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Narrativas Errantes | Mapas escritos como uma ponte entre pesquisa formal e experiências “do outro”

A base do investigar sobre o estar em ônibus, através da narração urbana errante, está no pensamento sobre a errância urbana como uma apologia à experiência da cidade. Sendo esta realizada por qualquer pessoa, a partir de qualquer lugar, com ou sem objetivo de chegar em algum determinado lugar geográfico (JAQUES, 2008). Pois, é quando o per(curso) de entremeio do corpo em ônibus acontece através dum olhar atento mais as práticas, ações e percursos (afectos e perceptos) do que com a materialidade óbvia da cidade e do ônibus, que se realiza o estar do pensamento errante. E é o próprio desvio de olhar do óbvio para a atenção da errância que se constituiu uma resistência aos métodos difundidos da disciplina urbana possível à vida ordinária. Como já comentado anteriormente sobre a errantologia urbana de Paola Jacques (2012):

Uma errantologia urbana seria o estudo das errâncias, através das narrativas, na busca de melhor compreensão desse processo que se opõe, não de forma frontal, mas pelos desvios, ao processo de espetacularização das cidades e também a própria história régia do urbanismo moderno. Enquanto os urbanistas modernos buscavam orientação em mapas e planos, a preocupação do errante, esse praticante das cidades, estaria mais na desorientação, sobretudo para deixar de lado seus condicionamentos urbanos e, assim, se aproximar da alteridade urbana. Enquanto toda a educação do urbanismo está voltada para a questão do se orientar, os errantes buscavam se desorientar e, ao perder, encontrar os vários outros das cidades (JACQUES, 2012, p. 263-264).

Ou seja, a experiência de estar em ônibus num per(curso) cartográfico, narrando o agora com uma atenção errante se dá como uma ruptura corpórea

93 à vivência cotidiana daquele lugar comum de movimento e itinerário. Somada também à rebeldia contida em quem propõe-se a compreender melhor novos processos de apreensão urbana com a errância:

Ao caracterizar as errâncias pretendemos compreender melhor esse processo, o que não significa de forma alguma criar um método operacional único instrumental para o exercício da errância: isso seria completamente paradoxal uma vez que, como mostram as próprias dinâmicas processuais que veremos a seguir, a errância não poderia seguir regras padronizadas para se tornar simplesmente um modelo alternativo de apreensão ou percepção urbana, que pretenderia substituir o velho e desgastado diagnóstico que nós, urbanistas, ainda utilizamos (JACQUES, 2012, p. 265).

Ainda sobre a narrativa urbana como uma ferramenta de pesquisa potente de apreensão e transformação dos espaços da cidade, Jacques nos alerta sobre a importância de narrar a cidade como estratégia de fazer-se com e na cidade, não como um modelo único a ser seguido, mas sempre como um dispositivo de desorientação e alteridade urbana. Enquanto um movimento de alteridade e registro de histórias e vivências urbanas que estão à margem do hegemônico social e da disciplina tradicional urbanística.

Portanto, o uso do exercício errante como um disparador do pensamento, se torna possível e muito possível a qualquer pessoa. Importante dizer que a narração, em outros casos, podem não vir a ser a escrita, mas o desenho, as fotos, a fala, a performance..., enfim, o que interessa à prática errante do pensamento como procedimento de pesquisa é a proximidade de um lugar de voz acadêmica à qualquer pessoa, seja ela, oriunda de qualquer lugar. Um procedimento que se aproxima e acolhe outros urbanos, e se reconhece na força de pensar com outras urbanas:

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A experiência da diferença, do diferente, do Outro, seria então uma experiência da alteridade. A experiência errática pode ser vista como possibilidade de experiência da alteridade na cidade. A experiência errática seria uma experiência da diferença, do Outro, dos vários outros, o que a aproxima de algumas práticas etnográficas e posturas antropológicas. O errante, em suas errâncias pela cidade, se confronta com os vários outros urbanos (JACQUES, 2012, p. 22).

Jacques (2012) segue dizendo sobre a experiência desse outro urbano e da importância de visibilizar a apreensão urbana dessas pessoas desconsideradas pelas disciplinas tradicionais do urbanismo na hora de pensar e fazer a cidade, quando nos expressa a força radical daquele que além de experiência a sua cidade a narra, pois há uma potência e possibilidade de transformação quando se propõe a narrar a experiência da alteridade urbana o errante a transmite.

A radicalidade desse Outro urbano se torna explícita sobretudo nos que vivem nas ruas - moradores de rua, ambulantes, camelôs, catadores, prostitutas, entre outros - e inventam várias táticas e astúcias urbanas em seu cotidiano. Aqueles que a maioria prefere manter na invisibilidade, na opacidade e, que, não por acaso, são os primeiros alvos da assepsia promovida pela maior parte dos atuais projetos urbanos espetaculares, pacificadores, ditos revitalizadores. E são precisamente esses outros urbanos radicais alguns dos principais personagens das narrativas errantes, pois seria precisamente essa possibilidade de experiência da alteridade urbana nos espaços banais que os errantes urbanos buscaram em suas errâncias pelas cidades. [...] Estaríamos privados não exatamente da capacidade de fazer experiências, mas, sobretudo, da faculdade de trocar experiências, de transmiti-las, ou seja, de narrá-las (JACQUES, 2012, p. 15-16).

Não há como, em função da ética feminista dessa pesquisa, dizer sobre o outro urbano, sem considerar a crítica da filósofa feminista negra Djamila

95 Ribeiro (2017), quando alerta sobre esses “Outros” ditos e constituídos nas disciplinas acadêmicas, sejam elas da filosofia, antropologia, sociologia e, no caso dessa análise, da arq-urb.

Para dizer objetivamente sobre a etapa dos procedimentos descritos a cima, são eles, respectivamente:

a) Sobre o Per(curso), exercício diário de enquanto percorre a cidade em ônibus, durante percursos urbanos provenientes do cotidiano. Dentro do ônibus, sentada ou em pé, enquanto vai de casa ao trabalho, ou qualquer outro trajeto ordinário. Com o corpo atento aos encontros que surgem de maneira a provocar o pensamento errante. Durante aquele trajeto, o pensamento está atento às conversas, corpos que entram e saem, escolhem qual banco sentar e conversam ou não com o motorista-cobrador. A dinâmica do ônibus está sendo observada com atenção, em trecho que variam conforme a realidade de cada pessoa – nesse caso, de 20 a 40 minutos.

b) Colheita de fragmentos em campo, registro do possível que foi atravessado durante o percurso em ônibus e ativou um per(curso) do pensamento de forma errante. Aquela conversa que chamou atenção, pelo conteúdo ou forma como aconteceu, as palavras usadas ou o movimento de corpo entre as pessoas que falam sobre suas vidas. Te despertou “coisas”, lugares do pensamento que “assustou” que rompeu o pensamento ordinário. A ruptura do pensamento que antes flutuava atento durante o percurso cotidiano, foi tão forte (engraçado, triste, bom, ruim...) que chamou atenção e precisou ser anotado – registrado, de alguma forma. Em pedaços de papel perdidos na bolsa, na tela do celular no bloco e notas ou contado para um contato via WhatsApp® sobre o que acabou de acontecer no ônibus.

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c) Após estar em ônibus, a pausa de transfigurar os fragmentos em narrativa urbana. Para isso, não há necessidade que ela seja totalmente em letras e escritas, pode ser uma colagem dos fragmentos fotográficos, uma poesia, ou a narração do acontecido da melhor forma que aparecer para a cartógrafa. Ou seja, tudo aquilo que foi registrado – os encontros que aconteceram durante o trajeto no ônibus, é visto com calma, agora fora do ônibus. Num lugar em que haja espaço para movimentar o pensamento pesquisante agora transformando-se em narrativas. Quando a subjetividade desperta em seu corpo é narrada para que outros tenham acesso àquele per(curso) do pensamento. É o momento em que se conta para o outros, através de palavras escritas como aquele encontro aconteceu, inspirada no registro feito em ônibus. Um por um, cada fragmento – registro do encontro, se torna uma narrativa.

d) Análise dos fragmentos e da narrativa construída, ou seja, é o momento em que se olha para os mapas produzidos, para a cartografia apresentada de maneira a agenciar tudo que foi feito. A partir da produção de subjetivação apresentada em mapa e experiência urbana, o agenciamento se dá junto com o conteúdo da filosofia da diferença, feminismo e arquitetura e urbanismo já conhecidos. Uma tentativa de construir pistas que possam auxiliar aqueles que tem interesse em fazer um novo urbanismo.

Todos os procedimentos dessa cartografia foram realizados apenas pela pesquisadora que aqui lhes escreve. Como um grande experimento e descoberta de um devir feminista e uma vontade de dizer sobre possíveis formas de fazer e construir métodos de pesquisa com cunho feminista, no interior do Rio Grande do Sul. Porém, é importante adiantar, uma das considerações deste trabalho: a potência desse método, é que ele pode ser

97 realizado por qualquer pessoa – como comentado anteriormente. Mas a análise dos mapas individuais ganha uma força muito maior como instrumento de pesquisa urbana quando discutida em grupo.

Portanto, o encontro com as linhas da rede complexa encontrada individualmente em ônibus, pode e deve ser narrado em voz alta, em grupo, para ser analisado no coletivo. Dessa forma, às múltiplas vozes, que cartografaram o seu olhar em ônibus individualmente, no momento da análise, podem se reunir em grupo e juntas construírem e dizerem sobre as pistas e rastros. O devir-pesquisadora surge e se faz em qualquer indivíduo e a voz dessas pesquisadoras poderá ser registrado em papeis oficiais das pesquisas acadêmicas.

Em suma, os procedimentos aqui apresentados se somam ao grupo de pessoas que desconstroem e repensam a Universidade a partir de um olhar descolonial. Djamila (2017) nos apresenta à Grada Kilomba, para pensarmos sobre a descolonização do conhecimento, mostrando como a intelectual descreve de forma simples e brilhante a importância de se romper hierarquias instituídas pelo discurso autorizado, onde os pontos entendidos formalmente como fundamentais à epistemologia colonial branca tradicional são criticados um a um. Ela aponta como o discurso hegemônico não coexiste pacificamente com o discurso dos “invisíveis”, e sim, como ele violentamente determina quem pode ou não falar ao cobrar que sejam discursos “neutros”, “objetivos”, “racionais” e etc.

Quando a Universidade de fato, realiza e pensa com o outro, mas não como quem vai até o outro e pergunta o que lhe convém como numa tradicional entrevista e traz o que foi dito. Mas como uma pesquisa que instrumentaliza o outro, faz junto com quem ainda não tem visibilidade social

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e assim, desenvolvendo e experimentando junto com os outros urbanos metodologias que reivindiquem lugares de conhecimento antes historicamente silenciados.

Os saberes produzidos pelos indivíduos de grupos historicamente discriminados, para além de serem contra discursos importantes, são lugares de potência e configuração do mundo por outros olhares e geografias (RIBEIRO, 2017, p. 75). Um procedimento que abre espaço para quem quiser dizer e fazer. Uma tentativa de metodologia que use do seu lugar de fala acadêmico – de um discurso autorizado – não só como um lugar de escuta, ou de ampliação de outras vozes, mas que use do seu lugar privilegiado para construir pontes e lugares de fala para e com novos corpos intelectuais, para que vozes se constituam em liberdade e potência.

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Colheita | Mapas Afectivos transfigurados em