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Nas “geo-grafias docentes” na metrópole, os trajetos de professores Álida Angélica Alves Leal

1) Nas manchas e pórticos, professores e seus trajetos

Para situar as narrativas dos docentes aqui entrevistados sobre os modos como sentem, significam e conferem sentido aos trajetos realizados na metrópole em função do trabalho, partimos de colocações de Certeau (2008). Para o autor, “todo relato é um relato de viagem – uma prática do espaço.” (op.cit., p.191). Neste sentido, os relatos aqui apresentados são “atos culturalmente criadores”, “itinerários”, linguagens simbólicas e antropológicas do espaço, “uma série discursiva de operações” que define mobilidades, circulações diversas, movimentos. Os relatos cotidianos contam aquilo que, apesar de tudo, se pode aí

fabricar e fazer. São feituras de espaço.” (op.cit, p.207).

1.1) Entre pontos, manchas e pórticos, professores e seus os trajetos

Nos espaços físicos das cidades, os sujeitos circulam de forma mais lenta ou acelerada, com um ou outro objetivo, fazendo escolhas entre um leque de possibilidades que lhes são oferecidas e por eles construídas. Para Magnani (1998), este transitar, obedecendo e transgredindo determinadas lógicas, constitui trajetos. Tal noção propicia abertura da compreensão dos contornos e dimensões da diversidade e amplitude do espaço urbano, que requerem deslocamentos por/para regiões distantes. Na vastidão territorial metropolitana, trajetos são traçados com o intuito de ligar pontos distintos da cidade, conectar pontos e manchas urbanas41, além de interligar intinerários dentro destas manchas. Remetem aos fluxos, mais ou menos extensos, no espaço mais amplo da cidade.

Trajetos resultam de escolhas concretas perante alternativas dadas por um conjunto de equipamentos urbanos contíguos. Salienta-se que a “construção dos trajetos não é aleatória nem ilimitada em suas

possibilidades de combinação. Estamos diante de uma lógica ditada por sistemas de compatibilidades.”

(op.cit., p.44). Trajetos são compostos por estabelecimentos ou práticas que obedecem uma lógica, uma “gramática de significados”. Em algumas sequências, determinados locais comumente não se encaixam, por seguirem regras distintas. Em outras, há combinações não apenas possíveis, mas também bastante usuais. Em nossa pesquisa, tal categoria foi “nativa”, citada por um docente: “Aí já é meia hora de trajeto. Aí eu

venho escutando uma musiquinha pra chegar, almoçar”. Como os professores entrevistados vivem seus trajetos em função do seu trabalho? Como constroem “sistemas de compatibilidade”? Que “gramáticas de

significados” estão neles inscritas?

1.1.1) Um pequeno exercício: trajetos dos professores Margareth e João

Muitos dos docentes investigados possuem longas jornadas de trabalho. Alguns desempenham outros serviços, implicando na extensão das jornadas laborais. A maioria trabalha em duas escolas distintas, perto

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Manchas urbanas são espaços que funcionam como pontos de referência para diversos sujeitos. São áreas contíguas do espaço urbano, cujos equipamentos ali concentrados – restaurantes, bares, cinemas, teatros, cafés etc – delimitam suas fronteiras, viabilizando atividades ou práticas ali dominantes. Trajetos no interior das manchas possuem curta extensão, marcados pelo caminhar. (Magnani, 1998)

e/ou longe entre si e de suas casas. Quanto à organização dos tempos cotidianos, cada articulação de turnos corresponde uma combinação básica de pontos que, por sua vez, compõe um trajeto.

Alguns docentes trabalham nos turnos da manhã/tarde ou nos turnos da tarde/noite, gerando um trajeto de combinação básica42 “casa-escola1-escola2-casa”. Há os que trabalham nos turno da manhã e da noite, com trajetos de combinação básica “casa-escola1-casa-escola2-casa” ou “casa-escola1-rua-escola2-casa”. Há, também, aqueles/as que possuem tripla jornada de trabalho na escola, em três turnos, gerando um

trajeto de combinação básica “casa-escola1-escola2-escola3-casa”. A primeira combinação, por abarcar

turnos seguidos (manhã/tarde e tarde/noite), é preferida por muitos docentes, uma vez que lhes resta um turno para ficar em suas casas e/ou realizarem outros trajetos na cidade, antes ou depois dos períodos de trabalho.

Através de um pequeno exercício, exemplifiquemos combinações existentes em trajetos percorridos por dois docentes ao longo de um dia. O primeiro é da professora Margareth, que possui cerca de 45 anos, casada, mãe de três filhos (uma criança e dois adolescentes), mora na periferia de Contagem (Região Metropolitana de BH) e trabalha em três escolas: nos dois primeiros turnos, leciona Ensino Religioso e, à noite, cumpre desvio de função em uma bibioteca escolar devido a um problema de saúde. O segundo é do professor João, que possui cerca de 50 anos, separado, mora com um filho adolescente em uma bairro próximo ao centro de Contagem. Leciona a disciplina História em três escolas, duas municipais e uma particular, próximas à sua casa. Ambos foram escolhidos porque seus relatos contém um conjunto de elementos que auxiliam na discussão sobre os deslocamentos de docentes, homens e mulheres, dos entrevistados e de um modo geral, em dias úteis da semana. Cabem comparações entre ambos porque trabalham em três turnos, porém são de sexo diferente, têm composições familiares distintas, além de percorrerem diferentes distâncias em seus trajetos por meios de transporte distintos. Os dois docentes foram solicitados a descrever o dia da semana que mais se deslocam pela cidade em função do trabalho. No caso de Margareth, os trajetos percorridos de segunda a sexta-feira têm a combinação básica “casa- praça- escola1-escola2-escola3-casa”. Acontecem no período que se estende de 06:00 às 23:00 entre locais relativamente distantes. Entre a casa e a praça, há um trecho de 3,5 km. Entre a praça e a escola1, o trecho é de 14,5 km. A escola1 e a escola2, bem como a escola2 e a escola3, estão a 19 km de distância uma da outra. Já a escola3 e a casa estão separadas por 13 km. A professora percorre cerca de 70 km por dia e despende cerca de 04 (quatro) a 05 (cinco) horas para a realização destes deslocamentos, dependendo de diversos fatores: defeito mecânico em ônibus, acidentes, chuvas fortes, engarrafamento no trânsito etc.

No primeiro trajeto, “casa-praça”, entre 06:00 e 06:20, a docente realiza uma caminhada fazendo suas orações¸ por cerca de 10 a 15 minutos. Em seguida, permanece na praça, onde aguarda um ônibus fornecido pela prefeitura aos funcionários que trabalham nesta escola, localizada em uma área periférica de difícil acesso. O segundo trajeto, “praça-escola1”, ocorre entre 06:20 e 07:00.

No terceiro trajeto, “escola1-escola2”, a docente utiliza o mesmo transporte, que sai da escola às 11:40. Neste trajeto, que dura cerca de 20 a 30 minutos, a professora aproveita para descansar, cochilar e/ou ver a paisagem, pouco urbanizada. Ao descer em uma mancha urbana bastante movimentada, a docente

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Estamos denominando combinação básica, o conjunto dos principais pontos que compõem os trajetos docentes. Ao indicar as combinações através do padrão “local-local”, os locais se referem aos pontos da cidade dos quais se parte e nos quais se chega e o

percorre um trecho de caminhada de 10 minutos e faz uma parada em uma lanchonete. Após o lanche, termina seu trajeto de 15 minutos à pé até a segunda escola em que leciona. Aproveita para observar o movimento da rua e, por vezes, encontra-se com colegas de trabalho e/ou estudantes pelo caminho. Este trajeto termina próximo às 13:00.

No quarto trajeto, “escola2-escola3”, Margareth percorre o mesmo trecho anterior, às vezes à pé, às vezes de carona, por vezes na companhia de seus alunos, até o ponto de ônibus no qual desceu no segundo trajeto, em uma movimentada avenida da cidade. Espera durante algum tempo para adentrar em um ônibus menos lotado, uma vez que este trajeto ocorre entre 17:30 e 19:00, “horário de pico” – momento em que boa parte da população volta de seus locais de trabalho para casa.

No quinto trajeto, “escola3-casa”, a docente desloca-se de carona. Se vai com determinado colega de trabalho, desce perto de sua casa e percorre um trecho à pé e sozinha. Se vai com outro colega, desce em outro espaço de seu bairro e vai embora com o marido, que a busca. Este trajeto ocorre entre 22:00 e 23:00.

Nos trajetos de Margareth, alguns elementos se destacam. Para a docente, ter o cotidiano assim organizado lhe traz o sentimento de que sua vida é desdobrada: “É como se a gente vivesse várias vidas.” Tal sensação decorre, especialmente, da utilização do transporte público, o que lhe faz viver “a vida do povão,

situação pela qual passa a maioria das pessoas deste país”. Em sua fala, se iguala a outros tantos

trabalhadores brasileiros, com os quais compartilha vivências comuns, por vezes degradantes, sofridas, humilhantes. Insere-se em um contexto sócio-histórico que tem marcado a vida de sujeitos que, diariamente, precisam se deslocar de um canto ao outro das grandes cidades, realizando esforço desumano, violentados em seus direitos de cidadania pela escassez e precariedade do sistema de transporte coletivo público, problemas que prosseguem a cada novo governo. Neste sentido, as caronas são de grande auxílio para a professora, possibilitando o encurtamento do tempo gasto em dois trajetos diários: o que realiza ao final da tarde e da noite, períodos de maior movimento e sensação de insegurança, respectivamente.

Em seus trajetos, ainda se destacam questões relacionadas ao uso e distribuição do tempo. Como também apontou Ferreirinho (2009), os ajustes dos relógios e o ato de cronometrar as várias atividades relacionadas aos trajetos são frequentes. Expressões como “Acordo às 05:15”, “Pego o ônibus às 05:50”, “Chego na

escola às 12:55”, foram comuns em seus relatos e de outros docentes.

Em seus itinerários, a professora resignifica suas relações com a cidade e seus moradores. A cidade se transforma igreja, local de oração. Logo cedo, a urbe acolhe a professora de religião que dedilha um terço ao se deslocar por seus espaços. O tempo da oração é o tempo de percorrer o caminho de sua casa até a parada do ponto de ônibus. Ainda silenciosa e envolta por resquícios de penumbra, a cidade torna-se monumento de contemplação, comunhão.

Os períodos de deslocamento também se apresentam como oportunidades de “contato extraordinário

no/com o dia-a-dia da cidade”, parafraseando Ferreirinho (2009). Para Margareth, isto acontece quando

olha a paisagem através da janela do ônibus, faz uma parada na praça para perceber o movimento da cidade, conversa com a dona da lanchonete dando-lhe conselhos, resolve algum problema/desavença que porventura apareça no ônibus, compartilha o caminho entre uma escola e outra com os alunos, que ora se mostram, ora se escondem da professora na rua.

Ainda que a docente tenha seus escapes e estratégias para tornar esses tempos e trajetos mais leves, é preciso indagar sobre seus desdobramentos e consequências, existentes nas vidas de tantos outros professores. Como é possível, estando na faixa etária entre 45 e 50 anos, fazer esses trajetos diariamente, trabalhar com dezenas de adolescentes e jovens durante três turnos, cuidar da casa e viver dignamente, com alegria e saúde, nessas condições? O que representa, para a qualidade de suas vidas e práticas didático-pedagógicas, esse sobre-esforço dos professores, essas intensas, extensas e tensas jornadas, seja no interior das escolas, seja nos deslocamentos citadinos para ir/voltar do trabalho? O que tais trajetos representam para o trabalho docente, já tão pesado, envolvente e exigente, em termos físicos e psíquicos, pedagógicos e epistemológicos?

Dando prosseguimento, observa-se que, dentre os docentes investigados, Laerte e Rafaela, todos os dias da semana, Celso, Jaime e João, em alguns dias de sua jornada semanal, fazem trajetos aparentemente semelhantes aos de Margareth, porque trabalham em três turnos. No entanto, os cinco docentes têm carro e/ou moto, o que imprime outros significados à sua organização espaço-temporal, possibilitando outros sistemas de compatibilidade e gramáticas de significados. Vamos ao caso do colega João. Seu trajeto tem a combinação básica “casa-escola1-casa1-casa2-escola2-casa1-escola3-bar-casa1”, sendo a casa 2 de sua irmã. Tais deslocamentos ocorrem no período de 06:30 às 23:00 em uma sexta-feira. Trata-se de trânsitos entre locais relativamente próximos entre si, havendo 3 km de distância entre um ponto e outro do trajeto, à exceção da casa e do bar, cuja distância é de 2 km, aproximadamente. O professor percorre cerca de 23 km/dia, o que dura em, média, duas horas, a depender de variados fatores: defeito mecânico dos meios de transporte, acidentes, chuvas fortes, engarrafamento no trânsito etc.

No primeiro trajeto, “casa-escola1”, o trecho é percorrido de moto, entre 06:30 e 07:00. No segundo trajeto, “escola1-casa1”, o professor percorre o mesmo caminho e retorna à sua casa, entre 11:40 e 12:00. Neste entretempo, pega os materiais de trabalho que utilizará no turno da tarde e, em seguida, no terceiro trajeto, “casa1- casa 2”, desloca-se de moto com o filho para a casa da irmã e almoça. Isto acontece de 12:00 às 12:45 horas.

No quarto trajeto, “casa2-escola2”, João vai para a escola particular, levando seu filho que nela estuda, entre 12:45 e 13:00. No quinto trajeto, “escola2-casa1”, o professor retorna para casa com o filho, toma banho e troca a roupa, entre 17:30 e 18:15. No sexto trajeto, “casa1-escola3”, desloca-se 3 km para chegar à escola. No entanto, a duração desse deslocamento é maior, tendo em vista o período, entre 18:15 e 18:30, horário de maior movimentação no trânsito.

No sétimo trajeto, “escola3-bar”, o docente direciona-se da escola para um bar, localizado em um bairro vizinho ao da escola, onde se encontra com uma amiga, após 22:30. No oitavo trajeto, o professor volta para casa. O horário de retorno é incerto, uma vez que obedece aos ritmos da conversa, adentrando a madrugada de sábado. No entanto, isto só é possível quando o dia seguinte não é letivo/escolar.

Nestes trajetos, fica evidente que a lógica dos sistemas de compatibilidades criada e executada pelo professor, torna-se possível por três motivos: proximidade entre os pontos percorridos, meio de transporte utilizado e o trabalho de preparação do alimento, feito por sua irmã. Eles possibilitam a introdução de novos pontos nas combinações que constituem os trajetos, proporcionando o convívio com familiares e amigos, o descanso do corpo, o entretenimento, entre outros aspectos tão caros ao bem estar docente entrevistado.

1.1.2) Encontros e desencontros: os meios de transporte

Sobre os trajetos de todos os docentes investigados, a exemplo de Margareth e João, faz-se necessário sublinhar os meios de transporte por eles/as utilizados, por alterarem significaticamente os “sistemas de

compatibilidade”, bem como seus significados possíveis dentro de um trajeto. Quanto ao transporte público,

Santos (2007) aponta ser preciso pensar no par mobilidade/imobilismo, uma vez que a ineficiência do transporte público (caro, ruim e demorado) e a segregação sócio-espacial agem na produção de contradições entre cidadania e desigualdades. Isto atinge sobremaneira docentes como Margareth, que leciona em periferias distantes das manchas urbanas e não possui transporte próprio. Neste sentido, entende-se porque condução própria e caronas são formas privilegiadas pela “categoria docente”. Dentre seus atributos positivos, estão a frequência, pontualidade, flexibilidade, conforto, salubridade, aspectos psicossociais, facilidade de transportar pacotes/outros pertences, tempo de viagem etc.

Ao longo das entrevistas, muitos docentes relataram a necessidade de circulação pelos pórticos da cidade, ou seja, espaços, marcos e vazios na paisagem urbana que se traduzem em passagens: avenidas, estradas, lotes vagos, espaços sob viadutos, pontes, passarelas, lugares inabitados (Magnani, 1998). Os

pórticos são, muitas vezes, sinônimos de aflição, medo, perigo, sensação de insegurança.

Docentes que utilizam o transporte coletivo sublinharam pontos de parada de ônibus como pórticos. Para Joana, professora em uma escola construída recentemente em um bairro novo, que abriga um aterro sanitário, pontos de ônibus despertam medo, especialmente no início da manhã, final da tarde e durante todo o turno da noite. Dentre os motivos, estão: horários do transporte coletivo reduzidos nas periferias, risco de ficar sozinho/a e/ou compartilhando o espaço com estranhos; desconhecimento da lógica daquele “pedaço” da cidade e receio quanto às diversas manifestações de violência possíveis. Neste sentido, carros próprios e caronas permitem que os docentes sintam-se protegidos e seguros. O automóvel, portanto, passa a ter centralidade na vida de muitos docentes. Para Joana , o carro é “quase tudo” em sua vida, pois trabalha em dois turnos e mora distante da escola. Laerte, que trabalha em três turnos em duas cidades diferentes, considera seu carro um “material de trabalho”.

Quanto às caronas, há diversos sentidos e significados. Ferreirinho (2009) as designa “atos de

solidariedades”, de ajuda mútua entre docentes. Em nosso estudo, no entanto, caronas também

apareceram como formas de monetarização da vida cotidiana, práticas realizadas mediante “transação

financeira” ou “rodízio” – revezamento na utilização de veículos por docentes que combinam, se encontram

e se direcionam, juntos, para a mesma escola. Neste caso, são práticas astuciosas que visam reduzir os gastos com o automóvel que, juntamente com a alimentação e habitação, consomem a maior parte das rendas mensais docentes.

Nos momentos em que permanecem ao lado dos colegas nas idas e/ou vindas da escola, seja no transporte público ou em automóveis próprios, durante as caronas, a descontração e partilha tornam-se possíveis. Especialmente em trajetos longos, tais locais são privilegiados para narrativas cotidianas sobre a vida pessoal e profissional. Comenta-se sobre o que aconteceu em casa, com os filhos, os cônjuges. Fala-se, também, especialmente ao sair das escolas, sobre o trabalho. Às vezes, o ônibus ou o automóvel demudam-se em salas de professores, abrigando um “conselho de classe”. Tais espaços tornam-se extensão da escola, fazendo ver que outros tempos e espaços da vida social docente estão sendo tomados e expropriados pela necessidade e, por vezes, pela vontade de discutir sobre seu ofício como professor. Por

vezes, tais locais são propícios à prática da “fofoca”, ou seja, “informações mais ou menos depreciativas

sobre terceiros, transmitidas por duas ou mais pessoas umas às outras”. (Elias, 2000, pp.121-122). Em

meio à repetitividade que se instala no cotidiano, as fofocas têm considerável valor como entretenimento. Têm a função de incluir e excluir, apoiar e reprovar, atar e cortar os laços. Podem funcionar como instrumentos de aceitação e rejeição de extrema eficácia. Podem ser oferecidas e negadas, dadas e vendidas, expressando a maior ou menor coesão, neste caso, entre os sujeitos professores.

1.1.3) Sistemas de compatibilidades, gramáticas de significados

Torres (1998) aponta que, ao construir uma lógica de compatibilidades, os sujeitos buscam favorecer alguns elementos: o par segurança-proximidade, o favorecimento de encontros com colegas e amigos, os

momentos de fruição da vida e contato com a diferença, além da diversificação dos pontos percorridos nas manchas. Isto faz com que combinações sejam modificadas, instaurando novas gramáticas de significados.

Como isto acontece na vida dos professores/as da pesquisa?

O par segurança e proximidade da casa e/ou do trabalho são fundamentais para a composição de trajetos de alguns docentes. Em pesquisa realizada por Vieira e Relvas (2003), a distância casa-trabalho foi o terceiro maior impacto negativo da vida profissional na vida familiar e pessoal mencionado por docentes, sobretudo mulheres. Isto se deve à divisão sexual do trabalho que as responsabiliza pelo cuidado com a casa e a família, além das duplas e/ou triplas jornadas de trabalho na escola. O desejo de trabalhar perto de casa, portanto, está diretamente ligado aos femininos na docência.

Isto transpareceu, embora de modos distintos, nos relatos de Margareth, Mariana e Renata. As duas primeiras são docentes, mães, donas de casa, trabalham distante de casa e não possuem carro. Margareth ainda possui um agravante: é contratada temporariamente em duas escolas onde leciona, o que implica, muitas vezes, na impossibilidade de escolher onde quer trabalhar. Os longos trechos a serem percorridos e as longas, tensas e intensas jornadas de trabalho implicam na distância dos filhos. Implicam, também, no acúmulo de serviços domésticos, realizados geralmente à noite e nos finais de semana. Além das ocupações físicas vividas com essa dinâmica de vida e trabalho, observa-se a auto-culpabilização das professoras pelo que pensam e sentem que não fizeram, que deveriam ter feito ou que ficou mal feito. Já Renata, que não possui filhos, relata ter trabalhado muito tempo longe de casa, sofrendo com situações como: acordar cedo, priorizar o banho em detrimento do lanche da manhã, permanecer em “estado de

alerta” quanto aos possíveis problemas do transporte público, medo de atraso para chegar à escola, a

dependência da carona dos colegas e os longos trechos de caminhada ao sol, ao lado do cansaço excessivo, estresse, problemas de saúde, entre outros. Isto fomentou sua decisão de mudar com o marido

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