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Nascimento do conceito de etnia negra na academia brasileira

CAPÍTULO 2 O PROCESSO CIVILIZADOR E A CONSTRUÇÃO DOS CONCEITOS

2.1 Nascimento do conceito de etnia negra na academia brasileira

Segundo d’Adesky (2001, p. 57), "O conceito de etnia negra, embora insuficiente para dar conta de todas as nuanças sobre grupos e comunidades como tal consideradas, é de grande importância por ser uma fonte de solidariedade e por representar um espaço de afirmação de identidade no seio da nação”. Esse conceito de etnia negra inscreve-se como um tema contemporâneo que desafia nossa competência para tratá-lo com propriedade, uma vez que envolve o preconceito, o racismo, a intolerância, a discriminação e o menosprezo pelo outro, herdados das teorias racialistas e do darwinismo social.

Observamos, portanto, no momento atual, que as ciências biológicas desenvolveram o consenso de que raça não existe e todos nós descendemos de uma única espécie, a espécie humana, tornando inaceitável qualquer tipo de tratamento baseado em desigualdades por diferenças genotípicas ou fenotípicas, situação que vem por séculos sendo denunciada e contestada, especialmente no campo educacional, conforme trecho de jornal abaixo:

Como exigir, pois, desses homens a civilização que lhes não deram? Nas cidades onde o preto tinha alguma noção de civilidade o aspecto do quadro era mais lisonjeiro.

Os libertos mandavam seus filhos à escola e esses, bem depressa, davam provas de que eram tão inteligentes quanto os brancos, e a prova é que os poucos pretos, cuja condição pecuniária lhes facultou os meios de estudar em estabelecimentos de ensino superior,deram provas de pujança de espírito salientando-se entre seus contemporâneos.

É assim que temos nas letras, nas artes, nas ciências, pretos de igual merecimento que longo seria enumerar.32

Nesse jornal, as conceituações utilizadas para auto-identificação, são: homens de cor, pretos. Não se usa raça ou etnia, mas considera-se a educação formal de todos os níveis, inclusive o nível superior, fundamental como preponderante para que os negros recém libertos e seus familiares passem a se comportar de forma civilizada, forma essa que é ditada pelos brancos. E é a civilização conforme entendida pelos brancos que também os negros julgam necessária alcançar, uma pujança de espírito e merecimento, sempre igual ao branco.

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Fonte: Jornal O Progresso: orgam dos homens de cor. Ano 1, nº 1, São Paulo, 24 de agosto de 1899.

Nesse sentido, essas antigas denúncias e cobranças do segmento negro da população brasileira, só nas últimas décadas do século XX e na atualidade, vêm encontrando respaldo nas ciências biológicas que têm defendido que raça não existe, o que existe de fato é uma única espécie, a espécie humana, Assim sendo, os editores do jornal O Progresso já haviam descoberto e provado que, dadas as condições educativas, sócio-econômicas e culturais tanto pretos quanto brancos dão respostas positivas, no que diz respeito aos comportamentos civilizacionais exigidos através do controle social pelos estados nacionais.

Se hoje, nas ciências biológicas, o conceito de raça encontra-se superado33, porque as pesquisas ligadas à medicina hereditária descobriram que raças não existem, mas o que existe é uma única espécie humana, prevalecem e justificam-se o trabalho e o estudo com o conceito de etnia negra para ressignificação da presença da população afrodescendente na ciência, na história e na cultura da sociedade brasileira, bem como para a inclusão positiva na educação brasileira das crianças, jovens e adolescentes afrodescendentes.

Sendo assim, do ponto de vista do saber de ponta da biologia, a espécie humana é uma só, do ponto de vista das construções sociais, brancos e negros estão posicionados de forma bastante diferenciada, apontando para mecanismos de racismo e profundas desigualdades étnico-raciais, com prejuízo para os negros e é diante desse exposto que pesquisar a sociogênese do conceito de etnia negra e as mudanças estruturais mentais e sociais ocorridas no campo da educação brasileira visando à promoção de uma educação anti-racista se inscreve como necessária para a compreensão dessas desigualdades e busca de mecanismos de sua superação com a promoção da igualdade étnico-racial.

Nessa pesquisa, fizemos opção pelo estudo do conceito de etnia negra, considerando seu uso constante por antropólogos, sociólogos, historiadores e sua recente transposição para o campo da educação, sabendo, contudo, ser um conceito envolto em complexidade apesar de estar sendo, aos poucos, popularizado.

Discutir etnia envolve também discutir a identidade e a identidade étnica. O conceito de etnia compreende todas as outras etnias existentes na sociedade

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Para aprofundamento acerca da medicina hereditária ler os trabalhos de OLIVEIRA, Fátima. Ser negro no Brasil: alcances e limites. Estudos Avançados. Universidade de São Paulo. Instituto de Estudos Avançados, vol. 18, nº 50. São Paulo, 2004; Engenharia genética: o sétimo dia da criação (Moderna, 1995), e Saúde da população negra, Brasil, 2001 (OMS/Opas, 2002), entre outros.

brasileira, mas, nesse estudo, temos como principal foco o negro brasileiro e estamos considerando ainda que esse conceito começou a ser usado após a Segunda Guerra Mundial porque a ojeriza ética às teorias racistas fez com que muitos estudiosos e acadêmicos passassem a fugir do uso do conceito de raça.

Optamos por estudar o conceito de etnia negra e grupo étnico no sentido de desmistificar a ideia de que puderam existir raças e ainda raças que fossem superiores umas às outras. Estudando o nascimento do conceito de etnia negra percebe-se que ele está envolto numa atmosfera de ampliação da discussão acerca do preconceito, do racismo e da discriminação racial na maneira de tratar a vida em sociedade e as manifestações culturais do grupo negro, sabendo que a identidade étnica negra tem sido considerada um estigma34 na sociedade brasileira que tentou desconstruí-la em função de um branqueamento tendo sido produtora do racismo como um habitus35, como pondera Elias:

Ao estudarmos os processos de desenvolvimento social, defrontamo-nos repetidamente com uma constelação em que a dinâmica dos processos sociais não planejados tende a ultrapassar determinado estágio em direção a outro, que pode ser superior ou inferior, enquanto as pessoas afetadas por essa mudança se agarram ao estágio anterior em sua estrutura de personalidade, em seu habitus social. Depende inteiramente da força relativa da mudança social e do arraigamento - e, portanto da resistência - do habitus social saber se e com que rapidez a dinâmica do processo social não planejado acarretará uma reestruturação mais ou menos radical desse habitus, ou se a feição social, dos indivíduos logrará êxito em se opor à dinâmica social, quer tornando-a mais lenta, quer bloqueando-a por completo (ELIAS, 1994a, p. 172).

Nesse sentido, percebemos que o olhar estigmatizado para o grupo negro bem como as práticas de racismo são constitutivas das relações humanas que se desenvolveram na sociedade brasileira de modo a produzir um habitus racista. Esse racismo e essa discriminação têm sido estudados e definidos por vários cientistas, uns denunciando, outros negando, outros propondo mecanismos de superação do racismo sem conseguirmos, contudo sua radical reestruturação.

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Seriam as marcas impostas pelos estabelecidos aos outsiders. De acordo com Elias (1998), o grupo dominante socialmente, se utilizaria dos problemas dos grupos dominados, provenientes do seu baixo patamar de vida para estigmatizá-los. Dessa forma, afirmam que a pobreza, a delinquência, maus hábitos de higiene, a aparência animalesca, etc., são características ligadas à inferioridade inata dos grupos excluídos. Nesse sentido, só grupos instalados nas posições de mando, poder e status social, teriam condições de estigmatizar. O desequilíbrio de poder, contudo, não tira do grupo dominado, as tentativas de contra-estigmatização.

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A teoria elisiana que adotamos nessa pesquisa compreende o conceito de habitus como uma “segunda natureza” ou “saber social incorporado”.

O habitus do racismo, bem como da discriminação vivendo e atuando nos indivíduos e na sociedade brasileira como uma “segunda natureza” ou “saber social incorporado”, informa as relações humanas nos diversos setores da sociedade como o econômico, o jurídico, o cultural e, em especial, os setores educativos, controlando pelo exercício de poder os saberes científicos a serem ensinados e aprendidos, fazendo com que os saberes científicos não brancos sejam ocultados, silenciados configurando-se discriminação em favor dos saberes científicos brancocêntricos.