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Natureza da linguagem jurídica

II. DIREITO, LÍNGUA E LINGUAGEM

2.5 Natureza da linguagem jurídica

Como traços característicos da linguagem jurídica frente a outras linguagens de especialidade, Borja Albi (2000: 11-12) aponta o seu carácter extremamente conservador, o apego a fórmulas arcaizantes e expressões que permanecem há séculos invariáveis; observar e estudar

22Por exemplo, a expressão antiga e recorrente nas atas de audiências dos tribunais portugueses, «aos costumes disse nada», ou «aos costumes

disse…»; «costumes» são as perguntas que procuram aferir se há alguma causa de suspeição ou impedimento que ponha em causa a veracidade do depoimento da testemunha, tal como o parentesco a afinidade. Cf. a título ilustrativo o Acórdão do Tribunal da Relação de Évora de 2/11/2006 (Sílvio Sousa), disponível em http://www.dgsi.pt/ (consultado a 9/10/2016). Ver também Ramos (2012: 32) que refere as aparentes irregularidades da frase: dificuldade na identificação imediata do sujeito, ausência de dupla negativa na realização da negação.

23O conceito de família jurídica designa um conjunto de sistemas jurídicos que possuem afinidades entre si quanto a aspetos fundamentais (Vicente

2014: 56).

24 Cf. Alcaraz Varó (2007: 4). 25 Ver 4.2

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a forma como a linguagem jurídica acolhe novos conceitos e se adapta às mudanças da vida motivadas pelos avanços tecnológicos é, segundo a autora, uma tarefa apaixonante.

Podemos dizer que a linguagem jurídica tem uma natureza normativa,

performativa, técnica e vaga como ensina Cao (2007: 13-20), e daí advém a sua complexidade e impenetrabilidade. A normatividade é uma qualidade intrínseca, uma vez que a linguagem jurídica funciona como veículo para expressar o dever-ser, o que é tido como bom, justo, equitativo, em dado momento, em dada sociedade, e se consubstancia nas normas e padrões jurídicos. Cabe ao Direito, através dos meios de que dispõe, garantir a ordem, a paz, a segurança e a justiça social. Consequently, the languaged used in law to achieve its purpose is predominantly prescritive, directive and imperative (Cao 2007: 13). O tecnicismo da linguagem jurídica explica-se pelos termos que pertencem em exclusivo ao campo jurídico, ainda que a linguagem jurídica coincida parcialmente com a língua comum e exista entre ambas uma relação

funcional. Todavia, apesar de criticado, porque não compreendido pelo cidadão comum26, é no

aspeto mais técnico do Direito que reside o seu rigor e precisão jurídica. Como alerta Cao (2007: 19), law demands exactness and precision. Atento aos fenómenos linguísticos, defende Menezes Cordeiro (2010) que «o elevado tecnicismo científico do BGB explica a sua vitalidade, muito para além das áreas de influência política, cultural e económica da Alemanha.»27

E invoca o mesmo Professor:

«A linguagem comum, particularmente quando se trate de línguas latinas, é muitas vezes imprecisa: ambígua, vaga ou polissémica. Um bom discurso jurídico deve ultrapassar essas limitações apresentando-se, pelo menos, mais preciso».

Menezes Cordeiro (2010) conclui, dizendo que «a língua francesa permite conceitos subtis e difusos, como a faute; a alemã é muito precisa e analítica; o inglês é criativo». De uma forma ou de outra, os sistemas jurídicos pugnam, cada um à sua maneira, por soluções livres dos

26 Temos, por um lado, uma comunicação que funciona entre profissionais do Direito, por outro lado, temos um sistema que visa a organização da

vida em sociedade cuja linguagem não é compreendida pela grande maioria dos destinatários. Sobre a linguagem usada pelos tribunais, diz Rodrigues (2005: 20) que esta é «sentida pelos falantes como muito prolixa, relativamente densa, às vezes, incompreensível, enfim, como se de uma outra língua se tratasse». É um sentimento comum, correntemente veiculado, que pode ser estendido à lei ou à linguagem usada pela Admnistração Pública.

27 Sobre o Código Civil Português de 1966, que salvo as alterações introduzidas, continua em vigor, diretamente inspirado no BGB, atenta Mota

Pinto (1992: 64): […] o nosso diploma fundamental de direito civil utiliza expressões e termos doutrinalmente apurados. Contém um «direito de juristas», expresso em linguagem de técnicos».

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condicionamentos linguísticos. Entretanto, quase parece uma contradição criticar-se a vagueza das línguas latinas, em que se inclui o português, quando a própria lei faz uso de conceitos vagos e indeterminados, embora entendamos o pensamento de Menezes Cordeiro (2010), que considera que o Direito como um «sistema autónomo [que] assenta num idioma específico»28. Rodrigues (2005: 466) também se assombra quanto a este aspeto:

«curiosamente, muitos dos conceitos hoje considerados centrais na maioria das ordens jurídicas ocidentais são expressões vagas, o que não deixa de constituir, pelo menos de modo aparente, um dado paradoxal». Na verdade, como sublinha Cao (2007: 19), language is inherently indeterminate. […] People are often guided by an ideal conception of language as precise, determinate, literal and univocal. Verificamos, portanto, que a vagueza, a ambiguidade e a generalidade constituem uma propriedade da linguagem natural e, também, da linguagem jurídica. Se por um lado, elas são fonte de mal-entendidos e disputas, por outro lado existem estratégias linguísticas e pragmáticas que podem contribuir para uma melhor comunicação. A par de conceitos fixos, precisos, o Direito recorre a cláusulas gerais (como a boa- fé/bona fideem inglês) e a conceitos vagos e indeterminados (como a diligência do bom pai de família ou bonus pater famílias, análogo à noção de reasonable manno Direito anglo-saxónico)29 a

fim de conferir maleabilidade e abertura do sistema jurídico à decisão dos conflitos que lhe compete dirimir, o que não significa que deixe de exigir racionalidade e objetividade, e uma atuação do julgador vinculada à lei e não discricionária. A esse respeito, esclarece Mota Pinto (1973: 67 apud Ac. do Tribunal Constitucional de 19/10/2004, Relator: Gil Galvão)

«A inserção nas leis de conceitos indeterminados é a consequência inelutável da impossibilidade de prever todas as hipóteses geradas na vida social e sem dúvida que pode redundar em quebra da objectividade e da uniformidade das decisões. Mas cabe à jurisprudência fazer a adaptação desses conceitos indeterminados às circunstâncias concretas da vida, numa actuação valorativa, embora sempre “dentro dos limites da necessária objectividade decorrente da obediência do juiz à lei”».

28 Menezes Cordeiro (2010: nota 15): «A diversidade linguística coloca, só por si, específicos problemas ao Direito comparado»: (Vivian Grosswald

Curran, Comparative Law and Language, em Reimann/Zimmermann, The Oxford Handbook cit. (2008), 675-707); «mas vamos mais longe: ela condiciona os sistemas».

29 Os termos em inglês foram consultados no BLACK's Law Dictionary [em linha]. Disponível em: http://thelawdictionary.org/ [consulta a 23/10/2016].

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Ressalva-se que, em matéria penal, onde vigora o princípio nulla poena sine lege/ no punishment without law (artigo 7º da Convenção Europeia dos Direito do Homem (CEDH), e não são admissíveis nem o recurso à analogia nem a interpretação extensiva, devem evitar-se os conceitos vagos e indeterminados.

Cao (2007: 19) deixa uma última nota:

Linguistic uncertainty, whether its ambiguity, generality or vagueness includes both intralingual uncertainty, that it is uncertainty found

within a language, and interlingual uncertainty, that is,

uncertainty arises when two languages are compared or when one language is translated into another language (negrito nosso).

Esta primeira abordagem leva-nos a conhecer a natureza da linguagem jurídica como normativa, performativa, técnica e vaga e permite-nos antecipar problemas e tomar consciência do que implica a tradução jurídica.