CAPÍTULO 2 “A bela adormecida no bosque” fundamentos
2.1.1 A narratologia
A narratologia não privilegia exclusivamente textos narrativos literários, nem se restringe a textos narrativos verbais, pois visa também ao cinema, à história em quadrinhos, à narrativa da imprensa etc.
No que se refere ao estudo da forma e do funcionamento da narrativa, a narratologia examina o que as narrativas têm de comum entre si e aquilo que as distingue enquanto narrativas; procura descrever o sistema especifico narrativo buscando as regras que presidem à produção e processamento dos textos narrativos.
No que se refere à formulação da teoria das relações entre a teoria das relações entre texto narrativo, narrativa e história, a narratologia visa às práticas narrativas, enquanto discursos e gêneros discursivos, de forma a privilegiar as propriedades modais da narrativa.
No início, a narratologia pode ser situada nos estudos de Propp, cuja reflexão morfológica inspirou outras reflexões, interessadas em estabelecer constâncias para o processo narrativo. Assim, foram tratados os níveis de estruturação das ações e como estes têm articulação funcional.
Propp (1984) se propõe a elaborar uma morfologia dos contos maravilhosos (incluindo os contos de fadas). Entende-se morfologia como o estudo da forma e a morfologia do conto como a descrição de suas partes constitutivas e as relações destas partes entre si e com o conjunto.
O autor confrontou uma centena de contos russos e verificou que todos eles poderiam ser analisados como diferentes atualizações discursivas de um esquema seqüência formado por 31 categorias fixas ou “funções” da narrativa. Para ele, a função é a unidade básica da linguagem da narrativa e refere-se às ações que a constituem.
As 31 funções encontradas por Propp são:
1. Distanciamento: um membro da família deixa o lar (o Herói é apresentado); 2. Proibição: uma interdição é feita ao Herói ('não vá lá', 'vá a este lugar'); 3. Infração: a interdição é violada (o Vilão entra na história);
4. Investigação: o Vilão faz uma tentativa de aproximação/reconhecimento (ou tenta encontrar os filhos, as jóias, ou a vítima interroga o Vilão);
5. Delação: o Vilão consegue informação sobre a vítima;
6. Armadilha: o Vilão tenta enganar a vítima para tomar posse dela ou de seus pertences (ou seus filhos); o Vilão está traiçoeiramente disfarçado para tentar ganhar confiança;
7. Conivência: a vítima deixa-se enganar e acaba ajudando o inimigo involuntariamente;
8. Culpa: o Vilão causa algum mal a um membro da família do Herói; alternativamente, um membro da família deseja ou sente falta de algo (poção mágica, etc.);
9. Mediação: o infortúnio ou a falta chega ao conhecimento do Herói (ele é enviado a algum lugar, ouve pedidos de ajuda, etc.);
10. Consenso/Castigo: o Herói recebe uma sanção ou punição; 11. Partida do herói: o Herói sai de casa;
12. Submissão/provação: o Herói é testado pelo Ajudante, preparado para seu aprendizado ou para receber a magia;
13. Reação: o Herói reage ao teste (falha/passa, realiza algum feito, etc.); 14. Fornecimento de magia: o Herói adquire magia ou poderes mágicos;
15. Transferência: o Herói é transferido ou levado para perto do objeto de sua busca;
16. Confronto: o Herói e o Vilão se enfrentam em combate direto; 17. Herói assinalado: ganha uma cicatriz, ou marca, ou ferimento 18. Vitória sobre o Antagonista
19. Remoção do castigo/culpa: o infortúnio que o Vilão tinha provocado é desfeito;
20. Retorno do herói: (a maior parte da narrativas termina aqui, mas Propp identifica uma possível continuação)
22. O herói se salva, ou é resgatado da perseguição; 23. O herói chega incógnito em casa ou em outro país; 24. Pretensão do falso herói, que finge ser o Herói; 25. Provação: ao Herói é imposto um dever difícil; 26. Execução do dever: o Herói é bem-sucedido;
27. Reconhecimento do herói (pela marca/cicatriz que recebeu); 28. O Falso Herói é exposto/desmascarado;
29. Transfiguração do herói; 30. Punição do antagonista;
31. Núpcias do herói: o Herói se casa ou ascende ao trono.
Muitos contos, embora tenham uma origem indefinida, estão ligados a antigas religiões, em um tempo muito remoto, e chegaram até os nossos dias. Propp (1997) designa terminológicamente forma fundamental aquela que é ligada à origem do conto. As outras formas, que atravessam o tempo até chegaram à contemporaneidade, representam uma forma secundária, e, ao analisá-las, devemos sempre levar em conta a relação conto/meio, e as transformações que ocorrem decorrentes dessa relação.
Assim, segundo Guimarães (2001), essas transformações podem se materializar por vários mecanismos, sendo alguns deles:
Por reduções: que representa uma forma fundamental incompleta e se explica pelo esquecimento;
Por ampliações: a forma fundamental é acrescida e complicada por detalhes;
Por substituições: há transposições, por exemplo, de vocábulos como moradia por palácio, que seria só para princesas;
Por assimilações: há um deslocamento, a substituição incompleta de uma forma para outra, de sorte que se produz uma fusão de duas formas em uma só.
O método que Propp aplicou na sua análise das narrativas propiciou resultados impossíveis de serem generalizados, por ser o corpus por ele utilizado, não apenas demasiado restrito, como também composto de histórias muito
semelhantes, o que impossibilitou que se chegasse a um modelo geral de todas as narrações.
Contudo os trabalhos relativos à narrativa que se lhe seguiram, não anularam o desiderato de encontrar uma estrutura.
Mais tarde, Todorov ( 1980) buscou construir uma “gramática narrativa”, que pudesse dar conta da construção formal de narrativas. Os seus resultados propiciaram que o autor postulasse uma gramática narrativa a partir de categorias textuais: equilíbrio, desequilíbrio e retomada ao equilíbrio.
Com o pós-estruturalismo, sem perder a sua especificidade nem a sua autonomia metodológica, a narratologia passa a estabelecer relações com outras áreas de estudo:
- com a lingüística, - com a teoria do texto,
- com a teoria da comunicação, - com a história literária, etc.
Dessa forma, Schimidt (1977) refere-se a três grandes domínios para pesquisa narratológica:
- análise das técnicas narrativas;
- análise das leis ou regularidades que regem o universo narrativo, ou seja, uma lógica das ações, uma lógica das relações possíveis entre personagens;
- análise das relações entre unidades da narrativa e a sua manifestação no discurso, pela relação história – narrativa– discurso.
Com o desenvolvimento da lingüística do texto e do discurso, um grande número de trabalhos produzidos pela narratologia tem contribuições teóricas e de aplicações práticas, voltadas para o discurso.
Nessa inter e multidisciplinaridade, é privilegiada uma concepção da narrativa como ação e prática perlocutiva.
Em síntese, a narração, como ato de narrar, passa a se constituir como outro importante campo de reflexão narratológica, de forma a tratar desde os mecanismos
Desse modo, trata-se de abrir caminho para uma concepção da narrativa como uma prática sócio-interacional , para definir a relação narrador / narratário .
Para a pragmática narrativa, as categorias narrativas textuais são Apresentação , Conflito e Resolução, e considera, também, que a narração é realizada por atitudes de valoração (cultura, ideologia, comportamentos éticos etc).