Dignidade da Pessoa Humana
2.2 O titular da dignidade
2.2.1 Nascituro e embrião
2.2.1.1 Nascituro
O nascituro é aquele que ainda vai nascer, após a nidação, ou seja, instala- ção do ovo, fruto da fertilização de um óvulo pelo espermatozoide, no útero ou nas trompas de Falópio da mulher.22 Até esse momento, conforme o art. 2º do
novo Código Civil,23 não há personalidade civil, porém a lei põe a salvo, desde a
concepção,24 os seus direitos. O recente diploma legal manteve a redação anterior
do art. 4º da Lei nº 3.071/17.25
22 CHINELATO E ALMEIDA, Silmara Juny A. Direitos de personalidade do nascituro. Revista do
Advogado, São Paulo, nº 38, p. 21-30, dez. 1992, p. 21.
23 O novo Código – cuja vacatio legis findou em 11.01.2003 com a supressão apenas do art. 374 da
Medida Provisória editada em 9.1.2003 por sua excelência, o presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva – sucedeu o Código Civil idealizado por Clóvis Beviláqua (MOREIRA ALVES, José Car- los. A parte geral do projeto de Código Civil brasileiro: subsídios históricos para o novo Código Civil brasileiro. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 3-6). A codificação, conforme Judith Martins-Costa, teria o condão de dar segurança jurídica e afastar o “não direito” (MARTINS-COSTA, Judith. A boa-
-fé no direito privado: sistema e tópica no processo obrigacional. São Paulo: Revista dos Tribunais,
1999, p. 516).
24 Moreira Alves explica que o conceito de concepção é exatamente o mesmo; o que mudou foi
apenas o método. O método era natural e, hoje, temos, ao seu lado, o método artificial (Clonagem, vida humana e implicações jurídico-morais. CEJ, Brasília, nº 16, jan./mar. 2002, p. 51).
25 Quando da elaboração do Código Civil de 1916, reverenciava-se o direito privado e, especifi-
camente, o direito civil, como já se fez na França quando da vigência do Código Civil de 1804, em que se esperava codificar tudo para além daquela época (HESPANHA, António Manuel. Panorama
No parecer do relator-geral do Projeto, Ricardo Fiuza, esclarece-se a manu- tenção do texto passado, com referência ao que foi dito por Miguel Reale, “no- vidades como o filho de proveta só podem ser objeto de leis especiais. Mesmo porque transcendem o campo do Direito Civil”.26
A atitude da comissão de elaboração do anteprojeto agiu com acerto ao não dar guarida no Código senão aos institutos e soluções normativas já dotadas de certa sedimentação e estabilidade, deixando à legislação extravagante a discipli- na de questões ainda objeto de fortes dúvidas e contrastes, em virtude de muta- ções sociais em curso, ou na dependência de mais claras colocações doutrinárias ou, ainda, quando fossem previsíveis alterações sucessivas para adaptações da lei à experiência social e econômica.27
Entretanto, a forma como ficaram redigidos alguns dispositivos talvez traga dificuldades ao disciplinamento dessas questões pela legislação específica.28
Na “Jornada de Direito Civil”, realizada em Brasília, de 11 a 13 de setembro de 2002, alguns enunciados foram elaborados pelos seus participantes, e entre eles tem-se que: “sem prejuízo dos direitos da personalidade, nele assegurados, o art. 2º, do Código Civil [Lei nº 10.406/2002], não é sede adequada para ques- tões emergentes da reprodução humana, que deve ser objeto de um estatuto próprio”29 – resultado da votação: aprovado por maioria. Dessa forma, são reco-
nhecidos alguns direitos a serem atribuídos ao nascituro, porém, quando se trata de reprodução, outra é a sede de regulamentação.
Em Roma, uma pessoa começava a existir com seu nascimento. O feto, no ventre de sua mãe, não pode ser considerado uma pessoa. Tampouco sua existên- cia retroage ao momento da concepção.30
26 ALVES, Jones Figueirêdo; DELGADO, Mário Luiz. Novo Código Civil confrontado com o Código
Civil de 1916. São Paulo: Método, 2002, p. 64.
27 ALVES, Jones Figueirêdo; DELGADO, Mário Luiz. Novo Código Civil confrontado com o Código
Civil de 1916, São Paulo: Método, 2002.
28 ALVES, Jones Figueirêdo; DELGADO, Mário Luiz. Novo Código Civil confrontado com o Código
Civil de 1916, p. 65.
“Por exemplo, a redação aprovada pelo Senado, repetindo o Código de 1916, põe a salvo os di- reitos do nascituro, ‘desde a Concepção’ (art. 2º). Ocorre, como observou a Professora e Deputada Sandra Starling, no brilhante artigo Clonagem, Bebês de Proveta e o Código Civil, que, “neste final de século, a vida do ser humano não mais se inicia apenas pelo contato do espermatozoide com o óvu- lo no útero da mulher. De fato, o projeto reconhece a inseminação artificial (art. 1.603). Mas essa formulação, em si, não oferece resposta para indagações mais complexas, atinente aos ‘direitos do nascituro, desde a concepção’, quando o embrião humano é gerado em proveta” (ALVES, Jones Fi- gueirêdo; DELGADO, Mário Luiz. Novo Código Civil confrontado com o Código Civil de 1916, p. 65).
29 Associação Paulista dos Magistrados. Tribuna do Direito, São Paulo, ano XIV, nº 122, edição de
setembro, proposição de nº 2, p. 12.
30 SCHULZ, Fritz. Derecho romano clássico. Tradução da edição inglesa por José Santa Cruz Tei-
geiro. Barcelona: Bosch Casa Editoral, 1960, p. 72 (tradução livre). No Brasil, cf. MOREIRA ALVES, José Carlos. Direito romano. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998, v. 1, p. 92.
No Projeto de Clóvis Beviláqua, adotava-se doutrina diferente do então Códi- go Civil e, como consequência, da do novo Código; para ele, a personalidade se adquiria desde a concepção. O art. 3º do referido texto dispunha que: “a persona- lidade começa com a concepção sob a condição de nascer com vida”.31
Em comentários ao antigo Código, Clóvis Beviláqua afirmou que seria mais lógico o início da personalidade remontar à concepção, todavia, com a vigência do Decreto nº 181, de 24 de janeiro de 1890, o início da personalidade passaria a ter como marco o nascimento e a viabilidade.32 No decorrer de suas ponderações,
aduziu: “Parece mais lógico afirmar francamente a personalidade do nascituro.”33
O entendimento também era acolhido por Teixeira de Freitas, que, em seu Esboço, tinha escrito a regra do art. 221: “Desde a concepção no ventre materno começa a existência visível das pessoas, e antes de seu nascimento elas podem adquirir alguns direitos, como se já estivessem nascidas.”34
Percebe-se que os juristas mencionados, Clóvis Beviláqua, Teixeira de Freitas, entre outros, eram adeptos da teoria concepcionista.
Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho asseveram que, adotada a teoria natalista, segundo a qual a aquisição da personalidade opera-se a par- tir do nascimento com vida, é razoável o entendimento de que o nascituro tem
31 RODRIGUES, Silvio. Direito civil – parte geral. 33. ed. São Paulo: Saraiva, 2003, v. 1, p. 36. 32 BEVILÁQUA, Clóvis. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. 12. ed. Belo Horizonte/São Pau-
lo/Rio de Janeiro: Editora Paulo de Azevedo, 1959, v. 1, p. 143.
33 BEVILÁQUA, Clóvis. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil, p. 145. Nesta obra, ele faz refe-
rência expressa às Ordenações, à Consolidação de Teixeira de Freitas, art. 1º, e ao Direito Civil de Carlos de Carvalho, art. 172, para reforçar seu entendimento.
Ordenações são compilações de leis portuguesas que vigoraram de 1446 a 1867, até ser apro-
vado o primeiro Código Civil de Portugal. No Brasil, foram mantidas até 1916, quando se deu a promulgação do nosso Código Civil (Lei nº 3.071, de 1º.1.1916), que, no art. 1.807, sentenciou: “Ficam revogadas as Ordenações, Alvarás, Leis, Decretos, Resoluções, Usos e Costumes concernen- tes a matérias de direito civil reguladas neste Código.”
Houve três Ordenações portuguesas, na seguinte ordem cronológica: Ordenações Afonsinas (1446-1521), Ordenações Manuelinas (1521-1603) e Ordenações Filipinas (1603-1867). Disponível em: <www.dji. com.br/dicionario/ordenações.htm>. Acesso: 12 fev. 2007, p. 1.
No texto, Clóvis Beviláqua refere-se a dois livros das últimas Ordenações Filipinas e correspon- dentes títulos e parágrafos: Livro 3, Título 18, 7: “E podera ouvir e julgar sobre demanda que faça alguma mulher que ficasse prenhe, que a mettam em posse de alguns bens, que lhe pertencerem em razão da criança, que tem no ventre” (correspondente ao escrito nas Ordenações Manuelinas, Livro 3, Título 28, 7); Livro 4, Título 82, 5: “Ontrosi, se o pai, ou mai ao tempo do testamento não tinha filho legítimo, e depois lhe sobreveio, ou o tinha, e não era disso sabedor, e he vivo ao tempo da morte do pai, ou mai, assi o testamento, como os legados nelle conteudos são nenhuns e de ne- nhum vigor” (correspondente ao escrito nas Ordenações Manuelinas, Livro 4, Título 70, 5).
34 CHAVES, Antônio. Lições de direito civil: parte geral. São Paulo: José Bushastsky: Edusp, 1972,
mera expectativa de vida, pois não é pessoa.35 Outros estudiosos filiam-se à teo-
ria da personalidade condicional. Há os que são adeptos da teoria concepcionista, influenciada pelo direito francês.36 Por fim, conforme Maria Helena Diniz, a ap-
tidão é apenas para a titularidade de direitos da personalidade (sem conteúdo patrimonial), a exemplo do direito à vida ou a uma gestação saudável, uma vez que os direitos patrimoniais estariam sujeitos ao nascimento com vida (condição suspensiva).37
Os autores concluem que a maior parte da doutrina segue a teoria natalis- ta, sendo muito comum reconhecer ao nascituro mera expectativa de direito,38
e, embora ele não seja pessoa, ninguém discute que tenha direito à vida, e não mera expectativa.39 A legislação dos povos civilizados é a primeira a desmentir
que o nascituro não tem condição de pessoa. Não há nação que se preze não re- conhecendo a necessidade de proteger os direitos deste, até mesmo na China. Ao se atribuírem direitos ao nascituro, reconhece-se sua capacidade e, com sua inci- dência, reconhece-se sua personalidade. Posto que não seja pessoa, tem proteção legal de seus direitos desde a concepção.40
Pontes de Miranda já alertava sobre a condição de “ser humano” do nascituro, o que não é determinado é o sujeito do direito. O direito não é futuro e não é pre- ciso pensar em sujeito parcial de direito.41 O Egrégio Superior Tribunal de Justiça,
analisando norma do Estatuto da Criança e do Adolescente, art. 238, asseverou que a palavra filho, lá usada, inclui os nascituros, o douto relator, com base no ensinamento de Pontes de Miranda, reconheceu a condição de “sujeito de direito” do nascituro para fins do art. 238 do Estatuto da Criança e do Adolescente:
“Ementa – ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. CRIME DE IM- PRENSA. ENTREGA DE FILHO MEDIANTE PAGA OU RECOMPENSA. O vocábulo ‘filho’, empregado no tipo penal do art. 238 da Lei 8.069/90, abrange tanto os nascidos como os nascituros.
35 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil (abrangendo o
Código de 1916 e o novo Código Civil). 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2003, v. I, p. 91-92.
36 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil, p. 92. 37 Apud GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil, p. 92. 38 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil, p. 92. 39 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil, p. 93. 40 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil, p. 93. O pen-
samento é de Silmara Juny A. Chinelato e Almeida, que já defendia tal ideia quando o novo Código Civil estava em elaboração, sendo projeto (O nascituro no Código Civil e no nosso direito consti- tuendo projeto de Código Civil e a nova Constituição Federal). In: BITTAR, Carlos Alberto (Coord.).
O direito de família e a Constituição de 1988. São Paulo: Saraiva, 1989, p. 39-53).
41 PONTES DE MIRANDA, F. C. Tratado de direito privado: parte geral. Atualizado por Vilson Ro-
Todavia, a proposta genérica, sem endereço certo, sem vínculo de qualquer natureza entre a promitente e terceira pessoa que se proponha a realizar a condição, é ato unilateral imperfeito, sem maiores consequências, que não preenche os elementos essenciais do tipo em exame.
Recurso Especial não conhecido” (Recurso Especial nº 48.119-8 – RS (94/14018-5), relator o Ministro Assis Toledo, 5ª Turma, 20.03.1995, pu- blicado no DJ em 17.4.1995, p. 9.587; RDTJRJ, v. 25, p. 66; e RT, v. 716, p. 525).
Prestigiou-se a legitimidade, em outra oportunidade, de o nascituro reque- rer o dano moral, restrito no que se refere ao valor por não ter conhecido o pai falecido, da lavra do ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira, Recurso Especial nº 399.028, São Paulo, 4ª Turma, 26.02.2002, V. Acórdão publicado no DJ, de 15.4.2002, p. 232; RSTJ, v. 161, p. 395; e RT, v. 803, p. 193, de cuja ementa se extrai: “II – o nascituro também tem direito aos danos morais pela morte do pai, mas a circunstância de não tê-lo conhecido em vida tem influência na fixação do quantum”.
Em outra oportunidade:
“Com o nascimento, com vida, adquirindo-se a personalidade, ocorre a aquisição de direitos pela pessoa. Possibilidade, porém, de retroação da indenização à data da morte da vítima, pondo a lei a salvo os direitos do nascituro, já concebido quando da ocasião do evento” (TJRS, 8ª CC TA, Apelação Cível nº 195123112, relator o desembargador Luiz Ari Azambuja Ramos, j. 28.11.1995).
Aceitando a possibilidade de o nascituro ajuizar a ação investigatória de paternidade, por ser direito personalíssimo, conforme preceitua o Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069/90 (arts. 26, parágrafo único, e 27), vide TJRJ, 7ª CC, Apelação Cível nº 1999.001.01187, relator o desembargador Luiz Roldão de Freitas Gomes, j. 25.5.1999; TJRS, 1ª CC, Apelação Cível nº 583052204, relator Athos Gusmão Carneiro, j. 24.4.1984, RJTJRS 04/418; e TJRS, 7ª CC, Apelação Cível nº 70000134635, relatora a desembargadora Maria Berenice Dias, j. 17.11.1999.42
No Tribunal de Justiça de Minas Gerais, já se decidiu pela necessidade de se indenizar porque ocorreu erro médico no acompanhamento de gravidez, violan- do-se a integridade física do nascituro:
“Age com culpa o médico que não procede ao devido acompanhamento de paciente que se encontra em trabalho de parto, aplicando-lhe medi-
42 TEPEDINO, Gustavo; BARBOZA, Heloisa Helena; MORAES, Maria Celina Bodin de. Código Civil
interpretado conforme a Constituição da República (parte geral e obrigações – artigos 1º a 420). Rio
camentos que colocam em risco a saúde do NASCITURO” (Apelação Cí- vel nº 458.416-3, relator o desembargador Sebastião Pereira de Souza, j. 22.6.2005, publicado em 5.8.2005).
Escrevia João Manuel de Carvalho Santos, na égide do Código Civil de 1916, que o nascituro não é nada mais que “víscera da mãe”, portanto, não é pessoa.43
Vicente Ráo pontificou que a proteção conferida ao nascituro não lhe atribui personalidade jurídica, equivale a uma situação jurídica de expectativa, situação que só com o nascituro se aperfeiçoa, ou, então, indica a situação ou o fato em virtude dos quais certas ações podem ser propostas, ou ao qual se reportam, re- troativamente, os efeitos de determinados atos futuros.44
Silvio Rodrigues ensina que o nascituro não tem personalidade. Ele virá a tê- -la com seu nascimento com vida. Todavia, como é provável que venha ao mundo vivo, preservam-se os seus interesses para o futuro.45
Sílvio de Salvo Venosa, com amparo jurisprudencial, tem a mesma linha de pensamento. O nascituro não tem personalidade jurídica, pois esta advém apenas com a vida.46 É apenas uma expectativa de direito.47
Washington de Barros Monteiro, criticando o fato de o legislador do novo Código não ter enfrentado questões modernas no campo da medicina e na ge- nética, preleciona que, seja qual for a conceituação dada ao nascituro, para o feto, há uma expectativa de vida humana, uma pessoa se formando; dessa forma, a lei não pode ignorá-lo, e, por causa disso, deve salvaguardar-lhe os eventuais direitos.48
Caio Mário da Silva Pereira é totalmente desfavorável a conceder direitos ao nascituro, pois ele ainda não é uma pessoa, não é um ser dotado de personalida- de jurídica. Os direitos que se lhe reconhecem permanecem em estado potencial. Não há que se falar em reconhecimento de personalidade ao nascituro nem se admitir que antes do nascimento ele seja sujeito de direito. A doutrina da per- sonalidade jurídica do nascituro não é, pois, exata. Também não é a que conclui pelo reconhecimento de direitos sem sujeito.
43 SANTOS, J. M. de Carvalho. Código Civil brasileiro interpretado, principalmente do ponto de vista
prático (arts. 1-42). 14. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1986, v. I, p. 246.
44 RÁO, Vicente. O direito e a vida dos direitos. 3. ed. anotada e atualizada por Ovídio Rocha Barros
Sandoval. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1991, v. 1, p. 603.
45 RODRIGUES, Silvio. Direito civil: parte geral, p. 36.
46 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: parte geral. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2002, v. 1, p. 160. 47 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil, p. 160, nota 2.
48 MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de direito civil: parte geral. Atualizado por Ana Cristi-
Antes do nascimento, o feto ainda não é uma pessoa, mas, se vem à luz como pessoa capaz de direitos, a sua existência, no tocante aos seus interesses, retroage ao momento de sua concepção.
Pelo nosso direito, portanto, antes do nascimento com vida não existe per- sonalidade. Até aí o que há são direitos meramente potenciais, para cuja consti- tuição dever-se-á aguardar o fato do nascimento e a aquisição da personalidade. A fórmula do Código Civil, tal qual se dá com o Código alemão, o italiano e o português, tem o préstimo indiscutível da simplicidade.
Subordinando a personalidade ao nascimento com vida, não cabe indagar de que maneira se processa a concepção: se por via de relações sexuais normais, se por inseminação artificial ou se mediante processos técnicos de concepção extra- -uterina (fertilização in vitro).49
A negativa em reconhecer o vínculo de paternidade foi estampada no V. Acórdão proferido no Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 256.512, relator o ministro Carlos Alberto de Menezes Direito, 3ª Turma, 9.12.1999, DJ 28.2.2000, p. 82. O Tribunal a quo rejeitou pleito de alimentos provisionais, confirmando a referida decisão, pois “ocorria mera expectativa de direito, não amparada pela legislação, resumindo-se a hipótese a caso de ilegitimidade ativa e passiva”.
Quando relator do RE nº 99.038, Minas Gerais, julgamento datado de 18.10.1983, o ministro Francisco Rezek elaborou voto, cujo Órgão Julgador, 2ª Turma, redigiu a seguinte ementa:
“Civil. Nascituro. Proteção de seu direito, na verdade proteção de expecta- tiva, que se tornará direito, se ele nascer vivo. Venda feita pelos pais a irmã do nascituro. As hipóteses previstas no Código Civil, relativas a direitos do nascituro, são exaustivas, não os equiparando em tudo ao já nascido” (DJ, publicado em 5.10.1984, p. 16452).
Adotando a teoria concepcionista, assim se pronunciou o TJRS:
“O nascituro goza de personalidade jurídica desde a concepção. O nasci- mento com vida diz respeito apenas à capacidade de exercício de alguns direitos patrimoniais” (6ª CC, Apelação Cível nº 70002027910, relator o desembargador Carlos Alberto Álvaro de Oliveira, j. 28.3.2001, RJTJRS 217/214).
João Manuel de Carvalho Santos, Vicente Ráo, Silvio Rodrigues, Sílvio de Salvo Venosa, Washington de Barros Monteiro e Caio Mário da Silva Pereira aco- lhem a teoria natalista.
49 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil: introdução ao direito civil, teoria
Não se tem uma posição pacífica para dizer se o nascituro possui ou não personalidade jurídica. Dessa forma, não se pode desacreditar qualquer teoria de plano. O respeito que o ser que vai nascer merece não advém do fato de ele ser titular de direitos e contrair deveres e, tampouco, por possuir direitos da persona- lidade em sua amplitude, mas emana do fato de ele representar a “vida humana” em seus primórdios.
Gilberto Haddad Jabur menciona que os direitos da personalidade são aque- les que aderem à pessoa a partir do primeiro “sopro de vida”.50 Ou seja, reforça a
colocação de que o nascituro não tem personalidade nem, em consequência, di- reitos a serem protegidos em sua inteireza. Mas não pode ser tratado de qualquer maneira, “manipulado”, por representar vida humana em potencial.51
O Projeto de Lei nº 478/2007 é nomeado “Estatuto do Nascituro”, e está em trâmite no Congresso Nacional.
A proposta legislativa, tal qual qualquer outra iniciativa legislativa, tem pon- tos favoráveis e desfavoráveis.
O primeiro ponto positivo é elaborar-se um projeto para cuidar de assunto tão delicado, secular, cuja preocupação vivia no espírito dos romanos.
O segundo destaque é a busca na proteção do ser mais frágil, aquele que não pode, por si, pleitear direitos. A vulnerabilidade, enfim, é protegida.
Ademais, como terceiro ponto não negativo, vê-se que num só diploma in- serem-se noções de biodireito, direito civil e direito penal, fundamentalmente, procura-se sistematizar o tratamento legal do nascituro, nomeando-o “ser huma- no concebido”.
Num quarto momento, direito fundamentais são arrolados, tais como a vida, a saúde, a alimentação, a dignidade, o respeito, a liberdade, a convivência fami- liar, a integridade física, a honra, a imagem etc.
Preocupação muito salutar, quinta observação, e a inexistência de discrimina- ção. Não importa a condição do nascituro, saudável ou não, ele deve ser respei- tado. Proíbe-se, em última análise, a eugenia.
O Ministério Público é chamado a intervir em favor do nascituro, primordial- mente quando, no exercício do poder familiar, colidir algum interesse dele com
50 JABUR, Gilberto Haddad. Breve leitura dos direitos da personalidade. In: FILOMENO, José
Geraldo Brito; VAGNER JÚNIOR, Luiz Guilherme da Costa; GONÇALVES, Renato Afonso (Coord.).
O Código Civil e sua interdisciplinaridade: os reflexos do Código Civil nos demais ramos do Direito.
Belo Horizonte: Del Rey, 2004, p. 402.
Carlos Alberto Bittar não faz distinção alguma entre a concessão de direitos de personalidade à pessoa humana ou ao nascituro (Os direitos de personalidade. Atualizado por Eduardo Carlos Bianca Bittar. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004, p. 13).
51 Alguns são ressalvados por Gilberto Haddad, como o nascimento com vida, integridade física,
honra e a identidade (Liberdade de pensamento e direito à vida privada: conflitos entre direitos de personalidade. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 357).
os pais, requerendo a nomeação de curador especial. Um representante daquela