Material e Método
6.12 Necessidade de tratamento ortodôntico
Na literatura ortodôntica, podemos observar o relato de autores que mencionam a necessidade de tratamento ortodôntico em pacientes com perdas prematuras de dentes decíduos (RÖNNERMAN, 1974; PEDERSEN et al., 1978).
Rönnerman e Thilander (1977), em seus estudos, verificaram que em indivíduos que tiveram perdas prematuras de segundos molares decíduos, a necessidade de tratamento ortodôntico foi muito maior em relação àqueles que apresentaram perdas de primeiros molares decíduos.
Outro dado importante analisado por Rönnerman (1974) foi a necessidade de se extrair quase duas vezes mais dentes em pacientes com perdas prematuras de molares decíduos que no grupo sem perdas.
6.13 Análise
Existem diversos métodos para a predição do diâmetro mésio-distal de caninos e pré-molares não irrompidos. Alguns são baseados na utilização de radiografias, como o método desenvolvido por Nance (1947), e outros em tabelas de probabilidades (BALLARD e WILLIE, 1947; TANAKA e JOHNSTON, 1974; MOYERS, 1988). Também há métodos que se utilizam da combinação desses dois procedimentos como o de Kaplan et al. (1977).
Os métodos baseados em tabelas de probabilidades são de fácil execução, sendo que o de Moyers (1988) é o mais conhecido e utilizado no Brasil. No entanto, sua desvantagem reside no fato de não serem consideradas variações individuais e seus dados, provenientes de uma população norte-americana leucoderma.
Neste presente estudo, não foi utilizada a análise convencional de discrepância de modelos de Moyers, mas, com base em uma tabela de probabilidades para os diâmetros de caninos e pré-molares desenvolvida por Paixão (1998) e fundamentada na tabela de Moyers, objetivou-se determinar a discrepância total dos arcos em que ocorreu perda prematura de dentes decíduos. A não utilização da tabela de Moyers explica-se pelo fato de, na tabela desenvolvida por Paixão, serem utilizados indivíduos leucodermas brasileiros tornando, dessa forma, os resultados mais individualizados e, portanto, mais confiáveis. Mesmo Moyers, em 1958, quando propôs este método de predição do somatório dos diâmetros mésio- distais de caninos e pré-molares, destacou que, por ter utilizado pacientes norte- americanos brancos, a tabela poderia ou não ser válida para outros grupos étnicos.
Com relação a estas variações individuais, diversos autores têm demonstrado, por meio de seus estudos, que os diâmetros mésio-distais variam de acordo com a raça (RICHARDSON e MALHOTRA, 1975; MACKO et al., 1979; AXELSSON e KIRVESKARI, 1983; FRANKEL e BENZ, 1986; AL-KADRA, 1993), com populações de mesma raça, porém em ambientes diferentes (MOORREES et al., 1957; VAN DER MERWE, 1991; PAIXÃO, 1998) e com o gênero, relatando valores maiores para o masculino (MOORREES et al., 1957; RICHARDSON e MALHOTRA, 1975; GHOSE e BAGHDADY, 1979; FRANKEL e BENZ, 1986; BISHARA et al., 1989). Também observaram que o tamanho dos dentes têm aumentado em relação aos seus ascendentes (LAVELLE, 1972; TANAKA e JOHNSTON, 1974).
Entretanto, Paula e Almeida (1987) e Van der Merwe et al. (1991) não verificaram nenhuma diferença significante entre os gêneros que pudesse justificar a elaboração de tabelas diferentes.
Quanto às análises desenvolvidas por outros autores, Kopel (1950), por exemplo, mencionou que a dificuldade no método de Nance para predição dos diâmetros de caninos permanentes e pré-molares está no uso da radiografia, pois mesmo quando a distorção é reduzida ao mínimo, os dentes podem estar rotacionados em suas criptas ósseas.
Tanaka e Johnston (1972) enfatizaram que nenhum outro método de estimação é necessário. Ao nível de 75%, o tamanho em milímetro dos caninos e pré-molares pode ser estimado pela soma da metade do diâmetro dos incisivos inferiores com 11mm para os dentes superiores e 10,5mm para os inferiores.
Zilberman et al. (1977) concluíram que o método radiográfico é a melhor maneira de se estimar o tamanho do dente não irrompido. Relataram que outros métodos contribuem para uma razoável aproximação da predição do tamanho das coroas, quando é impossível de se obter uma imagem radiográfica satisfatória.
Kaplan et al. (1977) verificaram que a análise de Hixon-Oldfather foi a mais precisa numa comparação com as de Moyers (1988) e de Tanaka e Johnston (1974), possivelmente pela contribuição das variáveis radiográficas serem relativamente mais importantes que as variáveis dos incisivos. Porém, a principal crítica quanto à análise de Hixon-Oldfather é que esta prognostica com valores para baixo, enquanto as de Moyers (1988) e a de Tanaka e Johnston (1974) prognosticam com valores para cima.
Neste presente estudo, foram utilizados modelos de gesso para a obtenção do diâmetro mésio-distal dos dentes e do espaço presente disponível para os incisivos centrais permanentes, incisivos laterais permanentes, caninos permanentes, primeiros pré-molares e segundos pré-molares.
Hunter e Priest (1960) e Axelsson e Kirveskari (1983) concordam que as medidas realizadas em modelos de gesso são suficientemente precisas quando comparadas com as medidas dos dentes efetuadas diretamente na boca.
Para a realização dessas medições, foi utilizado um compasso de ponta seca, com precisão de 0,1mm, da marca Eco-Bra Chrom, de origem alemã e uma régua de boa qualidade a fim de avaliar a medida em milímetros.
Nesta análise da discrepância de modelo, foi analisado o espaço de mesial a mesial de primeiros molares permanentes. Não foi utilizada a análise convencional de Moyers, porém, tendo por base uma tabela de probabilidades para os diâmetros de caninos e pré-molares fundamentada na tabela de Moyers (PAIXÃO, 1998), objetivou-se determinar a discrepância total dos arcos onde ocorreu perda prematura de dentes decíduos.
Como a análise de Moyers define a discrepância no hemiarco, alguns fatores podem interferir mediante perdas prematuras de dentes decíduos. Um deles seria o desvio da linha média. Este tem sido descrito na literatura científica por diversos autores, como Noyes (1941), que estabeleceu a impossibilidade de se diagnosticar um desvio mesial de um modelo de estudo não orientado por pontos de referência anatômicos faciais ou cranianos. Seward (1965) relatou que o movimento distal do canino proporciona o desvio da linha média para o lado da extração e o colapso lingual dos incisivos. Pedersen et al. (1978) verificaram uma maior freqüência do deslocamento da linha média no grupo das extrações, divergindo das descobertas de Linder-Aronson (1960) que não relacionaram as perdas com os desvios no arco superior. Høffding e Kisling (1978a) observaram uma tendência maior para o desvio da linha média no grupo com perdas prematuras de dentes decíduos, no entanto, a diferença não foi significante. Estes mesmos autores, em 1979a, orientaram que a
extração dos primeiros molares decíduos deveria ser sempre seguida de um simples mantedor de espaço na mandíbula para prevenir que o canino decíduo se desvie distalmente. Constataram que a linha média, no arco com perda prematura do primeiro molar decíduo, deslocar-se-á ao lado da perda, com maior intensidade na mandíbula que na maxila. Johnsen (1980) relatou que o desvio da linha média torna- se um problema quando o primeiro molar decíduo é perdido unilateralmente e os incisivos encontram-se apinhados, uma vez que estes deslocar-se-ão ao local da extração resultando no desvio da linha média.
Segundo Van der Linden (1986), na mandíbula, não há sutura na região média entre os lados esquerdo e direito do arco após o primeiro ano de vida. O apinhamento, na região dos incisivos inferiores antes da irrupção, pode ter por resultado um padrão de erupção assimétrico. Observou que a perda unilateral de um canino superior decíduo leva a uma inclinação dos quatro incisivos superiores em direção à perda e, neste movimento de migração, o ângulo mesial de um incisivo central superior permanente pode cruzar a linha média. Situação semelhante pode ocorrer na mandíbula após a perda unilateral do canino decíduo. Esta ocorrência de desvio de linha média pode se agravar ainda mais, se houver perda prematura de um canino decíduo superior de um lado e de um canino decíduo inferior do outro lado.
Korytnicki et al. (1994) relataram que com a perda prematura dos incisivos decíduos, nos casos de arco tipo II de Baume (ausência de espaçamentos), onde há uma maior tendência ao fechamento do espaço, a erupção do dente sucessor poderá ser retardada pela migração lateral dos dentes que estão irrompendo (no caso, os incisivos centrais), considerando-se que esta migração poderá acarretar um
desvio de linha média. Estes autores também constataram, em 1994, que a perda prematura do canino decíduo inferior possibilita um desvio da mesma.
Neste presente estudo, optou-se por realizar a avaliação da discrepância de modelos de mesial a mesial de primeiros molares permanentes e, principalmente, pela não preocupação em definir, na época da análise, o local exato da linha média, visto que a análise de Moyers (1988), por predizer o espaço necessário para caninos permanentes e pré-molares de um hemiarco, requer tal informação. Também foram levados em consideração os apinhamentos e/ou espaçamentos na região apreciada por este estudo.
6.14
Considerações finais
As perdas prematuras provocam sérias conseqüências na dentadura permanente, levando, invariavelmente, a problemas de má oclusão. A própria Organização Mundial da Saúde estabelece a má oclusão como o terceiro maior problema de saúde bucal.
Sabe-se que o fator sócio-econômico exerce uma grande influência sobre a condição oclusal. Portanto, mais medidas de orientação e prevenção deveriam ser estabelecidas pelo sistema público de saúde bucal, uma vez que, as já implementadas, como a fluoretação e profissionais nas escolas e centros de saúde, carecem de uma ampliação, em virtude de não atingirem toda a população necessitada. Além da adoção de outros procedimentos, objetivando uma maior conscientização da importância da saúde bucal, esta ainda tratada como algo
dissociado da saúde integral, o emprego de outras medidas preventivas simples, como a instalação de mantedores de espaço ou outros tipos de aparelhos preventivos, evitaria diversos problemas relacionados com a Oclusão.
7 Conclusão
Levando-se em consideração a metodologia utilizada e os resultados apresentados, pode-se concluir que:
9 A discrepância negativa de modelo ocorreu em 69,2% dos arcos avaliados.
9 Não foi verificado dimorfismo entre gêneros na prevalência da falta de espaço.
9 Não houve diferenças estatísticas significantes nas discrepâncias de modelo encontradas entre escolares com perdas somente no arco inferior e aqueles com perdas somente no arco superior.
9 Não houve relação entre a idade cronológica do escolar e a discrepância negativa observada.