Monteiro leciona que assim como fez o Código Civil de 1916, o atual Código Civil não logrou em conceituar negócio jurídico. Na realidade, ocorre que o mesmo tratamento que foi dado ao ato jurídico em sentido estrito, na norma civilista de 1916, foi emprestado, termo usado pelo autor, ao negócio jurídico tutelado pelo novo Código de 2002.1
Venosa aduz que o negócio jurídico:
consiste numa manifestação de vontade que procura produzir determinado efeito jurídico, embora haja profundas divergências em sua conceituação na doutrina. Trata-se de uma declaração de vontade que não apenas constitui um ato livre, mas pela qual o declarante procura uma relação jurídica entre as várias possibilidades que oferece o universo jurídico.2
Já Rodrigues em sua obra define negócio jurídico como o “ato lícito da vontade humana, capaz de gerar efeitos jurídicos na órbita do direito.”3
Diniz ensina que os negócios jurídicos, possuem elementos estruturais ou constitutivos do negócio, que abrangem os elementos essenciais, os elementos naturais, elementos acidentais.4
1
MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de direito civil. 41. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2007. 5 v. p. 213.
2
VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: parte geral. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2005. p. 365.
3
RODRIGUES, Silvo. Direito civil: parte geral. 34 ed. atual. v. 1. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 169.
4
4.1.1 Elementos essenciais
Os elementos essenciais do negócio jurídico são aqueles indispensáveis para a sua existência. Monteiro explica que são “aqueles sem os quais o negócio não existe; por exemplo, na compra e venda, a desmenção ao preço. Por falta desse elemento essencial o ato não tem consistência jurídica, não existe.”5 Eles podem ser comuns a todos os negócios jurídicos, como é a capacidade do agente, o objeto lícito, possível e determinável, o consentimento das partes, e ainda podem existir os elementos particulares, que dizem respeito a forma do negócio.6
4.1.2 Capacidade do agente
Um dos elementos essenciais para a composição do negócio jurídico é a declaração de vontade. Porém, para que ela possua efeitos válidos, deverá ser prestada por pessoa capaz de fazer. Por isso, negócios jurídicos realizados por pessoa absolutamente e relativamente incapaz, elencados no rol dos art. 3° e 4°do novo diploma civilista, não são válidos, como disciplina os arts. 104 e art. 120, 1° parte, ambos do Código Civil de 2002, conforme segue:
“Art. 104. A validade do negócio jurídico requer: I - agente capaz;
[...].”7
Rodrigues no que toca aos incapazes aduz que essa restrição a realização do negócio jurídico “é consignada com o intuito de protegê-los, tanto que a lei não defere à outra parte o direito de invocar, em proveito próprio, a incapacidade de seu contratante (CC, art. 105).”8
Monteiro explica que:
Quanto às pessoas, a validade do ato jurídico requer agente capaz (art. 104, n. I, do Cód. Civil de 2002), quer dizer, pessoa dotada de consciência e vontade e 5 MONTEIRO, 2007, p. 215. 6 DINIZ, 2010, p. 459. 7
BRASIL. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Brasília, DF. Disponível em
<http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 22 abr. 2011.
8
reconhecida pela lei como apta a exercer todos os atos da vida civil. As pessoas absolutamente incapazes (art. 3°) são representadas pelos seus representantes legais e as relativamente incapazes intervirão por intermédio de quem as represente, ativa passiva, judicial e extrajudicialmente (art. 43, n, III).9
Um ponto que deve ser destacado, diz respeito à anulabilidade do negócio jurídico realizado por relativamente incapazes, isso porque, a incapacidade, por ser uma exceção pessoal, só pode ser invocada pelo próprio incapaz ou por seu representante legal. Nas obrigações indivisíveis, a incapacidade poderá aproveitada por todos os contratantes. Porém, deve ser salientado, que o capaz, em seu favor, poderá invocar a incapacidade daquele com quem efetuou o negócio jurídico, desde que indivisível o objeto do negócio.10
4.1.3 Objeto lícito, possível, determinado e determinável
Outro elemento de validade do negócio jurídico é quanto o objeto do negócio, conforme disciplina o art. 104, inciso II do novo diploma civilista: Código Civil de 2002
Art. 104. A validade do negócio jurídico requer: [...]
II - objeto lícito, possível, determinado ou determinável; [...].”11
Para que o negócio jurídico seja válido, deverá ser seu objeto, lícito, ou seja, não contrário a lei, aos bons costumes, a ordem pública e à moral. Se o negócio versar sobre objeto ilícito, seus efeitos serão nulos.12
Além da licitude do objeto, esse deverá ser possível, tanto em seu aspecto físico, como jurídico. A doutrina elenca exemplos de impossibilidade de objetos do negócio jurídico, tal como a volta ao mundo em duas horas, a alienação de terreno situado em Marte, a venda de herança de pessoa viva. Caso seja impossível a realização do objeto do negócio esse será nulo. É conveniente destacar que a impossibilidade deverá ser absoluta, pois caso contrário, se puder ser realizada por terceiro, não se constitui obstáculo para a realização do negócio jurídico.13 9 MONTEIRO, 2007, p. 215. 10 DINIZ, 2010, p. 460. 11
BRASIL, 2002, loc. cit.
12
Ibid, p. 464.
13
O objeto se for determinado, deverá ser descrito pelas partes, se apenas determinável, basta apenas a indicação do gênero e quantidade, conforme de extração dos disciplinamentos do art. 243 do Código Civil.14
4.1.4 Forma
Como aduz o art. 104 do Código Civil de 2002, em seu inciso III, a forma é outro elemento essencial a validade do negócio jurídico, que requer “forma prescrita ou não defesa em lei.”15
Há certa divergência na doutrina no que tange a forma ser ou não um elemento geral na constituição da validade do negócio jurídico. Para a opinião de Monteiro, a forma seria um elemento particular do negócio jurídico, pois segundo ele, a maioria dos negócios jurídicos são informais, pois é a lei quem determinará se um negócio jurídico deverá ou não seguir determinada formalidade, tal como ocorre no casamento e no testamento.16
Já em posicionamento contrário, Rodrigues aduz que a forma é o terceiro elemento essencial para a validade do negócio jurídico, pois como ele próprio leciona “sem ela o ato nem se quer existe.”17
Para seguir uma sequência lógica dada pela lei, colocaremos a forma como um requisito indispensável à constituição do negócio jurídico, pois em primeiro lugar, facilita a compreensão do estudo, e em segundo lugar a discussão doutrinária sobre ser a forma ou não ser um elemento essencial ou particular do negócio jurídico, esta não vem a ser objeto de estudo do presente trabalho.
Porém, poderíamos colocar a forma como um dos elementos indispensáveis a realização do negócio jurídico, já que sem a sua observância, os efeitos do ato por ela realizado poderão ser perfeitamente anulados. A lei é quem ditará as formalidades que o negócio jurídico deverá observar para a sua perfeita realização.
É importante ressaltar que predomina como regra geral a liberdade das formas no negócio jurídico, a lei, em determinados casos, é quem determinará quais requisitos devem ser observados para a realização do negócio.18
14
BRASIL, 2002, loc. cit.
15 Ibid. 16 MONTEIRO, 2007, p. 217. 17 RODRIGUES, 2003, p. 171.
4.1.5 Consentimento das partes
A manifestação de vontade é outro elemento essencial para a constituição do negócio jurídico, devendo ser livre e de boa-fé, não podendo haver vícios de consentimento, sob pena de invalidação do negócio jurídico.19
A declaração de vontade poderá ser expressa, podendo ser de forma escrita ou oral, ou ainda de forma tácita, quando por disposição legal, não se exija forma expressa.20
No que tange a declaração tácita apontamentos de Diniz são de grande valia:
Até mesmo o silêncio é fato gerador de negócio jurídico, quando em certas circunstâncias e usos indicar um comportamento hábil para produzir efeitos jurídicos e não for necessária a declaração expressa da vontade (CC, art. 111). Caso contrário não terá o silêncio a força da manifestação volitiva. Portanto o magistrado deverá averiguar caso a caso se o silêncio traduz, ou não vontade.21
Importante trazer a guisa a opinião de Rodrigues, no que tange à declaração de vontade, que segundo ele, tem a finalidade de:
produzir efeitos jurídicos imediatos, e, dada a liceidade do propósito, tais efeitos são efetivamente gerados. A esse princípio se chama autonomia de vontade. Representa a medida na qual o direito positivo reconhece aos indivíduos a possibilidade de praticar atos jurídicos, produzindo seus efeitos.22
A maioria das declarações de vontade são dirigidas a uma determinada pessoa, ou seja, são receptícias, como é a proposta de um contrato, por exemplo. E ainda, poderá haver uma simples emissão do agente, sem que haja necessidade de manifestação de vontade de terceira pessoa, sendo essa declaração de vontade não receptícias, como pode ser verificado através da promessa de recompensa, a aceitação de letra de cambio e o testamento.23
4.2 SPAM 18 RODRIGUES, 2003, p. 176. 19 DINIZ, 2010, p. 465. 20 MONTEIRO, 2007, p. 216. 21
DINIZ, op. cit., p. 465.
22
RODRIGUES, op. cit., p. 170.
23