NOS ENSINAR? NOS ENSINAR?NOS ENSINAR?NOS ENSINAR?
WILSON AZEVEDO*
2. A NDREW F EENBERG E A “C OSTURA T EXTUAL ”
Feenberg integrou a equipe de desenvolvimento do primeiro programa educacional online da história da Educação, na Escola de Gestão e Estudos Estratégicos do Western Behavioral Sciences Institute, em La Jolla, California. Uma experiência pioneira iniciada em 1981 num tempo em que não havia modelos a serem seguidos e tudo estava por ser experimentado pela primeira vez. Uma das suas primeiras e mais claras descobertas foi que o ambiente online era especialmente adequado à discussão de idéias e ao desenvolvimento de uma “pedagogia socrática”, dialogal, em grau de qualidade superior ao do ensino presencial convencional. Em artigo publicado na revista “Academe”, (“No Frills in the Virtual Classroom”, disponível em http://web.archive.org/web/ /20000302012727/www.aaup. org/SO99Feen.htm) Feenberg afirma:
A qualidade destas discussões online ultrapassava qualquer coisa que eu havia sido capaz de instigar em minha sala-de-aulas presencial.
Neste artigo Feenberg expõe uma idéia até certo ponto desconcertante para um certo “senso comum” educacional: “o ambiente online é essencialmente um espaço de interação escrita”. E não faz esta descoberta do nada: foi uma das principais lições aprendidas naqueles tempos pioneiros da Educação Online, a partir de uma perspectiva filosoficamente informada. Feenberg é filósofo, especializado em Filosofia da Tecnologia e afirmações como esta a respeito do caráter essencialmente textual do ambiente online não devem ser vistas como gratuitas ou ingênuas.
Foi a partir desta perspectiva que Feenberg desenvolveu uma estratégia peculiar de condução e orientação de debates online assíncronos: a “costura textual”. Foi o que vimos em prática na sessão do curso “Pioneiros da Educação Online” com sua participação. Em lugar de responder de forma pontual às colocações e indagações dos alunos, Feenberg procurava identificar pontos de contacto entre as contribuições dos participantes ao debate, e comentava não um a um, mas de forma articulada estas colocações. Esta articulação, esta “costura” leva os alunos a elaborarem suas sínteses da discussão, a perceberem melhor o encadeamento das idéias em debate, resultando numa objetividade maior e num melhor aproveitamento. Foi isto o que os participantes do curso “Pioneiros da Educação Online” puderam observar e sentir na maneira como o prof. Feenberg se conduziu em sua sessão.
Feenberg compartilha com Turoff uma certa decepção com o desenvolvimento posterior da Educação Online após o período de pioneirismo. Ele lamenta que os avanços tenham se restringido, como nos disse no curso, à velocidade de transmissão de dados e à facilidade de uso das interfaces. Nos demais aspectos, os ambientes atuais seriam inferiores ao que se dispunha em 1982 quando Feenberg iniciou sua carreira como docente online.
Feenberg também observa que o mais recente crescimento de interesse em torno da Educação Online envolveu um tipo de personagem da vida acadêmica que pouco ou
nenhum interesse tinha nisto nos tempos pioneiros: o administrador universitário. Isto deslocou o foco inicial em pedagogia e metodologia para outros aspectos mais ligados à administração universitária, como custos, lucratividade, tecnologia para gestão e padronização. Também aqui Feenberg lamenta o retrocesso e nos conclamou a nós educadores a reassumirmos a condução do processo e a trazermos de volta o foco no pedagógico.
Com Feenberg creio que aprendemos a não subestimar a importância da interação textual e a não depositarmos excessiva confiança no potencial do audiovisual e da multimídia. E aprendemos, na prática, os imensos benefícios da técnica da “costura textual” (mais detalhes a respeito desta estratégia de ensino online podem ser obtidos em http://www.textweaver.org/facilitation.htm).
3. L
INDAH
ARASIM:
OE
STADODAA
RTEEME
DUCAÇÃOO
NLINELinda Harasim é pioneira da Educação Online no Canadá. Suas primeiras experiências neste campo remontam a meados dos anos 80, na Simon Fraser University. Participou ativamente na montagem de uma rede de aprendizagem online naquele país e vem pesquisando desde então os aspectos mais propriamente pedagógicos relacionados. É a principal editora/autora do clássico “Learning Networks”, livro publicado em meados dos anos 90 e que contém orientações e intuições válidas até hoje.
No ano 2000 foi convidada a apresentar em um congresso um sumário dos principais avanços conquistados em Educação Online, com o resultado de 4 anos de pesquisas conduzidas no Canadá com centenas de cursos online, centenas de professores e dezenas de milhares de alunos. Uma síntese do “estado-da-arte” em Educação Online. Uma das grandes lições extraídas da experiência canadense, e confirmada pela norte-americana e pela inglesa desde os anos 80 foi: “a conferência por computador constitui o coração e a alma da Educação Online”. A aprendizagem colaborativa promo- vida por meio da interação coletiva predominantemente assíncrona deve estar no centro de todo projeto de ensino online. No entanto, nos anos 90, floresceu um outro modelo baseado mais na publicação de material didático online, mas que já no final da última década exibia sua fragilidade e suas limitações. Como Turoff e Feenberg, Harasim tam- bém lamenta o retrocesso vivido nos últimos 10 anos, apesar do grande avanço tecno- lógico.
Harasim defendeu em sua sessão no curso que Educação Online não constitui apenas “mais uma” modalidade, mas sim um novo paradigma, no sentido Khuniano, um novo domínio educacional. Em sua sessão neste curso, mostrou-se preocupada com a quantidade de energia e recursos desperdiçados no que chamou de “reinvenção do fogo e da roda” que parece ter caracterizado o chamado e-Learning de meados dos anos 90 para cá, isto é, nos esforços para inventar coisas já inventadas, de criar coisas que já existiam e já tinham mais de uma década de uso. Em sua opinião isto retardou o avanço da área. Um dos apelos que nos lançou foi justamente este: fazer avançar o conhecimento
em Educação Online, conhecendo e reconhecendo as conquistas já feitas na fase pioneira (anos 70 e 80), e partindo da base já existente, sem precisar começar tudo “do zero” novamente.
Linda apresentou-nos também sua previsão quanto ao futuro e que sintetizou da seguinte forma:
• toda educação presencial terá um importante componente online;
• toda educação a distância se tornará educação online, baseada em aprendizagem colaborativa e com algum componente de massa ou individualizado.
Especialmente para o campo de pesquisa e desenvolvimento, Linda Harasim lançou-nos um importante alerta no curso:
Precisamos ter cuidado com a tentação de desenvolver ferramentas interessantes só porque isso é possível, ao invés de porque temos evidências de que elas enriquecerão a aprendizagem.
Por fim, deixou-nos uma inquietante reflexão: “NÃO devemos ficar satisfeitos com o ‘tão bom quanto’ [em relação ao presencial], pois a educação presencial não é tão boa assim”.
Em suma, aprendemos com Linda Harasim a identificar e valorizar a grande contribuição da Educação Online para a Educação em geral: a importância fundamental e o potencial do ambiente online para a aprendizagem colaborativa.
4. R
OBINM
ASON: M
ODELOSDEC
URSOSO
NLINERobin Mason é a pioneira da Educação Online na Inglaterra. Por muitos anos dire- tora do Instituto de Tecnologia Educacional da Open University, iniciou na segunda metade da década de 80 suas atividades em Educação Online, tendo oferecido o primeiro curso online daquela que é a mais respeitada universidade a distância do mundo. Já em 1998 ela percebia uma certa confusão em torno da designação “curso online” e publicou um artigo na ALN Magazine, “Models of Online Courses” (disponível em http://www.aln.org/publications/magazine/v2n2/mason.asp), apresentando 3 tipos distintos de cursos online, tal como apareciam na curta história da Educação Online:
• Modelo “conteúdo+suporte”, em que cerca de 80% das atividades estão organi- zadas em torno da interação com um material didático e o restante em torno da interação principalmente com um tutor;
• Modelo “Wrap Around”, em que o estudo do material didático é como que “envolvido” por atividades de aprendizagem colaborativa a partir deste estudo, numa distribuição do tipo “meio-a-meio”;
• Modelo “Integrado”, em que cerca de 80% das atividades envolvem a interação coletiva online e a aprendizagem colaborativa.
Mas, 5 anos depois, em sua sessão no curso “Pioneiros da Educação Online”, Ma- son menciona um possível quarto modelo: o “modelo híbrido”, resultante da combinação de atividades online em cursos até então exclusivamente presenciais. Para ela isto representa um novo modelo que se expandiu a partir dos últimos anos e que merece ser melhor compreendido e explorado.
Sua experiência numa universidade tão incomum como é a Open University per- mitiu a Robin Mason lidar com uma grande variedade de situações e modelos. Ela aposta certamente no que chamou de “Modelo Integrado”, com a maior parte do conteúdo do curso sendo coletivamente construída de forma colaborativa e em comunidade de aprendizagem. Mas também percebe que o emergente “modelo híbrido” tem grande potencial para quebrar resistências e ajudar a formar uma cultura de uso de ambientes virtuais de aprendizagem.
Com Robin Mason aprendemos a perceber que o que vem sendo designado como “curso online” ao longo da história pode ter significados diversos e que precisamos saber identificar os modelos mais adequados a cada situação. Porém, sem sombra de dúvidas, o modelo que investe maciçamente em aprendizagem colaborativa assíncrona oferece imensas vantagens sobre os demais.
C
ONCLUINDO:
PARACOMETERSOMENTEERROSNOVOSOs pioneiros da Educação Online viveram um momento privilegiado, livre de algumas pressões e tentações que hoje nos ofuscam e chegam a nos cegar.
Em primeiro lugar, eles iniciaram sua trajetória neste campo num momento em que a indústria da computação pessoal ainda estava se estabelecendo. Isto os livrou das pressões que hoje vivemos em torno basicamente da provocação de um sentimento generalizado de obsolescência, da busca injustificada de mais poder de processamento e mais velocidade. A indústria da informática pessoal se alimenta deste sentimento e por isto sua principal estratégia de marketing consiste em provocar nos usuários a permanente sensação de obsolescência. Por não terem vivido sob esta pressão, os pioneiros puderam dedicar com mais serenidade atenção ao que efetivamente é mais importante em Educação Online: os seus aspectos pedagógicos e metodológicos. A retomada deste foco é hoje uma necessidade para nós que atualmente vivemos sob a pressão de buscar o mais poderoso, o mais veloz, por apenas buscar, sem que a esta busca corresponda alguma necessidade educacional.
Em segundo lugar, sua visão da história da Educação Online coincide num diagnós- tico: após um início inovador, tanto tecnológica quanto, e em especial, pedagogicamente, seguiu-se um período de retrocesso em que conquistas e inovações do período pioneiro foram sistematicamente ignoradas, modelos pedagógicos obsoletos foram sendo adotados
de maneira a-crítica e irrefletida, e a sofisticação tecnológica foi desnecessária e ingenua- mente buscada como alvo, em detrimento da busca por sofisticação metodoló- gico-pedagógica. Os anos 90 marcaram uma época paradoxal, de expansão quantitativa e retrocesso qualitativo em Educação Online, culminando com a onda do chamado “e-Learning”, disseminando experiências de “vanguarda tecnológica do atraso pedagó- gico” (conferir artigo de minha autoria com mesmo título disponível em: //www.aquifolium.com.br/educacional/artigos/vanguarda.html), construídas em cima de uma profunda ignorância histórica. O crescimento desordenado do acesso à Internet, a entrada em massa no campo da Educação Online de principiantes e aventureiros com nenhuma experiência anterior mas recursos de sobra para serem até mesmo “torrados” em iniciativas inconsequentes e, principalmente, uma disposição praticamente nula para aprender com a história, foram as principais causas deste retrocesso.
Por fim, este contato com os pioneiros da Educação Online nos permite retomar agora algumas de suas principais intuições e descobertas adquiridas em décadas de experiência cotidiana no uso de ambientes virtuais com finalidades educacionais:
• A aprendizagem colaborativa em rede, utilizando recursos para interação coletiva assíncrona, é o principal enfoque metodológico a ser adotado quando se trata de planejar, desenvolver e implantar cursos e programas online.
• A interação coletiva textual, o uso da escrita e de estratégias de ensino-aprendizagem envolvendo a escrita, é recurso extremamente poderoso e adequado ao ambiente online.
• O mercado de desenvolvimento de ambientes e plataformas para Educação Online foi um dos mais afetados pelo retrocesso dos anos 90, caracterizando-se por uma constante “invenção do já inventado” e pelos praticamente inexistentes avanços em recursos para a facilitação da aprendizagem colaborativa. Por conta disto deve-se hoje buscar o máximo de independência em relação a estes ambien- tes, dando-se preferência para soluções customizadas e simples. Fazer altos inves- timentos em software para Educação Online num momento de tamanha ima- turidade é temerário e contra-indicado. Ao mesmo tempo a pesquisa e o desenvolvimento nesta área precisam ser estimulados a avançar, a sair da busca pela “invenção da roda” ou da “descoberta do fogo” para a busca de recursos mais adequados a estratégias de aprendizagem colaborativa.
Por fim, uma maior atenção deve ser dada à pesquisa histórica em Educação Online. Hoje há uma generalizada ignorância com relação a uma história curta e recente, porém tão rica em lições para o presente e o futuro. A História da Educação Online precisa ser contada e recontada, redescoberta e reavivada na memória de todos os que hoje se iniciam neste, para nós outros, novo campo. Não temamos errar, aventuremo-nos sem medo na busca de uma melhor educação para o presente e para o futuro. Mas não nos permitamos mais permanecer nas trevas da ignorância histórica: deixemos os velhos erros para trás e permitamo-nos cometer somente erros novos!