2.1. Moradores, Mestiços e intermediários no século XIX.
A necessidade e o embaraço sempre perfazeram as relações político-comerciais em Angola, seja pela dependência portuguesa para atuar e se movimentar nos sertões, a necessidade dos intermediários em negociar com os representantes atlânticos e das elites afrianas que cada vez mais eram envoltas e se envolviam no acumulo e circulação de bens significantes no campo político e cultural. Desde os primeiros contatos com os Kongo no século XV, os governantes portugueses perceberam que eram reféns de intermediários capazes de fazer fluir a comunicação e o comércio com os africanos. Ao se observar o Kongo, já ficava latente a necessidade portuguesa de atravessadores comerciais que rumassem ao interior na busca por indivíduos escravizados visando o comércio Atlântico. O tráfico de escravizados não apenas alterou as estruturas políticas africanas e guiou as estratégias portuguesas, mas também permitiu a emergência de novas identidades. No caso do Kongo, os pumbeiros são parte deste processo de metamorfose social. Os pumbeiros eram agentes comerciais africanos praticamente autônomos – porém sem capital – que tinham conhecimento das línguas e dos costumes locais, dando maior velocidade e eficiência nas permutas comercais em relação à abordagem portuguesa. Além disto, estes negociantes rumavam a localidades interioranas inacessíveis aos não africanos, seja por questões salutares, de desconhecimento geográfico e, principalmente, por impedimento africano. Foi por intermédio destes indivíduos e pela concorrência em torno do comércio de escravizados que as permutas com os portugueses alcançaram longas distâncias rumo ao interior do continente africano colocando em questão a centralização política de Mbaza-Kongo frente os interesses da elite bakongo de ingressar no sistema de créditos comerciais de escravizados.234
Em Angola, a estratégia comercial fora inicialmente semelhante à adotada no Kongo, inclusive, o termo pumbeiro foi largamente popular em Angola durante os séculos XVII e XVIII. Portugueses utilizaram assiduamente de parceiros africanos para satisfazer interesses comerciais externos ao continente, todavia, diferentemente do Kongo, no qual os portugueses estabeleceram um laço político mais ou menos estável – pelo menos até o século XVII - em Angola ocorreu um duro processo de conflito com os africanos, essencialmente contra o potentado do Ndongo sob o comando do titular político Ngola. Esta relação permitiu uma
234 Cf. THORNTON, John K. The Kingdom of Kongo: Civil War and Transition, 1641-1718. Madison: University of Wisconsin Press, 1983.; ______. A África e os africanos na formação do mundo atlântico, 1400- 1800. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
rápida aliança com comunidades africanas seminômades e belicosas que atraídas pelo comércio português combateram ao lado destes e levaram a fragmentação do Ndongo ainda no século XVII, estabelecendo um reino de conquista português centralizado na fortaleza litorânea de São Miguel em Luanda.235
Na altura do século XVIII, o comércio de escravizados já se encontrava plenamente estruturado, existindo fortificações portuguesas instaladas nos sertões de Luanda e Benguela e, principalmente, um clima mais amistoso – mas não menos tenso entre administração portuguesa e comunidades africanas.236 No que diz respeito à administração colonial, os portugueses pouco se preocupavam com medidas exploratórias ou de povoação, pois os interesses comerciais advindos do Brasil dominavam o cenário comercial de Angola e limitavam a região em uma fornecedora de mão de obra. Todavia, alguns produtos locais tinham respiro na alfândega de Luanda como o marfim e a cera destinados a Portugal ou ainda a produção de gêneros alimentícios africanos e principalmente americanos que rapidamente se disseminaram pelos arimos do Bengo e por comunidades africanas avassaladas.237
Em 1758 o comércio no sertão de Angola foi liberado a todo e qualquer comerciante ou pretenso negociante que estivesse tutelado sob a Coroa portuguesa.238 Essa medida veio a condizer com o que na prática já ocorria. Antes desta data apenas africanos intermediários, também designados como pumbeiros (aintermediário sem capital), aviados, e funantes, (intermediários com pequeno capital próprio) – tinham a prerrogativa de embrenhar nas terras interioranas com capital litorâneo para negociar junto às autoridades africanas, todavia, esse direito estava longe de ser cumprido e o mais comum nos sertões de Luanda era se encontrar mestiços e sertanejos a comerciar. É difícil delimitar e definir quem eram os mestiços e os sertanejos, ou até mesmos as demais etiquetas como pumbeiros. A ressignificação de tais categorias históricas fora profícua ao longo dos séculos XVI e XIX, permitindo uma pluralidade na composição de tais denominações, o que em última instância poderia significar a pouca utilidade de tais categorias. Conquanto, podem-se realizar aproximações como no caso dos sertanejos que em sua maioria eram portugueses oriundos de núcleos médios pouco
235 Cf. MILLER, Poder político e parentesco, 1995.; LOVEJOY, A escravidão na África, 2002.; BIRMINGHAM, David. A África central até 1870: Zambézia, Zaire e o Atlântico Sul. Sacavém: ENDIPU, 1992, p. 38.
236 Cf. COUTO, Os capitães-mores em Angola no século XVIII. Passim.
237 Cf. VENÂNCIO, José Carlos. A economia de Luanda e hinterland no século XVIII: um estudo de sociologia histórica. Lisboa: Editorial Estampa, 1996.
238 FERREIRA, Feiras e presídios, Op, Cit., p. 32. Neste mesmo período houve um aumento da circulação de armas de fogo nos sertões de Angola. Cf. MILLER, Joseph C. Angola central e sul por volta de 1840. In: Estudos Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro, nº 32, dez, p. 7-54, 1997, p. 33.
prestigiados em Portugal e que se lançavam em África na busca por fortuna e prestígio social.239
A partir deste ponto o comércio estava geralmente estruturado da seguinte forma. O capital de investimento estava localizado no litoral de Angola ou em grandes portos receptores como Rio de Janeiro e Lisboa. Os portugueses ou luso-brasileiros dificilmente seguiam carreira rumo adentro do continente africano, por isso, remodelavam seu capital em produtos válidos a permuta com africanos como gerebita, tabaco, panos e adornos.240 Estes compêndios de produtos referidos como banzos ou fazendas241 eram delegados não apenas aos pumbeiros, mas a indivíduos designados por aviados, funantes e tangomaos, que, ao fim e ao cabo, eram em grande medida mestiços ou africanos.242 Tais indivíduos rumavam ao interior visando negociar as mercadorias em troca de cativos, o que despendia tempo e tornava o tráfico de escravizados algo lento e arriscado do ponto de vista comercial. Os principais locais de negociação eram as chamadas feiras – que no Kongo eram referidas como Pumbo, dando uma possível origem ao termo pumbeiro. 243
Existiam basicamente dois tipos de feiras, as que ocorriam junto aos presídios portugueses ou sítios de legislação de Luanda e as feiras para além de território conhecido da administração colonial ou em terras de controle africano. A existência de feiras comerciais fora do controle português gerava atritos entre os comerciantes do interior e a administração de Luanda. Ao longo do século XVIII e XIX os preços praticados nas feiras eram decididos em Luanda, o que tornavam a capacidade de negociação reduzida nas feiras sobcontrole português. Desta forma, as chefias africanas tomavam vantagem comercial ao optarem por negociar em praças sem o controle português como em Kassanje, no qual era possível
239 Um bom exemplo de experiência sertaneja foi a de Silva Porto, que se instalou em Angola no século XIX e lá fez família, comércio e estabeleceu uma complexa rede de interação política. Cf. CEITA, Constança do Nascimento da Rosa Ferreira. Silva Porto na África Central – Viye/Angola: História Social e transculturação de um sertanejo (1839-1890). 325 f. Tese (Doutorado em Estudos Portugueses) – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2014. Versão disponível no repositório da UNL no formato original.
240
Cf. CURTO, José C. Álcool e Escravos: O comércio luso-brasileiro do álcool em Mpinda, Luanda e Benguela durante o tráfico atlântico de escravos (c. 1480-1830) e o seu impacto nas sociedades da África Central Ocidental. Lisboa: Vulgata, 2002.
241 Cf. Angola central e sul por volta de 1840, 1997. 242
Cf. ZERON, Carlos Alberto. Pombeiros e Tangomaos, intermediários do tráfico de escravos na África – século XVI. In: II Colóquio Internacional sobre mediadores culturais. Lagos: Centro de Estudos Gil Eanes, p. 15-38, 1999.
243
estabelecer novos preços que agradassem os comerciantes e trouxessem maior ganho aos africanos sem taxações portuguesas.244
A relação de dependência portuguesa com africanos para a execução das tarefas comerciais tornava o tráfico de escravizados uma atividade que despendia, tempo, capital e acarretava em uma dinamização de contatos sociais e biológicos, proporcionando a emergência de novos grupos que transitavam entre a realidade das comunidades africanas e a portuguesa em África.245 Obviamente a presença de intermédios nos tratos comerciais na África era necessária, mas vista como um entrave por parte de comerciantes e capitalistas portugueses que entendiam que a atividade destes encarecia o processo de compra e venda de cativos. Esta relação de necessidade e embaraço se estenderia século XIX adentro e ganharia novos contornos com a emergência do comércio lítico em detrimento da bancarrota legal do tráfico de escravizados.
A emergência de novas identidades pode ser verifica nas narrativas coloniais do século XIX. Em 1846, o Alferes, filho do país246 – provavelmente mestiço – Manoel Alves de Castro Francina partiu de Luanda com destino ao distrito de Mbaka. Durante seu percurso que seguiu rumo ao sertão o militar registrou textualmente a condição natural e a presença portuguesa. A narrativa de Francina se aproxima em estruturação da maioria das produções textuais feita por militares da época. O Alferes registra os acontecimentos diários durante a jornada e ao final dedica-se a alguns temas que considera necessitarem de maior explanação como o arregimento de mão de obra, os usos e costumes locais e a situação dos regimentos militares. No que se refere ao recrutamento de mão de obra, Francina indicou que havia empecilhos que dificultavam o procedimento. Neste ponto, o autor é enfático ao afirmar que a principal barreira para o bom desenvolvimento do recrutamento era, para além das violências com os africanos, a existência de grupos de africanos que se entendiam como não sujeitos a obrigação de prestar serviço de carregador. Seriam estes os camundeles, que literalmente significa pessoa branca.
244 Ibidem, p. 156-160. 245
DIAS, Novas identidades africanas em Angola no contexto do comércio atlântico, 2007.
246 Segundo a bibliografia, a categoria filho do país indica afro-portugueses, portanto mestiços, que devido principalmente ao seu envolvimento com o comércio como intermediários ascenderam socialmente e passaram a ocupar cargos burocráticos ou se tornaram detentores de capital, ou seja, dentro a imensa categoria social chamada de mestiço, existia frações que se autorreconheciam por outros preceitos que não os biológicos. No último quartel do século XIX este grupo irá gerar grandes problemas a administração colonial devido a sua grande familiaridade tanto com as estruturas africanas do interior quanto com as estruturas portuguesas, acumulando, desta forma, poder político significativo. Cf. DIAS, Angola, 1998.
Os camundeles não apenas negavam participação no labor de carreto como também apresentavam frequentemente a intenção de se incorporarem junto à carreira militar, por se entenderem como não africanos no que diz respeito a sua posição social, desta forma evitando também o serviço braçal na agricultura ou extração. Era frequente que os camudeles utilizassem sapatos fechados, o que lhes conferiam uma posição distinta dos africanos descalços. Este grupo era um incômodo não apenas para as autoridades portuguesas, mas também colocava os chefes africanos em situação delicada. Os camundeles [...] não se
sujeitam ao carreto, nem mesmo as leis dos Sobas [...],247 o que tornava a legitimidade política da chefia africana questionável junto a administração colonial e, ao mesmo tempo, refém em alguns casos da atividade comercial exercida pelos camundeles.
Segundo Jill Dias, os camundeles aparecem frequentemente categorizados na documentação acerca de Angola como moradores. Os moradores eram um grupo bastante heterogêneo formado por africanos, mestiços e até mesmo brancos que fixavam residência nos sertões. Em sua maioria, os moradores residiam em terras de maior influência portuguesa próxima aos presídios e uma característica bastante comum a estes indivíduos – no que diz respeito a africanos e mestiços - era a utilização de roupas e sapatos europeus e a assimilação de hábitos portugueses como escrita e língua portuguesa. Essa característica fornecia a possibilidade de que estes se identificassem como socialmente brancos.248 Como se percebe, os camundeles de Francina estavam inseridos nessa categoria social que ainda carece de maiores investigações por parte da historiografia. Uma característica transversal aos moradores era a sua capacidade de possuir propriedades, geralmente pequenos sítios agrícolas ou bens de consumo. Além disto, os moradores eram extremamente ativos na atividade comercial e política da província e ocupavam papel central nas negociações com os africanos e na manutenção da presença portuguesa indereta nos sertões angolanos.249 Os moradores também demonstravam capacidade de auto-organização. Em Luanda, no último quartel do século XIX moradores ou descendentes deste tiveram papel decisivo na construção de uma imprensa africana e na construção dos alicerces da literatura angolana.250
247 FRANCINA, De Loanda ao districto de Ambaca, Op. Cit., p. 11. 248 DIAS, Angola, Op. Cit., p. 359.
249 Projecto de Regimento para os Districtos e Presídios de Angola – sem data, 184?. In: SANTOS, Eduardo (org.). Angolana: documentação sobre Angola – Tomo III, 1845. Luanda: IICA, 1976, p. 15-29. Originalmente extraído: AHU sala 12, cx. 822.
250 Cf. HOHLFELDT, Antonio; CARVALHO, Caroline Corse de. A impensa angolana no âmbito da história da imprensa colonial de expressão portuguesa. In: Intercom. São Paulo, v. 35, nº2, p. 85-100, jul/dez, 2012.;
Os moradores são figuras frequentes na documentação de viagem, pois suas habitações são constantemente utilizadas pelos viajantes como pouso. Além disto, é por intermédio destes moradores que os viajantes ficavam sabendo das questões locais como conflitos com africanos, situação da presença portuguesa e ainda, para o século XIX, a situação da agricultura e do comércio legítimo, como se pode observar quando Francina comentava sobre a região da Aldeia Nova no Golungo Alto – povoação de moradores.
Independente da heterogeneidade da categoria morador – que parece congregar diferentes indivíduos – fica visível a liberdade de ação produtiva e comercial destes em relação à administração colonial e aos chefes africanos. Os moradores não respondiam as leis africanas e tampouco as exigências coloniais. Agiam comerciando e produzindo nos sertões de forma a tentar obter vantagens econômicas e políticas com a administração colonial e os chefes tradicionais. Em certa medida pode-se dizer que os moradores atuavam de acordo com seus interesses particulares, fazendo com que ora estivessem alinhados a portugueses ora a africanos.251 Em 1840, o presidente do Conselho de Ministro, José Lúcio Travassos Valdez, Conde de Bonfim, ao explicitar sobre os esforços portugueses para o bem desenvolver agrícola em Angola, apontava a iniquidade dos africanos ao lançar mãos ao comércio, sendo os moradores [...] tão indolentes como eles [...] (os africanos). Na perspectiva do Conde, os moradores não se dedicavam a causa colonial, estando mais preocupados com as necessidades imediatas de seus negócios particulares.252
Os moradores – quando em conluio com a administração colonial – detinham papel fulcral na manutenção das diretrizes coloniais no século XIX. Eram os principais responsáveis pelo desenvolvimento do comércio lícito no que diz respeito à negociação com as comunidades africanas e formavam as companhias militares móveis, que auxiliavam a portugueses e chefes africanos para a execução das ordens de Luanda via chefe colonial distrital. Os moradores são resultado do desenvolvimento do comércio de escravizados, fato é que as regiões no qual havia a maior concentração deste foram primordiais para o desenvolvimento deste comércio. O baixo Kwanza, as intermediações do Dande e do Bengo, assim como a região do Lukala possuíam grande incidência de moradores com terras
JACOB, Sheila Ribeiro. A imprensa livree o despertar da vida literária angolana no século XIX. In: Revista de Pós-Graduação em letras UNESP-Assis. Vol. 8, p. 97-107, jul/dez, 2010.
251 DIAS, Mudanças nos padrões de poder no “hinterland” de Luanda, Op. Cit., p. 51.
252 VALDEZ, José Lúcio Travassos. Relatório do Ministro do Ultramar, apresentado às Camaras da Sessão extradorinária de 1840. In: Annaes Marítimos e Coloniaes. Tomo I. Lisboa: Imprensa Nacional, 1840, p. 164.
independentes de portugueses e africanos.253 A região do Lukala é frequentemente referida como a localidade com maior influência de moradores. Historicamente vinculada ao tráfico de escravizados, esta região viu florescer uma camada de moradores ativos e com grande envolvimento no comércio e na própria política colonial nas regiões do Golungo Alto e de Mbaka. No caso de Mbaka, os moradores, em sua maioria mestiça, despertavam um misto de admiração e repulsa naqueles que deitaram letras sobre os famigerados ambaquistas.
A etiqueta ambaquista começa a aparecer logo no século XVII, quando o comércio de escravizados floresce na região de Mbaka e a transforma em um ponto de convergência não apenas comercial, mas cultural entre múltiplas populações africanas e não africanas. O cenário comercial e político dinâmico da região propiciou a construção coletiva e plural de uma forma linguística única, composta basicamente da mescla entre português e kimbundu – com ênfase maior sobre a veia africana.254
Com o passar do tempo, a terminologia abrangeu não apenas pessoas envolvidas no tráfico, mas demais ofícios como alfaiates, agricultores, negociantes independentes. A partir do século XVIII, mas principalmente no século XIX, o termo se generalizou para qualquer indivíduo mestiço ou africano que circulava pelo interior a negociar ou realizar ofícios. Portanto, no contexto de Francina, os ambaquistas não necessariamente eram nascidos na região, mas implicitamente eram negociantes e trabalhadores especializados no que diz respeito a ofícios e manufaturas.
Sobre os ambaquistas o Alferes Francina é enfático em ressaltar as qualidades positivas destes indivíduos. Os principais moradores residiam em habitações de [...] pau a
pique [...] rodeadas de parede de adobe, cobertas de palha e esbranquiçadas com uma espécie de pedra calcarea [...] que em termo de material não lembravam as moradias
europeias, mas em organização da construção pareciam com casas camponesas da Europa. Dentre estes indivíduos, Francina reforça o caráter de mestiçagem cultural, afirmando que:
O povo de Ambaca é talvez o mais civilizado dos nossos presídios, pois é raro o preto ambaquista que não saiba ler e escrever, ainda que mal, ou pelo menos assinar o seu nome. Geralmente são portuguezões, e amantes dos termos empolados e pouco comuns nas suas extensas escritas.
253 DIAS, Mudanças nos padrões de poder no “hinterland” de Luanda, Op. Cit. Loc. Cit. 254
Ainda na década de 1840, Joaquim Lopes de Lima também acenou para a qualidade de vida dos moradores de Mbaka. Pensando principalmente na camada branca da população, Lopes de Lima afirmou que [...] os brancos vivem quase tão bem como no Brasil [...],255 no qual verificava a existência de [...] roças dirigidas por brancos, sob cujas as ordens
trabalham os escravos [...].256 A situação dos moradores de Mbaka não era muito divergente
em Golunto Alto, a própria povoação de Aldeia Nova no qual o Alferes Francina tomou por pouso apresentava tais características. Todavia, é preciso estar atento a existência de hierarquias descritivas na documentação acerca dos moradores. Quando fala sobre a civilidade em Mbaka, Francina se refere a uma camada não tão larga da população, em sua grande maioria, de origem mestiça. Tal observação é feita quando o autor dedica-se a apontar características gerais sobre o distrito, especialmente os núcleos de ação portuguesa. Já quando escreve sobre os africanos moradores de Mbaka, Francina tende a analisa-los de forma igual aos africanos residentes nas terras dos Sobas. Um indicativo disto é que os costumes africanos estão descritos em um tópico especifico do relato de viagem: dos usos e costumes dos
ambaquences. Para além desta organização textual bastante comum e que pode ser observada
em inúmeros relatos de viagem sobre Angola ao longo do século XVIII e XIX, cabe salientar a singularidade das populações africanas e mestiças que são frequentemente escrutadas pela História Social. É ainda importante ressaltar que mesmo Francina esforçando-se para estruturar a narrativa de forma com que africanos e não africanos fossem apresentados de forma hierárquica, o autor acaba durante o texto enfraquecendo a sua estruturação quando em diversas passagens aponta o caráter mestiço das populações interioranas, dando a entender que a hierarquia não necessariamente apresentava os nãos africanos acima dos africanos.
Alguns ambaquistas com enorme habilidade comercial e política acabaram por ocupar posições de destaque ao longo do século XIX, como é o caso de Lufuma, como era conhecido