A continuidade do neoliberalismo no Brasil, apesar de ter-se dado sob um governo entendido como progressista, contribuiu para uma gradativa crise democrática. A euforia popular na eleição de um presidente de esquerda em 2002 foi sendo substituída por uma crescente desconfiança.
Embora houvesse uma alavancada da economia e uma crescente mobilidade social, ainda eram visíveis “contradições sociais e lacunas democráticas” (PINHEIRO-MACHADO, p. 31). A política monetária conduzida pelos governos Lula e Dilma, por exemplo, privilegiava o mercado financeiro e os bancos, distante da participação popular na tomada de decisões (TAVARES; BENEDITO, 2018).
O arcabouço institucional brasileiro mostrou-se bastante rígido, não permitindo espaços deliberativos em que o povo pudesse ser efetivamente ouvido e ter suas demandas atendidas (GONÇALVES NETO, 2018). Malgrado a existência de fóruns, conferências e outros eventos em que se promovessem discussões sobre políticas do governo, tais mecanismos somente representavam mais um instrumento institucional inócuo. Na prática, não havia uma democracia participativa, na qual os anseios das populações, principalmente as desfavorecidas, fossem atendidos (TAVARES; BENEDITO, 2018).
A construção de um Brasil democrático, que trouxe elites econômicas e políticas da ditadura militar, mostrou suas fragilidades. Ao longo do tempo, de acordo com Leonardo Avritzer, o Brasil continuou a ser caracterizado por ter
um sistema econômico permeado por privilégios políticos, um Judiciário impermeável à modernização democrática, uma estrutura de polícias militares que não permite a generalização de direitos civis, para não falar de forças armadas que, ao se retirarem do poder, trocaram a interferência direta na política pelo corporativismo e alguns projetos militares estratégicos sem transparência alguma (AVRITZER, 2019)50.
A prevalência internacional do neoliberalismo pôde associar-se ao interesse de elites locais no Brasil, tendo em vista que as instituições modernas da democracia liberal não se consolidaram plenamente no Brasil, conforme preleciona Gonçalves Neto. Os grupos com poderio econômico no país ainda mantinham uma tradição em que não se diferencia exatamente o público e o privado, o que contribui para a mescla entre os interesses pessoais e o interesse público. Diante disso, o alegado combate à corrupção, por exemplo, pôde servir de desculpa, em algumas ocasiões, para legitimar a tomada de decisões judiciais com o fim específico de favorecer determinado grupo (GONÇALVES NETO, 2018).
Nesse diapasão, segundo Leonardo Avritzer (2019), o Brasil não conseguiu alcançar plenamente, entre 1946 e 2018, uma ordem liberal democrática, vez que não logrou plasmar uma ordem em que os direitos civis tivessem uma estrutura razoavelmente vigente (AVRITZER, 2019). Assim, nos governos petistas, vivia-se sob um padrão liberal de democracia incompleto, em que se procurava conciliar os interesses dos variados setores da sociedade (FAUSTO, 2013).
Segundo Safatle (2017), a tentativa brasileira de reproduzir os Estados de Bem-Estar Social que existiram na Europa pós-segunda guerra falhou, sob instituições de base no paradigma liberal de democracia (SAFATLE, 2017). Esse fator pode ser observado a partir daquilo que foi discutido no capítulo 1: a democracia liberal abre caminho para o neoliberalismo; e o neoliberalismo, por sua vez, num movimento paradoxal, acaba corroendo as próprias bases da democracia liberal. Portanto, a manutenção do neoliberalismo no Brasil, ao longo dos anos, mesmo em governos considerados progressistas, contribuiu para a corrosão democrática e, consequentemente, para a crescente insatisfação.
Tendo tudo isso em vista, há a união entre o elitismo e a racionalidade neoliberal. Um dos exemplos dessa união ocorre no poder judiciário, em que se foi formando um ativismo judicial enviesado. A ausência de instituições e uma democracia consolidadas impossibilitam, assim, que as decisões judiciais estejam o mais próximo possível da imparcialidade (GONÇALVES NETO, 2018).
Verifica-se, sob o neoliberalismo, que o demos — o povo — acaba sendo reduzido ao eleitorado, enquanto há a primazia do mercado, peculiarmente dos investidores. O Estado, então, fica entre dois grupos principais: o povo e o mercado. De acordo com Tavares e Benedito, em um estudo baseado em autores como Wolfgang Streek e Wendy Brown, a população reivindica por serviços públicos, enquanto o mercado quer que o Estado garanta a continuidade de sua acumulação (TAVARES; BENEDITO, 2018), como foi o caso brasileiro sob o lulismo.
Percebe-se, dessa forma, que a frágil democracia brasileira sequer tinha logrado consolidar sua versão liberal. Ainda que incompleta, o paradigma de democracia liberal no Brasil já vinha sofrendo desgaste no primeiro mandato do governo Dilma Rousseff, o que ficou evidenciado a partir dos protestos de junho de 2013. Conforme verificado no capítulo 1, a degradação da vida promovida pelo neoliberalismo, sob suas variadas formas, contribuiu para a crescente insatisfação popular com o status quo democrático. No Brasil, em particular, os ganhos obtidos pelas classes populares contribuíram para que elas ficassem mais exigentes quanto a direitos e à demanda por democracia.
Tudo isso considerado, nota-se que a insatisfação era cultivada em diversos setores da sociedade. Estudantes, trabalhadores precarizados, jovens desempregados, professores, grupos conservadores, dentre outros, sentiam que a democracia vivida não era plenamente a desejada ou, simplesmente, estavam insatisfeitos com o estado das coisas. Viram nas ruas a oportunidade de serem ouvidos e de apresentarem seu descontentamento.
O capítulo 4 tratará, especificamente, de um dos principais resultados desse conjunto de fatores: a eclosão dos protestos de junho de 2013.
5 CAPÍTULO 4: JUNHO DE 2013, NEOLIBERALISMO E A CRISE DA DEMOCRACIA LIBERAL
5.1 Introdução
O presente capítulo não se propõe a estudar as consequências dos protestos de junho de 2013. Pretende-se, na verdade, abordar o desenrolar do movimento e sua correlação com o neoliberalismo progressista vigente à época no Brasil, bem como com a existência de uma crise da democracia liberal no Brasil. O marco temporal, dessa forma, limita-se aos acontecimentos de junho.
Para tanto, no primeiro tópico, serão estudados os antecedentes das manifestações. Parte-se das noções de “processualidade interna” e “processualidade externa” (ANTUNES, BRAGA, 2014), porquanto Junho resultou tanto de um contexto global quanto de um nacional ou local — tendo em conta que o contexto global foi analisado no capítulo 2.
Adiante, estudam-se interpretações sobre o desenrolar do movimento, bem como os principais atores e demandas dos protestos, os quais foram modificando-se com o passar das jornadas.
Discute-se também sobre Junho de 2013 como uma reação ao neoliberalismo vigente no Brasil nos governos petistas, que representaram uma continuidade da lógica neoliberal que vinha sendo instituída no Brasil principalmente desde os anos 90 — conforme discutido no capítulo 3. Por fim, analisa-se a relação dos protestos e da lógica neoliberal com uma possível crise do paradigma liberal de democracia.