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5 Fundamentação teórica

5.1 Discutindo a identidade

5.1.2 Nascimento e morte do sujeito moderno

No processo de transformação do sujeito, o seu deslocamento se dá através de uma série de rupturas nos discursos do conhecimento moderno e que culmina com o descentramento final do sujeito cartesiano. As tradições do pensamento marxista podem ser apresentadas como a primeira descentração importante. Segundo estas tradições, não há agência individual do sujeito. Estes agem apenas “com base em condições históricas criadas por outros e sob as quais eles nasceram, utilizando os recursos materiais e de cultura que lhes foram fornecidos por gerações anteriores”. A descoberta do inconsciente por Freud pode ser dito o segundo descentramento. Neste sentido, questiona-se as noções do sujeito racional e da identidade fixa e estável. Para Freud nossa identidade não é construída segundo a lógica da razão, mas com base em processos psiquícos e simbólicos do insconsciente. Ela é formada ao longo do tempo através de processos inconscientes, estando sempre incompleta, sempre em formação (HALL,2003a,p.34).

Seguindo com outras questões referentes ao descentramento do sujeito, Hall (2003a) refere-se ao trabalho do lingüista estrutural, Ferdinand de Saussure e faz uma analogia entre a língua e a identidade. Da mesma forma que para Saussure o significado das palavras surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com as outras, a identidade tem seu significado na relação com o outro, não sendo formada apenas no interior do indivíduo. A

identidade é marcada pela diferença e sua construção considera aspectos simbólicos e sociais (WOODWARD, 1997). Considerar a diferença, no entanto, dentro de uma perspectiva de oposição binária, como por exemplo, nós e eles, negros e brancos, segundo Hall (1990) é problemático. Ele utiliza a noção de differance de Jacques Derrida que questiona o pensamento estruturalista de Sausurre e Lévi-Strauss ao argumentar que o significado é presente como um “traço”22 e que ele não é fixado no relacionamento entre significante e significado, para reforçar a fluidez da identidade escapando da rigidez das oposições binária e salientando a questão da contingência.

Neste sentido, Hall (1997) afirma que nós nos posicionamos de forma diferente em diferentes tempos e lugares, de acordo com os diferentes papéis sociais que desempenhamos. O contexto social, a ocasião, pode nos engajar a diferentes significados sociais e identidades. Ao considerar as expectativas e restrições sociais as quais somos submetidos nos vários contextos, representamos nós mesmos aos outros de forma diferente em cada contexto.

Nos últimos anos, as mudanças no campo social têm interferido na questão das identidades. Novos padrões no mercado de trabalho, emergência de novas relações familiares, etc., têm levado ao surgimento de novas políticas de identidade onde etinicidade, raça, gênero, sexualidade, idade, incapacidade, justiça social e preocupação ambiental produzem novas identificações. Estas políticas envolvem a reivindicação de uma identidade para membros de grupos que se sentem oprimidos e marginalizados como um ponto de partida político. Sendo assim, a identidade se constitui um principal fator na mobilização política (WOODWARD, 1997).

Mas por que investimos em umas posições em detrimento de outras, assumindo identidades? A resposta a esta questão passa pela nossa subjetividade e identificação. Segundo Woodward (1997, p.39), “a subjetividade inclui o nosso sentido do eu. Ela envolve pensamentos e emoções conscientes e inconscientes que constituem o sentido do que 'nós somos' e os sentimentos que são trazidos para diferentes posições dentro da cultura”. Este conceito, portanto, permite explorar os sentimentos e o investimento pessoal feito em determinadas posições de identidade e as razões que nos ligam as identidades.

Althusser (2001) ao desenvolver sua teoria da subjetividade e os processos pelos quais os sujeitos são constituídos adotou o paradigma marxista, mas também considerou alguns

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Para Derrida (1991), não se pode jamais observar um elemento lingüístico em sua simples presença. Ele sempre já está inscrito em um jogo de diferenças, no seio de uma textura de dispersão e disseminação ou de

différance. Para ele, é este jogo ou esta textura que determina um traço. Todo signo, todo movimento de

significação, longe de se dar na visibilidade sem resto de uma presença atual ou possível, é trabalhada por um separação, um intervalo, um espaçamento e uma temporização que é apenas o traço” (DEVILLAINE, 2006, p. 209).

insights da psicanálise e da lingüística estrutural. Para ele o sujeito só existe na ideologia e em

função desta. Este sujeito, que não deve ser confundido com o indivíduo historicamente vivido, é uma categoria, que corresponde à posição em que o sujeito é constituído. O sujeito, o “eu das afirmativas ideológicas”, é convocado pelas ideologias. Processo este denominado por Althusser de “interpelação”. Assim, “somos convocados pelas ideologias que nos recrutam como ‘seus autores’, seu sujeito essencial” (Hall, 2003b, p. 177).

A ideologia surge, então, como um fator de influência na constituição das identidades, à medida que, segundo Hall (2003b), os processos inconscientes da ideologia nos posicionam em relação a cadeia de significados no momento em que nos reconhecemos, nos identificamos com o discurso ideológico. Ao nos posicionarmos, portanto, construímos uma identidade. Neste sentido, Eagleton (1997, p. 31) vai mais além ao dizer que ideologia “é a matéria da qual cada um de nós é feito, o elemento que constitui a nossa própria identidade”.

Um outro indício do descentramento do sujeito é observado por Hall (2003a) nos estudos de Michel Foucault. O poder disciplinar, definido por Foucault, exerce por meio de instituições como oficinas, quartéis, escolas, prisões, hospitais, clínicas, e etc., desenvolvidas durante o século XIX, uma disciplina sobre as populações modernas, o indivíduo e o corpo. Desta forma, o sujeito fica submetido ao controle e disciplina deste poder.

O impacto do feminismo também está relacionado com o descentramento do sujeito. Ao enfatizar como uma questão política e social a maneira como somos formados e produzidos como sujeitos genéricos, o feminismo “politilizou a subjetividade, a identidade e o processo de identificação (como homens/mulheres, mães/pais, filhos/filhas)”. Também questionou a noção de homens e mulheres como parte da mesma identidade, a Humanidade. Ao invés disso, a substituiu pela questão da diferença sexual (HALL, 2003a, p. 45). Estes cinco pontos de descentramentos nos conduzem de uma identidade fixa e estável do sujeito iluminista para uma identidade aberta, fragmentada, inacabada e contraditória do sujeito pós- moderno.