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3 O FUTURO NA UTOPIA DE SUR LA PIERRE BLANCHE

3.4 A negação do tempo do outro

Em artigo publicado em 2015, Julia McClure aborda o conceito de coetaneidade, importante para entender a nova política para o medievo, mas que também é interessante para avançar em nosso estudo, na medida em que pode ser aplicado a outras temporalidades. Para o caso da Idade Média, haveriam concepções que negam a coetaneidade (ou contemporaneidade) a povos não-europeus, a partir do paradigma conhecido como “the denial of coevalness”:

[...] the ‘denial of coevalness’ was a way to structure colonial power. For example, a ‘remote society’ might be described as primitive, signifying that that society is not only geographically remote from Europe but also remote from ‘modernity’ as it has been defined in the Western historical tradition (McCLURE, 2015, p. 611-612).102

Desta forma, haveria a negação de uma contemporaneidade entre os povos, em que os fenômenos não-europeus estariam classificados como anacrônicos. Além disso, a periodização utilizada para classificá-los seria eurocêntrica, desconsiderando outras perspectivas espaço- temporais não europeias e impondo um enquadramento temporal e uma política do tempo que deixa os povos não-europeus de fora da chamada ‘modernidade’.

Podemos perceber esses aspectos representados a partir da formação da Federação Europeia um tanto fechada em si mesma, já que é a “federação dos povos da Europa”, não

101 “O gênio da espécie é o que ele foi e sempre será, violento e caprichoso. Hoje, como antigamente, o instinto é

mais forte que a razão. Nossa superioridade sobre os antigos é menos saber do que dizê-lo” (FRANCE, 1905, p. 313).

102 “A ‘negação da coetaneidade’ era um modo de estruturar o poder colonial. Por exemplo, uma ‘remota

sociedade’ pode ser descrita como primitiva, significando que essa sociedade não é apenas geograficamente distante da Europa, mas também distante da ‘modernidade’, como foi definida na tradição histórica ocidental” (McCLURE, 2015, p. 611-612).

envolvendo nações de outros continentes.103 Com a instauração da Federação, são cessadas as guerras, e posto fim às políticas coloniais. Contudo, a chamada “África negra” não participaria da nova era, pois estaria entrando na fase capitalista, formando uma confederação pouco homogênea (FRANCE, 1905, p. 284), assim como a “União Americana” e grande parte da Ásia. Esse contexto mundial seria, portanto, favorável ao desenvolvimento dos “Estados-Unidos da Europa”, em uma política fechada àqueles que não atingiram esse estágio pós-capitalista. Portanto, percebemos que o futuro harmônico ainda não estava reservado aos povos não- europeus, considerados uma ameaça à própria Federação. Citaremos uma passagem bastante representativa da noção de negação da coetaneidade trabalhada acima, em que Dufresne questiona Morin sobre a ameaça dos povos “de fora”, os “bárbaros”:

- Ne craignez-vous pas, au contraire, lui demandai-je, que cette civilisation dont vous semblez satisfait, ne soit détruite par une invasion de barbares? Il reste encore, m’avez-vous dit, en Asie et en Afrique, de grands peuples noirs ou jaunes, qui ne sont pas entrés dans votre concert. Ils ont des armées et vous n’en avez pas. S’ils vous attaquaient…

- Notre défense est assurée. Seuls les Américains et les Australiens pourraient lutter contre nous, parce qu’ils sont aussi savants que nous. Mais l’océan nous sépare et la communauté des intérêts nous assure leur amitié. Quant aux nègres capitalistes, ils en sont encore aux canons d’acier, aux armes à feu et à toute la vieille ferraille du XXe siècle. Que pourraient ces antiques engins contre une décharge de rayons Y? Nos frontières sont défendues par l’électricité. Il règne autour de la fédération une zone de foudre. Un petit homme à lunettes est assis je ne sais où, devant un clavier. C’est notre unique soldat. Il n’a qu’à mettre le doigt sur une touche pour pulvériser une armée de cinq cent mille hommes.

Morin hésita un moment. Puis il reprit d’une voix plus lente:

- Si notre civilisation était menacée, ce ne serait pas par ses ennemis du dehors. Ce serait par ses ennemis du dedans (FRANCE, 1905, p. 306-308).104

Como vemos, France nos mostra que não seria possível à Europa avançar em uma perspectiva mais global, que reserva apenas aos europeus a partilha dos novos tempos, dos tempos da sociedade socialista. Talvez pensasse que os outros povos um dia alcançariam o

103 Gregory Ludlow ao analisar a visão de France sobre uma federação europeia por meio do romance, ressalta que

o recorte temporal dado pelo autor é inspirado pelos eventos social, político, econômico e morais do final do século XIX e início do XX na França e na Europa (LUDLOW, 1993, p. 619).

104 “- Você não teme, pelo contrário, perguntei a ele, que essa civilização, da qual você parece satisfeito, não será

destruída por uma invasão de bárbaros? Ainda há, você me disse, na Ásia e na África, grandes povos negros ou amarelos, que não entraram em seu concerto. Eles têm exércitos e você não tem nenhum. Se eles o atacassem... - Nossa defesa está garantida. Somente os Americanos e Australianos poderiam lutar contra nós, porque são tão instruídos quanto nós. Mas o oceano nos separa e a comunidade de interesses nos assegura sua amizade. Quanto aos negros capitalistas, eles ainda usam canhões de aço, armas de fogo e toda a velha sucata do século XX. O que essas máquinas antigas poderiam fazer contra uma descarga de raios Y? Nossas fronteiras são defendidas pela eletricidade. Há uma zona de raio ao redor da federação. Um homenzinho de óculos fica sentado não sei onde, na frente de um teclado. Ele é nosso único soldado. Ele só tem que apertar uma tecla para pulverizar um exército de quinhentos mil homens.

Morin hesitou por um momento. Então continuou com uma voz mais lenta:

- Se nossa civilização estivesse ameaçada, não seria por seus inimigos externos. Seria por seus inimigos de dentro” (FRANCE, 1905, p. 306-308).

estágio que representou em seu romance. Mas não lhe foi possível representa-lo, ou talvez não o quisesse. O fracasso da utopia passa não somente por esse aspecto, mas também pela possibilidade (ou não) de construção dessa sociedade ideal, como veremos agora.