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Narrativas transmídia, crossmídia e multimídia

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CAPÍTULO II NARRATIVA PARA O WEBJORNALISMO

2.1 A hierarquização das informações e os níveis de conhecimento na rede

2.1.2 Narrativas transmídia, crossmídia e multimídia

No universo das discussões sobre a narrativa para a web é impreterível que as palavras transmídia, multimídia e crossmídia se façam presentes, aliás, elas nunca estiveram tão populares quanto agora. É fato que todas elas interferem no modo como as formas textuais serão utilizadas, contudo há uma discussão se as três representam ou não formas de linguagens distintas, por isso, a seguir, conceituaremos e explicaremos cada uma delas.

Das três palavras citadas anteriormente multimídia é a mais popular. Vivemos em uma era em que tudo é multimídia: o profissional, os equipamentos tecnológicos, as empresas, os consumidores... Normande (2014, p.50) defende, inclusive, que está havendo uma banalização do termo.

Atualmente, tudo precisa ser multimídia: as narrativas, os profissionais, os cursos, as aulas, os docentes e tantos outros. De fato, a produção, a distribuição, a circulação e a recirculação são cada vez mais complexas, dos impressos aos dispositivos móveis. Mas, será que toda e qualquer informação na web deve reunir elementos multimídias? Defendemos que não.

Não que não existam profissionais e empresas que sejam multimídia, Salaverria (2001), por exemplo, diferencia comunicação multimídia de empresa multimídia, contudo alerta para o “perigo” da palavra ser carregada de distintos significados. É consenso entre os autores que empresas e profissionais multimídias podem gerar a narrativa multimidiática, contudo esta não é uma tarefa fácil, pois como afirma Normande (2014, p.47) essa narrativa só faz sentido quando gera uma unidade comunicativa, a qual, “por sua vez, refere-se à qualidade da não redundância e a complementariedade entre as mensagens de cada código”.

Assim sendo, para produzir uma narrativa multimídia é necessário integração dos meios. Normande (2014, p.47-50) defende que este tipo de linguagem só é possível em materiais mais aprofundados e por meio de um planejamento que hierarquize a informação que será passada e explicite os meios que explorarão cada elemento da narrativa.

Já a crossmídia, também chamada de mídia cruzada, é “uma propriedade dos meios de comunicação na qual o serviço, história ou experiência é distribuído através de diversas

plataformas de mídia utilizando múltiplos formatos de conteúdo” (HAYES apud MIYAMARU, 2009, p. 17). Assim sendo, a crossmídia está mais associada a uma otimização de meios para promover um espalhamento de conteúdos do que à construção de uma linguagem própria. Nesta perspectiva, Denis Renó (2012) afirma que a crossmedia corresponde a uma estratégia e não a uma linguagem.

Em sua dissertação de mestrado Flávio Miyamaru (2009) apresenta vantagens de se trabalhar com a mídia cruzada entre elas estão: aumentar a experiência do usuário e fidelizá- lo, além de otimizar conteúdos. Para Normande (2014, p.63-64) a crossmídia não pode ser considerada uma narrativa, apenas a transmídia, a qual, com base em Jenkins, afirma que.

em sua forma ideal envolve o que há de melhor em cada mídia a fim de que uma história possa ser introduzida em um filme, expandida pela TV, romance e quadrinhos, explorada por games ou funcionar como atração de um parque de diversões. Cada mídia, entretanto, deve agir de maneira autossuficiente, sem que seja preciso um acesso a todas as mídias para compreender a narrativa.

A transmídia necessita da participação ativa de seus receptores e o que mais importa é a intertextualidade das mídias e não a quantidade delas. Para compreender a narrativa na atualidade torna-se importante passar pelo conceito de transmídia cunhado por Jenkins, o qual propõe alguns princípios que caracterizariam este tipo de narrativa, são eles: Espalhamento x Capacidade de perfuração; Senso de continuidade x Multiplicidade; Imersão x Capacidade de extração; Construção de universos; Serialidade; Subjetividade e Performance. De modo geral, esses princípios demonstram que para construir uma narrativa transmídia é necessário que haja uma estrutura narrativa que seja compartilhada em fragmentos, explorando vários universos distintos da história; que haja várias e diferentes plataformas e linguagens; que haja continuidade da história e circulação dela de modo viral, o que estimula a imersão do público receptor no conteúdo.

A narrativa transmídia atende a necessidade de consumo do público. Bertocchi (2013, p.43) afirma que o estudo “The future of storytelling”, produzido em 2013, aponta que “78% das pessoas consultadas querem ser ‘amigas’ da personagem digital - o que significa que eles gostariam de receber atualizações da personagem via plataformas como o Facebook [...] e gostariam de influenciar o resultado de uma decisão particular na narrativa”. O mesmo estudo ainda afirma que “87% dos entrevistados desejam obter mais perspectiva sobre a história,

acompanhando-a através dos olhos de um personagem em particular ou alterando o ponto de vista e passando para um personagem diferente”.

A narrativa transmídia precisa, portanto, de “um universo icônico/textual abrangente e multifacetado, estendido na televisão, rádio, celular, internet, jogos, quadrinhos etc. e que se caracteriza por não se repetir ou simplesmente ser adaptado de uma mídia para outra” (ALZAMORA; TÁRCIA, 2012, p.16). Além disso, “[...] cada acesso à franquia deve ser autônomo, para que não seja necessário, por exemplo, ver o filme para gostar do game e vice- versa” (ALZAMORA; TÁRCIA, 2012, p.16).

A transmídia já tem histórico de atuação no universo ficcional como, por exemplo, por meio de obras como Jogos Vorazes (SOUZA, 2016), Star Wars (RODRIGUES; 2016) e Harry Potter (GRUSZYNSKI, SANSEVERINO, 2016), entre outros. Mas e o jornalismo, como produz transmídia, uma vez que sua narrativa não é ficcional? Para Renó e Flores (2012, p.82) “jornalismo transmídia é a notícia contada a partir de diversas histórias (independentes), em distintos meios (e linguagens) que em conjunto oferecem uma história passível de comentários e circulação por redes sociais e em dispositivos móveis”. E complementam:

o jornalismo transmídia vem a ser uma forma de linguagem jornalística que contempla, ao mesmo tempo, distintos meios, com várias linguagens e narrativas a partir de numerosos meios e para uma infinidade de usuários. Portanto, são adotados recursos audiovisuais e de interatividade na difusão do conteúdo, mesmo a blogosfera e as redes sociais, o que amplia de forma considerável a circulação do conteúdo (RENÓ; FLORES, 2012, p.82). Assim, nota-se que ao jornalismo transmídia é necessário que a informação seja produzida em diferentes formatos: vídeos, infográficos, áudio etc. e, essencialmente, que estimule a participação do público, afinal, é ela, a interatividade, que gera a expansão da narrativa. Este tipo de narrativa exige tempo, produção, envolvimento e, portanto, não é feita para atender o hard news, e sim projetos especiais. Alzamora e Tárcia (2012, p.28) afirmam que

Em termos dos princípios de Jenkins, por exemplo, conseguimos reconhecê- los isoladamente em alguns produtos jornalísticos ou documentários – participação de prosumers na produção de pautas, conversações em rede, newsgames, webdocumentários, jornalismo móvel -, entretanto, não é possível perceber uma narrativa única que contemple todos ou vários dos sete fundamentos propostos pelo autor.

Renó e Flores (2012, p.121) apontam que grandes conglomerados da comunicação como Rede Globo e New York Times apostam no jornalismo transmídia como um modelo de negócio futuro. Para isso, o estímulo ao uso de smartphones por parte dos profissionais vem sendo feito por essas redes de comunicação, assim como programas de treinamento dos profissionais.

Vale ressaltar que a discussão sobre a transmídia em distintos discursos, no ficcional, publicitário e no jornalístico, tem ganhado força pela característica essencial da atual sociedade que, para Renó (2013), é líquida, móvel e com alguns perfis de pessoas que não se limitam a consumir informações, mas que querem produzir e interagir com conteúdos. Assim sendo, a narrativa transmídia atende a uma nova perspectiva cultural da sociedade, como vimos no capítulo anterior, por meio da discussão da cibercultura, da convergência e da sociedade em rede. Essas mudanças sociais interferem na produção e no consumo dos discursos e de suas esferas comunicativas, os quais são representados em gêneros e formatos, assunto do próximo item.

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