentado ao nosso Governador e logo metido em áspera, e comprida prisão, que divulgada aos mais Índios, serviu de tal horror, que diz o Padre Vasconcelos bem como ovelhas medrosas foram buscar o aprisco de suas Aldeias de que não ousavam sair espavoridos, nem dentro em seus currais se davam por seguros, porque ainda ali retumbavam a seus ouvidos os horrorosos ecos de Leão, irado, que os amedrontava e comprimia: assim ficaram os Índios todos deste Brasil à vista do severo castigo, que padeceu petulante o soberbo Cururupeba seu maioral.
(CASTELO, 1969-1971, v. 1, t. 5, p. 82-3 )
De modo pormenorizado e abrangente, Siqueira da Gama explicita a data e o local do fato, o personagem, o seu delito e o seu comportamento em relação aos dominadores, os portugueses, e a atitude do Governador Mem de Sá, devastando a aldeia e prendendo o índio a vista de seus pares, ao ficar sabendo de tais ofensas e desatinos do indígena:
É pois o caso que sendo ano do Senhor 1558, habitava na jurisdição, e vasto território desta Baía um principal Índio por extremo arrogante; assim pela multidão de seus arcos, como pela situação aspérrima em que vivia o soberbo Cururupeba; epíteto, ou nomenclatura, que desempenhava assazmente jactancioso...petulante o tal Índio proferia tão ignominiosas injúrias contra as nossas armas, que publicamente chegou a dizer, que os portugueses eram covardes, que não se atreviam a provar suas forças, que desprezava nossas Leis... (ibid.id.)
A razão para tal atitude do Governador - muito mais uma justificativa do que uma explicação -, encontra-se na própria narração. Siqueira da Gama tem a nítida intenção de induzir seu ouvinte/ leitor a acreditar que a punição dada ao índio é um modo de castigá-lo por seu delito e que essa mesma punição poderia coibir ações de indisciplina dos demais Tapuias. Constrói-se, deste modo, para o Governador, uma postura justa e benéfica, em oposição à caracterização do índio, que é apresentado com características quase animais.
Este recurso retórico, em que o orador enaltece as qualidades do adversário para fazer ainda mais potente a quem defende (no caso, o Governador, que se torna mais forte, por combater uma “fera” e, ao mesmo tempo, mais justo e benévolo), foi previsto por Grácian (2005, p.56):
Não segure a arma pela lâmina, que será ferido, mas pelo cabo que o defenderá ... Quem é prudente considera os inimigos mais úteis do que o tolo considera os amigos ... muitos devem a grandeza aos inimigos.
O Tapuia é descrito com adjetivos que lhe conferem bravura, coragem e vigor (soberbo, assaz jactancioso, petulante, bárbaro, orgulhoso, etc.). Isso enobrece ao Governador que, reconhecendo o valor de seu adversário, entende que derrotá-lo não significava sobrepujar alguém indefeso; ao contrário, denotava a força dos portugueses.
Ao compararmos a veemência dos adjetivos empregados em ambas as descrições, em que, de um lado, temos um índio soberbo, assaz jactancioso e bárbaro e de outro, encontramos uma truculenta espada dos portugueses e um majestoso jugo, percebemos que o processo de construção do benévolo e prudente Governador omite aspectos de violência que poderiam figurar na ação dos portugueses, com recurso à perífrase, da qual Gama lança mão por necessidade ideológica:
Elegeu Mem de Sá resolutos soldados, deu-lhes instruções secretas; e quando menos o esperava o arrogante Cururupeba, respeitou eminente, com formidável âmago, a truculenta espada dos Portugueses, que estava para descarregar o penetrante golpe sobre aquela orgulhosa cervis, que parecia recusar o majestoso jugo, que lhe impusera valorosamente o suave império do braço Lusitano; pois dando furiosos a um só tempo, sobre as aldeias, aqueles filhos de Marte encheram os ares de estrondo, os campos de balas, os Índios de medo, as casas de fogo, de tal sorte meteram a tudo, e a todos em tal confusão, que os descuidados que a sono solto dormiam, quando quiseram convalescer do letargo, e pôr-se em defesa; já lamentavam rendidos seus arcos, abrasados os tugúrios, presos, feridos, e mortos todos aqueles, que podiam fazer resistência à nossa satisfação: os mais fugindo pelo escuro da noite, à primeira luz do dia se acharam entre a espessura das brenhas, ficando desamparado, e só o pobre Cururupeba; já não sapo bufador, mas sim humilde, e manietado, preso, donde veio trazido a esta cidade sem mais se inchar com a louca flatulência a que o tinha elevado a ridícula jactância do seu esvaecimento. (CASTELLO, 1969-1971, v. 1, p. 82-3)
Ao final da narração, o autor conclui mostrando que, no desfecho do episódio, com Cururupeba preso e exposto aos demais índios de sua aldeia, o objetivo do Governador foi alcançado. Há, desta forma, um aparente abrandamento por parte dos lusitanos, que imputam ao índio aparentemente apenas uma pena de prisão. Concluída a narração, o ouvinte/ leitor tem pleno conhecimento da matéria tratada.