4 A MODERNIDADE RODRIGUIANA
4.2 NELSON RODRIGUES E O BRASIL
4.2.2 Nelson Rodrigues Entre Outros
Para enfatizar a relação da obra rodriguiana com a de outros autores que também tratam da loucura, parto da influência da tese de doutorado da pesquisadora Luzia de Maria, Sortilégios do avesso – Razão e loucura na literatura brasileira (2005), publicada
pela coleção Ensaios Transversais, em que se traça o estudo da obra de diversos ficcionistas brasileiros que tocaram no tema da loucura, como, por exemplo, Álvares de Azevedo, Machado de Assis, Lima Barreto, Guimarães Rosa e Autran Dourado. Por só tratar de narrativas, o teatro de Nelson Rodrigues não tinha como entrar na lista da pesquisadora. Então, comentarei essa espécie de história da loucura na literatura brasileira — sugerindo, consequentemente, a inclusão de Nelson Rodrigues nela. E, ao final, tecerei considerações sobre engajamento e escrita da loucura.
Após um capítulo inicial em que demonstra que a loucura recebeu olhares diversos no decorrer da história, de doença sagrada a promotora de profecias, de profana a divertida, de líder do gênio a face contraposta da razão, Luzia de Maria entra na literatura brasileira, no encalço da loucura, e encontra seu primeiro alvo: o Romantismo. Analisando a obra de Álvares de Azevedo, dá com a loucura “que nasce das noites de insônia, em que o poeta delira de amor, febril de com a mente embebida na melancolia” (2005, p. 85). Sem personagens loucos de fato, a loucura ali presente advém como metáfora de estados emocionais outros, típicos dos requintes românticos: o sofrimento, a dor, a exaltação da morte, a desilusão, a tristeza.
Em seguida, Luzia de Maria aponta, em autores como Coelho Neto e Machado de Assis, o aparecimento, em meio à ficção, das novas tendências de entendimento da loucura, que vão desde flertes com o sobrenatural e a magia até o discurso psiquiátrico em voga no século XIX, tendo, porém, no caso de Machado, uma sátira ao poder que se havia instituído no cientificismo e nas inquestionáveis teses médicas.
Ainda volta um pouco no tempo e assinala no romance O seminarista, de Bernardo Guimarães, uma virada: “em relação ao tratamento dado à loucura ele representa um momento em que dá entrada no texto literário brasileiro o louco enquanto doente” (2005, p. 176). Por fim, passando por textos dos autores Lima Barreto, Guimarães Rosa, Autran Dourado, Moacir Lopes e Renato Pompeu, Luzia de Maria interliga a representação da loucura na literatura brasileira com a necessidade de denúncia das variadas formas de violência captadas na sociedade: “porque a figura do louco traz decalcada na fronte o horror da agressão, as marcas da violência que sobre ela os tempos foram registrando, torna-se assim o personagem ideal para se fazer a denúncia do desrespeito e do ultraje humano” (2005, p. 306). Também é admissível inserir Nelson Rodrigues nesse meio, já que, ao representar a loucura ou as várias manifestações do desvario em seus personagens,
traz em paralelo sinais de violência e leviandade humanas. Há denúncias, para ilustrar, em Pedro e Lúcia, em Jonas e Senhorinha, em Ismael, em Olegário, em Paulo e Dr. Junqueira. Podem-se distinguir três tipos de representação da loucura nesses escritores estudados pela pesquisadora Luzia de Maria. A primeira seria a idealizada, utilizando a loucura como metáfora para emoções outras que afloram no ser humano, como no caso dos textos mais sentimentalistas do Romantismo. A segunda, uma forma exógena, tomando a loucura em si mesma, de fora, vinculada a personagens ou narrador, como o exemplo citado de Bernardo Guimarães ou as narrativas de Machado de Assis e Guimarães Rosa. E a terceira, uma forma endógena, na qual a loucura aparece na figura histórica do escritor e este se dispõe a transfigurá-la em formato de ficção, como no caso de alguns escritos de Lima Barreto, que, além de também representar a loucura de fora em seus personagens (por exemplo, no Triste fim de Policarpo Quaresma), produziu textos como o Diário do hospício (2010), mescla de testemunho e ficção em que conta os acontecimentos passados no seu período internado num hospício. Nelson Rodrigues seguiria o segundo caso, com a loucura rondando os personagens do seu teatro e atuando como peça-chave na progressão das temáticas e das tramas.
Seguindo a linha que propõe Luzia de Maria, escrever sobre e junto com a loucura pode ser uma forma de engajamento. Sem dúvida, esse é um caminho para se apontar o dedo nas feridas da sociedade, agindo sobre ela. Seja utilizando a loucura como metáfora ou representando-a nas vias endógena ou exógena, há sempre uma insatisfação latente, um tom de crítica ou de desaprovação ao estado das coisas. Pode-se tomar o exemplo do Elogio da loucura, de Erasmo de Roterdã (2011). Ali a loucura toma voz, vira narradora de sua própria defesa, releva suas aparições na vida comezinha, expõe sua participação na ousadia e sabedoria humanas e, sorrateiramente, solta farpas a quem bem entende, sobretudo à Igreja Católica. Nelson Rodrigues também efetua ataques à Igreja, mas seu foco predileto é a família. O engajamento rodriguiano, perpassado pela loucura, explana a derrocada da instituição familiar.
O filósofo e escritor francês Jean Paul Sartre escreve a respeito do engajamento na literatura (tomando-a de modo geral, não apenas um conjunto de obras assumidamente politizadas): “O escritor ‘engajado’ sabe que a palavra é ação: sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão tencionando mudar. Ele abandonou o sonho impossível de fazer uma pintura imparcial da Sociedade e da condição humana” (SARTRE, 2004, p. 21 e 22). E imparcialidade é tudo o que não há no teatro de Nelson Rodrigues, mas, sim,
posicionamentos e representações fortes, exagerados, chocantes, sem meios-termos. Sua pintura da sociedade e da condição humana exibe contradições, preconceitos e hipocrisias tanto gerais quanto brasileiros, atingindo problemáticas cotidianas ou profundas crises existenciais.
Um comentário de Ruy Castro a respeito de um texto de Nelson poderia se expandir para toda a sua obra: “uma bem fundamentada argumentação de que a sociedade melhora quando você lhe expõe os podres” (CASTRO, 1992, p. 67). Com os podres à mostra, uma sociedade saberia em que pontos urge melhorar. Expor esses podres é uma forma de engajamento. Muitos podres foram expostos nas análises das peças no capítulo anterior: a cobiça, o adultério, o descontrole dos desejos, os poderes patriarcais, a misoginia, o preconceito racial, os jogos de dominação nas relações humanas, o ciúme, a inveja, a arbitrariedade científica, entre outros. E, em seu específico engajamento, Nelson se utiliza da loucura para apontar esse podres, ou expressões outras do desvario.
Ainda interessa pontuar que as manifestações artísticas do Modernismo, na maioria das vezes, inflam-se de engajamento — e que esse engajamento não seja considerado apenas o de veio social, como destaca o próprio Sartre. Não se sustentava uma arte pela arte, e sim produções que chegassem e tocassem o receptor e tencionassem a mudança. Nelson está ali, nesse meio, tanto se engajando em suas denúncias da sociedade e dos ser humano quanto buscando inovações estéticas pertinentes.