CAPÍTULO III METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO
3.1. Natureza do estudo: abordagem qualitativa
“A investigação qualitativa está vocacionada para a análise de casos concretos, nas suas particularidades de tempo e de espaço, partindo das manifestações e atividades das pessoas nos seus contextos próprios” (Flick, 2005:13).
As divergências entre os defensores das metodologias quantitativas, cujas bases assentam no paradigma positivista, e os que defendem os métodos qualitativos, centrados no paradigma interpretativo, devem-se essencialmente ao facto de os primeiros acusarem os segundos de falta de rigor pela impossibilidade destas novas perspetivas – interpretativas - não produzirem conhecimento
generalizável a outras situações, argumentando serem especulativas e sem rigor científico (Máximo- Esteves, 2008).
Já Bogdan & Biklen (1994) referem que, apesar do desenvolvimento da investigação qualitativa apenas se verificar no final dos anos sessenta, e apesar de só recentemente ter sido reconhecida no campo da educação, há uma longa e rica tradição nestas metodologias atribuindo- lhes as seguintes características:
1. Na investigação qualitativa a fonte direta de dados é o ambiente natural, constituindo o investigador o instrumento principal.
2. A investigação qualitativa é descritiva.
3. Os investigadores qualitativos interessam-se mais pelo processo do que simplesmente pelos resultados ou produtos.
4. Os investigadores qualitativos tendem a analisar os seus dados de forma indutiva.
5. O significado é de importância vital na abordagem qualitativa.
É com base nestas características, que os autores privilegiam a compreensão dos comportamentos a partir da perspetiva dos sujeitos da investigação, nos seus contextos ecológicos naturais. A palavra escrita assume particular importância tanto para o registo de dados como para a disseminação dos resultados. Não se recolhem dados para confirmar hipóteses, mas constroem-se as abstrações à medida que os dados se vão recolhendo e se vão agrupando. Assim, os “investigadores qualitativos estabelecem estratégias e procedimentos que lhes permitam tomar em consideração as experiências do ponto de vista do informador” (Idem:51).
Por todas as razões apresentadas, o estudo que levámos a cabo exigiu uma investigação qualitativa porque concordamos que esta metodologia “está vocacionada para a análise de casos concretos, nas suas particularidades de tempo e de espaço, partindo das manifestações e atividades das pessoas nos seus contextos próprios” (Flick, 2005:13).
Tal como Herdeiro (2010:38), pensamos que ”como investigadores não temos a intenção de medir forças entre paradigmas, mas consideramos importante salientar as nossas opções nos aspetos conceptuais, metodológicos e teórico-práticos, de forma a obter respostas para as nossas questões/preocupações”.
À medida que se foi avançando nos estudos no campo educacional, mais convictos se foram tornando os especialistas de que é fundamental atender “à complexidade da teia quase
inextricável de variáveis que agem no campo educacional” (Ludke e André, 1986:5). A realidade implica analisar todos os condicionalismos que envolvem a educação, o comportamento dos sujeitos em contexto, as relações entre eles e entre a comunidade em que estão inseridos. Para estes autores não é possível isolar o fenómeno educacional do contexto social e da realidade histórica em que o mesmo ocorre, porque “não resolve o problema da compreensão geral do fenómeno em sua dinâmica complexidade” (Ibidem). Segundo Chizzotti (2001:79) “a abordagem qualitativa capta a relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, considerando esta relação uma interdependência viva entre sujeito e objeto”.
De acordo com Esteves (1986) as metodologias qualitativas são particularmente favoráveis à captação da subjetividade e, por isso, foi crucial conhecer as experiências dos professores - os seus relatos, as suas conversas e as suas histórias - no sentido de realçar a importância destes profissionais na transformação de práticas. Assim, coube-nos promover uma aproximação aos professores participantes capaz de criar um clima de cordialidade e abertura para que expressassem livremente as suas opiniões, uma vez que a “abordagem qualitativa requer que os investigadores desenvolvam empatia para com as pessoas que fazem parte do estudo e que façam esforços concertados para compreender vários pontos de vista” (Bogdan & Biklen, 1994:287).
Segundo Rousseau e Saillant (2003:148), “numa abordagem qualitativa acontece frequentemente que se investiga “com” e não “para” as pessoas de interesse; certos investigadores vão ao ponto de designar os sujeitos do seu estudo como “coinvestigadores”, o que aconteceu neste estudo dada a proximidade pessoal e profissional existente entre investigador e professores participantes.
É no contacto com as pessoas, ouvindo-as, que se percecionam as suas opiniões e sugestões, anseios e convicções. Na investigação qualitativa o objeto da investigação (Lessard- Hebert, Goyette & Boutin, 1994) é “o mundo humano” onde o que importa é a compreensão do significado ou a interpretação dada pelos próprios sujeitos inquiridos.
Segundo Chizzotti (2001:85) “observando a vida cotidiana em seu contexto ecológico, ouvindo as narrativas, lembranças e biografias, e analisando documentos, obtém-se um volume qualitativo de dados originais e relevantes, não filtrados por conceitos operacionais, nem por índices quantitativos”.
É na investigação qualitativa que os dados recolhidos são ricos em pormenores descritivos relativamente a pessoas, às suas conversas e ao seu contexto, daí a importância do investigador
contar com a opinião dos sujeitos quando expressam livremente as suas opiniões (Bogdan & Biklen, 1994).
Foi o que pretendemos fazer neste estudo ao ouvir a voz dos professores participantes, já que “as questões a investigar não se estabelecem mediante a operacionalização de variáveis, sendo, outros sim, formuladas com o objetivo de investigar os fenómenos em toda a sua complexidade e em contexto natural” (Idem:16).
Alguns autores (Gómez, Flores e Jiménez, 1999) reconhecem a complexidade de optar por estudos qualitativos devido à sua imprevisibilidade e flexibilidade; no entanto, esta é uma das grandes vantagens de optar por métodos qualitativos, a sua flexibilidade, porque permite ao investigador desenvolver os temas de pesquisa à medida que estes surgem, sem estar sujeito a um plano prévio, além de lhe permitir ir reorientando o curso da sua investigação como achar mais pertinente (Moreira, 1994).