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4.4. Uma análise sócio-histórica

4.5.3. Necessidade de negar o abuso e o desejo de esquecer

Tudo é dor. E toda dor, vem do desejo de não sentirmos dor. Renato Russo

Neste item a narrativa dos participantes expressa um contexto de dor do qual todos gostariam de se ver livre, e a negação ou o desejo de esquecer parece ser uma forma de seguir em frente, evitando o colapso emocional no enfrentamento de uma realidade dura demais de se viver, tanto para as vítimas diretas e indiretas, quanto para o autor da violência sexual contra a filha.

No início do acompanhamento, Geraldo evidenciou completa negação do aspecto sexual de sua relação com Yolanda. Em sua narrativa, ele mencionou o arrependimento de ter se deixado dominar por satanás, porém mais uma vez excluindo seu papel de pai e a ocorrência da violência sexual contra a filha, limitando-se a focar sua relação como marido e em relação a outras mulheres e adolescentes:

“Pouco tempo depois que eu comecei ir na psicóloga, aí aí eu aceitei Jesus, né? Aí eu ainda até contei pra ela, conversei com ela sobre isso e ... aí começou o tormento satanás em cima de mim, aí a menina joga pra cima de mim, menina novinha doze anos, treze anos pra cima de mim, eu sai fora e fui conversar com o pastor, achar ele logo... e eu consegui graças a Deus eu não caí, sabe? Mesmo porque acho que se fosse antes eu acho que eu não conseguiria, mas hoje eu consegui, consegui sair, consegui sair da mulherada, sabe como é que é? É como ter vício, você tem vício de bebida, tem vício de droga e a prostituição é um vício muito infeliz na vida do homem. Eu acho que se eu tivesse Deus na minha vida antes eu teria o meu casamento, eu taria bom, eu teria, teria não teria traído a minha companheira aquela mulher maravilhosa, mulher boa, trabalhadeira, uma boa dona de casa, né? Mas infelizmente eu não tinha Deus na minha vida e até mesmo porque no meu lar eu não conhecia Deus no meu lar, era um lar de muita briga, muita discórdia, muita bebida, o meu pai vivia brigando contra o outro, aí satanás entrou e fez o que quis.”

Porém, no presente estudo, a negação do incesto não foi característica apenas dos autores da violência. Foi também compartilhada pelas mães participantes como forma de eliminar a dor e de não ter que lidar com a realidade impensável. Assim, observamos que

a violência sexual parece assumir o caráter de algo que não se explica muito bem para a mãe de Beatriz, que busca minimizar os atos praticados pelo companheiro, pois estes não chegaram ao ato sexual consumado.

“Mesmo que é... não tendo acontecido. Mas é uma proteção para que não venha acontecer e se aconteceu não finalizando, que não chegue aos meios drásticos que eu não quero. Porque muitas pessoas por aí é verdadeiramente passam, né? Por esse tipo de abuso. Às vezes nem só de visão, né? (referindo-se à crença de que o abuso limitou-se à exposição). Muitos chegam até ser praticado mesmo, até ser um

117 assassinato ou coisa pior e não tem nenhum tipo de socorro, né? Hoje eu tenho a prova bem, bem isso que a minha filha não foi abusada é sexualmente direto, né? E não quero que isso aconteça fora de hora, né? Não quero a minha filha com dez, doze anos, quatorze, quinze sendo mãe. Eu quero, quero uma mulher estruturada, né?

Para a mãe de Beatriz, o desejo de esquecer é explícito, mas permanece como uma ideia:

“Então, quero isso na minha vida nunca mais, que seja apagado da minha vida. Como uma borracha.”

Já para a mãe de Luíza, o desejo de esquecer deixa o nível da ideia e é posto em ação e ela que não fazia uso de bebida alcoólica, passa a fazê-lo:

“...toda vez que passar em frente a um bar eu quero beber, eu quero entrar, eu quero beber, eu quero encher a cara, sair de lá assim totalmente destruída. Entendeu? Então assim, esse final de semana eu me segurei pra não sair, e não saí. Saí, saí sim, eu saí no domingo a noite aqui. Larguei tudo aqui e saí no domingo a noite e fui beber, bebi, bebi, bebi, bebi, desci de madrugada pra casa numa chuva terrível lá na Ceilândia Norte. Amanheci melhor? Amanheci pior. Amanheci pior na segunda- feira, pior, pior, pior. Eu sou uma pessoa, eu era uma pessoa assim de muita peleja, de muita garra, de coragem e tudo e de repente acabou, não tenho mais vontade pra nada. Pra falar a verdade, minha vontade é de morrer. Ela mesma não tá deixando nada na minha visão. (entrevistadora: Nada o quê?) Eu tinha mania de deixar bebida na geladeira. Ela não deixa. Nem remédio assim, ela não tá deixando perto de mim. Eu tenho pensado em tantas coisas (referindo-se aos remédios).

Para a mãe de Yolanda, além da bebida que entorpece, dormir foi outra estratégia encontrada para aliviar o sofrimento:

“Eu tava bebendo... e tem vez que eu deito e durmo, durmo, durmo, e não acredito que isso aconteceu na minha vida.”

A negação parece atuar como uma proteção ao sofrimento emocional. É uma maneira de se manter são diante de um fato que gera forte carga afetiva, tal como promove a violência sexual de um filho. No entanto, observamos que a negação não implica a

ausência de admissão do fato, apenas a sua rejeição e parece ser natural que se negue o que se rejeita. O risco é utilizar-se de mecanismos que debilitam o poder de enfrentamento

do sofrimento e da realidade, tal como a drogadição na tentativa de apagar o que não se pode enfrentar.

Nesse ponto nos perguntamos em que medida é possível para uma mãe, cujas feridas se encontram abertas e sangrando, “lamber e cuidar das feridas de seus filhotes,”

118 esquecendo-se das suas próprias. Mas, se por um lado, a negação dos fatos pode servir

como estratégia de evitaçao da realidade, de evitar os sentimentos de culpa, impotência, decepção, medo ou raiva, pode também promover a desproteção de seus filhos.

Araújo (2002) também observa o sofrimento da mãe de crianças e adolescentes em situação de violência sexual intrafamiliar, considerando-a como vítima secundária da violência familiar. A autora considera que “negar, desmentir a filha ou culpá-la pela sedução é uma forma de suportar o impacto da violência, da desilusão e da frustração diante da ameaça de desmoronamento da unidade familiar e conjugal” (p. 7). A negação, segundo Araújo, pode ainda estar a serviço de uma cumplicidade silenciosa associada a conflitos sexuais onde a criança ocupa um lugar que não lhe cabe e ameniza o conflito conjugal.

Independente do papel que desempenha no contexto emocional e relacional dos indivíduos, compreendemos a negação como um prejuízo para a criança ou adolescente vítima que, em função disso, pode permanecer subjugado à violência sexual por anos; pode vir a se retratar e negar sua experiência como forma de manter o desmentido de seus responsáveis ou pode ter ampliados e aprofundados os danos que já sofre em decorrência da violência sexual sofrida.

Segundo Santos e Dell-Aglio (2008), em relação às sequelas emocionais do abuso sexual, verifica-se a influência de fatores familiares como mediadores na manifestação dos sintomas na criança. Para Forward e Buck (1989), manifestações de apoio, principalmente por parte da mãe, tais como acreditar no relato da criança ou adolescente, podem funcionar como mediadoras do impacto negativo do abuso sexual. A participação de figuras de confiança que possam acreditar na criança ou no adolescente está diretamente relacionada como fator que pode dirimir os sintomas apresentados por uma criança vitimizada. Em nossa experiência de trabalho, temos observado que crianças que se sentem devidamente acolhidas e qualificadas em sua experiência e sofrimento tendem a apresentar disposição para uma pronta recuperação do trauma vivenciado com o incesto. Por outro lado, crianças não apoiadas, que precisam negar sua experiência ou que podem ainda ser culpabilizadas pela situação de abuso ou pelo sofrimento da família e do agressor, tendem a apresentar a cronificação de sintomas emocionais, comportamentais e interacionais decorrentes da violência sofrida.

Com base nisso, não podemos deixar de considerar que a atenção psicossocial e legal nos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes necessita se voltar para todos os envolvidos, pois o bem-estar de um implica o bem-estar do outro, e vice-versa. Pensar e

119 atuar sistemicamente requer um olhar que abranja todos os envolvidos e a forma como todos sofrem e promovem influências mútuas, tanto para o resgate da saúde quanto para o agravamento do sofrimento. As ações legais necessitam se coadunar com ações imediatas de assistência social e de atenção à saúde mental, incremento das oportunidades de desenvolvimento pessoal, social e econômico das crianças e adolescentes e dos outros membros da família, sob o risco de não conseguirmos interromper os ciclos de violências sofridas e repetidas no viver e na história familiar.

Consideramos importante ainda enfatizar a necessidade de que a mesma dimensão sistêmica seja conferida ao atendimento psicológico da família. Não negamos os benefícios de uma psicoterapia individual, pois em todo caso, ela tem muito a contribuir. No entanto, não podemos deixar de destacar que a violência sexual se instala em um contexto interacional familiar marcado pela confusão no nível das fronteiras transgeracionais, dos papéis e das identidades dentro do sistema familiar. Além disso, são famílias de fronteiras com pouca permeabilidade ao olhar social e uma organização fundada em torno do segredo que pode permanecer por gerações seguidas (Hamon, 1997).

A zona de sentido em análise – a necessidade de negação do abuso – é um fator determinante para que consideremos a importância de um olhar sistêmico sobre todos os envolvidos. A negação que permite a sobrevivência emocional é a mesma que camufla a violência e a legitima, podendo tornar-se, inclusive, um artifício que minimiza a responsabilidade do autor pela violência praticada e a responsabilidade dos adultos de proteger suas crianças e adolescentes. Dessa forma, entendemos que o tratamento da criança não basta sem que nada na família sofra mudanças. Tratar a criança ou o adolescente e ignorar seu contexto relacional é, para nós, colocar sobre ela a responsabilidade de dar conta de uma tarefa impossível: manter a saúde emocional em meio ao caos que a adoece, naturalizando seu contexto e banalizando os efeitos deste sobre ela. As duas próximas zonas de sentido ilustram essa compreensão de forma bastante

clara. Mas, antes, o quadro a seguir resume a zona de sentido em discussão que se refere à

120 Quadro 11: Necessidade de negar o abuso e o desejo de esquecer

Medidas de proteção Significado conferido pelos sujeitos às medidas protetivas Exemplos de narrativa Alcance da medida protetiva Limitações da medida protetiva / Efeitos contraditórios Intervenção legal: • Denúncia • Afastamento do autor da violência do lar Proteção

“Então, quero isso na minha vida nunca mais, que seja apagado da minha vida. Como uma

borracha.” (mãe de Beatriz) “...toda vez que passar em frente a um bar eu quero beber, eu quero entrar, eu quero beber, eu quero encher a cara, sair de lá assim totalmente destruída.” (mãe de Luíza)

“eu tava bebendo... e tem vez que eu deito e durmo e não acredito que isso aconteceu na minha vida.” (mãe de Yolanda)

Interrupção da violência sexual

Não elimina a dor e ressalta a

necessidade ter que lidar com a realidade impensável.

4.5.4. O papel de mãe vivenciado com sentimento de culpa, de impotência e de confusão