João (Igor Regala) fixa a câmara como se fosse um espelho. Termina de se arranjar. Por fim, agarra uma pistola que aponta ao espelho, a ele mesmo, ao espectador. Existe um tom de desafio, um convite. É a introdução da pri- meira narrativa e do confronto e agressividade que servem de fio condutor à curta-metragem.
Um filme de Nuno Matos, O Sol nasce sempre do mesmo lado (2012) é um retrato expressionista da “lei do mais forte”, numa construção mosaico que explora, em três narrativas, as raízes animalescas da natureza humana. Defino-o como expressionista sem me ater às características técnicas do movimento cinematográfico alemão. Pretendo identificá-lo com a origem do conceito: o tema emocional, selvagem mas humano; a paleta cromática de grandes contrastes; os contornos pouco detalhados dos objetos – persona- gens – em que se centra a obra e que denotam a subjetividade com que o autor apresenta a sua observação do mundo.
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Na tela, a paleta cromática encontra harmonia no contraste. Os quadros são fáceis ao olhar devido ao equilíbrio criado pela utilização de duas cores complementares. Ao mesmo tempo, o embate entre o frio e o quente cria – expressa – conflito: interno e externo, nas personagens e entre as perso- nagens. É uma opção habitual no cinema americano. Em O Sol nasce sempre do mesmo lado, a saturação das cores, a vivacidade agressiva do laranja, vão além do conflito: sugerem violência. Mesmo nos momentos mais serenos, o berro sangrento do cor-de-laranja sobre o azul planta uma semente de an- siedade, um leve desconforto e uma sensação de perigo iminente. A banda sonora intensifica essas emoções com o ritmo marcado da percussão e os gritos vibrantes eletrónicos.
Por outro lado, Nuno Matos consegue sublinhar o filme com uma nota de realismo. O calão e a linguagem ofensiva são constantes e surgem em tom natural. A estética da câmara ao ombro, estabelecida pelo documentário, e o som cru dotam o filme de um tom rude e frio que o aproxima do universo do espectador e facilita a identificação.
Existem apenas três planos fixos em O Sol nasce sempre do mesmo lado. Planos com escalas idênticas, apoiados sobre tripé e frontais para os pro- tagonistas de cada uma das três narrativas. A linguagem restrita a esses momentos permite reconhecê-los e equipará-los. Em todos, as personagens encaram a câmara como um espelho e quebram a quarta parede. Cada
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personagem apresenta-se e introduz ao espectador a narrativa que protago- niza; e o espectador identifica-se com esse mesmo personagem que se revê em nós, o espelho. Eles, como nós, todos humanos, todos animais: donos da mesma natureza primitiva.
Nuno Matos desce às profundezas do instinto natural que a sociedade nos ensinou a disfarçar sob a lógica analítica da consciência, mas que a psicologia evolucionária defende ser impossível de suprimir completamen- te (Nicholson, 1998). A autopreservação e a reprodução são os elementos em que a biologia tem maior influência sobre o comportamento humano (Taflinger, 1996). Enquanto a natureza atribuiu à mulher a função de garantir a sobrevivência e bem-estar dos seus descendentes, o homem desenvolveu as suas características primárias com o objetivo de competir com os opo- nentes do mesmo sexo e conseguir reproduzir-se (Figueiredo, Gladden & Hohman, 2012: 6). A agressividade – qualidade maioritariamente masculina (Buss, 2007: 296) – resiste na genética herdada dos indivíduos que consegui- ram garantir a continuidade da espécie. Dos seis personagens de O Sol nasce sempre do mesmo lado, cinco são homens.
Alexandre Barata interpreta um homem solitário de meia-idade. Embriagado ou alcoólico. As pinceladas grossas com que Nuno Matos pinta os seus per- sonagens não permitem caracterizá-lo com maior detalhe. Quando se sente desafiado, reage de forma violenta. Um dos efeitos do álcool é a restrição do funcionamento do lobo frontal – responsável pela capacidade de análise, decisão e autorreflexão. Em simultâneo, aumenta a atividade da região pri- mitiva responsável por detetar perigo e sentir emoções primárias, como o medo (Lewis, 2014).
O ser humano sobreviveu à natureza através de um radar emocional, ou instinto, utilizado para recolha de informação (Nicholson, 1998). A evolu- ção multiplicou o número de mecanismos inatos ao Homem, permitindo uma maior flexibilidade comportamental. Mais possibilidades perante os diferentes estímulos (Buss, 2007: 56). O álcool liberta o Homem da raciona-
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lidade que a evolução permitiu. Desinibe e catalisa a agressividade de um perfil violento (Dr. Adrienne Heinz apud Lewis, 2014). Nuno Matos utilizou- -o como impulsionador da ação. Serviu-o a todos os personagens do filme. João e os amigos recebem uma garrafa de vodka em troca de um traba- lho. Um grupo de três jovens na casa dos vinte anos, de classe social aparentemente baixa, exercem atividade criminosa menor e procuram re- petidamente o confronto nas suas interações.
Por fim, um jovem com cerca de trinta anos prepara-se para uma festa. Encara o espelho com uma postura confiante. Aproxima-se dele uma mu- lher, a única do filme. Embora formem um casal, a personagem feminina – ou figurante? – surge apenas como foco de atenção sexual, de disputa. Joana Hilário personifica um adereço diegético para a exploração do instin- to primitivo da reprodução. A psicologia teoriza que a agressão e a coação sexual crescem em proporção indireta à autoestima do ofensor, que recorre ao conflito quando se sente em desvantagem competitiva. O baixo estatuto social e económico é uma dessas possíveis desvantagens (Figueiredo et al., 2012: 7).
À medida que as narrativas avançam e se cruzam, os personagens deixam- -se levar pelos seus impulsos e a ação torna-se mais violenta. Um a um, todos cedem aos seus desejos primitivos, à competição entre oponentes do mesmo sexo, à necessidade de afirmação do poder através da força.
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O egoísmo do instinto conduz a momentos animalescos e em todos os confrontos os indivíduos envolvidos centram-se apenas nos seus próprios resultados. A sobrevivência é um objetivo individualista dos organismos vi- vos (Taflinger, 1996). A empatia é suprimida e a autopreservação afirma-se como interesse último do Homem. Em O Sol nasce sempre do mesmo lado não existe moral, existe natureza.
Quanto à digestão do impacto do filme, esta pode ser feita em dois proces- sos. Primeiro, o de autoanálise – quase forçada. A constatação da força dos instintos e da perversão submersas na mente humana, ao ser confrontada com a origem natural do Homem e de si mesmo. Em paralelo, a narrativa do filme foi estruturada num regresso à própria origem. Construiu-se de uma sucessão de apelos à memória do espectador, através de referências a momentos anteriores da ação: a primeira cena do filme, os adereços dos personagens, o sangue falso pintado no canto da boca de um dos protago- nistas na sua primeira aparição: detalhes que culminam nas cenas finais. Segundo, o da análise da sociedade.
Ou através da observação literal que o realismo da técnica possibilita ou numa extrapolação alegórica incitada pelo carácter expressionista da obra. A mente humana adaptou-se para sobreviver, nos dias de hoje, a perigos e necessidades diferentes, no ambiente de uma sociedade complexa. A se- leção alimentar foi substituída pela capacidade monetária que permite o acesso às refeições (Buss, 2007: 74), desenvolvendo-se relações com base na aquisição e distribuição de recursos (Taflinger: 1996). Tornou-se necessário sobreviver na economia e competir no trabalho. A “lei do mais forte” rege a hierarquia laboral, a vida social e o poder financeiro e político.
A agressividade, que na origem do Homem teve um papel preponderante na sobrevivência, é hoje desvalorizada e encarada como um problema social. O mais forte tornou-se o marginal.
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João e os dois amigos estão encostados a uma parede. Partilham uma gar- rafa de vodka. Enquanto enrola um cigarro, o rapaz do meio questiona os outros: “O Sol nasce sempre do mesmo lado? Sim ou não?”. No momento, a pergunta parece descabida – ao espectador e aos restantes personagens da cena. A resposta parece tão simples... Mas em O Sol nasce sempre do mesmo lado as regras questionam-se, quebram-se. O instinto primitivo, oprimido pelas normas sociais e considerações éticas, assume o controlo. O marginal impõe-se.
Referências
Buss, David M. (2007). Evolutionary Psychology: The New Science of the Mind. EUA: Pearson Education.
Figueiredo, Aurélio José, et al. (2012). “The Evolutionary Psychology of Criminal Behaviour”. Em: S. Craig Roberts, Applied Evolutionary Psychology. hambre claire: note sur la photographie (pp. 201-221). Nova Iorque: Oxford University.
Lewis, Dyani (2014). “Why does alcohol make some people violent?”. Disponível em: http://www.abc.net.au/health/thepulse/sto- ries/2014/01/30/3934877.html (consultado em novembro de 2016). Nicholson, Nigel (1998). “How Hardwired is Human Behaviour”. Disponível
em: https://hbr.org/1998/07/how-hardwired-is-human-behavior (con- sultado em novembro de 2016).
Taflinger, Richard F. (1996). “Taking ADvantage: The Biological Basis of Human Behaviour”. Disponível em: http://public.wsu.edu/~taflinge/ biology.html (consultado em novembro de 2016).