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II – Saberes e Fazeres

3- Neguinho do samba

Quando se formou o Bando de Teatro Olodum, grupo teatral inicialmente vinculado ao bloco afro, a primeira peça encenada, Essa é a nossa praia, era um retrato do Pelourinho no início dos anos 1980. Lendo o texto da peça encontramos referência a Neguinho do Samba, sobretudo nas falas das mães de meninos que estavam começando a tocar no Olodum. Esta narrativa teatral, assim como a conversa com Neguinho, indicam como a movimentação cultural do Centro Histórico tinha entraves políticos, ideológicos, e também de consciência dos residentes do projeto que se iniciava.

Neguinho trabalhou no Olodum entre 1982 e 1998, tendo antes participado da fundação do Ilê Ayê em 1974. Nos dois blocos afros Neguinho do Samba atuou na regência, na criação de Bandas Mirins, nos arranjos das Bandas do carnaval e na conscientização dos músicos. Era por este último ponto que ele incomodava os residentes da comunidade do Maciel- Pelourinho (nome dado à área do Centro Histórico nas décadas 1970-80). Em suas palavras, “começamos a educar os meninos para não roubar na área do pelourinho e também ‘embarrerar’ quem tentasse – o que mudou os meninos foi a música.”.27

Um outro destaque que é dado a Neguinho do Samba vem de sua participação na criação do ritmo do samba-reggae. Neguinho fazia arranjos de Daniela Mercury, do Olodum e outros grupos baianos que explodiram na mídia neste período. Ensaiava com o Olodum quando Paul Simon se encantou pelo Grupo e publicizou sua música internacionalmente. A batida, as coreografias, as cores do Olodum, surgiam numa mistura de trabalho cotidiano, intuição e necessidade, segundo o músico.

Saindo do Olodum, Neguinho fundou a Associação Educativa e Cultural Didá e segue dando continuidade às atividades de regência, arranjo e educação. Coordenando o grupo e a instituição, Neguinho focalizou o trabalho com música especificamente para mulheres e crianças. Aprofundando seu trabalho de criação, segue construindo instrumentos de percussão leves e adaptados ao corpo e força feminina. A Banda Didá profissional realiza

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Neguinho do Samba atualmente coordena a Escola e Banda Didá. Em entrevista concedida no dia 06 de julho de 2006.

shows na Praça Tereza Batista, e as meninas em formação fazem ensaios às terças-feiras, em frente à sede.

Neguinho gerencia a escola Didá com recursos vindos, sobretudo de estrangeiros – “dou aulas, faço apresentações, fabrico e vendo instrumentos para os gringos”. Afirma não ter parceria com o governo do estado ou da prefeitura, com exceção do carnaval. No entanto, mesmo para esta festa, diz receber apenas o valor de R$ 40 mil, sendo que são gastos mais de R$ 160 mil. Para o carnaval não são cobrados preços para fantasias, pois assim não precisa pagar imposto, então para sair no Bloco afro Didá se pede dois quilos de alimentos e material de limpeza apenas, que são doados em sua maioria.

Neguinho do Samba, que se chama Antonio Luis Alves de Souza, morador do Centro Histórico até hoje, diz ter se interessado por música vendo o pai: “Eu não podia pegar no bangô que meio pai tocava em uma orquestra, então furava as bacias de minha mãe, levava na marcenaria, colocava fundo de madeira e começava a bater”. 28

4- Gerônimo

Só uma pessoa hoje faz um excelente trabalho. O Gerônimo. Apresenta-se todas as terças feiras na escadaria da Igreja do Passo. Faz um excelente trabalho musical, convida os melhores músicos e gente nova. Começou com meia dúzia de gatos pingados assistindo e hoje consegue preencher toda a escadaria, sem auxilio da imprensa, mas pela qualidade do trabalho. 29

O show “O Pagador de Promessa” é organizado por Gerônimo desde 2002. Neste encontro musical, o artista toca suas composições e abre espaço para outros artistas se apresentarem. Atualmente este está sendo o principal projeto do músico que não conta, segundo o mesmo, com patrocínio ou apoio.

Em entrevista30 Gerônimo afirma que sua vida artística começou no Pelourinho. Além de ter morado no Centro Histórico, em 1979 e depois entre 1981 a 1985, sua música “Eu sou negão” torna-se, em 1987, um manifesto afro dos “guetos” como Pelô e Liberdade. Neste período Caetano também cantava “Eu sou neguinha?”. Segundo Gerônimo, “o que estava em jogo naquele momento era a luta pelo respeito às manifestações negras. E a gente não queria isso só no carnaval não” (apud GUERREIRO, 1997, p. 97)

Gerônimo Santana Duarte foi músico do trio elétrico Dodô e Osmar, na década de 1970, tocou e saiu no Afoxé Filhos de Gandhi durante alguns anos e, assim como muitos artistas baianos nos anos 1980, também misturou a musica caribenha com o ijexá do candomblé em suas composições.

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Neguinho do Samba atualmente coordena a Escola e Banda Didá. Em entrevista concedida no dia 06 de julho de 2006.

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Dimitri é morador, dono de uma galeria e diretor da ONG Associação Cultural Viva Salvador no Pelourinho. Entrevista concedida a Carlota Gottschal e Mariely Santana, dia 05 de agosto de 2005.

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Gerônimo, músico, realizador do Show o Pagador de Promessas e proprietário do espaço Casa de Gerônimo no Pelourinho, em entrevista no dia 23 de maio de 2006.

Segundo Gerônimo, a movimentação cultural no Pelourinho não tinha tanta força como tem hoje, as manifestações culturais eram espontâneas. Foi com os ensaios dos blocos afros que se começou a organizar uma agenda cultural do Pelourinho, atraindo uma população que antes não freqüentava a área. No entanto, indica que sua iniciativa é uma das poucas feita sem a intervenção do projeto Pelourinho Dia & Noite, diminuindo a diversidade musical do Centro Histórico.

O músico é ainda proprietário de um imóvel na Ladeira do Carmo, a Casa de Gerônimo, que funciona como empresa de produção e de acervo sobre a trajetória do artista.

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