A natureza, tal qual possuidora de direitos, ressalta um novo paradigma em que se afasta da visão antropocêntrica9 e surgem novas visões biocêntricas10 e ecocêntricas11. É notório ressaltar que tais visões não se excluem, já que a vida está inserida na casa. Os seres bióticos e abióticos se unem em um só contexto para serem resguardados como um todo e, ao mesmo tempo, como uma parte desse todo, constituídos em um universo diversificado de seres animados e inanimados que precisam de proteção e de cuidados. Para isso, surge, ou melhor, urge uma necessidade de afastamento da visão voltada para a proteção humana somente e nasce, tal como a vida, a percepção para o que está fora do universo humano, para a natureza, natura12, como o próprio nome já o diz: qualidade essencial.
Nesse contexto, é importante ressaltar a colocação de Viana (2013) sobre a afirmação do filósofo francês Michel Serres. Serres (1990) afirma categoricamente que a natureza se comporta como um sujeito, que os objetos são sujeitos de Direito e não simples suportes passivos de apropriação e, apenas dessa forma, pode existir o equilíbrio que se pretende com o contrato natural.
O filósofo francês Serres (1990) adverte que a Terra existiu sem os nossos antepassados, poderia muito bem existir hoje sem nós e existirá amanhã sem nenhum dos
9 do grego, anthropos, “humano”; kentron, “centro”.
10 do grego, bios, “vida”; kentron, “centro”.
11 do grego, oikos, “casa”; kentron, “centro”. Pronunciado ekosentrizmo.
12 “qualidade essencial, disposição inata, o curso das coisas e o próprio universo”.
nossos possíveis descendentes, mas nós não podemos existir sem ela. Nosso domínio, não regulado, volta-se contra si mesmo.
Partindo dessa premissa de que a natureza se comporta como um sujeito, inicia-se uma perspectiva distinta da natureza como propriedade, qual seja a natureza como possuidora, como detentora de direitos por si só. Como bem ressalta Serres, a existência da natureza não depende dos seres humanos, ela basta a si mesma, porém, nós, seres humanos, não poderíamos jamais viver sem a água, como ressaltado no presente trabalho acadêmico, sem os rios, sem os animais, sem o oxigênio que respiramos e demais compostos naturais, ou seja, se extintos, não findaria a natura; nós, seres humanos é que deixaríamos de existir. A complexidade de tal situação é urgente, pois nos leva a uma nova questão: a de protegermos a nós mesmos ao protegermos a nossa casa, a Mãe Terra.
Já que não viveríamos sem a natureza, por que ela não precisaria de uma proteção maior? E como lhe poderíamos conceder uma proteção maior? Tais questionamentos são válidos a partir do momento em que os rios são poluídos bem como os mares, junto à destruição das florestas ainda restantes no Planeta e assim por diante, causando como consequência a nossa extinção aos poucos e a da natureza e seus espécimes.
Não é uma questão tão somente a se pensar, é uma questão para agir; para não cunhar apenas uma doutrina teórica, e, sim, uma forma concreta de proteção. Dessa forma, como dita Viana (2013, p. 14), “a atribuição de subjetividade, dignidade e direitos ao Planeta auxilia na tomada de consciência sobre a crise ambiental e colabora na tomada de decisões para suas possíveis soluções”.
Está, portanto, o referido autor refletindo sobre o papel do reconhecimento da Terra como sujeito de Direitos, como um fator primordial e essencial para que se concretize o ato de proteção, de valoração ambiental para que não haja uma crise desproporcional ao que as forças humanas possam suportar, para que não ocorra um efeito tão devastador que não possa ser controlado pela humanidade e, dessa forma, minimizar a crise. Por fim, buscam-se soluções tais como aquelas de reconhecimento da natureza como detentora de direitos.
É válido ressaltar o recente caso de proteção da Suprema Corte de Justiça Colombiana ao reconhecer a Amazônia Colombiana como sujeito de Direitos, conforme narra Gudynas (2018):
ministérios, agências e municípios, iniciem ações diferentes com um objetivo muito ambicioso: desmatamento zero. (tradução nossa)13
Tal caso serve como exemplo para o reconhecimento da Mãe Terra como sujeito de Direitos, não se perfaz algo utópico como na visão antropocêntrica e sim, consagra um momento de rompimento com o passado e busca de atos concretos para que sejam reconhecidos os Direitos da natureza como primordiais e essenciais para todos.
Partindo desse universo e, em acréscimo, Moraes (2013) dita que até que no campo jurídico universalizem-se, nos passos da visão ecocêntrica, pioneira no Equador, os direitos de Pachamama (natureza), e, por via de consequência, as águas sejam vistas, de fato, como sujeito e não como objeto de Direito, nesta fase de transição, serão inevitáveis contradições intrínsecas, consequências das tentativas de adaptar essas “novas” visões às diversas formas geradas sob o anterior paradigma antropocêntrico, e enquadrá-las em conceitos, categorias, institutos, procedimentos, enfim, ferramentas jurídicas concebidas para atender à concepção romano-germânica de Direito.
Com o uso de tais ferramentas jurídicas, podemos resguardar os direitos da Terra e legislar em favor desta, uma vez que são mecanismos necessários para que o percurso da Direito é universal, interligado como as águas, sem fronteiras, de tal maneira que os direitos precisam ser resguardados onde quer que estejamos e exista um ser vivo ou não-vivo, pois ali esse direito estará presente, os Estados existindo tão somente como divisores criados por humanos.
Nesse momento, no entanto, é essencial uma ruptura com a visão antropocêntrica voltada apenas para uma postura Estatal e centralizada. Assim como aconteceu com o advento da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão14, em 1789, ocorreu, nessa época, um rompimento de paradigmas, vivenciou-se um universalismo, na mesma linha de raciocínio, de
13 “La decisión, aprobada el 5 de abril de 2018, dice que la Amazonia es un “ecosistema vital para el devenir global”, y que en aras de protegerla, se la reconoce “como entidad ‘sujeto de derechos’, titular de la
protección, de la conservación, mantenimiento y restauración a cargo del Estado y la entidades regionales que la integran”. A partir de ello, la decisión mandata al gobierno, incluyendo ministerios, agencias y municipios, a iniciar distintas acciones con un objetivo muy ambicioso: cero deforestación.”
14 Disponível em <http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%
C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/ declaracao-de-direitos-do-homem-e-do-cidadao-1789.html>. Acesso em: 10 mai. 2018.
que os Direitos da natureza devem ser respeitados em um plano internacional e a mudança de paradigma para que a natureza seja sujeito de Direitos certamente também demanda um esforço por parte dos legisladores, do judiciário e do Poder executivo, porém se faz mister a transição de uma perspectiva anterior para uma nova em um contexto global.