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Narratividade e temporalidade: rubricas, cronotopos e temas-índice

2. CAMINHOS TEÓRICOS: O PÚBLICO, O HABITAR-RUA, AS PESSOAS EM

2.4 A narrativa: perspectiva teórico-metodológica

2.4.1 Narratividade e temporalidade: rubricas, cronotopos e temas-índice

Para aprofundar o processo espiral da narrativa que envolve a relação narrar-ler, utilizaremos os estudos de Ricoeur (1994, 2002) e as investigações de Caron (2017). Esse processo entre narratividade e temporalidade relaciona-se com as três rubricas (também chamadas de movimentos e mímeses) de Ricoeur (1994, 2002): prefiguração, configuração e refiguração. Elas nos auxiliam a traçar uma relação conceitual e operativa entre narrativa e tempo, elementos que serão essenciais em nossa discussão a respeito do habitar-rua em seus tensionamentos. Além disso, também no intuito de evidenciar as temporalidades narrativas de quem habita a rua, delinearemos os conceitos de temas-índice (BARTHES, 2011; CARON, 2017) e de cronotopos

(BAKHTIN, 1988), ambos como estruturas da narrativa que serão decifradas nos relatos e corpografias das pessoas em situação de rua.

No que concerne à narrativa, existe uma correlação entre a atividade de narrar e o caráter temporal da experiência humana. Nas palavras de Ricoeur (1994), “o tempo torna-se tempo humano na medida em que é articulado um modo narrativo, e que a narrativa atinge seu pleno significado quando se torna uma condição da existência temporal” (p. 85). É de grande importância para este trabalho a conexão entre tempo e narrativa, uma vez que as relações territoriais do habitar-rua são atravessadas por temporalidades outras, que superam a lógica cronológica hegemônica de disciplinamento (espacial e temporal). Se a experiência das pessoas em situação de rua, através de seus processos de territorialização, pode servir para tensionar o entendimento da dimensão pública do espaço urbano, significa que essa população demanda o reconhecimento de suas narrativas e de suas ações expressivas ao habitar a cidade. Reconhecer essas narrativas “significa atravessar o abismo que separa, frequentemente, as regras de ordenação do território das regras de receptividade por parte da comunidade” (CARON, 2017, p. 149, tradução nossa).

Para o entendimento a respeito dos três movimentos da relação tempo-narrativa, é importante lembrar que Ricoeur (1994) parte do estudo a respeito da narrativa no campo da literatura, para assim transpor reflexões sobre a arquitetura e a narratividade (RICOEUR, 2002). Caron (2017), em seu estudo, propôs uma analogia entre paisagem e narratividade, aplicando a relação desses movimentos como método de pesquisa. Assim, as rubricas de Ricoeur (2002) e as investigações de Caron (2017) aportam questões teóricas a partir das quais buscamos compreender as relações entre a narratividade e a expressividade das tensões do habitar-rua na dimensão pública do espaço urbano. Isso indica que os tempos e espaços do habitar-rua estarão associados à noção relacional entre corpo e o território.

As três rubricas, prefiguração, configuração e refiguração estão permanentemente cruzando um paralelismo, em que “a arquitetura seria para o espaço o que o relato é para o tempo, [...] uma operação configuradora” (RICOEUR, 2002, p. 11). Assim como o ato de narrar na

literatura configura o tempo, o ato de construir/habitar configura o espaço na arquitetura. Nesse paralelismo, (1) a prefiguração da narrativa é o relato antes de adotar uma forma literária, é “uma dissolução do relato na vida real, baixo a forma de conversação ordinária. [...] relatos de vida que nós trocamos” (RICOEUR, 2002, p. 14). O autor faz referência ao ato de habitar como uma prática constituída de sentido que agencia o tempo e o espaço de forma intrínseca, de modo que tomamos a prefiguração como uma operação que permite entrar em relação com o campo do habitar-rua.

No relato literário, (2) a configuração é o ato de narrar quando liberado “do contexto da vida cotidiana e penetra no campo da literatura” (RICOEUR, 2002, p. 17). Se refere à técnica narrativa em suas diversas formas: novelas, ficção, romance, entre outros. Esse segundo movimento é composto por uma progressão em três etapas:

a intriga, que é definida como a síntese [temporal] do heterogêneo [significa reunir a trama de acontecimentos, ações, causas, razões e aleatoriedades, colocando-as em concordância e discordância]; por outra parte a

inteligibilidade – a intenção de esclarecer o inexplicável – e, finalmente, a

confrontação de vários relatos, colocados ao lado de outros, frente ou atrás deles, quer dizer a intertextualidade. (RICOEUR, 2002, p. 20, tradução e grifos nossos).

Para o campo teórico narrativo da pesquisa, a configuração se expressa no reconhecimento da polifonia de elementos discordantes existentes em continuidade no espaço urbano, que se condensam nas experiências do corpo-território do habitar-rua (intriga). Envoltos pelas discordâncias e dialéticas que evidenciam os aspectos tensionadores do público, o habitar- rua, mesmo que efêmero, confere uma constituição material e física (através do corpo-território) que o torna compreensível como ato e prática na ocupação dos espaços da cidade (inteligibilidade). Por sua vez, a trama de histórias e vivências dessa população evidencia a configuração do habitar-rua, na qual sempre é possível inserir um novo elemento ou olhar de outra perspectiva (intertextualidade).

Finalmente, (3) a refiguração, corresponde à leitura do relato, em que aparece o protagonismo do leitor. É o ato de ler, a ressignificação “que leva o texto para além de si mesmo” (RICOEUR, 2002, p. 26). A terceira rubrica vincula a narrativa e a arquitetura “por meio do

intercâmbio de significados entre o tempo narrado e o espaço construído” (CARON, 2017, p. 152, tradução nossa), evidenciando o protagonismo do leitor como um elemento ativo a partir do olhar de quem lê. Essa é “a possibilidade de ler e reler nossos lugares de vida a partir de nossa maneira de habitar” (RICOEUR, 2002, p. 27, tradução nossa). Assim, a refiguração possibilita habilitar narrativas a respeito do habitar-rua como prática constituidora do público na cidade, permitindo reler a vida urbana por meio do corpo-território da pessoa em situação de rua.

A conexão teórico-metodológica das rubricas trabalhadas por Ricoeur (2002), aprofundadas e aplicadas por Caron (2017) no campo dos estudos urbanos, enunciam relações operativas entre narratividade e tempo. A escala temporal da narrativa pode acompanhar a constituição de uma expressão dos territórios que vai além da representação espacial da cidade. Ao incluir a noção temporal, a narrativa expõe a capacidade que tem o território de expressar elementos dialéticos possíveis de serem considerados pela produção de conhecimento sobre a cidade (CARON, 2017). Assim, para auxiliar na exploração da intriga como processo fundante da configuração da narratividade do habitar-rua, utilizaremos conceitos estruturadores da narrativa: os temas-índice (BARTHES, 2011; CARON, 2017) e os cronotopos (BAKHTIN, 1988), a fim de refigurar novos argumentos que visibilizem e legitimem o habitar-rua como elemento dissonante e ao mesmo tempo constituinte da cidade.

Barthes (2011) explica índice como sanção paradigmática do relato, ou seja, uma unidade semântica que atravessa a história e a dota de sentidos. O índice corresponde às relações metafóricas da narrativa que implicam uma atitude de deciframento (BARTHES, 2011). Para Caron (2017), os temas-índice seriam transversalidades dialéticas da narrativa, que podem ser exploradas em suas múltiplas vias de compreensão para refletir e operar sobre a cidade contemporânea. Portanto os temas-índice não aparecem explicitamente nas narrativas, mas podem ser lidos como uma camada de sentido que constitui o habitar-rua como ato configurador do espaço urbano. Uma interpretação feita por meio da lógica da narrativa busca encontrar os temas- índice que compõem o corpo-território da pessoa em situação de rua, para assim colocá-los em diálogo, refigurá-los para o entendimento do espaço público como dissensual e agonístico.

Nas observações a respeito da literatura e da estética na teoria do romance, Bakhtin (1988) associa o cronotopo como a interligação fundamental das relações temporais e espaciais, como uma metáfora que expressa a indissolubilidade de espaço e tempo. No cronotopo ocorre a fusão dos indícios espaciais e temporais, em que o tempo revela-se no espaço e o espaço recobre-se de sentido com o tempo. O autor define o cronotopo em seu significado temático, figurativo e de composição, onde “criam-se os nós das intrigas, [...] os entrelaçamentos, os indícios” (BAKHTIN, 1988, p. 352). Para Caron (2017), “o cronotopo é a base que sedimenta o tema que se quer desenvolver. Ao recordar um acontecimento, no marco da experiência vivida, a memória exige um cenário, um suporte espacial no qual subjaz” (p. 143, tradução nossa). Nesse sentido, ao observar as narrativas do habitar-rua, entendemos que as relações cronotópicas nos permitem explorar vestígios temporais em uma concretização espacial. Uma vez que os relatos são realizados em um tempo-espaço que é outro em relação a quando sucederam-se, eles estão povoados de referências e memórias do narrador. É por isso que “o tempo-espaço narrado é outro, afetado sempre pelo momento presente, o que indica diferentes valorações dos mesmos elementos componentes da história” (CARON, 2017, p. 144, tradução nossa).

Tendo consciência do significado temático e figurativo do cronotopo, temos a possibilidade de apresentar os tempos de vida e de memória advindos do habitar-rua a partir de espaços decantados das narrativas dessas pessoas; assim, partindo dos espaços concretos da cidade podemos identificar cronotopos para refletir a respeito de questões simbólicas, subjetivas e expressivas dos acontecimentos, transversalizando-as por temas-índice na intenção de apresentá-los de forma dialética. Cada cronotopo pode incluir em si uma quantidade ilimitada de outros cronotopos, “podem incorporar um ao outro, coexistir, se entrelaçar, permutar, confrontar- se, se opor ou se encontrar nas inter-relações mais complexas” (BAKHTIN, 1988, p. 357) – esse é o caráter dialógico dos cronotopos. Como forma de expressar a emergência dos cronotopos nos registros do habitar-rua em nossa pesquisa, é interessante trazer a reflexão do autor a respeito dos cronotopos do encontro, da estrada e da soleira.

No cronotopo do encontro “predomina a matiz temporal. [...] um forte grau de intensidade de valor emocional” (BAKHTIN, 1988, p. 349), revelando elementos constituintes da composição das histórias narradas, “como uma espécie de nó ou ponto culminante” (CARON et al., 2019, p. 14). O cronotopo da estrada está vinculado ao do encontro, pois no romance os encontros ocorrem frequentemente na estrada. Ele é a representação dos acontecimentos regidos pelo acaso, “falando em distâncias sociais não superadas e em metaforização do caminho-estrada onde o sustentáculo principal é o transcurso do tempo” (CARON et al., 2019, p. 14). Na estrada

cruzam-se num único ponto espacial e temporal os caminhos espaço-temporais das mais diferentes pessoas, [...] Aqui podem se encontrar por acaso, as pessoas normalmente separadas pela hierarquia social e pelo espaço, podem surgir contrastes de toda espécie, chocarem-se e entrelaçarem-se diversos destinos. (BAKHTIN, 1988, p. 349-350).

O encontro e a estrada dialogam em seus temas. A estrada como espaço, se faz metáfora para a passagem do tempo, do acaso, do encontro entre pessoas diversas. A estrada seria o ponto de enlace, o caminho da vida, o ingressar em uma nova estrada, tendo seu sustentáculo no transcurso do tempo. Por sua vez, o cronotopo da soleira surge como figura associada à intensidade e a valores emocionais. “A própria palavra ‘soleira’ já adquiriu, na vida da linguagem (juntamente com seu sentido real), um significado metafórico; uniu-se ao momento da mudança da vida, da crise e da decisão que muda a existência ou da indecisão” (BAKHTIN, 1988, p. 345). A soleira, como espaço, sintetiza os tempos da crise, das mudanças e decisões da existência.

A perspectiva teórico-metodológica da narrativa auxilia o estudo do habitar-rua como um modo possível de existência no espaço público urbano, justamente por viabilizar a leitura temporal-espacial dos relatos e corpografias das pessoas em situação de rua. O reconhecimento do corpo-território dessa população em sua agência política, articula o fio condutor da investigação. Assim, a narrativa auxiliará a identificar questões simbólicas, subjetivas e expressivas no processo de pesquisa, tendo como intermediação a tensão que o habitar-rua provoca na dimensão pública do espaço urbano.

3. AS NARRATIVIDADES DO HABITAR-RUA