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O ESTATUTO DA MITOGRAFIA GREGA

2) A NATUREZA DA MITOGRAFIA

Paralelamente a essa mitografia descritiva, preocupada apenas em recontar os mitos, devemos acrescentar outra vertente: a mitografia analítica ou interpretativa, que visa analisar os mitos para explicar, por exemplo, sua origem, função, lógica interna e significados ocultos. No entanto, como o Pseudo Apolodoro constitui o maior representante do primeiro tipo, concentraremos nossa análise nesta área, abordando a segunda sobretudo através da perspectiva histórica.

Tanto a mitografia descritiva quanto a analítica compartilham da característica de abordar o mito a partir de uma perspectiva externa e essencialmente não artística e têm como finalidade estabelecer uma ordem entre as caóticas tradições míticas gregas transmitidas pelas tradições orais, artísticas e literárias. Pois apesar de toda sua beleza e importância, essas obras artísticas e literárias da Grécia antiga eram, por sua natureza, veículos pouco apropriados para transmitir o conhecimento

básico a respeito dos mitos. Nesse sentido, os mitógrafos foram os primeiros autores a produzir

relatos claros e simples dos “contos tradicionais” – sem qualquer pretensão ou adorno – versando sobre os homens, deuses, heróis e eventualmente animais fabulosos, gigantes e monstros de toda espécie.

Não devemos esquecer, porém, que por trás da tarefa aparentemente simples de recontar há todo um trabalho prévio de reunir essas histórias tradicionais, que muitas vezes nos foram transmitidas em estado incompleto e contraditório, para compor um relato dos mitos gregos que seja simultaneamente compreensível e razoavelmente consistente e acessível4. Isso constitui, por si só, um filão extraordinário para o estudioso, que poderá seguir as “pistas” indicadas nas opções que o autor faz por determinadas fontes e variantes, quer para obter acesso ao universo cultural do autor e de sua época, quer para se obter informações preciosas de fontes que já desapareceram. Todavia, para que se possa compreender a natureza de uma obra como a Biblioteca, do Pseudo Apolodoro, produto de uma longa e rica tradição, é imprescindível ao menos delinearmos um resumo que abarque os primórdios da mitografia para posteriormente estudarmos seus desenvolvimentos e seus principais representantes.

As escavações de Schliemann, que confirmaram a existência de Troia e Micenas comprovam que, na base da lenda da guerra de Troia, há reminiscências históricas de tempos remotos. Portanto, relatos que antes se podiam considerar como simples fábulas ou lendas passaram a adquirir o status de realidade histórica. Não obstante, tudo que é narrado na Ilíada continua, apesar disso, sendo poesia e mito, pois o cantor épico, o aedo, não possuía a consciência histórica de uma continuidade em que o mundo heroico e mítico se ligava ao seu mundo presente. Essa conexão dependia, além disso, da classe aristocrática dominante, que graças ao aedo, reatava sua tradição, através da qual nobres e reis viam nos heróis da Guerra de Troia seus próprios antepassados, e a sua memória se interligava com a glória de seus ancestrais.

Outro catálogo importante dos poemas homéricos é o das mulheres que foram mães de heróis e que tiveram destinos estranhos, as quais Odisseu divisa na sua Nekyía na Odisseia (XI, 225-332). Neste catálogo já se constata que os relatos míticos tradicionais estão interligados pelo nexo causal das genealogias, característica que se tornará fundamental a partir da Teogonia de Hesíodo, e em outra obra que é anunciada na última parte desta, onde o poeta promete cantar certas mulheres que os deuses tornaram progenitoras de grandes estirpes.

Outro catálogo que encontrou grande repercussão na Antiguidade e que quase sempre foi atribuída a Hesíodo é o Catálogo das mulheres ou Eeias. A última designação (Eeia) deve-se a o fato de a história de uma nova mãe de heróis ser introduzida com a as palavras e hoie, “ou como...”.

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Este artifício denota um encadeamento de simples justaposição, uma forma de catálogo que é uma antiga herança épica. Dispomos de algumas informações a respeito do conteúdo dos cinco livros das Eeias, e foi possível reconstruir alguns fragmentos9. Da enumeração dos Pretendentes de

Helena, um catálogo dentro dos catálogos, conservam-se fragmentos consideráveis nos papiros de

Berlim (n

º

519 f. P.), que nos permitem reconhecer como o estilo era pouco pretensioso. O papiro de Oxirrinco 23, 1956, nº 2354 recolheu o começo das Eeias. E. Lobel publicou em Ox. Pap. 28, 1962, um bom número de novos fragmentos de poemas genealógicos pseudo-hesiódicos. Segundo Lesky (de onde todas essas informações procedem), existem relações quanto à matéria, entre esta poesia de catálogo e a Biblioteca do Pseudo Apolodoro, dado de extrema importância para nosso objeto de pesquisa, uma vez que a Biblioteca também se baseia na construção de amplos quadros genealógicos. Outros fatores se acrescentam, de tal forma que R. Merkelbach e M. L. West, na sua excelente coleção de fragmentos, colocaram, com razão, os das Eeias de acordo com as seções da obra mitográfica11.

O problema da autoria da Eeias é de difícil solução. Sabe-se que muitas passagens não procedem de Hesíodo (p. ex. a Eeia de Cirene data de uma época posterior à colonização que partiu de Tera para Cirenaica por volta de 630 a. C. id.). Compreende-se que um poema sobre as progenitoras de estirpes nobres se prestasse a que se praticassem nele interpolações contínuas. E não seria despropositado perguntar se, como no Catálogo das naus, não teria existido um núcleo autêntico a partir do qual foram se agrupando acréscimos posteriores.

Todas essas passagens conhecidas como “catálogos”, presentes desde os poemas homéricos, deviam assegurar aos jovens aedos o domínio da difícil técnica poética12. O Catálogo das naus, por exemplo, ocupa metade do segundo canto da Ilíada, ou seja, quatrocentos versos, e devia representar para quem o recitava uma autêntica proeza.

Por conseguinte, o mito grego, sobretudo na epopeia, já surge relacionado, em certo grau, com um núcleo histórico, a partir do qual são feitas adaptações e desenvolvimentos posteriores, e, pela sua própria forma de elaboração, se interpenetra e se confunde de tal forma com o pensamento racional que mal se pode distingui-los. É o que constatamos também em Hesíodo, notadamente na

Teogonia, na qual encontramos “uma perfeita coerência na ordem racional e na formulação de

problemas, animadas por uma vontade resoluta de compor um sistema hierarquicamente estruturado e logicamente compreensível”.15

De fato, há elementos históricos na epopeia grega, porém bastante transformados, coordenados num determinado tempo e espaço e consideravelmente distantes do presente do narrador. No entanto dentro destes limites, começou-se a articular, mediante o vínculo genealógico, os diversos acontecimentos e personagens, formando uma continuidade temporal que desempenhará um papel fundamental na filosofia, na história e na mitografia gregas emergentes.

Como vimos anteriormente, em vários aspectos, as histórias “míticas” desenvolveram-se paralelamente às primeiras obras históricas, e às vezes coincidiam com elas, como as primeiras obras históricas16, sobretudo porque concerniam à origem das dinastias regionais e os seus antepassados heroicos, à fundação da cidade e da colônia, frequentemente acompanhadas de prodígios e acontecimentos extraordinários. A colonização e o comércio altamente desenvolvido levaram os jônios da Ásia Menor a regiões muito remotas. Da grande importância que o estrangeiro foi adquirindo para a historiografia que se desenvolvia na Jônia, derivam duas das suas principais preocupações científicas. Em primeiro lugar por considerações práticas, a antiga navegação ao

9 LESKY, 1995, p. 128 11 Idem. 12

J. P. Vernant, Aspects mythiques de la mémoire em Grèce, Journ. Psych., 1959, p. 5ss. (=M. P., p. 55ss). Cit. por Detienne in Mestres da Verdade na Grécia Arcaica, p. 16-17.

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É por esse motivo que muitos estudiosos consideram Hesíodo um pensador pré-socrático (v. Olof Gigon, Los pre- socráticos)

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Que poderíamos chamar de “núcleo histórico residual”, como demonstrou Page acerca da origem do Catálogo das naus V. supra.

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longo das costas deu origem à anotação das experiências realizadas, relatos de viagens mais conhecidos como périplos, que constituía a anotação das experiências realizadas durante o percurso. Era conveniente registrar a posição e a distância recíproca dos portos e desembocaduras dos rios, sítios perigosos, lugares onde se encontrava água potável. Mas os gregos que faziam os registros destas viagens tinham os olhos bem abertos e, assim, frequentemente o interesse ia para além dos aspectos práticos. O que mais cativava sua atenção era o nómos, os costumes tradicionais dos outros povos.17 O conhecimento da terra, dos países e dos povos é um objeto claro de investigação empírica, pois está relacionado com fatos primários, verificáveis de modo imediato. Estas ciências floresceram no século V a. C.. Da etnografia, os gregos passaram a uma história dos povos construída sobre bases geográficas (Heródoto) e, finalmente, a uma história nacional científica (Tucídides). Porém já se manifestavam incredulidades e perplexidades sobre aspectos menos plausíveis, inconvenientes ou inverossímeis das narrativas sobre deuses, heróis e monstros primitivos, como atestam as críticas incisivas de Xenófanes de Cólofon18 e de Heráclito de Éfeso às criações poéticas de Homero e de Hesíodo, que eram, então, os principais expoentes do saber tradicional transmitido pelas fontes literárias.

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LESKY, 1995 p. 249-250.

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