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1.1 AMANHECERES SEM COR

1.1.4 Nasce uma Realidade

No bar do Leo, em São Paulo, entre funcionários de banco, jornalistas, publicitários e público em geral, reunia-se a equipe que começava a história de uma das Revistas mais destacadas do Brasil: a Realidade. Era final do ano de 1965 e sete jovens com idades entre 25 e 30 anos trocavam ideias, longe de encerrar seu turno de trabalho. Seis meses após esses primeiros encontros, os mesmos jovens circulavam pelas bancas de jornal da cidade para conferir o andamento das vendas da Realidade.

Quando, em abril de 1966, o primeiro exemplar da mensária foi para as bancas, o Brasil conheceu um sucesso editorial. Conforme José Carlos Marão e Hamilton Ribeiro (2010), na obra Realidade Re-vista, a visita às bancas era o momento face a face com os leitores, que iam de mulheres a estudantes, de empresários a idosos.

A Realidade mostrava a seu público um novo modo de viver. Desenvolvia em suas pautas assuntos já rotineiros em outras partes do globo terrestre. Com uma narrativa de Jornalismo Literário, já que seus repórteres saíam dispostos a viver na pele os desesperos e êxtases de seus personagens, os temas abrangiam ciência, saúde, economia, mulheres de voz

ativa na sociedade, escolas que ensinavam de maneira inteligente e livre, segundos casamentos e relacionamentos abertos. Logo, a Revista tornou-se referência tanto para o público quanto para outras redações. Conforme Marão e Ribeiro (2010), sua fase mais iluminada durou até dezembro de 1968, o suficiente para consagrá-la como modelo e referência desse tipo de periódico.

De acordo com Faro (1999), na obra Revista Realidade 1966-1968, Tempo de

Reportagem da Imprensa Brasileira, o periódico é um marco na história da Imprensa

nacional, uma vez que, durante dez anos consecutivos, representou os profissionais da Mídia do “país tropical”, jovens, homens e mulheres, tornando-se referência na vida cultural do país em um momento em que era justamente de referências que o Brasil necessitava. Para o autor, a Realidade também foi modelo de produção de texto jornalístico aliado ao conjunto de manifestações políticas e culturais, principalmente em sua primeira fase de circulação, que data de 1966 a 1968.

Marão e Ribeiro (2010) explicam que o projeto nasceu com a proposta de ser semanal, porém se modificou, tornando-se uma publicação mensal. A equipe de redação inicial era composta por Sérgio Souza, Mylton Severiano da Silva, Woile Guimarães e Paulo Henrique Amorim. Após alguns saírem do grupo, incorporaram-se à equipe de redação Eduardo Barreto, José Hamilton Ribeiro, Roberto Freire, Duarte Pacheco, Eurico Andrade e Hamiltinho de Almeida, bem como os frades dominicanos Humberto Pereira, Gabriel Romero e Frei Betto. A equipe de Fotojornalismo, por sua vez, contava com Jorge Butsuem, Geraldo Mori e Luigi Mamprin.

Embora em menor número, as mulheres também tiveram papel importante nesse conglomerado masculino. Faziam parte da equipe Micheline Gaggio Frank, Josete Balsa, Norma Freire e Laís Castro. O cargo de direção foi inicialmente ocupado pelo escritor Hernani Donato. Entretanto, independente de sua dedicação, pesou o fato de ele não ter formação jornalística, sendo substituído por Robert Civita, um jovem de 30 anos, filho de um dos donos da Editora Abril. Anos mais tarde, Roberto, que resolveu “aportuguesar” seu nome, foi vice-presidente e presidente da Abril. Assim, como fica perceptível, as pessoas que compunham a Realidade tinham origens diversas, mas estavam reunidas por estranhas

conjunções e pelos propósitos comuns de formação e esperança. Nasceu, assim, o dream

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Para Faro (1999), a publicação agregou valor à Imprensa brasileira ao aprimorar o Jornalismo Investigativo. Apresentando uma redação além dos limites da linguagem convencional, na qual os recursos discursivos eram incrementados por formatos literários e ficcionais, a Revista atingiu maior penetração junto ao público leitor, “transformando-a numa fonte de conhecimento e de disseminação dos novos padrões culturais da época em que existiu” (FARO, 1999, p. 14).

, como eles mesmos chamavam a equipe.

A Revista não desafiava, diretamente, o governo, e nem reformulou o mundo, mas contribuiu para a mudança de costumes no “país tropical”. O seu perfil irreverente e contestador era expresso por um Jornalismo inconformado com a verdade oficial e que procurava investigar os vários lados possíveis de um mesmo tema. Pôs em pauta assuntos pertinentes, e não os casos de noticiário. Apresentando um texto claro, livre do tom urgente da notícia, transmitia uma ideia de observação meticulosa.

Além disso, a Realidade inovou os conceitos de direção de arte e Fotografia, apresentando de forma aberta a realidade. O planejamento de editoria era abrangente, trazendo temas que eram dissecados com o maior detalhamento possível. Os assuntos abordados eram relativos a Política, Saúde, Religião, Humor, Moda, Esporte, Educação, Espetáculos e qualquer outro que pudesse contribuir para a mudança cultural do Brasil. Diante da censura não explícita, a Revista preocupava-se tanto com a defesa de mercado da empresa quanto com não criticar abertamente o Governo Militar, vigente na época. O objetivo era fazer um Jornalismo criativo, que informasse o leitor, pois leitores conscientes tornam a doxa mais crítica.

O texto narrativo trazia como personagens pessoas comuns, aquelas em que o leitor pudesse se projetar. O estilo da Revista gerou muita discussão na época, como ocorre até os dias de hoje. A Realidade, enquanto discurso, pode ser relacionada, a priori, com a linguagem do New Journalism, inspirado por Truman Capote a partir de sua obra A Sangue Frio. Mesmo que todos os jornalistas da equipe tivessem lido a obra de Capote, assim como a de Gay Talease e outros autores, o que nascia em cada linha da redação era inspiração pura, sem busca por estilo.

Outro marco trazido pela Realidade foi o trabalho de capa. As Revistas semanais costumavam trazer nesse espaço mulheres bonitas que não tinham relação alguma com o conteúdo. Na Realidade, no entanto, esse local sempre se relacionava a uma das Reportagens do mês, característica herdada pelas Revistas atuais. Outra técnica que a Realidade inaugurou no mercado editorial desse Gênero e que perdura até os dias de hoje foi o uso dos títulos de continuação.

Levando em conta as inovações que introduziu no mundo dos Magazines, Faro (1999) salienta que a Realidade é um fato jornalístico. Ela ganhou dimensões sociológicas, uma vez que penetrou no gosto do leitor, levando a que os demais Meioss de Comunicação impressa buscassem referências em seu estilo. A Revista cativou um público acostumado a Meios impressos semanais ou mensais que não supriam a lacuna aberta pelas transformações ocorridas nos anos de 1960.

Dessa maneira, a Realidade recuperou as linhas iniciais e principais do Jornalismo contemporâneo no Brasil, informando seus leitores sobre os problemas da época e rejeitando o Jornalismo objetivo, a partir de textos produzidos com o envolvimento do repórter. Isso fez com que ela se tornasse um fenômeno de dimensões culturais amplas.

Para Faro (1999), a Realidade converteu-se em um modelo de inquietação cultural, porque surgiu em um período em que a política atingia de forma dura todas as dimensões da vida. Cabia, portanto, aos intelectuais da época, os então jornalistas, levantar ideias a partir do corte de limites que imperava na Imprensa do país, dando oportunidade para novas reflexões e tendências.

Embora tivesse introduzido no mundo jornalístico todas as inovações já mencionadas, a Realidade mantinha-se apenas com anúncios de empresas privadas e vendas em bancas. Não havia presença do governo ou de empresas estatais na publicidade da Revista. Por não barganhar financiamento público, muitas vezes a mensária foi acusada de ser formada por nacionalistas de direita e esquerda, e de ser representante de uma invasão estrangeira.

A fase de maior sucesso, delineada acima, chegou ao fim em 1968, após uma dispersão popular ocorrida em função da situação política da época. Toda a equipe original deixou a redação. Mas a Revista seguiu mostrando, mesmo que sem o entusiasmo inicial, uma história com mais duas fases.

Em 1969, José Hamilton Ribeiro, Luiz Fernando Mercadante e José Carlos Marão tentaram recuperar os velhos tempos. Mas o entusiasmo já não era o mesmo e o Brasil sofria a pressão do AI-5. Por todo lado havia tortura de presos políticos, as informações corriam soltas, as pessoas se comunicavam aos sussurros. Tanto entrevistados quanto jornalistas tinham medo de cair nos porões da Ditadura. Os conteúdos das matérias passaram a ser pensados com mais cautela, mesmo que a Realidade não estivesse sofrendo a censura que outros Meios de Comunicação sofriam. O contato com as fontes deveria ser feito com prudência e, ainda assim, chegavam denúncias contra pessoas que não haviam se envolvido com a política, mas que sofriam por questão de vingança pessoal. Diante desse cenário, a segunda fase não deu certo.

A terceira e última tentativa de reerguer a Realidade aconteceu em dimensões reduzidas. A Revista seria menor e contaria com o mesmo modelo editorial da Seleções. Ainda assim, no ano de 1976, após dez anos do seu lançamento, encerrou-se, definitivamente, a circulação da publicação.

Faro (1999) destaca que a Realidade abordava o cotidiano das camadas urbanas que estavam à mercê dos padrões políticos autoritários, e, justamente, transformou os limites impostos em matéria-prima de suas pautas. Para tanto, utilizava elementos da linguística, que, no âmbito dos signos, compuseram um discurso significante dentro da conjuntura social. Por sua periodicidade mensal, o conteúdo aprofundado tinha ligação direta com os padrões culturais do cotidiano das classes inseridas na práxis.

Scalzo (2009) complementa, ainda, que a Realidade fechou as suas portas vendendo 120 mil exemplares por mês. Virou um Mito, principalmente entre os profissionais do Jornalismo. Isso foi resultado do seu trabalho de apuração e da qualidade das Reportagens trazidas em suas páginas. Além disso, seu legado firmou-se e tornou-se emblemático de uma época, em vista de seu nascimento e morte. Isso clareou questões peculiares, enraizadas no universo do Jornalismo de Revista, pois a publicação esteve em circulação em um tempo no qual o Brasil carecia de autoconhecimento, e foi justamente essa necessidade que a mensária supriu.

A Realidade ainda prestou-se a alçar a profissão jornalística a uma posição de mais valor, ao estabelecer parâmetros de qualidade a partir das Reportagens publicadas. Scalzo

(2009) acredita que, mesmo que o vazio deixado por ela tenha sido ocupado pela Veja, “no coração dos jornalistas, pelo jeito, ainda não encontrou substituta” (SCALZO, 2009, p. 17).

Pelas referências que a Realidade trouxe a uma geração, pelo seu texto aprofundado, seu fluxo entre as linguagens ficcional, literária e verídica e pelas transformações que impôs à área do Jornalismo impresso, ela foi escolhida como objeto de estudo desta dissertação. Essa apresentação de escritura aprofundada e ampla, com base nas linhas do Jornalismo Literário, fazia com que os profissionais que nela atuavam, mergulhar no cotidiano das pautas e dos personagens.

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